2 de junho de 2018

Capítulo treze


Iris

NUNCA ESTIVE TÃO AO SUL.
A base de Piedmont é tão úmida que me sinto capaz de transformar o próprio ar em arma. Meus braços nus se arrepiam com as gotículas, pequenas demais para ser vistas, dançando sobre minha pele. Me alongo um pouco, movendo os dedos em pequenos círculos, movimentando o calor excessivo que paira na sacada da base.
Nuvens carregadas deslizam no horizonte, deixando um rastro de sombras cinzentas de chuva sobre os pântanos. Raios caem uma ou duas vezes, o estrondo distante levando quatro ou cinco segundos para chegar até nós. A brisa leve cheira a incêndios abafados pela chuva passageira, e colunas de fumaça sobem perto do portão principal. Os soldados de Bracken marcharam através dos portões abertos antes de revirar todo o interior num misto de lépidos e forçadores, revelando assim com quem está seu apoio comprado. Com Maven. E comigo.
O rei de Norta espalma as mãos muito brancas no parapeito da sacada, inclinando-se sobre a beirada.
O chão não está longe. Só dois andares. Se eu o empurrasse da grade, ele sobreviveria, com alguns ossos quebrados. Maven aperta os olhos por causa da luz, a testa franzida sob a coroa simples de ferro e rubi. Sem manto. Está quente demais. Ele traja o uniforme preto de costume, desabotoado no pescoço, o tecido balançando com a brisa leve. Uma camada de suor reluz em seu pescoço. Não por causa do calor. Um rei de fogo se sente bem mais confortável nestas temperaturas do que qualquer outra pessoa. O suor tampouco vem do esforço. Ele não participou da invasão à base. Nem eu, embora tanto a minha nação como a dele tenham cedido soldados prateados à empreitada de Bracken. Esperamos até clarear, até a vitória estar garantida, para pôr os pés aqui.
Acho que Maven está nervoso. Com medo. E raiva.
Ela não estava aqui.
Observo-o em silêncio, à espera de que fale. Sua garganta se move, subindo e descendo. Ele aparenta uma estranha vulnerabilidade, apesar do nosso triunfo.
— Quantos escaparam? — Maven pergunta sem me encarar. Seus olhos continuam fixos na tempestade.
Contenho um acesso de irritação. Não sou uma tenentezinha, uma oficial subalterna que está ao lado dele para informar números. Mas digo o que quer saber com um sorriso rígido:
— Cem foram para os pântanos. — Passo a mão pelas flores que desabrocham nos vasos da sacada. A terra ao redor ainda está molhada por causa do temporal e de um jardineiro especialmente animado. Elas explodem em vários tons, prosperando neste clima. Brancas, amarelas, roxas, rosa e algumas de um azul reconfortante. O sol se firma no céu, e eu gostaria de estar de branco em vez de azul real. O linho ao menos é leve, fino o bastante para que eu possa sentir o vento na pele.
Maven arranca uma única flor índigo do vaso ao seu lado.
— E outros duzentos foram mortos.
Não é uma pergunta. Ele conhece bem o número de baixas.
— Estamos fazendo o máximo para identificá-los.
Ele dá de ombros.
— Use os prisioneiros. Talvez alguns façam esse trabalho para nós.
— Duvido. A Guarda Escarlate e Montfort são criaturas leais. Não farão nada para nos ajudar.
Com um suspiro longo e grave, Maven endireita o corpo e se afasta da sacada. Ele aperta os olhos quando outro lampejo de raio brilha, dessa vez mais próximo. O pouco de cor que ainda tem se esvai de seu rosto quando o som do trovão ecoa sobre nós. Será que está pensando na garota elétrica?
— Tenho alguns primos Merandus que podem cuidar disso.
Cerro os dentes.
— Você sabe o que acho dos murmuradores — digo, rápida e áspera demais. A mãe dele era uma murmuradora, lembro a mim mesma enquanto me preparo para a reprimenda.
Mas Maven permanece em silêncio. Coloca a flor sobre o parapeito, com as pétalas para cima, e passa a cutucar as unhas. Estão curtas, desgastadas pelos dentes e pela ansiedade. Eu imaginava que os reis eram obrigados a manter suas mãos bem cuidadas. Ou calejadas pelo treinamento e pelo combate, como devem ser as do seu irmão. Não arruinada por hábitos nervosos próprios das crianças.
