2 de junho de 2018

Capítulo trinta e dois

Evangeline

FAZ PELO MENOS DUAS SEMANAS que Barrow partiu, uma semana desde que meu noivo foi coroado, e alguns dias que não vejo Elane. Ainda consigo senti-la, sua pele clara e macia e fria sob meus dedos. Mas ela está distante, muito além do meu alcance. Mandada de volta a Ridge, para longe do perigo.
Cal teria deixado que eu a mantivesse aqui, se meu pai permitisse. Apesar de tudo, estamos nos entendendo. Engraçado, eu sonhava com esse tipo de coisa. Um rei que me deixasse sozinha com a minha coroa. Ainda é o melhor que posso desejar, mas mesmo assim é uma prisão. Confina a nós dois, nos isolando de quem amamos. Ele não pode trazer Mare de volta, e eu não posso trazer Elane de volta. Não com as rainhas de Lakeland no horizonte e uma invasão iminente. Não vou colocar a vida dela em risco por alguns dias de prazer.
Meus novos aposentos no Palácio de Whitefire são destinados à rainha, e ainda ecoam a presença de Iris Cygnet. Tudo é azul, azul, azul, desde as cortinas e os carpetes felpudos até as flores murchando numa quantidade absurda de vasos de cristal. Com menos criados, o processo de esvaziar os aposentos é lento. Acabo arrancando a maioria das cortinas eu mesma. Ainda estão na sala de visitas dos meus aposentos, acumulando pó numa pilha de seda azul-cobalto.
A sacada comprida que dá para o rio é o único descanso que tenho dela, a princesa distante que vai voltar para nos matar. Mesmo aqui, com o rosto ao sol, não consigo tirá-la completamente da cabeça. O rio Capital corre lá embaixo, dividindo a cidade de Archeon em duas em seu caminho sinuoso para o mar. Tento ignorar a água, calma como está. Me concentro em trançar o cabelo, puxando os fios prateados para trás do rosto. É uma boa distração. Quanto mais apertadas as tranças, mais severa e determinada me sinto.
Planejo treinar um pouco esta manhã, repassar os movimentos. Correr na pista do quartel, lutar com Ptolemus se ele quiser. Me pego desejando que Barrow estivesse aqui. Ela é um bom treino e um bom desafio. E é mais fácil lidar com ela do que com a minha mãe.
Fico surpresa por ela ainda não ter entrado, como anda fazendo. Tentando me incentivar a atividades mais dignas de uma rainha, como diz. Mas não tenho ânimo para encantar ou intimidar nobres hoje, muito menos a pedido dela. Meus pais querem que eu influencie mais prateados, conquiste a lealdade que juraram a Cal. Afaste aliados dele, como se salvasse ratos de um navio naufragando.
Ambos querem que eu seja para ele o mesmo tipo de rainha que Iris foi para Maven. Uma serpente na sua cama, uma loba ao seu lado. Reunindo forças e esperando a oportunidade de atacar. Não amo Cal e nunca poderei amar, mas isso me parece errado.
Mas se Anabel e Julian cumprirem seu plano…
Não faço ideia de quais vão ser as consequências para mim.
Suspensa numa ponte, encurralada no meio, com as duas extremidades em chamas.
A ponte.
Deixo a mão cair, com metade do cabelo por trançar, e estreito os olhos para a estrutura enorme que se estende sobre o rio. O outro lado de Archeon cintila sob o sol nascente, seus muitos prédios coroados de aço e estátuas de bronze de aves de rapina. Tudo parece normal. A cidade ainda está agitada, com meios de transporte e a população indo de um lado a outro. O trânsito nos três andares da ponte continua movimentado. Menos do que o habitual, mas era de imaginar.
São os suportes embaixo dela que me preocupam, e a água passando em volta. Ainda constante, movendo-se na mesma velocidade. Mas a corrente, o ruído no quebra-mar…
O rio está indo no sentido errado.
E está enchendo.
Saio em disparada pelo quarto e pelos cômodos contíguos, sem ver nada até chegar aos aposentos de Ptolemus. A porta se destrava facilmente, voando para trás nas dobradiças torcidas enquanto passo correndo. Mal me ouço gritar seu nome.
O zumbido na minha cabeça é alto demais, oprimindo tudo exceto a corrente fria e ácida de adrenalina.
Meu irmão sai cambaleante da sala de estar e vem na minha direção, seminu. Entrevejo os lençóis desarrumados pela porta atrás dele, bem como um braço negro. Ele se move, saindo do meu campo de visão enquanto Wren Skonos tenta se vestir.
— O que foi? — Ptolemus pergunta, os olhos arregalados de pânico.
Quero fugir; quero gritar; quero lutar.
— Estamos sendo invadidos.
— Como conseguiram fazer isso? Mover o exército sem que a gente percebesse?
Ptolemus vem no meu encalço, mal conseguindo acompanhar o ritmo enquanto atravessamos os corredores do palácio. Galerias, salas de reunião, antessalas e até salões de baile passam turvos pela minha visão periférica. Em poucas horas, tudo pode estar destruído. Incendiado, inundado ou simplesmente eliminado. Por um momento, vejo o cadáver do meu irmão, quebrado e caído sobre o piso de mármore intrincado, seu sangue como um espelho. Pisco para afastar o pensamento. Bile sobe pela minha garganta.
Olho para ele — vivo e respirando, imponente em sua armadura — ao menos para me convencer de que ainda está aqui. Wren vem atrás, seu uniforme de curandeira claramente distinto. Espero que continuem juntos nas próximas horas. Eu a prenderia a meu irmão se pudesse.
— Tínhamos observadores nas cidadelas — murmuro, falando para me manter focada. — Sabíamos que os exércitos de Lakeland estavam se reunindo, mas não quando iam atacar.
A voz de Wren é lenta e firme, mas não reconfortante.
— Eles devem ter ido para o norte. Se movido por terra.
