2 de junho de 2018

Capítulo três

Mare

MINHA RISADA ECOA PELAS PAREDES da muralha a leste e pelos campos escuros. Eu me inclino, com as mãos apoiadas no parapeito, tentando recuperar o fôlego. Não consigo controlar. Uma risada sincera, que vem lá do fundo, toma conta de mim. Sai com um barulho oco, duro, empoeirado pela falta de uso. Minhas cicatrizes doem, despertando pontadas ao longo do pescoço e das costas, mas não posso segurar. Rio até minhas costelas doerem, então tenho que sentar para me apoiar na pedra fria. Isso não me faz parar, e mesmo mordendo os lábios para mantê-los fechados, risadinhas escapam de vez em quando.
Ninguém além dos guardas pode me ouvir, e duvido que se importem com uma garota rindo sozinha na escuridão. Adquiri o direito de rir, chorar ou gritar quando acho apropriado. Parte de mim quer fazer os três ao mesmo tempo. Mas a risada vence.
Pareço louca, e talvez esteja. Certamente tenho uma desculpa para isso, depois de hoje. Do outro lado de Corvium, as pessoas ainda estão limpando cadáveres. Cal preferiu sua coroa a tudo por que eu achava que estávamos lutando. As duas feridas sangram, e nenhum curandeiro seria capaz de curá-las. Feridas que preciso ignorar agora, pela minha própria sanidade. A única coisa que posso fazer é levar as mãos ao rosto, cerrar os dentes e lutar contra essa crise de riso idiota e infernal.
Isso é completamente insano.
Evangeline, Cal e eu vamos para Montfort. Só pode ser piada. Digo isso em minha mensagem para Kilorn, que ainda está a salvo em Piedmont. Ele ia querer saber de tudo, ou tudo o que posso contar. Depois que o convenci a ficar para trás, é mais do que justo que pelo menos o mantenha atualizado. E, é claro, quero que ele saiba. Quero que alguém dê risada comigo e amaldiçoe o que está por vir.
Solto outra risada sombria, recostando a cabeça na parede de pedra. As estrelas acima são como picadas de agulha, ofuscadas pelas luzes de Corvium e pela lua que nasce. Parecem assistir a tudo que se passa na cidade-fortaleza abaixo. Eu me pergunto se os deuses de Iris Cygnet riem comigo. Se é que existem.
E me pergunto se Jon está rindo também.
Pensar nele faz um arrepio percorrer meu corpo, matando qualquer risada maníaca que tivesse restado. O maldito profeta sanguenovo está em algum lugar lá fora, depois de ter escapado de nós. Mas para quê? Ficar sentado numa colina assistindo? Seus olhos vermelhos indo de um lado para o outro enquanto nos matamos? Seria ele algum tipo de manipulador, que se satisfaz em posicionar suas marionetes e então botar em ação qualquer futuro que escolha para nós? Se fosse remotamente possível, eu tentaria encontrá-lo. Para forçá-lo a nos proteger do destino letal. Mas é um absurdo. Ele vai me ver chegando. Só se pode achar Jon se ele quiser ser achado.
Frustrada, passo as mãos pelo rosto e pelo couro cabeludo, deixando as unhas rasparem a pele. A sensação de ardor me traz de volta à realidade, pouco a pouco. Assim como o frio. A pedra sob meu corpo perde seu calor conforme a noite avança. O tecido frio do uniforme faz pouco para me impedir de tremer, e os cantos duros e pontudos das paredes são muito desconfortáveis. Ainda assim, não me movo.
Eu poderia ir dormir, mas isso significaria voltar lá para baixo. Para os outros, para o acampamento. Mesmo se eu fizer minha pior careta e correr, vou ter que encarar os vermelhos, os sanguenovos e os prateados também. Julian, com toda a certeza. Consigo imaginá-lo esperando na minha cama, pronto para outro sermão. Mas não sei o que poderia dizer.