— E imagino que também sei o que você acha — pego-me dizendo, ousada o bastante para baixar um dos meus muitos coringas na mesa.
De novo, ele não responde. Sei que tenho razão. Seja lá o que a mãe dele fez, seus murmúrios rastejantes deixaram muitas cicatrizes no cérebro dele. Maven não quer arriscar mais.
Percebo uma fenda na sua armadura, um buraco na muralha que sustenta. E se eu me esgueirasse por aí? E se eu pudesse ter parte dele nas mãos, como Mare Barrow tem? Será que conseguiria controlar as rédeas de um rei?
— Podemos excluí-los da corte, se quiser — murmuro devagar. Forço uma expressão mais tenra, mais carinhosa, e me aproximo dele. Posiciono o corpo de modo a deixar meu ombro em evidência, e meu vestido desce só um pouco, mostrando o tanto de pele necessário. — Ponha a culpa em mim. Nas superstições de Lakeland. Diga que é uma medida temporária para agradar sua nova esposa.
É como rodear um turbilhão tentando se manter à margem, ficar ao seu alcance sem se afogar.
Ele levanta o canto da boca. Seu perfil tem traços bem definidos, com nariz reto, fronte altiva e faces esculpidas.
— Você tem dezenove anos, não?
Pisco, confusa.
— E?
Sorrindo, ele se move mais rápido do que eu esperava e põe a mão no meu rosto. Estremeço quando seus dedos deslizam para trás da minha orelha, o polegar indo para baixo do meu queixo. O dedo afunda um pouco, pressionando a carne do meu pescoço. Sua pele se acende, esquentando, mas sem arder. Ele é uns dois ou três centímetros mais alto, de modo que sou obrigada a levantar levemente o rosto para encarar seus olhos de céu de tundra. Gélidos, implacáveis, infinitos.
Quem nos visse acharia que somos recém-casados apaixonados.
— Você já é boa nisso — ele diz, seu hálito estranhamente fresco soprando meu rosto. — Mas eu também.
Dou um passo para trás, com a intenção de me soltar, mas ele abre a mão sem que eu precise fazer força. Parece entretido, o que faz meu estômago revirar. Não dou qualquer indício do meu nojo. Emano apenas uma fria indiferença. Arqueio a sobrancelha e ajeito os fios pretos e reluzentes de cabelo. Tento evocar a natureza nobre e impávida da minha mãe.
— Me toque sem meu consentimento de novo e veremos por quanto tempo consegue prender a respiração.
Devagar, ele pega a flor de volta e a aperta com força. Uma a uma, as pétalas caem; Maven gira o pulso e seu bracelete produz centelhas. As pétalas queimam antes mesmo de atingir o chão, desaparecendo numa explosão de chamas vermelhas, cinzas e ameaças.
— Perdão, minha rainha — Maven diz, sorrindo. Mentindo. — O desgaste desta guerra acaba com meus nervos. Só espero que meu irmão caia em si, e que os traidores que o acompanham respondam perante a justiça, para que assim possamos ter paz nas nossas terras.
— Claro — digo, tão falsa quanto ele. Baixo a cabeça, ignorando qualquer vergonha que esse gesto possa me dar. — A paz é a meta que todos compartilhamos.
Depois que minha mãe se banquetear com seu país e arremessar seu trono no oceano. Depois de termos derramado todo o sangue do rei Samos e matado cada um dos responsáveis pela morte do meu pai. Depois de tomarmos sua coroa, Maven Calore, e afogarmos você e seu irmão.
— Majestade?
Ambos nos viramos para um dos sentinelas de Maven, com sua máscara preta cintilante, de pé à porta. Ele se curva, seus trajes um redemoinho de fogo. Não consigo imaginar quão escaldantes a armadura e o uniforme devem estar agora.
Maven gesticula, as mãos abertas. Sua voz é um balde de água fria.
— O que foi?
— Localizamos o que o senhor pediu.
Só enxergo os olhos do sentinela por baixo da máscara, brilhando sem medo.
— Tem certeza? — o rei cutuca as unhas de novo, fingindo desinteresse, o que só aumenta o meu.
O sentinela acena com a cabeça.
— Sim, majestade.
Com um sorriso cortante, Maven dá as costas para o parapeito.
