2 de junho de 2018

Capítulo trinta e cinco

Iris

— MAIS UMA PUXADA DA MARÉ E VAMOS poder desembarcar diretamente dos navios — minha mãe murmura, saindo da ponte de comando para o ar livre. A chuva cai com força, molhando seu rosto exposto. Eu a sigo de perto, assim como seus guardas. Sua armadura de placas pretas e azul-cobalto cobre até a garganta. Não estamos dispostas a correr nenhum risco. Uma bala perdida poderia atingi-la a qualquer momento e acabar com a invasão ao nosso redor.
— Tenha paciência, mãe — murmuro, quase colada nela. — Eles não vão conseguir nos conter por muito mais tempo.
Não há como falhar. Tiberias Calore enfraqueceu seu país com perfeição, traindo seu próprio povo e os vermelhos. Jogando fora qualquer chance que tivesse de manter o trono conquistado de seu irmão.
Archeon vai cair, e em breve.
Ergo os olhos para os penhascos dos dois lados do rio, ambas as beiradas cercadas de fumaça e névoa. Raios cortam o céu, estranhamente coloridos, e lembro do meu casamento. As aberrações vermelhas e os traidores do próprio sangue das montanhas atacaram a cidade naquele dia, ainda que com menos sucesso do que estamos tendo agora. As águas do rio vibram ao nosso redor, acariciando os cascos da armada. Eu as sinto intensamente, todas as ondas, até onde minha habilidade alcança.
A ponte destroçada de Archeon se projeta sobre nós, ainda desabando. Escombros caem inofensivos no rio. Ergo a mão para desviar um pedaço especialmente grande de concreto com uma onda crescente. Outro vem deslizando em seguida, caindo de um jeito estranho. Cintila, parecendo metálico, lançando-se na direção do convés do navio.
Meus dedos se movem no ar para erguer outra onda, mas minha mãe me pega pelo punho.
— Deixe cair — ela diz, os olhos cravados no vulto.
Só percebo que é um corpo quando tomba no convés alguns metros à nossa frente, os membros mutilados e o crânio partido como um melão, derramando sangue prateado pelo convés. A armadura espelhada se estilhaça como os ossos, que viram pó com o impacto. O cadáver destruído é de um homem alto e mais velho, a julgar pelos restos de barba sob o rosto enrugado. A capa preta cobre o resto do corpo. O tecido é embainhado de prata.
Cores que reconheço.
De repente, a batalha parece longínqua, distante como um sonho, e minha visão periférica fica enevoada. Tudo se reduz a esse homem, caído à nossa frente. Sem coroa. E agora sem nem mesmo um rosto.
— Esse é o fim de Volo Samos e do reino de Rift — minha mãe diz, avançando cuidadosamente até parar diante dos ossos quebrados. Ela empurra a capa dele com o pé e vira os restos destruídos do crânio sem vacilar.
Desvio o rosto, sem conseguir olhar. Meu estômago revira de repulsa.
— A troca da rainha Anabel está completa.
Ainda examinando o cadáver, minha mãe estala a língua. Seus olhos escuros perpassam o rei morto, deliciados.
— Ela pensa que isso vai salvar a cidade e o neto.
Me acalmo e forço o olhar de volta a Samos. Sangue não é algo novo para mim. Mais um cadáver não vai me assustar. Esse homem é o motivo pelo qual meu pai morreu, nosso país ficou sem rei e minha mãe perdeu o marido. Ele merece cada centímetro dessa morte. E que morte brutal encontrou.
— Mulher tola. — Me encho de raiva, voltando os pensamentos a Anabel Lerolan e sua fraca tentativa de impedir uma invasão. Você não vai conseguir. O preço já foi pago.
Satisfeita, minha mãe passa por cima do cadáver. Ela faz um sinal com a mão, e dois de nossos guardas começam o processo macabro de tirar Samos do convés. Sangue prateado escorre como tinta conforme o arrastam para longe.
— Somos todos tolos quando se trata das pessoas que amamos, minha querida — minha mãe diz alegremente, entrelaçando as mãos diante do corpo. Sem parar de andar, ela olha para um de seus tenentes. — Equilibre a concentração em ambos os lados da cidade, focando nas tropas reunidas.
O oficial responde com um aceno e volta para a ponte de comando, onde as ordens são transmitidas pela armada. Tanto os navios de Lakeland como os de Piedmont obedecem, suas armas disparando salvas de tiro. Explosões e fumaça crepitam ao longo das margens, cortando as rochas dos penhascos e as estruturas da cidade. Depois de um momento, nossos inimigos contra-atacam, mas fracamente. A maior parte das balas ricocheteia no aço ou mergulha na água.
Minha mãe observa com um sorriso sombrio.
— Vai ser fácil romper as linhas deles quando o rio estiver cheio o bastante. — Ela está pensando nos milhares de soldados embaixo dos conveses, esperando para saltar de nossos navios e derrotar quem quer que encontrem pela frente.