Vai ficar do lado de Cal, imagino. No fim de tudo isso. Quando ficar claro que não vamos deixá-lo manter o trono. Acima de tudo, os prateados são leais ao seu sangue. E Julian é, acima de tudo, leal à irmã morta. Cal é o último pedaço dela que restou. Julian não vai dar as costas para isso, independente de tudo o que diz sobre revolução e história. Ele não vai deixar Cal sozinho.
Tiberias. Cal. Ele. Tiberias.
Só pensar no nome já dói. Seu nome real. Seu futuro. Tiberias VII, rei de Norta, a Chama do Norte. Eu o visualizo no trono do irmão, seguro em sua prisão de Pedra Silenciosa. Ou ele traria de volta o trono de cristais de diamante em que seu pai sentava? Destruiria todos os rastros de Maven, apagando-o da história? Vai reconstruir o palácio do pai. O reino de Norta retornará ao que era. A não ser pelo rei Samos em Rift, tudo voltará a ser como antes do dia em que eu caí naquela arena.
Tornará tudo o que aconteceu desde então inútil.
Eu me recuso a deixar isso acontecer.
E, por sorte, não estou sozinha nessa empreitada.
A lua brilha na pedra negra, fazendo os detalhes dourados de todas as torres e parapeitos parecerem prateados. Patrulhas passam abaixo de mim, vigiando tudo em seus uniformes vermelhos e verdes. Da Guarda e de Montfort. Seus equivalentes de sangue prateado, vestindo as cores de cada Casa, são muito menos frequentes e não se misturam. O amarelo dos Laris, o preto dos Haven, o vermelho e azul dos Iral, o vermelho e laranja dos Lerolan. Não se veem as cores dos Samos. Eles são da realeza agora, graças à ambição e ao senso de oportunidade de Volo. Não há necessidade de desperdiçar seu tempo com algo tão ordinário quanto patrulhas noturnas.
Imagino o que Maven pensa disso. Ele se concentrou tanto no irmão que só posso conjecturar o peso de ter outro rei rival como Volo. Tudo girava em torno de Tiberias, ainda que Maven parecesse ter tudo o que poderia querer. A coroa, o trono, eu. Ele ainda sentia aquela sombra. Trabalho de Elara. Ela o moldou como queria, tirando e acrescentando na mesma medida. A obsessão dele ajudou a alimentar sua necessidade de poder, e tornou a dela realidade. Isso vai se estender ao rei Volo? Ou os desejos mais sombrios e perigosos de Maven se restringem a nós? Matar o irmão, me ter de volta?
Só o tempo dirá. Quando ele ressurgir — e ressurgirá —, vou saber.
Só espero estar pronta.
As tropas de Davidson, a Guarda Escarlate e a infiltração que se espalha — somos o bastante. Temos que ser.
Mas isso não quer dizer que não posso tomar algumas precauções.


— Quando vamos partir?
Precisei pedir ajuda de outras pessoas, mas consegui encontrar Davidson. Seu quartel-general fica em alguns escritórios maiores no setor administrativo, e os aposentos estão tomados pelo alto escalão de Montfort. E da Guarda Escarlate, embora Farley não esteja aqui. Os oficiais me recebem com tranquilidade, abrindo passagem para a pessoa que ainda chamam de garota elétrica. A maior parte deles está ocupada com as malas. Embalam documentos, pastas e mapas. Nada que de fato pertença a alguém aqui. Informações que pessoas mais inteligentes que eu vão devorar. Provavelmente sobras dos oficiais prateados que usavam este lugar antes.
Ada, uma das sanguenovas que recrutei, está no centro da atividade. Seus olhos passam por cada pedacinho de papel antes de alguém levá-lo embora. Está decorando tudo, com ajuda de sua memória infalível. Nossos olhos se encontram quando passo, e assentimos uma para a outra. Quando formos para Montfort, Farley vai despachar Ada para o Comando. Provavelmente não nos veremos por um longo tempo.