— Sem a Guarda Escarlate, não temos muitos olhos em Lakeland — Ptolemus pragueja quando viramos numa esquina, em direção à sala do trono.
Nossos pais não nos encontraram ainda, e isso só pode significar que estão com o rei e seus conselheiros. Eles já devem saber.
Os guardas Lerolan abrem passagem para nós, empurrando as portas altas e envernizadas com suas mãos letais. Passamos marchando juntos, os três mantendo uma formação cerrada para o caso improvável de que os soldados de Lakeland já tenham se infiltrado na cidade. Minha habilidade zune, ampliada para detectar qualquer bala disparada ao longe. Conto os cartuchos nas armas dos guardas enquanto cruzamos o piso.
Na plataforma elevada em que ficam o trono de Cal e os assentos de seu tio e sua avó, estão reunidos os nobres. Minha mãe e meu pai também, ele de armadura como sempre. A luz do sol reflete a cada movimento minúsculo, e quase me cega olhar para ele. Minha mãe está mais contida, sem armadura, mas não sem armas. Larentia Viper abandonou sua querida pantera por enquanto, apesar da proeza da fera como caçadora. Em vez disso, tem dois lobos peludos sentados aos seus pés, cujos olhos, ouvidos e focinhos se contorcem. Ambos são assustadores, mas sabem farejar e lutar. Ninguém vai pegar minha mãe de surpresa com eles às suas ordens.
Julian Jacos e a rainha Anabel cercam Cal. Ela está mais preparada para a batalha do que o tio cantor, o corpo pequeno e rechonchudo enfiado num uniforme laranja-vivo, esculpido pela armadura corporal justa. Não tem nada nas mãos, nem mesmo sua aliança de casamento. Julian não está tão protegido. Seus olhos continuam envoltos por sombras escuras, sugerindo uma noite sem sono. Ele se mantém a poucos centímetros do sobrinho. Não sei quem está protegendo quem.
O rei de Norta tem uma armadura vermelha e dourada polida, uma pistola num lado do quadril e uma espada cintilante afivelada no outro. Nem manto nem capa descem por seus ombros. Só atrapalhariam. Cal mal é um homem, mas parece ter envelhecido da noite para o dia. E não pela batalha iminente. Ele está acostumado à guerra e ao derramamento de sangue. Algo diferente pesa em seu peito, algo de que nem uma invasão consegue distraí-lo. Ele ergue o rosto obscurecido, observando enquanto me aproximo.
— Quanto tempo temos? — pergunto alto, sem me importar com formalidades.
Cal responde rápido.
— A frota aérea está a caminho — ele diz, lançando o olhar para o sul. — Tem uma tempestade no mar, se movendo rápido demais. Posso apostar que tem uma armada de Lakeland dentro dela.
É uma tática que nós mesmos usamos em Harbor Bay, mas em números muito menores e com muito menos força. Estremeço só de pensar em como seria um ataque de ninfoides liderado pela própria rainha de Lakeland. Eu me vejo envolta por meu aço, afundando rapidamente na água escura, sem nunca voltar à superfície.
Tento não deixar o medo transparecer em minha voz.
— O objetivo deles? — É a melhor maneira de lutar e revidar: identificar o que seu oponente está tentando fazer e avaliar o modo mais adequado de impedi-lo.
Atrás de Cal, seu tio se remexe, tenso. Ele baixa os olhos, tocando o ombro do sobrinho.
— Você, meu rapaz. Se chegarem até o rei, tudo estará terminado antes mesmo de começar.
Meu pai permanece em silêncio, considerando os resultados. O que significará para ele se Cal for capturado ou morto. Ainda não somos casados. O reino de Rift não está irreversivelmente ligado a Norta, assim como não estava ligado a Maven. A última vez que forças inimigas atacaram Archeon, a Casa Samos estava preparada, e nós fugimos. Vamos fazer o mesmo?
Ranjo os dentes, já sentindo uma dor de cabeça se formar além de todo o resto.
— O trem de fuga de Maven ainda está funcionando — Julian continua. Em resposta, Cal se afasta suavemente da mão dele. — Podemos tirá-lo da cidade pelo menos.
O jovem rei empalidece. A sugestão o repugna.
— E entregar a capital?
Julian responde rápido:
— É claro que não. Vamos defendê-la, mas você estará fora de perigo, longe do alcance deles.
A réplica de Cal é igualmente rápida e duas vezes mais decidida. Além de previsível.
— Não vou fugir.
Seu tio não parece surpreso. Ainda assim, insiste. Em vão.
— Cal…
— Não vou deixar os outros lutarem enquanto me escondo.
A velha rainha é mais vigorosa, pegando o neto pelo punho. A briguinha em família me irrita, mas não tenho muito o que fazer. Mesmo se corremos contra o tempo.
— Você não é mais um príncipe nem um general — Anabel suplica. — É o rei, e seu bem-estar é fundamental para…
Assim como fez com o tio, Cal se livra dela com delicadeza, soltando o braço. Seus olhos se inflamam e queimam.
— Se eu abandonar esta cidade, abandono qualquer esperança de continuar sendo rei. Não deixem o medo cegá-los quanto a isso.
Cansada dessa bobagem, estalo a língua e digo o óbvio, ao menos para poupar um tempo precioso.
— As Grandes Casas restantes nunca vão jurar lealdade a um rei que fugir. — Ergo a cabeça, usando todo o meu treinamento na corte para projetar a imagem de força de que preciso. — E as que juraram jamais vão respeitá-lo.
— Obrigado — Cal diz devagar.
Aponto para as janelas, na direção dos rochedos.
— O rio mudou de curso, e está enchendo. Já está alto o bastante para permitir que os maiores navios deles cheguem até aqui.
Cal assente, grato por voltar ao assunto. Ele se ajeita, distanciando-se de seus parentes. Vindo até meu lado.