— Se é assim, muito obrigado. Gostaria de ver agora.
— Sim, majestade — o sentinela repete, acenando outra vez com a cabeça.
— Iris, gostaria de me acompanhar? — Maven pergunta, estendendo a mão.
Seus dedos pairam a um centímetro do meu braço, para me provocar. Todo o meu instinto guerreiro me diz para recusar. Mas implicaria admitir abertamente meu medo de Maven Calore e lhe dar poder sobre mim, coisa que não posso permitir. E o que quer que ele esteja procurando na base de Piedmont pode ser importante para Lakeland. Uma arma, talvez. Ou informações secretas.
— Por que não? — digo, dando de ombros de maneira teatral.
Ignoro a mão dele e sigo o sentinela para fora da sacada. Meu vestido estala atrás de mim, com o decote nas costas baixo o bastante para mostrar os redemoinhos tatuados na minha pele.
A base tem um bom tamanho, embora seja metade das principais cidadelas onde estacionamos nossas frotas e exércitos em Lakeland. Parece que não vamos muito longe, pois os sentinelas de Maven não trazem um veículo. Bem que eu gostaria. Apesar das muitas árvores que pontilham as ruas, as áreas com sombra não são muito mais frescas do que as ruas queimadas pelo sol. Enquanto caminhamos, acompanhados por uma dúzia de sentinelas, passo a mão pelo pescoço. Gotas de água se formam nos meus dedos, escorrendo refrescantes pela minha coluna tatuada.
Maven segue o chefe dos sentinelas bem de perto, com as mãos enfiadas nos bolsos. Está ansioso. Quer muito isso que estamos prestes a ver.
Os sentinelas nos fazem virar numa rua de casas enfileiradas. A primeira impressão é alegre. Tijolos vermelhos e persianas pretas, calçadas pavimentadas, flores abertas, uma sequência de árvores podadas. Mas o vazio é desconcertante, como um bairro cujos moradores foram expulsos. Uma casa de bonecas sem bonecas. Seus moradores foram mortos ou capturados, ou fugiram para o fedor dos pântanos. Talvez tenham deixado algo de valor para trás.
— Estas são as casas dos oficiais — um sentinela explica. — Ou eram, antes da ocupação.
Arqueio a sobrancelha para ele.
— E depois?
— Foram usadas pelos inimigos. Ratos vermelhos, traidores do próprio sangue, aberrações sanguenovas — um dos sentinelas sibila por trás da máscara.
Maven para tão rápido que suas botas de couro deixam marcas na calçada. Ele vira para o guarda, com as mãos ainda ocultas. Apesar da altura imponente do sentinela, o rei não demonstra a menor perturbação. Ele o encara impassível.
— Como disse, sentinela Rhambos?
Forçador. Seria capaz de arrancar os braços de Maven se quisesse. Em vez disso, arregala os olhos por trás da máscara e revela pupilas castanhas úmidas e aterrorizadas.
— Nada de importante, majestade.
— Eu decido o que é importante — Maven rebate. — O que disse?
— Respondi à pergunta de sua majestade, a rainha. — Ele desvia o olhar para
mim, implorando por alguma ajuda que não posso lhe dar. Os sentinelas estão sob o comando exclusivo de Maven. — Disse a ela que os vermelhos moravam aqui durante a ocupação de Montfort. Além de prateados. E sanguenovos.
— Ratos. Traidores. Aberrações — Maven contrapõe, ainda sem qualquer inflexão ou emoção. Quase desejo uma explosão de ódio. O que ele faz agora é bem mais assustador. Um rei que não se pode decifrar, um rei vazio por dentro. — Essas foram suas palavras exatas, não?
— Foram, majestade.
Estalando o pescoço, Maven olha para outro sentinela.
— Sentinela Osanos, sabe explicar por que isso está errado?
A ninfoide de olhos azuis ao meu lado pigarreia, atônita por ter sido chamada. Ela tenta se recompor o mais rápido possível. E responder corretamente.
— Porque… — a mulher vacila, beliscando o uniforme. — Não sei dizer, senhor.
— Hummm — o ruminar grave e gutural vibra no ar úmido. — Ninguém?
Eu o desprezo.
Estalo a língua.
— Porque o sentinela Rhambos insultou Mare Barrow na sua presença.