Davidson levanta o olhar da escrivaninha vazia. Os cantos de seus olhos se enrugam, o único indício de um sorriso. Apesar da luz forte e imperdoável do escritório, está bonito como sempre. Distinto. Intimidador. Um rei em termos de poder, se não em título. Quando faz sinal para que me aproxime, engulo em seco, lembrando como ele estava no cerco. Ensanguentado, exausto, com medo. E determinado. Como o restante de nós. Isso me acalma um pouco.
— Você se saiu bem lá em cima, Barrow — ele diz. Com um movimento da cabeça, ele aponta vagamente na direção da torre principal.
— Você quer dizer que mantive a boca fechada — ironizo.
Alguém ri perto da janela. Viro e me deparo com Tyton apoiado contra o vidro, de braços cruzados, o cabelo branco caindo no olho. Ele também usa um uniforme verde-floresta limpo, um pouco curto nos braços e nas pernas. Não há nenhuma insígnia de raio que indique o que ele é: um eletricon, como eu. Porque esse uniforme não é seu. Da última vez que o vi, estava banhado dos pés à cabeça em sangue prateado. Ele tamborila no próprio braço, brandindo os dedos como as armas que são.
— Isso é possível? — ele pergunta com a voz profunda, sem olhar para mim.
Davidson me avalia, balançando a cabeça de leve.
— Na verdade, estou satisfeito com o que disse aos outros, Mare. Sobre me acompanhar na viagem.
— Como comentei, estou curiosa com…
O primeiro-ministro levanta a mão para me interromper.
— Não há necessidade disso. Acho que Lord Jacos é a única pessoa que faz qualquer coisa movido apenas pela curiosidade. — Bom, ele não está errado. — O que você realmente quer em Montfort?
Os olhos de Tyton brilham quando ele finalmente se digna a me olhar da janela.
Ergo o queixo.
— Só o que me prometeu.
— Realocação? — Davidson parece realmente assustado, o que é incomum para ele. — Você quer…
— Quero minha família a salvo. — Minha voz não vacila. Tento recuperar um pouco do que me lembro das regras de etiqueta de uma prateada morta. Coluna ereta, ombros abertos. Mantenha o contato visual. Então volto a falar: — Estamos em guerra. Norta, Piedmont, Lakeland e a sua república também. Nenhum lugar é seguro, independente do lado em que esteja. Mas Montfort é o país mais distante, e parece o mais forte, ou pelo menos o mais bem defendido. Acho que minha melhor opção é levar minha família para lá pessoalmente. Antes de voltar para terminar o que pessoas melhores do que eu começaram.
— A promessa era para os sanguenovos, srta. Barrow — Davidson diz, baixo. Os ruídos à nossa volta quase o abafam completamente.
Sinto o estômago gelar, mas endureço a expressão.
— Discordo, primeiro-ministro.
Ele abre aquele seu sorriso neutro, protegendo-se atrás da máscara de sempre.
— Acha que não tenho coração? — É uma brincadeira estranha, mas Davidson é um homem estranho. Seus dentes nivelados ficam à mostra. — É claro que sua família é bem-vinda. Montfort ficará orgulhoso em aceitá-los como cidadãos. Ibarem, podemos falar? — ele acrescenta, para alguém atrás de mim.
Um homem chega de uma das salas adjacentes e me faz pular de susto. É a cópia perfeita de Rash e Tahir, os gêmeos sanguenovos. Se eu não soubesse que Tahir estava em Piedmont e Rash em Archeon, ambos reunindo informações para a causa, pensaria que de fato era um dos gêmeos. Trigêmeos, me dou conta de imediato, e a amargura toma conta da minha boca. Não gosto de surpresas.
Como seus irmãos, Ibarem tem pele marrom-escura, cabelo preto e uma barba bem aparada. Vejo de relance a cicatriz sob os pelos no queixo, uma única linha branca. Ele também foi marcado há muito tempo por um lorde prateado, para que pudessem distingui-lo dos irmãos.
— Muito prazer — murmuro, estreitando os olhos para Davidson em seguida.
Ele sente meu desconforto.