— Eles pretendem dividir a cidade em duas — o rei diz, olhando entre meu pai ainda em silêncio e sua avó. — Já dei ordens para igualar os guardas nos dois lados da cidade e complementar com os soldados ainda a nosso serviço.
Ptolemus franze o nariz.
— Não seria melhor concentrar nossas forças, fortificar a praça e o palácio? Nos manter unidos?
Meu irmão é um guerreiro tanto como Cal, mas não um estrategista. Ele é mera força bruta. O rei é rápido em apontar seu erro.
— As rainhas Cygnet vão identificar o lado mais fraco — ele diz. — Se ambos estiverem equilibrados, não saberão por onde atacar. Podemos imobilizar suas forças no rio.
— Concentrem a frota aérea sobre a cidade. — Não é uma sugestão, mas uma ordem. Ninguém a critica. Apesar do perigo iminente, sinto um rompante de orgulho. — Usem as armas contra os navios. Se conseguirmos afundar um, vamos diminuir o ritmo deles. — Um sorriso sinistro se abre em meus lábios. — Nem os ninfoides conseguem manter um navio esburacado flutuando.
Não há alegria em Tiberias Calore quando ele fala em seguida; seus olhos brilham com algum tormento interno.
— Transformem o rio em um cemitério.
Um cemitério para ambos os tipos de sangue, prateado e vermelho. Soldados de Lakeland e de Piedmont. Inimigos. É o que todos eles são. Sem rostos, sem nomes. Enviados para nos matar. É uma equação fácil de equilibrar, com as pessoas que amo de um único lado. Ainda assim, meu estômago se revira, embora eu não vá admitir isso. Nem mesmo a Elane. De que cor estará o rio quando tudo acabar?
— Vamos estar em menor número em terra. — Cal começa a andar de um lado para o outro, suas palavras assumindo um tom maníaco. Ele está quase falando sozinho, tramando um plano de batalha diante de nossos olhos. — E o que quer que esteja na tempestade deles vai manter a maior parte da frota aérea ocupada.
Meu pai ainda não disse uma palavra.
— Eles terão soldados vermelhos entre os prateados — Julian diz, quase como quem pede desculpas. Meu estômago se revira novamente, e Cal também parece vacilar. Seus passos são hesitantes.
Anabel apenas zomba.
— É uma vantagem, ao menos. Eles são mais vulneráveis. E menos perigosos.
A fenda entre os conselheiros mais próximos de Cal se abre como um penhasco. Julian quase ri dela, perdendo a calma habitual.
— Não foi isso que eu quis dizer.
Mais vulneráveis. Menos perigosos. Anabel não está errada, mas não pelos motivos que pensa.
— Lakeland não melhorou seu tratamento aos vermelhos — explico. — Norta, sim.
O olhar seco da velha rainha é de uma beleza letal.
— E?
Falo devagar, como se estivesse explicando teoria de batalha a uma criança. É delicioso como a irrita.
— E daí que os vermelhos de Lakeland podem estar menos dispostos a lutar. Podem até querer se render a um país onde vão ter uma vida melhor.
Os olhos dela se estreitam.
— Como se pudéssemos confiar nisso.
Dou de ombros com um sorriso treinado.
— Foi o que fizeram em Harbor Bay. Vale a pena lembrar.
Os olhos arregalados dos prateados ao meu redor não são difíceis de interpretar. Até Ptolemus está perplexo com o que eu disse. Apenas Cal e Julian parecem abertos à ideia, suas expressões comedidas em meio à reflexão. Meu olhar se fixa em Cal, e ele me encara com firmeza, inclinando a cabeça com um leve aceno, quase invisível.
Ele lambe os lábios, entrando em mais uma rodada de planejamento.
— Não temos sanguenovos teleportadores, mas se conseguirmos colocar vocês dois — ele aponta para mim e Ptolemus — nos navios de guerra de novo e neutralizar as armas deles…
— Meus filhos não vão fazer isso.
A voz de Volo é baixa mas ressoante, quase vibrando no ar. Eu a sinto em meu peito e, de repente, sou uma criança de novo, me encolhendo diante de um pai autoritário. Disposta a fazer tudo para agradá-lo, para ganhar um raro sorriso ou qualquer demonstração de afeto, ainda que pequena.
Não, Evangeline. Não deixe que ele faça isso.
Meu punho se cerra ao lado do corpo, as unhas cravando na palma da mão. Isso me estabiliza de alguma forma. A dor aguda me faz voltar a mim e ao despenhadeiro que contemplamos.
Cal encara meu pai abertamente, os dois fixados em uma luta silenciosa. Minha mãe continua em silêncio, a mão pousada na cabeça de um dos lobos. Os olhos amarelos do animal encaram o jovem rei, sem nunca desviar.
Meus pais não pretendem lutar nem deixar que lutemos. Em Harbor Bay, estavam dispostos a nos mandar para o combate. A arriscar as nossas vidas. Pela vitória.
Eles acham que esta batalha já está perdida.
E vão fugir.
Meu pai volta a falar, quebrando o silêncio tenso.
— Meus soldados e guardas, meus primos sobreviventes da Casa Samos, são seus, Tiberias. Mas com meus herdeiros não vai apostar.
Cal range os dentes. Ele pousa as mãos na cintura, tamborilando os polegares.
— E quanto ao senhor, rei Volo? Também vai ficar de braços cruzados?
Pestanejo, pasma. Ele praticamente chamou o rei de Rift de covarde. Um calafrio percorre o lobo de minha mãe, refletindo a raiva dela.
Meu pai tem seus próprios planos já em andamento. Deve ter. Ou não deixaria essa farpa passar tão tranquilamente. Com um gesto, ignora a acusação.
— Não preciso provar minha lealdade com meu sangue — diz apenas, contra-atacando. — Vamos ficar aqui, defendendo a praça. Se Lakeland atacar o palácio, vão encontrar uma forte oposição.