Um vento forte sopra, trazendo consigo o som dos jatos gritando lá no alto. Ranjo os dentes. A frota aérea de Norta é sua única vantagem, com a de Piedmont reduzida e a nossa quase nula em comparação. Tudo o que podemos fazer é mantê-la longe com a tempestade, usando nossos poucos jatos para distraí-los da armada. Parece estar funcionando, ao menos por enquanto.
Quanto aos soldados de Norta que Tiberias fez a estupidez de mandar para cá, as tripulações não estão tendo dificuldade para contê-los. Mesmo com forçadores e lépidos liderando o ataque, os muitos ninfoides da Casa Osanos usam o rio para lhes dar vantagem. Para nos dar vantagem.
Consigo ver o número deles diminuindo.
— Teleportadores — rosno, observando as aberrações de Montfort surgirem e desaparecerem. Eles pegam os últimos soldados de Norta e os levam de volta à segurança relativa dos penhascos da cidade. — Estão se retirando dos navios. — Viro para minha mãe, dividida entre orgulho e decepção. Os soldados de Norta nos temem o suficiente para fugir. — O que restou deles, pelo menos.
A rainha de Lakeland ergue a cabeça, majestosa e imperial.
— Batendo em retirada para fazer uma última resistência. Ótimo.
Sou tomada pela imagem de minha mãe atravessando com audácia a Praça de César, subindo os degraus do palácio que já foi minha suntuosa prisão, a fim de sentar no trono que os Calore finalmente perderam. Ela será uma imperadora ao fim de tudo isto? Senhora de tudo entre os lagos e o mar, desde a tundra congelada às fronteiras radioativas de Wash? Não se precipite, Iris. A batalha ainda não foi vencida.
Tento me concentrar. O odor forte de fumaça e do sangue de Samos é uma boa âncora. Inspiro com força, deixando o cheiro dominar meus sentidos. É engraçado: eu achava que essa raiva dentro de mim fosse diminuir e desaparecer com a morte do rei Samos. Mas ainda a sinto, no fundo do peito, corroendo meu coração. Meu pai está morto, e não há trono ou coroa que o traga de volta. Nenhuma vingança pode levar essa dor embora.
Inspiro fundo mais uma vez, me concentrando na água sob nós. Enviada por nossos deuses, ela carrega todas as bênçãos e maldições. Normalmente, a sensação me acalma. Estar tão perto de tanto poder me tranquiliza. Agora, porém, não sinto nenhum deus que eu reconheça.
Mas tem outra coisa.
— Está sentindo isso? — Viro para minha mãe. A armadura parece me apertar, ameaçando me sufocar. Todas as minhas terminações nervosas respondem com medo. O que é isso? O que é essa coisa na água?
Minha mãe me encara, notando meu mal-estar. Seus olhos ficam vítreos enquanto estende sua habilidade, procurando pelas ondas aquilo que me deixou tão nervosa. Observo, sem ar, esperando que me diga que não é nada. Minha imaginação. Confusão. Um engano.
Ela se inflama, estreitando os olhos. De repente parece que estacas de gelo caem sobre minha pele, e não gotas de chuva.
— Outra corrente? — ela murmura, estalando os dedos para um dos oficiais próximos. O traidor de Norta vem imediatamente, seu rosto retraído e pálido. Ainda parece pouco à vontade no uniforme azul de Lakeland. — Osanos — ela grita para ele —, seus ninfoides estão puxando outra corrente?
Ele balança a cabeça em negativa, curvando-se de forma considerável. Osanos e sua família estendida não são tão talentosos quanto nós, mas são formidáveis à sua própria maneira. Sem mencionar fundamentais para nossa campanha.
— Não sob minhas ordens, majestade.
Mordo o lábio, ainda pensando naquela coisa colossal que atravessa a água. Tento empurrá-la, mas é simplesmente grande demais.
— Uma baleia? — murmuro, sem acreditar na minha própria sugestão.
Minha mãe balança a cabeça, rangendo os dentes.
— É maior e mais pesado — ela diz. — E não é uma coisa só.
Atrás de nós, os oficiais do navio se atrapalham na ponte de comando, reagindo a dezenas de alarmes e luzes subitamente piscando. O som me atinge como facas.
— Preparem-se para impacto! — um deles grita, apontando para procurarmos abrigo.
Minha mãe me segura, seu braço deslizando pela minha cintura para me manter próxima. Observo horrorizada, sentindo as correntes abaixo de nós enquanto algo misterioso se move pela armada. Talvez armas mecânicas de guerra de que nunca ouvimos falar.
O primeiro impacto é bem no centro da nossa frota. Um encouraçado subitamente se inclina com um rangido de metal rompido. Uma explosão ocorre sob a linha da água, irrompendo num arco de espuma e estilhaços. Um navio de Piedmont pega fogo, seu armazém de pólvora obliterando metade da frente do casco. A rajada de calor parece uma queimadura, mas não consigo tirar os olhos, observando com um pavor horrorizado enquanto o navio afunda em menos de um minuto, afogando sabem os deuses quantos dentro dele.