— Ah, sim. Este é o irmão de Rash e Tahir.
— Não tinha percebido — retruco, seca.
Os lábios de Ibarem se retorcem em um sorrisinho enquanto ele acena com a cabeça em cumprimento.
— Fico feliz em conhecê-la, srta. Barrow. — Ele vira para Davidson, cheio de expectativa. — Do que precisa, primeiro-ministro?
Davidson o encara.
— Preciso que mande uma mensagem a Tahir. Peça que informe aos Barrow que Mare vai buscá-los amanhã, para que sejam realocados em Montfort.
— Sim, senhor — ele responde. Seus olhos ficam opacos por um momento, enquanto a mensagem viaja do seu cérebro para o de seu irmão. Só leva um segundo, apesar das centenas de quilômetros entre eles. Ibarem baixa a cabeça de novo. — Feito, senhor. Tahir manda os parabéns e dá as boas-vindas à srta. Barrow.
Só espero que meus pais aceitem a oferta. Não que não queiram. Gisa quer, e minha mãe irá atrás dela. Bree e Tramy vão obedecer minha mãe. Mas não tenho certeza quanto a meu pai. Não se souber que não vou ficar com eles. Por favor, aceite. Me deixe te dar isso.
— Diga que agradeço — murmuro, ainda desconcertada por ele.
— Feito — Ibarem repete. — Tahir disse “de nada”.
— Obrigado aos dois — Davidson interrompe, e faz bem. Os irmãos podem se comunicar a uma velocidade enlouquecedora, embora seja pior quando seus cérebros conectados estão lado a lado. Ibarem assente, aceitando a dispensa antes de sair para continuar seu trabalho em algum outro lugar.
— Tem mais algum deles sobre quem você gostaria de me falar? — sibilo, me inclinando para a frente para ranger os dentes para o primeiro-ministro.
Ele não dá corda para minha irritação.
— Não, mas bem que eu queria ter mais deles à disposição — Davidson suspira. — Eles são engraçados. Em geral os rubros têm correspondentes entre os prateados, mas nunca vi nenhum como eles.
— O cérebro dele é diferente de qualquer outro. Consigo sentir — Tyton murmura.
Lanço um olhar afiado para ele.
— O modo como diz isso é bem perturbador.
Tyton só dá de ombros.
Viro para Davidson, ainda irritada, mas incapaz de ignorar o presente maravilhoso que me deu.
— Obrigada por fazer isso. Sei que comanda o país e que isso pode não parecer grande coisa, mas significa muito para mim.
— Claro — ele responde. — E espero fazer o mesmo para outras famílias como a sua, assim que pudermos. Meu governo está debatendo no momento como encarar o que está rapidamente se tornando uma crise de refugiados, assim como a melhor maneira de ajudar vermelhos e sanguenovos que já se deslocaram. Mas, para você, considerando o que fez e o que continua a fazer, podemos abrir uma exceção.
— E o que foi que eu fiz?
As palavras me escapam antes que eu consiga segurar. O calor se espalha pelas minhas bochechas.
— Você abriu rachaduras no que antes era impenetrável. — Davidson fala como se apontasse o óbvio. — Criou fendas na armadura. Afrouxou o nó, srta. Barrow. Agora é hora de cortá-lo de vez. — Seu sorriso é sincero, largo e cheio de dentes. Me lembra o de um gato. — E, por sua causa, o homem que reivindica o trono de Norta vai visitar nossa República. Isso não é pouco.
Isso dispara algo dentro de mim. É uma ameaça? Sou rápida, me inclinando sobre a escrivaninha, as mãos apoiadas na madeira, a voz baixa, em alerta.
— Quero sua palavra de que ele não será ferido.
Davidson nem hesita.
— Dou minha palavra — ele rebate no mesmo tom. — Não vou tocar em um fio de cabelo dele. Ninguém vai, não enquanto Calore estiver no meu país. Prometo isso solenemente. Não é assim que eu opero.