Cal cerra o maxilar, rangendo os dentes. Um hábito que terá que quebrar se quiser manter o trono. Reis não devem ser tão fáceis de interpretar.
Seu tio surge ao seu lado, com o olhar ardente e fixo.
No meu pai.
Quase sorrindo, Julian abre a boca, os lábios se afastando para inspirar longa e ameaçadoramente. Espero que meu pai baixe os olhos. Rompa o contato visual. Tire a arma do cantor. Mas seria uma admissão de medo. Ele nunca faria isso, nem para proteger a própria mente.
É um impasse.
— Eu não aconselharia isso, Jacos — minha mãe murmura, e os lobos aos seus pés rosnam em resposta.
Julian apenas sorri. O fio cortante de tensão se parte.
— Não sei a que se refere, majestade — ele diz, a voz felizmente normal. Sem nenhuma melodia assombrosa, nenhuma aura de poder. — Mas, Cal, se eu conseguir chegar perto da rainha de Lakeland, posso ser útil — o cantor acrescenta baixo. Não como parte do espetáculo. Não é uma farsa para enviar uma mensagem. É uma proposta real.
Uma dor sincera perpassa o rosto do rei. Ele se vira, esquecendo meus pais.
— É quase suicídio, Julian — ele murmura. — Você nem conseguiria se aproximar dela.
O velho cantor apenas ergue uma sobrancelha.
— E se eu conseguir? Posso acabar com isso.
— Nada vai acabar. — Cal gesticula em sinal de recusa, e juro que ouço o ar arder. Seus olhos estão arregalados, desesperados, a máscara de decoro caindo. — Você não pode convencer Cenra e Iris a desistir desta guerra com seu canto. Mesmo se pudesse fazer as duas se afogarem ou ordenarem que todo o exército bata em retirada, haveria retorno. Outra Cygnet espera em Lakeland.
— Podemos ganhar um tempo valioso.
O tio não está errado, mas Cal se recusa a dar ouvidos.
— E perder uma pessoa valiosa.
Julian abaixa os olhos, dando um passo para trás.
— Muito bem.
— Isso é tudo muito tocante — não consigo deixar de murmurar. Meu irmão sente o mesmo. Fico surpresa por ele não revirar os olhos. — Mas sabemos o que vamos enfrentar lá?
Nossa mãe zomba em resposta. Assim como meu pai, ela pensa que a batalha já está perdida. E a cidade.
— Além da força total de Lakeland, legiões vermelhas com todos os prateados que conseguiram reunir, sem mencionar ninfoides poderosos com um rio à disposição?
— E talvez parte das forças de Norta também. — Bato o dedo no lábio. Não sou a única que pensa assim. Não devo ser. É óbvio demais. A julgar pela raiva nos rostos ao meu redor, os outros entendem o que estou dizendo, têm as mesmas desconfianças. — As Grandes Casas ausentes na sua coroação. Nenhuma veio jurar lealdade. Nenhuma respondeu aos seus comandos.
Cal engole em seco. Um tom prateado sobe por suas bochechas.
— Não enquanto Maven viver. Eles ainda se ajoelham a outro rei.
— Eles se ajoelharam a outra rainha — argumento.
Seu rosto se fecha, juntando as sobrancelhas escuras.
— Acha que Iris tem nobres de Norta ao seu lado?
— Acho que seria idiotice da parte dela não tentar. — Dou de ombros. — E Iris Cygnet é tudo menos idiota.
A implicação pesa sobre nós, densa como névoa, igualmente difícil de ignorar. Até meu pai parece perturbado pela possibilidade de mais uma divisão no reino de Norta, rachando uma terra que ele um dia pretende controlar.
Anabel se remexe, inquieta da cabeça aos pés. Ela passa a mão no cabelo firmemente puxado para trás, alisando o penteado já severo. Então murmura baixo:
— Nunca achei que isto fosse possível, mas sinto falta daqueles vermelhos imundos.
— É tarde demais para isso — Cal ruge, sua voz como um trovão de fúria.
Os lábios do meu pai se contorcem de leve. É o mais próximo que vai chegar de estremecer.
Planos foram preparados. Táticas e estratégias para defender a capital de uma invasão. Depois de um século de guerra contra Lakeland, seria idiotice pensar que não haveria. Mas, quaisquer que fossem os planos que os reis Calore tivessem à mão para combater os ninfoides Cygnet, dependiam de coisas que não existem mais. Um Exército de Norta com força total. Um país unido. Cidades de técnicos operando com capacidade máxima, produzindo eletricidade e munição. Cal não pode contar com nada disso.


Os quartéis e as instalações militares em volta da praça são os lugares mais seguros além dos cofres da Casa do Tesouro, mas não me agrada me enfiar embaixo da terra contando apenas com um trem caindo aos pedaços. Meus pais se refugiam no centro do Comando de Guerra, analisando os muitos relatórios que chegam da frota no ar. Desconfio que meu pai gosta de ficar nessa posição de poder, ainda mais enquanto Cal se prepara para liderar um batalhão para a luta.
Me sinto menos inclinada a ficar olhando para cópias impressas e filmagens granuladas, assistindo à batalha de longe. Prefiro confiar em meus próprios olhos. E não consigo ficar perto dos meus pais agora. De alguma forma o exército que se aproxima, os navios escondidos num horizonte nublado, tornam minhas escolhas muito claras.
Ptolemus está sentado ao meu lado, nos degraus do Comando de Guerra. Sua armadura ondula ligeiramente, ainda tomando forma sobre seus músculos. Tentando encontrar o ajuste perfeito. Ele inclina a cabeça na direção do céu, os olhos vagando sobre as nuvens cinza que se acumulam. Ficam mais densas a cada minuto que passa. Wren também está por perto, atrás dele, as mãos descobertas prontas para curar.
— Vai chover — ele diz, fungando. — A qualquer momento agora.