Nosso navio-almirante estremece sob nós, retinindo quando algo bate contra o casco sob a superfície.
— Empurre, Iris, empurre — minha mãe ordena, me soltando para correr até a beira do navio. Ela se debruça com os braços estendidos, e as águas lá embaixo obedecem à sua vontade, correndo para trás em ondas.
Faço o mesmo, deixando minha habilidade tomar conta. Pressiono e empurro, tentando afastar o que quer que esteja batendo contra o navio. Mas é pesado demais, grande demais, e conta com seu próprio motor.
Estamos tão concentradas em proteger o navio-almirante que mal noto o resto da armada sofrendo à nossa volta. Sem ordens, alguns dos navios tentam dar meia-volta, navegando no rio espumoso em meio a cada vez mais cascos de aço que flutuam e afundam. Suor escorre pela minha testa, juntando-se à chuva forte, e sinto o gosto de sal nos meus lábios. Arde, me fazendo piscar e perder a concentração.
— Mãe — consigo dizer.
Ela não responde, suas mãos enfiadas na névoa, como se pudesse erguer o armamento para fora da água. Até rosna um pouco, o som perdido no vento uivante.
Há mais clarões, e outro raio azul cai. Não sou rápida o bastante para desviá-lo, e ele acerta o navio ao nosso lado, rasgando o convés com um chiado de água e carne. Soldados gritam, saltando para fora em uma tentativa de escapar do inferno reluzente da eletrocussão. São rapidamente tragados pelas águas revoltas.
— Mãe! — grito.
Ela pragueja entre os dentes.
— Aqueles malditos vermelhos têm barcos embaixo d’água. Barcos e armas.
— Não vamos conseguir detê-los, vamos?
Seus olhos cintilam, brilhantes mesmo contra a tempestade e a reviravolta súbita no nosso destino. Sem aviso, ela deixa as mãos caírem.
— Não sem grandes perdas. Talvez nem assim — ela murmura, como se atordoada.
Tento tirá-la do estupor.
— Precisamos subir para os penhascos, chegar à terra firme. Ainda podemos vencer as forças deles…
Atrás de nós, os guardas nos cercam, tensos e prontos para agir. À espera do comando da minha mãe.
Ela os ignora, me olhando fixamente.
— Podemos? — ela pergunta, sua voz estranhamente baixa e distante. Como se estivesse dormindo, e só agora acordasse.
Então acaricia minha bochecha, seu toque frio e molhado. Ela olha para trás de mim, se fixando no convés. Viro para seguir seu olhar, apenas para encontrar o que restou do sangue de Samos escurecendo sobre o aço. A última parte de nossa vingança. Nem a chuva consegue lavá-lo. Nem os deuses conseguem curar essa dor.
Me retraio quando outro navio sucumbe ao ataque, curvando-se rio adentro.
— Finalmente acabou? — penso em voz alta.
Seus dedos entrelaçam os meus.
— Nunca acaba de verdade — ela murmura, apertando minha mão. — Mas, por enquanto, vou me concentrar em tirar minha filha viva daqui.
Pela primeira vez hoje, olho para trás, rio abaixo. Em direção à retirada. Engulo em seco, estupefata pela reviravolta súbita na batalha. Dilacerada.
Mas só há uma opção entre a morte e a derrota.
— Vamos para casa.

10 comentários:

  1. Bem feito suas cobras

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    1. Né! Achei foi pouco elas terem perdido alguns soldados, preferiria que uma das duas tivesse morrido – ou então as duas, não iriam fazer um pingo de falta! Essas pragas

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  2. Eu consegui ver tantos tipos de opressão descritas nessa saga que às vezes nem dá pra acreditar que a autora conseguiu colocar tantas referências históricas na trama sem realmente nos dizer o que é o quê. Irir e a mãe representam bem as opressões que partiram de um cunho espiritual, os deuses mandaram que assim fosse e assim será - vermelhos servem e prateados reinam soberanos.

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  3. Eu acho é pouco, mas gostei da Iris

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  4. Iruuulll bem feito suas trouxas kkkkkkk

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  5. AAAAÁAAAAAAAA toma idiotas

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  6. Já sabia que não iam vencer.

    Aprendi em Game of Thrones que invasões/cercos por navios nunca dão certo. Vide Blackwater.

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  7. Pâmela Caistairs Harondale Fairchild Blackthorn28 de setembro de 2018 20:19

    Chupaáaaaaa íris cygnet perdeu troxa
    MDS o que vai acontecer cm c maven e a mare

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Boa leitura, E SEM SPOILER!