De repente, me arrependo de ter desejado que Maven demonstrasse raiva em vez de nada. Os olhos dele ficam pretos, as pupilas inchando de fúria. A boca se abre um pouco, mostrando os dentes, embora eu esperasse presas. Os sentinelas ao redor ficam tensos. Me pergunto se tentariam conter Maven caso investisse contra mim. Acho que não. Sou responsabilidade deles também, mas o rei sempre vem em primeiro lugar. Ele sempre estará em primeiro lugar neste casamento.
— Minha esposa tem tanta imaginação — Maven desdenha, embora eu só tenha dito a verdade. Uma verdade feia. Sabia que ele era obcecado por ela, apaixonado de um jeito corrupto e vil, mas sua reação aponta para algo mais profundo. Uma fraqueza criada por outra pessoa. A mãe dele fez isso, por que motivo não consigo conceber. Cravou a dor, a agonia e a tortura de amar Mare bem no meio no coração e do cérebro de Maven.
Contra meus instintos, sinto uma minúscula pontada de pena por Maven Calore. Não foi ele quem fez a si próprio. Não inteiramente. Alguém o cortou em pedaços com perfeição e depois tornou a juntar sem cuidado nenhum.
A raiva dele passa como as nuvens de tempestade, deixando para trás a ameaça de trovões estrondosos. Os sentinelas relaxam. Maven dá de ombros e corre a mão pelo cabelo.
— Seu erro, sentinela Rhambos, está no desdém — ele diz, a voz voltando ao tom indiferente e pueril que ele usa para iludir as pessoas. Com passos ligeiros, Maven nos faz voltar a caminhar, embora os sentinelas pareçam manter distância. — Estamos em guerra, sim, e essas pessoas são inimigas. Mas ainda são pessoas. Muitos são meus súditos de direito, e portanto seus compatriotas. Quando conquistarmos a vitória, vamos lhes dar as boas-vindas ao reino de Norta. Com algumas exceções, claro — ele acrescenta, com um sorrisinho conspiratório.
A mentira sai tão fácil que sinto um calafrio, apesar do calor.
— Aqui, majestade — um dos guardas diz afinal, indicando uma das casas que à primeira vista parece igual às outras. Mas, ao examinar melhor, percebo que as flores estão mais bem cuidadas. Vibrantes, com pétalas vistosas e folhas verdejantes jorrando dos vasos na janela.
Maven olha intensamente para as janelas, como se examinasse um cadáver. Sobe os degraus até a porta vagaroso.
— Que aberração morava aqui? — ele pergunta finalmente.
A princípio, os sentinelas não respondem. Temem uma armadilha.
Só Osanos tem coragem suficiente para falar. Ela limpa a garganta e responde:
— Mare Barrow.
Maven faz que sim com a cabeça, detendo-se por um instante. Então ergue o pé e dá um chute perto da maçaneta, que faz a tranca abrir em meio a pedaços de madeira. Seus contornos parecem esvanecer conforme ele entra na casa.
Permaneço na calçada por um momento. Fique aqui. Os sentinelas hesitam ao meu lado, relutando em seguir seu rei. Mais do que ninguém, eu adoraria que algum assassino pulasse de um armário e cortasse a garganta de Maven, mas sei que isso destruiria qualquer chance de ganhar a guerra e manter Lakeland a salvo do irmão dele e dos seus animais de estimação de Rift.
— Andem — resmungo, subindo os degraus atrás do meu abominável marido. Os sentinelas me seguem, as armaduras tilintando.
Concentro-me no som ao entrar na penumbra da casa vazia. As paredes estão estranhamente nuas; Bracken mencionou que sua base e muitos dos seus tesouros pessoais foram espoliados. Objetos de valor foram vendidos em troca de recursos. Estremeço ao pensar na minha própria casa encarando abutres desse tipo. Nossos santuários e templos profanados para financiar uma guerra. Não enquanto eu estiver viva e respirando. Não enquanto minha mãe permanecer no trono.
Não me dou ao trabalho de entrar na pequena sala de jantar ou de revistar a cozinha. Os passos de Maven ecoam na escadaria e vou atrás, levando os sentinelas comigo. Se o rei quer ficar só, não diz.
Ele abre com força cada uma das portas do segundo andar, enfiando a cabeça nos diversos quartos, armários e banheiros. Uma ou duas vezes, rosna consigo mesmo, como um predador que deixa a presa escapar.