— Ótimo — retruco. — Porque seria ridiculamente idiota se livrar do escudo entre nossa aliança e Maven Calore. E você não é idiota, não é mesmo, primeiro-ministro?
O sorriso de gato se alarga. Ele assente.
— Não acha que vai ser bom para o pequeno príncipe ver algo diferente? — Davidson ergue uma sobrancelha grisalha e bem delineada. — Um país sem rei?
Ver que é possível. Que a coroa e o trono não são sua obrigação. Ele não precisa ser rei ou príncipe. A menos que queira.
Mas acho que ele quer.
— Sim — é tudo o que consigo dizer. E tudo o que consigo esperar. Afinal, não conheci Tiberias em uma taverna escura, quando fingia ser outra pessoa para poder ver com seus próprios olhos como era o mundo real? Descobrir o que deveria mudar?
Davidson afasta o corpo, deixando claro que terminamos. Faço o mesmo.
— Considere o pedido concedido — ele diz. — E se considere sortuda por termos que passar em Piedmont de qualquer jeito, senão talvez eu não estivesse tão disposto a transportar uma tonelada de Barrows.
Ele quase dá uma piscadela.
Eu quase sorrio.


No caminho para o acampamento, me dou conta de que estou sendo seguida pela cidade-fortaleza. Ouço passos próximos, constantes e ágeis ao longo da rua sinuosa. As luzes fluorescentes projetam duas sombras, não só a minha. Fico tensa e desconfortável, mas não sinto medo. Corvium está cheia de soldados da coalizão, e se qualquer um deles for idiota o bastante para tentar me fazer mal, pode ficar à vontade para tentar. Posso me proteger. Sinto as fagulhas despertarem debaixo da pele, ao meu alcance. Prontas para sair.
Viro de repente, esperando pegar quem quer que seja desprevenido. Não funciona.
Evangeline para tranquilamente, esperando de braços cruzados e com as sobrancelhas escuras perfeitas erguidas. Ela ainda usa sua armadura suntuosa, do tipo que é mais apropriada para a corte do que para a batalha. Mas está sem coroa. Costumava passar o tempo livre confeccionando tiaras e diademas de qualquer metal em que conseguisse pôr as mãos. Agora, quando tem todo o direito de usar uma, sua cabeça está vazia.
— Segui você por dois setores da cidade, Barrow — ela diz, balançando a cabeça. — Achei que você fosse uma ladra ou algo do tipo.
A risada incessante de antes desperta, e não consigo evitar sorrir enquanto solto o ar. Seu tom afiado é familiar, e qualquer familiaridade me traz conforto no momento.
— Não mude nunca, Evangeline.
Um sorriso rápido como uma faca perpassa seu rosto.
— Claro que não. Por que mudaria algo perfeito?
— Bom, não quero ficar no caminho entre você e sua vida perfeita, alteza — digo. Ainda sorrindo, dou um passo para o lado, abrindo passagem para ela. Pagando para ver. Evangeline Samos não me seguiu para trocarmos insultos. Seu comportamento na câmara do conselho deixou seus motivos muito claros para mim.
Ela pisca, e um pouco de sua audácia se desfaz.
— Mare — Evangeline diz, mais suave agora. Um pedido. Mas seu orgulho não permite que implore. O maldito orgulho prateado. Ela não sabe como se curvar. Ninguém nunca lhe ensinou, nem deixaria que tentasse.
Apesar de tudo o que aconteceu entre nós, sinto uma pontada de dó no coração. Evangeline foi criada na corte prateada, nascida para conspirar e ascender, para lutar com tanta garra quanto protege seus pensamentos. Mas sua máscara está longe de ser perfeita, principalmente quando comparada à de Maven. Depois de meses lendo as sombras nos olhos dele, vejo os pensamentos de Evangeline refletidos nos dela claros como o dia. Ela irradia dor. Anseio. Parece um predador enjaulado e sem chance de escapar. Parte de mim quer deixá-la assim. Até que se dê conta do tipo de vida que costumava querer. Mas preciso acreditar que não sou tão cruel. E não sou idiota. Evangeline Samos seria uma aliada poderosa. Se eu tiver que comprar sua lealdade, que seja.