Wren olha adiante, na direção da ponte de Archeon, no extremo oposto dos portões da praça. Seus muitos arcos e suportes parecem apagados enquanto a névoa se aproxima e vai adentrando a cidade.
— Queria saber em que nível o rio está agora — ela murmura.
Amplio minha habilidade, tentando distinguir a armada que atravessa os quilômetros rapidamente. Mas seus navios ainda estão distantes. Ou eu estou distraída demais.
Meu pai vai fugir de novo. A Casa Samos vai fugir. Deixar que Norta caia, restando apenas Rift, uma ilha contra o violento mar Cygnet.
Mais cedo ou mais tarde, seremos invadidos também.
A rainha Cenra não tem nenhum filho homem. Ninguém a quem possam me vender. Volo Samos não tem mais barganhas a fazer. Terá que se render. E morrer nas mãos dela, provavelmente. Como aconteceu com Salin.
Se sobreviver a hoje.
Onde isso me deixa?
Se meu pai enfrentar uma derrota e meu noivo também?
Acho que isso me deixa… livre.
— Tolly, você me ama?
Tanto Wren como meu irmão se voltam para mim bruscamente. Ptolemus balbucia, seus lábios trêmulos de espanto.
— É claro — ele diz, quase rápido demais para ser compreendido. Suas sobrancelhas prateadas se franzem, e algo como raiva perpassa seu rosto. — Como pode perguntar uma coisa dessas?
Minha dúvida o ofende, o magoa. Eu sentiria o mesmo se fosse o contrário. Pego sua mão, apertando firme. Sentindo os ossos do membro que perdeu alguns meses atrás e foi substituído por um novo.
— Mandei Elane embora de Ridge. Quando você voltar para casa, ela não estará lá.
Seu cabelo vermelho, a brisa da montanha. Parece um sonho. Poderia ser real? Essa é minha chance?
— Eve, do que está falando? Onde…
— Não vou contar, para você não ter que mentir.
Devagar, eu me obrigo a ficar sobre as pernas estranhamente trêmulas. Como um bebê aprendendo a andar, dando seus primeiros passos. Meu corpo todo estremece, dos pés à cabeça.
Ptolemus levanta de um salto, se inclinando para olhar em meus olhos, a centímetros dos seus. Suas mãos estão firmes em meus ombros, mas não o suficiente para me manter imóvel caso eu decida me mover.
— Vou entrar. Preciso fazer uma pergunta a ele — murmuro. — Mas acho que já sei a resposta.
— Eve…
Olho nos olhos do meu irmão, iguais aos meus. Iguais aos de nosso pai. Eu pediria sua ajuda, mas dividi-lo dessa forma, pedir que escolha um lado? Amo Tolly e ele me ama, mas também ama nossos pais. É um herdeiro melhor do que eu.
— Não venha atrás de mim.
Ainda tremendo, eu o puxo num abraço esmagador. Ele retribui o gesto por reflexo, mas se atrapalha com as palavras, sem conseguir entender o que digo. Não olho para trás, ainda que possa ser a última vez que vejo o rosto do meu irmão. É difícil demais. Ele pode morrer hoje, amanhã ou no mês que vem, quando as rainhas Cygnet invadirem minha casa para nos tirar tudo. Quero lembrar de seu sorriso, não de sua expressão confusa.
O Comando de Guerra está uma bagunça. Oficiais prateados atravessam as passagens e câmaras avisando sobre acontecimentos e movimentos dos exércitos. Os barcos de Lakeland, os jatos de Piedmont. Tudo passa turvo por mim.
É fácil encontrar meus pais. Os lobos da minha mãe guardam a porta de uma das salas de comunicação, protegendo-a com seus olhos brilhantes e alertas. As feras se viram para mim em sintonia, nem hostis nem amigáveis enquanto passo.
As telas enchem a sala de estática, com o brilho crepitante da luz instável. Poucas ainda estão funcionando. Não é um bom sinal. A frota aérea deve estar dentro da tempestade. Se é que ainda existe.
Volo e Larentia se mantêm firmes, imagens espelhadas um do outro. A postura violentamente ereta, sem piscar enquanto analisam a situação catastrófica. Em uma das telas, o primeiro navio da armada toma forma, uma sombra enorme obscurecida pela névoa. Outros vão surgindo devagar. Pelo menos uma dezena, ou mais.
Já vi esta sala antes, mas nunca tão vazia. Uma equipe minúscula de oficiais prateados opera as telas e os rádios, tentando acompanhar o mar de informações. Mensageiros entram e saem, levando os itens mais recentes consigo. Para Cal, provavelmente, onde quer que esteja.
— Pai? — chamo, como uma criança.
Ele me dispensa como se eu fosse mesmo uma.
— Evangeline, agora não.
— O que vai acontecer quando voltarmos para casa?
Com desprezo, ele me olha por cima do ombro. Seu cabelo está mais curto que de costume, raspado rente ao crânio. Isso lhe dá uma aparência esquelética.
— Quando essa guerra for vencida — insisto. Deixo que ele repita a mentira, me sentindo mais tensa à espera de suas bobagens. Você vai ser uma rainha. A paz vai reinar. A vida vai voltar a ser como antes. Tudo mentira.
— O que vai acontecer comigo? — prossigo. — Que planos tem para mim? — pergunto, ainda no batente. Tenho que ser rápida. — Em quem vai me transformar depois?
Os dois sabem o que estou perguntando, mas nenhum deles pode responder. Não perto dos oficiais de Norta, ainda que sejam poucos. Devem manter a ilusão dessa aliança até o último segundo.
— Se vocês vão fugir, eu também vou — murmuro.
O rei de Rift cerra o punho, e o metal em toda a sala responde à altura. Algumas telas estalam, seus invólucros retorcidos pela fúria dele.
— Não vamos a lugar nenhum, Evangeline — meu pai mente.