Na última porta, ele faz uma pausa, hesitante.
Maven a abre delicadamente, como se adentrasse um recinto sagrado.
Detenho-me um instante, deixando-o entrar primeiro.
É um quarto com duas pequenas camas e uma janela solitária. Sou a primeira a notar a estranheza. As cortinas estampadas estão recortadas; pedaços bem precisos foram removidos.
— A irmã — Maven murmura enquanto passa a mão pelo tecido. — A costureira.
À medida que a cortina corre por entre os dedos dele, pequenas faíscas saltam do seu punho. Elas pegam no pano e se espalham, devorando-o com velocidade e destreza. Os buracos ardentes se espalham como uma doença. A fumaça acre faz minhas narinas coçarem.
Maven faz o mesmo com o papel de parede, deixando-o queimar e descascar ao seu toque. Então encosta a mão flamejante no vidro das janelas, que se despedaça sob o calor enorme que emana, os cacos explodindo para fora, à luz do sol. O quarto parece pulsar e ferver, como o interior de uma panela borbulhante. Quero sair, mas preciso ver Maven. Tenho que saber quem ele é para derrotá-lo.
O rei ignora a primeira cama, de algum modo ciente de que não era dela. Ele senta na segunda, como se testasse sua firmeza. Alisa a colcha com as mãos, depois o travesseiro. Sentindo o lugar onde Mare costumava descansar a cabeça. Quase espero que se deite para sentir qualquer cheiro que tenha permanecido ali. Em vez disso, o fogo a consome. Penas e tecido. Estrado de madeira. Salta para a outra cama, engolindo-a.
— Deem-me um minuto, por favor — ele sussurra, quase inaudível sob o rugido da chama controlada.
Fazemos o que o rei manda, fugindo do calor brilhante.
Um minuto basta. Mal tínhamos voltado à rua quando ele emerge da porta, com um inferno saltando à vida atrás de si. Noto que estou suando de medo quando nos afastamos e a casa desmorona.
O que Maven vai queimar agora?
O ronco dos veículos ecoa pelo bunker. Os soldados devem ter voltado, e me pergunto se conseguiram localizar alguém nos pântanos. O ruído escapa pelas janelas altas recortadas nas paredes de concreto. O ambiente é fresco, parcialmente subterrâneo, dividido ao meio por um longo corredor que separa duas fileiras de celas. Pelas contas oficiais, temos quarenta e sete capturados aqui, dois ou três por cela. Todos de sangue vermelho, mas ainda assim sob vigilância pesada de guardas prateados. Algum deles pode ser um sanguenovo esperando silenciosamente uma chance de usar seus poderes e escapar. Os prateados de Montfort — os traidores do próprio sangue, como o sentinela os chamou — estão presos noutro lugar, contidos por silenciadores e pelos guardas mais poderosos.
Maven vai batendo casualmente a mão fechada em cada uma das barras conforme avançamos. Os prisioneiros se encolhem de medo ou se levantam desafiadores perante o rei de Norta. Estranhamente, ele parece relaxado aqui, cercado de celas. Como se não notasse os prisioneiros.
Faço o contrário. Vou contando cada um, para ver se os números batem com os oficiais. Para procurar qualquer lampejo de rebeldia ou determinação que possa se transformar em algum inconveniente. Gostaria de ser capaz de distinguir entre vermelhos e sanguenovos. Cada cela por que passamos me deixa tensa, já que uma cobra poderia estar à espreita.
No extremo do bunker, outro contingente de nobres prateados se aproxima em suas cores — amarelo, branco e roxo —, ostentando armaduras douradas e armas que serviriam melhor para decorar um salão de banquetes. O príncipe Bracken abre um sorriso largo, mas as crianças agarradas às suas mãos se escondem. Michael e Charlotta alternam entre enterrar o rosto nos trajes arroxeados do pai e olhar para os próprios pés com calçados dourados.
Sinto uma pontada de tristeza pelas crianças e pelo que sofreram nas mãos dos monstros de Montfort, e fico feliz ao ver que estão bem o bastante para acompanhar o pai. Quando escapamos das montanhas com elas, mal podiam falar, apesar do excelente trabalho daquele curandeiro perverso. Mas nenhum curandeiro é capaz de consertar mentes.