— Se está procurando compaixão, não é aqui que vai encontrar — murmuro, indicando de novo a rua vazia. É uma ameaça inútil, mas ela se eriça mesmo assim. Seus olhos, que já são pretos, escurecem ainda mais. A provocação funciona, colocando-a contra a parede, forçando-a a falar.
— Não quero nem um pingo de compaixão vinda de você — Evangeline solta. As extremidades de sua armadura ficam ainda mais afiadas com a raiva. — E tampouco a mereço.
— Definitivamente não — rebato. — Então você quer ajuda? Uma desculpa para não ir a Montfort com o resto do nosso grupinho animado?
O rosto de Evangeline se contorce em outro sorriso mordaz.
— Não sou tão idiota a ponto de ficar em dívida com você. Quero propor uma troca.
Não altero minha expressão, mantendo os olhos fixos nos dela. Procuro demonstrar um pouco da neutralidade serena e impenetrável de Davidson.
— Achei que pudesse ser isso.
— É bom saber que você não é tão burra como as pessoas parecem pensar.
— Então como vai ser? — pergunto, querendo andar logo com isso. Vamos amanhã mesmo para Piedmont, e em seguida para Montfort. Nossas farpas habituais não podem se estender por muito tempo. — O que você quer?
As palavras ficam entaladas na garganta dela. Evangeline passa os dentes pelos lábios, tirando um pouco do batom roxo. À luz implacável da rua de Corvium, sua maquiagem parece exagerada, mais como uma pintura de guerra. E imagino que seja isso mesmo. Os tons arroxeados abaixo das maçãs do rosto, cujo intuito é deixar suas feições mais bem esculpidas, parecem doentias no escuro. Até o pó claro e cintilante que nivela sua pele pálida tem falhas. Marcas de lágrimas. Ela tentou disfarçá-las, mas a evidência continua ali. A cor não uniforme, um leve borrão de tinta preta dos olhos ainda presente. Sua fachada de beleza e magnificência letal tem rachaduras profundas.
— Mas isso é fácil de adivinhar, não é? — respondo minha própria pergunta, dando um passo à frente. Ela quase se encolhe. — Todo esse tempo, todas as suas armações. Você já tem Tiberias. É sua terceira chance de casar com um rei Calore. De se tornar rainha de Norta. Conquistar tudo por que trabalhou.
Noto um movimento em sua garganta, engolindo uma resposta provavelmente mal-educada. Não temos muita prática quando se trata de ser civilizadas uma com a outra.
— E agora você quer cair fora — sussurro. — Não quer ser aquilo que nasceu para ser. De onde veio essa revelação repentina? Por que desperdiçar o que costumava querer tanto?
Seu controle evapora.
— Não tenho que explicar meus motivos a você.
— Seus motivos têm cabelo vermelho e respondem pelo nome de Elane Haven.
Evangeline fica tensa. Ela cerra os punhos e as escamas de sua armadura se enrijecem, em resposta à emoção repentina.
— Não fale dela — Evangeline solta, revelando sua fraqueza, a melhor maneira de manipulá-la.
Ela se aproxima. É uns bons centímetros mais alta que eu, e sabe utilizar essa vantagem muito bem. Com as mãos na cintura, os olhos brilhando e os ombros estendidos, fico completamente à sua sombra.
Observo-a, inclinando a cabeça.
— Então você quer voltar para ela. Mas acha que posso impedir seu casamento com Tiberias?
— Não pense tanto de si mesma — ela solta, revirando os olhos. — É verdade que você é uma boa distração para os irmãos Calore. Mas não tenho ilusões. Cal não vai romper o noivado. Maven talvez o fizesse. Você certamente contribuiu para sua decisão de me deixar de lado.