Minha mãe tenta outra tática, se aproximando. Seus olhos escuros e amendoados se arregalam suplicantes. Imitando um filhote de cachorro ou de lobo. Ela põe a mão no meu rosto, sempre a imagem da mãe devota.
— Precisamos de você — ela sussurra. — Nossa família precisa de você, seu irmão…
Me afasto dela, indo na direção do corredor. Atraindo os dois comigo. Direita duas vezes, saída da frente, para a praça…
— Me deixem ir.
Meu pai passa pela minha mãe, quase a derrubando para poder se assomar diante de mim. A armadura de cromo brilha forte sob a luz fluorescente. Ele sabe o que estou dizendo, o que estou realmente pedindo.
— Não — ele sussurra, furioso. — Você é minha, Evangeline. Minha filha. Pertence a nós. Tem um dever para conosco.
Mais um passo para trás. À porta, os lobos se erguem.
— Não tenho, não.
Como uma sombra, um gigante, meu pai se move comigo, imitando meus passos.
— O que é você, senão uma Samos? — ele rosna. — Nada.
Eu sabia que essa seria sua resposta. A última ligação, já frágil e desgastada, se rompe. Contra minha vontade, lágrimas surgem no canto dos meus olhos. Não sei se chegam a cair. Não sinto nada além do ardor da raiva.
— Você não precisa mais de mim. Nem pelo poder nem pela ganância — jogo na cara dele. — E mesmo assim não vai me libertar.
Ele pisca e, por um breve segundo, sua raiva se dissipa. Quase funciona. Ele é meu pai, e não posso deixar de amá-lo. Ainda que me trate dessa forma. Ainda que queira usar esse amor para me manter confinada, prisioneira do meu próprio sangue.
Fui criada para valorizar a família acima de tudo. Lealdade aos seus.
E é isso que Elane é. Minha família, minha.
— Estou cansada de pedir permissão — sussurro, cerrando o punho.
As luzes no teto se soltam, caindo com força, um golpe súbito que pega meu pai de surpresa. Um fio de sangue prateado esguicha dos cortes em sua cabeça enquanto ele cambaleia, atordoado. Mas não morto. Nem mesmo incapacitado. Não tenho coragem para isso.
Nunca corri tão rápido, nunca em toda a minha vida, nem mesmo em batalha.
Porque nunca tive tanto medo.
Os lobos são mais rápidos que eu. Eles rosnam atrás de mim, tentando me derrubar. Eu os atinjo com o metal dos meus braços, transformando a armadura em facas. Um uiva, se lamuriando quando abro uma ferida rubi em sua barriga. O outro é mais forte, maior, e salta para me levar ao chão.
Tento desviar, mas acabo caindo de costas, e ele pula na minha garganta com força, quase cem quilos de puro músculo atingindo meu peito. Engasgo, sentindo o ar escapar dos pulmões.
Dentes envolvem meu pescoço, mas não mordem. Suas pontas encostam o suficiente para machucar. O suficiente para me manter imóvel.
No alto, ao meu redor, as luzes tremem em suas estruturas de metal e as dobradiças estremecem nas portas.
Não consigo me mover, mal consigo respirar.
Consegui correr dez metros.
— Não levante um dedo — minha mãe grita, entrando no meu campo de visão bastante limitado. O lobo em cima de mim estremece, os olhos amarelos cravados nos meus.
Meu pai treme ao lado dela, uma nuvem de tempestade furiosa. Ele está com uma mão na cabeça, estancando o sangue. Seus olhos são piores que os do lobo.
— Menina idiota — ele sussurra. — Depois de tudo o que fizemos por você. Tudo o que fizemos de você.
— Não fosse por um defeito… — minha mãe começa. Ela estala a língua para mim. Como se eu fosse um de seus animais de estimação, criados para seu uso pessoal. O que de fato sou. — Um defeito profundo e anormal…
Tento puxar o ar, segurar o choro. Meu estômago se revira e queima. Me deixe ir, quero implorar.
Mas ele nunca vai deixar. Não sabe como.
E talvez esse tenha sido o erro do pai dele, e do pai do pai dele.
Não sei por quê, mas penso em Mare Barrow. Em seus pais, mantendo-a perto, se despedindo quando partimos de Montfort. Eles não são ninguém, são insignificantes, sem grande beleza, intelecto ou poder. Eu os invejo tanto que sinto vontade de vomitar.
— Por favor — consigo falar.
O lobo se mantém firme.
Meu pai dá um passo mais para perto, seus dedos tingidos de prata líquida. Com um movimento rápido da mão, me suja com seu sangue. Com o que eu fiz.
— Vou arrastá-la de volta a Rift com minhas próprias mãos.
Não duvido.
Eu o encaro, com dificuldade para respirar, os dedos riscando o chão. Até minha armadura me trai, derretendo sob o comando dele. Me deixando sem proteção e sem armas. Vulnerável. Uma prisioneira, ainda e sempre.
Então meu pai sai voando para longe. Ele cai para trás, seu rosto franzido numa surpresa rara. Ele está sendo arrastado pelo cromo que cobre seu corpo. Bate contra a parede mais próxima, a cabeça estalando para trás. Minha mãe grita quando ele tomba à frente, os olhos revirando.
O lobo acima de mim tem um destino diferente.
Uma lâmina corta seu pescoço, e a cabeça sai voando para pousar a alguns metros com um baque repulsivo. Um jato de sangue escarlate fresco cobre meu rosto.
Não me retraio. Uma mão fria e familiar se fecha em volta do meu punho, me puxando.
— Você nos treinou bem demais — Ptolemus diz, me ajudando a levantar.
Corremos juntos. Quando olho para trás, minha mãe está debruçada sobre meu pai. Ele tenta se levantar, ainda vivo, mas o golpe o deixou cambaleando.
— Adeus, Evangeline — outro homem diz.
Julian Jacos sai de um corredor adjacente. Anabel está com ele, os dedos batendo uns nos outros. Ela nem me olha quando se aproxima, com as mãos erguidas.