Quem dera pudessem, penso comigo mesma, lançando um olhar de esguelha para meu marido.
— Príncipe Bracken — Maven diz, inclinando a cabeça com todo o charme de que é capaz. Ele se abaixa ainda mais, para ficar à altura das crianças que se aproximam. — E Michael e Charlotta, os irmãos mais corajosos que já vi.
Michael esconde o rosto de novo, e Charlotta abre o menor dos sorrisos. O sorriso polido aprendido com algum professor de etiqueta, sem dúvida.
— Muito corajosos mesmo — acrescento, piscando para ambos.
Bracken para diante de nós, ainda sorridente, e seus guardas e acompanhantes fazem o mesmo. Percebo outro príncipe de Piedmont entre eles, identificado por uma coroa de esmeraldas, mas não sei dizer quem é.
— Majestades — Bracken começa, curvando-se o máximo que pode. Seus filhos, ainda segurando as mãos dele, fazem o mesmo com ensaiada elegância. Mesmo o tímido, trêmulo e pequeno Michael. — Não há palavras nem ouro suficientes no mundo para expressar minha gratidão, mas estejam certos de que ela é sua. — O olhar do príncipe desliza para mim, e eu o retribuo de queixo erguido. Salvei seus filhos com as próprias mãos. Isso não será esquecido. Bracken continua: — Assim como a autorização para usar minhas instalações militares e quaisquer recursos que Piedmont possa oferecer nesta guerra contra a própria natureza do nosso mundo.
Maven gesticula para Bracken se levantar.
— Você também tem minha gratidão por sua promessa. — O rei é todo teatro e pose. — Juntos, podemos terminar o que meu irmão começou.
Algo brilha nos olhos de Bracken. Humor, talvez. Será que enxerga a verdade por trás da mentira? Não foi Tiberias Calore quem começou a guerra. O pecado está nas mãos dos rebeldes vermelhos. Engulo em seco, com a garganta áspera de repente. A Guarda Escarlate começou em Lakeland, estimulada pelas medidas necessárias que meu próprio pai tomou. Ainda assim, se os pecadores são eles, fomos nós que permitimos que se espalhassem. Temos parte no pecado e na vergonha.
— E com Lakeland — Bracken acrescenta.
Outro lampejo de humor no príncipe. Sinto minhas bochechas corarem.
— Claro. Apoiamos Maven até o fim.
Com o menor auxílio que pudermos mandar. Com o mínimo de tropas, armas e fundos. Guardando o resto zelosamente para quando mais necessitarmos.
Minhas bochechas ardem com um calor flamejante quando os lábios de Maven roçam meu rosto num beijo casto mas simbólico.
— Formamos um belo casal, não? — ele diz, voltando-se para Bracken.
Seguro a vontade de cumprir minha promessa e afogá-lo até me dar por satisfeita.
— Muito — Bracken balbucia, correndo os olhos entre nós dois. — Infelizmente, não parecemos progredir muito. Pedi murmuradores e cantores das terras do príncipe Denniarde — ele gesticula para o nobre atrás de si, resplandecente com suas esmeraldas e seda verdíssima —, mas ainda não chegaram. Receio que é melhor não causar muito dano a qualquer prisioneiro antes de poderem ser interrogados de maneira adequada.
Viro o rosto para a cela mais próxima, na esperança de esconder meu nojo perante a chegada de murmuradores e cantores. Não devemos confiar em nenhum deles, mas seguro a língua.
O homem na cela retribui meu olhar, seus olhos acesos como carvão em brasa à parca luz da prisão. Sua pele é morena como a minha, embora tenha um fundo avermelhado, e o cabelo preto é cacheado, assim como sua barba aparada e oleosa. Ele usa um uniforme verde-escuro, cor de Montfort, com rasgos no peito e no alto do braço. Há fios soltos nesses pontos. De insígnias arrancadas, condecorações e medalhas puxadas. Aperto os olhos, e ele faz o mesmo.
— Qual é a sua patente, soldado? — pergunto com escárnio, me aproximando das barras.
Atrás de mim, Bracken e Maven se calam.
O barbudo não diz nada. Ao chegar mais perto, noto uma cicatriz embaixo do seu olho. Regular demais para ser acidente. Uma linha reta perfeita e bem cuidada. Aponto para ela com o queixo.
— Alguém deu isso a você, não é?