— Como se você tivesse mesmo intenção de casar com Maven — digo a Evangeline com toda a calma. Vi mais do que ela imagina na corte. A família dela aceitou o rompimento bem demais. O reino de Rift estava previsto muito antes de eu influenciar Maven a fazer qualquer coisa.
Evangeline dá de ombros.
— Eu nunca seria sua rainha depois que Elara morreu. Perdão, depois que você a assassinou — ela se corrige rápido. — Pelo menos a mãe mantinha uma coleira no pescoço dele. Estava sempre de olho. Não acho que exista alguém que possa fazer isso agora. Nem mesmo você.
Assinto, em concordância. Não há como controlar Maven Calore.
Ainda que eu tenha tentado. A bile sobe pela minha garganta com a lembrança, minhas tentativas de manipular o rei menino, usando sua vulnerabilidade em relação a mim. Então Maven trocou a Casa Samos pela paz, por Lakeland, por uma princesa tão letal quanto Evangeline, e provavelmente com o dobro de sagacidade. Me pergunto se Maven encontrou alguém páreo para ele em Iris Cygnet, uma ninfoide discreta e calculista.
Tento visualizá-lo agora, fugindo de Corvium para Lakeland. O rosto branco acima do uniforme preto e vermelho, os olhos azuis queimando em fúria silenciosa. Retirando-se para um reino desconhecido com uma corte desconhecida, sem a proteção da Pedra Silenciosa. Com nada a exibir além do cadáver do rei de Lakeland. Isso me conforta um pouco, saber que ele fracassou tão espetacularmente. Talvez a rainha de Lakeland o mate de imediato, para puni-lo por ter desperdiçado a vida de seu marido no cerco.
Não consegui afogar Maven quando tive a chance. Talvez ela consiga.
— E você tampouco consegue controlar Cal. Não de tal forma que eu consiga o que quero. — As palavras de Evangeline são como uma faca sendo torcida dentro de mim. — Ele não vai me descartar por você, não com a coroa em perigo. Sinto muito, Barrow. Ele não é do tipo que abdica.
— Eu sei de que tipo ele é — devolvo, sentindo o golpe com tanta força quanto ela sentiu o meu. Se minha vida continuar assim, com quase tudo o que eu faço cutucando a ferida, duvido que vá algum dia cicatrizar.
— Ele fez uma escolha — ela diz. Tanto para me punir quanto para deixar o ponto claro. — Quando retomar Norta, e ele vai conseguir, vamos nos casar. Para consolidar a aliança e garantir que Rift sobreviva. Para prosseguir com o legado de Volo Samos e seus reis de aço.
Evangeline olha adiante, para a rua escura. Uma patrulha passa pela avenida a alguns metros de distância, as vozes tão baixas e constantes quanto os passos. A Guarda Escarlate, a julgar pelos uniformes cor de ferrugem. A maior parte são uniformes vermelhos do Exército de Norta reaproveitados, com a insígnia arrancada. Duvido que Evangeline note. Seus olhos ficam vidrados enquanto pensa em algo distante. Algo de que não gosta nem um pouco, a julgar pelo maxilar cerrado.
— E se você não casar com ele? — sugiro, trazendo-a de volta.
É a coisa mais fácil e óbvia a dizer, mas ela fica branca, completamente perplexa. Seus olhos se arregalam, seu queixo cai com o choque.
— Impossível — Evangeline zomba. — Não há como contornar isso. A única maneira seria fugir para Tiraxes, Ciron ou qualquer fim de mundo que meu pai não consiga invadir — ela acrescenta, rindo sombriamente da ideia. — Nem isso funcionaria. Ele ia me encontrar aonde quer que eu fosse, para me arrastar de volta e me usar como fui feita para ser usada. O único caminho que vejo, a única opção que tenho, é muito simples.
É claro que sim, Evangeline.
Nossos objetivos são os mesmos, ainda que nossas motivações difiram. Eu a deixo continuar, porque sei que vai dizer exatamente o que quero ouvir. As coisas vão ser mais fáceis se Evangeline acreditar que foi tudo ideia sua.