Tanto poder letal em uma mulher tão pequena.
— Fuja, Larentia. — Sinto o impulso de cobrir os ouvidos, ainda que a voz melodiosa de Julian não seja dirigida a mim. O poder do canto tremula no ar, palpável e açucarado. — Esqueça seus filhos.
Os passos dela são rápidos e apressados, como um de seus ratos espiões.
— Larentia! — meu pai gorgoleja, mal conseguindo falar em seu torpor. Mas ele definitivamente consegue gritar.
Eu o deixo nas mãos de Anabel e Julian. Independente do destino que reservaram ao rei de Rift.
Lá fora, a névoa caiu completamente, cobrindo a praça com uma bruma espessa demais para ser natural. Vejo a silhueta de Wren esperando por nós, o contorno de sua forma esguia contra as outras sombras entrando em formação — as forças de Cal, talvez até uma legião inteira, a julgar pelos muitos vultos.
Ao nos ver, ela acena.
— Por aqui — Wren chama, antes de se voltar para a névoa e os soldados.
Sinto alguma coisa nos limites da minha percepção, forte o bastante para ser registrada mesmo de muito longe. Os navios de Lakeland. Só pode ser. No alto, invisíveis, jatos chispam de um lado para o outro. Em algum lugar, mísseis zunem e estouram, lançando rajadas de chama onde a armada deve estar. Me sinto presa pela névoa, cega. Só consigo focar em Wren e Ptolemus, ficando perto de suas silhuetas enquanto atravessamos as legiões que marcham sem sair do lugar. Alguns soldados nos encaram enquanto passamos, mas nenhum tenta nos impedir. Em pouco tempo, o Comando de Guerra desaparece ao longe, engolido pela névoa.
Viramos na praça, a caminho da Casa do Tesouro. Uma sensação estranha e familiar toma conta de mim quando me lembro do casamento de Maven. A praça se transformou em campo de batalha naquele dia também, e usamos seu trem para fugir. Nunca gostei daquela geringonça, mas qualquer desconforto parece insignificante. É a saída mais rápida. A mais segura. Vamos estar bem longe da cidade antes que a batalha termine.
E então…
Não tenho tempo nem energia para completar o pensamento.
A chuva vem depois da névoa, caindo com um silvo súbito. Fico encharcada em questão de segundos. O dilúvio deixa a praça escorregadia, nos obrigando a diminuir o passo para não correr o risco de quebrar o pé. Lá no rio, um estrondo soa como um tambor, rítmico e trêmulo, estremecendo o chão sob meus pés.
Os navios estão disparando contra a cidade, seus tiros violentos bombardeando tanto o lado leste como o oeste de Archeon.
Estendo a mão para Ptolemus, meus dedos escorregando em sua armadura molhada enquanto tento me apoiar nele de alguma forma. O resto de mim se prepara para o impacto inevitável quando o fogo de Lakeland chegar a essa parte da cidade.
Meus instintos não estão errados.
O primeiro míssil passa uivante por cima dos portões da praça, quase invisível enquanto faz um arco através da névoa. Não vejo onde ele pousa, mas, a julgar pela enorme explosão atrás de nós, diria que Whitefire acabou de sofrer um golpe direto. A força derruba alguns soldados e nos faz perder o equilíbrio. Eu e Ptolemus nos firmamos em nossas armaduras, e Tolly segura Wren antes que ela caia, abraçando-a firme.
— Continuem andando! — grito mais alto que o som agudo de outro disparo, este explodindo em algum lugar perto do Comando de Guerra.
Alguém mais grita, distribuindo ordens quase inaudíveis em meio ao estrondo. Um raio de chama acompanha sua voz, à frente da legião reunida. Qualquer que seja o discurso de incentivo que Cal tenha preparado, não adiantará muito agora.
Há barulho demais, chuva demais, e seus soldados estão distraídos demais pela armada que obstrui o rio. Mesmo assim, eles começam a marchar, avançando para seguir quaisquer que tenham sido suas ordens. Provavelmente para ladear os penhascos. Concentrar o ataque no rio lá embaixo.
Ficamos presos em meio à movimentação deles.
A legião avança como uma maré, nos levando junto. Tento empurrar os corpos uniformizados, procurando Ptolemus e Wren entre os rostos prateados. Ainda perto, mas a distância entre nós vai crescendo. Fico apalpando em busca do cobre do cinto do meu irmão, me apegando à sensação do metal.
— Saiam da frente — rosno, tentando abrir caminho pela multidão. Usando minha armadura para me impulsionar, usando Ptolemus como um farol. — Saiam da frente!
A explosão seguinte é mais próxima e certeira, caindo do céu como um martelo. Uma bomba, não um míssil. Menor, não guiada, mas ainda assim mortal. Mesmo separados, eu e Ptolemus erguemos as mãos ao mesmo tempo, lançando nossa habilidade com uma forte explosão de energia.
Alcanço a carcaça de aço, rangendo os dentes para conseguir deter o projétil em alta velocidade. Conseguimos e, grunhindo juntos, lançamos a bomba de volta para a névoa, espiralando para que, com sorte, exploda em meio à frota de Lakeland. Alguns telecs da legião de Cal fazem o mesmo, se unindo para retornar as bombas e os mísseis. Mas são muitos os tiros disparados pela névoa quase em cima de nós.
A frota aérea corre entre as nuvens, ainda cortando o céu, bombardeando a armada da melhor maneira que pode, com tudo o que pode. Não são os únicos jatos lá no alto. Lakeland também tem seus batalhões aéreos, assim como Piedmont, em menor número. Em meio ao estrondo dos navios e ao urro dos jatos, mal consigo ouvir meus próprios pensamentos. As armas de Norta só aumentam o ruído caótico. As torres de artilharia no alto cospem faíscas e ferro quente, se iluminando com disparos. Em geral ficam camufladas às paredes em volta da praça, ou como suportes para a ponte, mas não agora. Alguns telecs estão posicionados ali, usando suas habilidades para lançar explosivos com uma mira letal.