— Você fala como se ter um prateado me segurando e cortando meu rosto fosse um presente — ele responde devagar. As palavras saem com uma afetação estranha, desencontradas. Como se ele tivesse que pensar em cada uma e pesá-las na língua.
Examino a cicatriz de novo, de cima a baixo. Me pergunto o que ele fez ou não fez para merecer tal punição.
— Quando seus murmuradores chegarem — digo, olhando para Bracken por cima do ombro —, comecem por este. Tem patente mais alta. Vai saber mais do que a maioria.
Os lábios de Maven se contorcem em algo perto de um sorriso.
— Claro — Bracken responde. — Vamos começar com esse vermelho tolo, não vamos? — ele acrescenta meio cantando para os filhos enquanto os leva embora. — Então vocês vão ver que não são motivo de medo. Não mais. Não são nada para vocês. Nada.
De novo, Michael esconde o rosto, enfiando a cabeça debaixo do braço do pai. Charlotta faz o contrário, levantando bem seu pequeno queixo. Ela tem sardas que parecem ter sido salpicadas sobre sua pele morena. Em Montfort, seu penteado era simples, preso para trás com um nó forte. Aqui ela se veste como a princesa que é, em seda branca estampada, com ametistas decorando as muitas tranças. Observo-a seguir o pai, arrastando seu vestido pelo concreto. A roupa dela me lembra um vestido de noiva, e me pergunto com quem será negociada quando chegar a hora, como eu fui.
Continuamos em frente, inspecionando as celas, e eu retomo a contagem. Maven balança os braços para a frente e para trás, quase alegre. A vitória surtiu algum efeito, afinal.
— Não sabia que você era capaz de ficar feliz — cochicho, e ele ri na hora, cortante como vidro.
O rei sorri para mim, com um brilho antipático, selvagem e cruel no olhar.
— Sua imitação de Mare Barrow é muito boa.
Devolvo a zombaria, dançando no fio da navalha:
— Bom, como você quer que ela seja sua rainha, bem que eu poderia encarnar o papel.
Outro acesso de riso. Maven pisca para mim, como se examinasse um quadro.
— É ciúmes, Iris? — Fico tensa sob o olhar esquadrinhador dele, meus músculos enrijecendo como um fio esticado. — Não, não é. — Maven suspira, ainda sorridente. — Como eu disse, formamos um belo casal.
Nem tanto.
— Alguém chamou meu nome?
Maven se detém ao meu lado, franzindo a testa em clara confusão. Ele inclina a cabeça para o lado e olha por cima do ombro, piscando para a cela que ficou para trás.
Foi o barbudo. Ele está apoiado nas barras, as mãos pendendo no corredor central. Olha para nós, com a sobrancelha erguida em desafio.
— Você me ouviu, Maven — ele diz, e sua voz sai diferente de antes. Ainda é a dele, só que mais forte, mais rápida, mais contundente. Como uma quina afiada numa pedra.
Olhamos para ele, perplexos. Ou pelo menos eu estou.
Maven parece dividido entre uma fúria assassina e… uma esperança?
O homem sorri.
— Sentiu saudades? — diz. — Acho que sim.
Escuto ossos contra ossos. Dentes serrilhando. Maven aperta a mandíbula e solta uma única palavra:
— Mare.

7 comentários:

  1. MEU DEUS!!! Os gêmeos ainda podem fazem os outros falarem por eles!?!!? Muito massa!!

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    1. Eles estão repetindo o que escutamz, tentando ao máximo imitar o tom e os gestos

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    2. Taiane-chan muito obrigada pelo seu comentário. Porque eu acabei o capitulo meio que totalmente sem entender, até vc dizer que o soldado era um dos trigêmios. Agora eu tô tipo OMG.

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  2. QUE? tô entendendo mais nada, minha cabeça deu um bug agr

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  3. Eu tue um mini ataque de mais ou menos uns dez minutos aki dps dessa mas eu o viva... Ainda.
    Alguém me socorre!!!

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  4. Agora eu senti um ódio mortal e iracivel da Elara. Como ela pode fazer isso com o filho?? E tudo por causa de que?? De uma coroa?? Mais do que nunca eu preciso de um POV do Maven

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  5. OXIIII não estou entendendo nada

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Boa leitura, E SEM SPOILER!