— Não vai haver casamento se Cal fracassar. — Evangeline continua olhando além de mim. Ela se força a dizer as palavras. São uma traição: à sua Casa, às suas cores, ao seu pai, ao seu sangue. Cortam-na fundo. — Se Cal não for rei de Norta, meu pai não vai me desperdiçar com ele. E, se ele perder a guerra pela coroa, se nós perdermos, meu pai vai estar distraído demais tentando manter o próprio trono para me vender a outra pessoa. Ou pelo menos para me vender para algum lugar muito distante.
Distante de Elane. O sentido do que diz é claro.
— Então você quer que eu impeça Cal de recuperar seu reino?
Ela me olha com desprezo, dando um passo atrás.
— Você aprendeu muitas coisas na corte prateada, Mare Barrow. É mais esperta do que parece. Não vou subestimá-la de novo, e é melhor que não me subestime. — Enquanto fala, sua armadura desliza, se reformando e retorcendo pelo corpo. As escamas encolhem e rastejam. Como os insetos da mãe, cada uma delas um ponto brilhante, preto e prateado. Evangeline transforma a própria roupa em algo mais substancial, menos imponente. Uma armadura de verdade, feita para a batalha e nada mais. — Quando digo que quero que você impeça Cal, estou falando do seu pequeno círculo. Embora eu não saiba se Montfort e a Guarda Escarlate podem ser chamados de pequenos. Afinal, não me parece plausível que estejam ambos apoiando a criação de um novo reino prateado. Não sem esperar muita coisa em troca.
— Ah. — Fico um pouco decepcionada. Vou ter que revelar minha mão antes do que gostaria.
— Bom, não é preciso ser um gênio da política para saber que uma coalizão vermelha e prateada só pode terminar em traição. Tenho certeza de que todos os líderes sabem que não podem confiar uns nos outros. — Seus olhos brilham enquanto vira, pronta para me deixar para trás. — Exceto um aspirante a rei — Evangeline adiciona por cima do ombro.
Tenho plena consciência disso. Tiberias é tão crédulo quanto um cachorrinho, se deixando levar com facilidade pelas pessoas que ama. Eu, sua avó e principalmente seu pai morto. Ele persegue a coroa por aquele homem, em função de um elo que nunca se rompeu. Enquanto sua confiança, sua coragem e seu foco obstinado o tornam forte, também o cegam fora do campo de batalha.
Ele pode prever o avanço de exércitos, mas não os planos de outras pessoas. Não quer ou não consegue ver as maquinações à sua volta. Não viu antes e não vai ver no futuro.
— Ele certamente não é Maven — murmuro, mais para mim mesma.
— Ele certamente não é — Evangeline repete, e as palavras ecoam pelas paredes de pedra de Corvium.
Em sua voz, ouço as mesmas coisas que sinto.
Alívio. E pesar.

9 comentários:

  1. Acho q n vou dormir tão cedo, só para terminar de ler o livro!!
    To amando demais, to com um pouco de pena da Eve e da Elane, mais no final elas ficam juntas com o Polly junto delas, e a Mare fica com o Cal pq eles se amam, por mais q eles tenham se traido eles se amam demais e o meu shipo vai dar certo!!
    #locaporessasérie

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  2. que meu ship favorito volte... AMÉM SENHOR JESUS CRISTINHO!!!
    #calemare4ever

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  3. Prefiro a Mare com o Maven <3 O CAL é um bosta, que escolheu o poder em vez do amor. Ele deve morrer, melhor que isso ele deve perder tudo e continuar vivo em plena tortura <3

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  4. Amando muito a Evangeline <3
    ~Diane

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  5. Depois que se conhece Evangeline da pra perceber alguma humanidade nela...

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  6. Será que somente eu penso que Cal fez o correto pois assim seria ele á frente (algum sacrifício devia acontecer, alguém devia pegar as rédeas e foi o que ele fez, assumiu responsabilidades) que Mare que o abandonou e não ao contrário.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!