Esta cidade foi feita para sobreviver, e é exatamente o que está tentando fazer.
O vento fica mais forte, provavelmente graças aos dobra-ventos. A Casa Laris ainda é aliada de Cal, e seus membros usam sua habilidade com toda a força. Um vendaval uivante corre sobre a praça, vindo de algum lugar atrás de nós. Derruba alguns dos mísseis e bombas em seu trajeto, alguns caindo inofensivos enquanto outros espiralam névoa adentro. Estreito os olhos contra o vento forte, mantendo Ptolemus e Wren em vista, mas o furacão obriga os soldados a apertar suas fileiras, nos esmagando entre eles.
Rangendo os dentes, abro caminho com muito custo, passando por baixo de braços, me espremendo entre armas e troncos. Cada passo é um sofrimento, dificultado pelas rajadas de vento, pela chuva, pelo aperto. A multidão balança como o rio lá embaixo, agora coberto por vagalhões brancos.
Minhas mãos se fecham em volta do punho de Tolly, sua armadura fria contra meus dedos. Ele arfa, me puxando pelo último metro, até eu estar encolhida em segurança ao seu lado. Ele segura Wren com a mesma força, seus braços em volta de nossos ombros.
E agora?
Temos que chegar ao fim da multidão, mas as muralhas e os prédios da praça mantêm a legião cercada, nos afunilando na direção da ponte. Mesmo dessa distância, consigo ver Cal elevado sobre o resto, sua armadura vermelha como sangue contra a tempestade. Ele está ao lado dos portões abertos, em cima de uma torreta de pedra.
Como um alvo.
Um bom atirador poderia abatê-lo a mil metros se tentasse.
Ele corre esse risco pelo moral das tropas, gritando incentivos enquanto sobem na ponte. Mais bombas voam em sua direção, mas Cal as explode em pleno ar com um aceno de mão, antes que possam causar algum mal.
Na ponte em si, os soldados prateados desaparecem na névoa. Consigo adivinhar seu destino. Mesmo agora, os rufos regulares e assombrosos do arsenal da armada quebram seu ritmo. Tento não imaginar os soldados de Norta lutando nos conveses dos navios, enfrentando todo o poder das forças da rainha Cenra e do príncipe Bracken.
Se conseguirmos colocar vocês dois nos navios… A voz de Cal ecoa na minha cabeça.
Ranjo os dentes contra a onda de vergonha que me perpassa. Não vou entrar nesta batalha, não em mais um rio. Não com eles lá.
Esta é nossa chance, e temos de aproveitá-la.
— Continue empurrando! — grito, na esperança de que Tolly consiga me ouvir apesar do estrondo. A Casa do Tesouro ficou para trás, e a distância dela cresce a cada passo. É sufocante ser empurrada dessa forma, levada à frente contra minha vontade.
Não me restou muita armadura — meu pai me tirou a maior parte dela —, mas o pouco que tenho volta a se mover ao longo do meu braço, tomando a forma plana e circular de um escudo. Ptolemus me imita. Nós os usamos como aríetes, avançando contra a maré humana com nossa habilidade e nossa força. Funciona, devagar mas continuamente, criando espaço o bastante para nos movermos.
Até uma armadura vermelha bloquear nosso caminho, com uma bola de fogo pairando sobre a mão.
Cal nos encara, e espero acusações. Sua chama vacila contra a chuva, recusando-se a se entregar. Seus soldados formam um casulo protetor em volta dele. A água da chuva escorre por seu rosto, evaporando em sua pele exposta.
— Quantos está levando com você? — ele diz, quase sem voz.
Pisco para tirar a água dos olhos e apontar confusa para Wren e Ptolemus.
— Seu pai, Evangeline. Com quantos vai conseguir fugir? — Cal dá um passo à frente, sem nunca quebrar o contato visual. — Preciso saber com quem ainda conto.
Algo se abre em meu peito. Balanço a cabeça, devagar no começo, depois mais e mais rápido.
— Não tenho como saber — murmuro.
A expressão de Cal não muda, mas, por um momento, penso que a chama em sua mão queima um pouco mais forte. Mais uma vez, seu olhar se alterna entre mim e meu irmão, nos avaliando. Deixo que me cubra como a chuva e a névoa e a fumaça que sobe. Tiberias Calore não é mais meu futuro.
Sem dizer mais nada, o rei dá um passo para o lado, e seus soldados se movem com ele. Abrindo um caminho sobre os ladrilhos escorregadios da praça.
Enquanto passo, sinto um leve calor saindo de sua mão, próxima ao meu braço. É quase como se me abraçasse. Cal sempre foi um tipo excêntrico, diferente dos outros prateados. Estranho, com arestas suaves, enquanto o resto de nós foi criado como navalhas, com extremidades duras.
Aperto seu braço, apenas por um momento. Eu o puxo perto o bastante para um último sussurro, uma última farpa de Evangeline Samos antes de desaparecer.
Sem sua coroa, sem sua Casa, sem suas cores. Para se tornar uma pessoa inteiramente nova.
— Se não é tarde demais para mim, não é tarde demais para você.
Quando nos sentamos no trem e suas luzes se acendem e seu motor ganha vida, me pergunto onde os trilhos terminam.
Vai ser uma longa caminhada até Montfort.

4 comentários:

  1. Amei a atitude de Evangeline, lutando por sua felicidades protegendo as duas pessoas que mais ama: Ptolomeu e Elane.

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  2. Nn sei quantas vezes disse que amo essa nova Evangeline mas a cada capitulo meu amor só aumenta.
    ~Diane

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  3. Às vezes Cal se parece com Day... Sempre tão sentimental!!!

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  4. Evangeline é sensacional

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Boa leitura, E SEM SPOILER!