2 de junho de 2018

Capítulo sete

Iris

O NÍVEL DO OHIUS ESTÁ ALTO. Foi uma primavera chuvosa, e as fazendas no sul de Lakeland chegaram perto de inundar inúmeras vezes. Tiora esteve aqui, nessas fronteiras instáveis, há algumas semanas, tanto para ajudar a salvar a safra quanto para sorrir e acenar. Seu sorriso raro e discreto nos conseguiu alguns favores aqui, mas não o suficiente. A notícia na corte é de que os vermelhos continuam fugindo, tendo atravessado as colinas que levam para Rift a leste. São tolos se acreditam que o rei prateado vai lhes oferecer uma vida melhor. Os mais espertos cruzam o Ohius e adentram as terras disputadas, onde nenhum rei ou rainha governa. Mas a jornada é caótica e arriscada, e eles têm que enfrentar vermelhos e prateados entre Lakeland e o norte de Piedmont.
O terreno acima do rio oferece uma bela vista do vale. É um bom lugar onde esperar. Olho para o sul, para as florestas cintilando douradas sob a luz da tarde que se esvai. Hoje foi um dia fácil, de viagem, passando pelo milho e pelo trigo. Maven foi bondoso e pegou seu próprio veículo, me permitindo horas de paz até o sul. A jornada foi quase um acalento, mesmo que significasse deixar minha mãe e minha irmã para trás. Elas ficaram na capital. Não sei quando vou vê-las de novo. Se é que vou.
Apesar da brisa agradável e do ar quente, Maven prefere esperar dentro do veículo. Por enquanto. Tenho certeza de que vai tentar fazer algum tipo de entrada grandiosa quando os homens de Piedmont chegarem.
— Ele está atrasado — a senhora ao meu lado murmura.
Ignorando as circunstâncias, sinto um dos cantos da boca levantar.
— Tenha paciência, Jidansa.
— Minha nossa, como as coisas mudaram, majestade. — Ela ri, e as rugas em seu rosto moreno se aprofundam. — Eu me recordo de ter lhe dado esse mesmo conselho mais de uma vez. Em geral relacionado à comida.
Interrompo a vigília, afastando os olhos do horizonte para voltá-los para ela.
— Nesse quesito, nada mudou.
Sua risada empoeirada se aprofunda, ecoando através do rio.
Jidansa, da linhagem Merin, é amiga da família desde que me lembro, tão próxima quanto uma tia e tão carinhosa quanto uma babá. Ela usava sua habilidade de telec para nos divertir quando crianças, manipulando nossos sapatos ou brinquedos com a mente. Apesar do rosto marcado, dos cabelos brancos e da postura de matrona, Jidansa é uma oponente temível e com talentos incomparáveis, uma das melhores telecs da nossa nação.
Gostaria de pedir que voltasse comigo para Norta. Ela concordaria, mas sei que não devo fazê-lo. A maior parte de sua família morreu na guerra. Viver entre o povo de Norta seria uma punição que Jidansa não merece.
Sua presença me acalma. Mesmo em Lakeland, ainda me sinto desconfortável perto de Maven.
O resto da minha escolta segue atrás, a uma distância respeitosa. Os sentinelas deveriam fazer com que me sentisse segura, mas nunca estou tranquila sob seu olhar vítreo. Estariam dispostos a me matar se meu marido assim ordenasse. Ou pelo menos tentariam.
Cruzo os braços, sentindo o tecido do casaco azul de viagem. Ainda que eu esteja prestes a conhecer o príncipe e governante de Piedmont, pareço lamentavelmente desarrumada. Espero que não seja tão obcecado por aparência quanto a maior parte dos prateados que conheço.
Não preciso esperar muito mais para descobrir.
De onde estamos, dá para ver o comboio atravessando as terras disputadas. De resto, o terreno é indistinguível das florestas ao sul de Lakeland. Não há muros, portões ou estradas marcando este setor da fronteira. Nossas próprias patrulhas estão bem escondidas agora, instruídas a deixar o príncipe de Piedmont passar livremente.
Sua comitiva é pequena, mesmo se comparada ao nosso grupo reduzido de seis veículos e cerca de cinquenta soldados. Vejo apenas dois transportes, máquinas rápidas e ágeis, cortando pelos limites mais esparsos da floresta. Estão camuflados, pintados de um verde doentio que se mistura com o da paisagem. Conforme se aproximam, posso ver as estrelas amarelas, brancas e roxas nas laterais. Bracken.
Atrás de mim, o metal range, e Maven desce do veículo. Ele cruza a grama baixa em poucos passos rápidos, parando ao meu lado com certa graça. Devagar, ele cruza as mãos. Sua pele branca parece mais dourada sob a luz. Ele poderia passar por humano.
— Não sabia que o príncipe Bracken era um homem tão ingênuo. Que tolice — Maven diz, gesticulando para a pequena comitiva.
— O desespero torna a maior parte de nós tolos — respondo, fria.
Maven solta uma risada solitária. Seu olhar se arrasta por mim bem devagar.
— Você não.
Não, eu não.
Essa agulha precisa costurar com suavidade. Como Maven, cruzo as mãos, para projetar uma imagem de força. Determinação. Aço.
Faz meses que os filhos de Bracken foram sequestrados, aprisionados e usados para fazer chantagem. A cada mês como reféns, outra parte de Piedmont é sugada. Montfort já lhes custou milhões de coroas, tomando tudo o que está ao alcance. Armas, jatos, comida. A base militar em Lowcountry foi pilhada, com a maior parte de seu conteúdo enviado de volta para as montanhas. Os habitantes de Montfort são como gafanhotos, se alimentam de tudo o que podem. Bracken quase não tem mais recursos de sobra.
Os veículos encostam a alguns metros, mantendo uma distância segura do nosso comboio. Quando se abrem, uma dezena de guardas sai, resplandecentes em roxo-escuro adornado com ouro. Eles carregam espadas e pistolas, embora alguns pareçam preferir machados ou martelos em vez de lâminas.
Bracken não carrega nenhuma arma.
Ele é alto, de pele escura, feitio suave, lábios cheios e olhos que parecem duas pedras de âmbar preto polidas. Enquanto Maven se esconde atrás da capa, das medalhas e da coroa, Bracken parece depender menos de seu estilo. Suas roupas são refinadas, também roxo-escuras com detalhes dourados, como as dos guardas, mas não vejo coroa, peles ou joias. Esse homem está aqui numa terrível missão, e não tem por que ostentar.
O príncipe se avoluma sobre nós, com o físico musculoso de um forçador, embora eu saiba que é um mímico. Se me tocasse, seria capaz de usar minhas habilidades ninfoides, ainda que só por um tempo e em menor extensão. O mesmo vale para qualquer outro prateado. E talvez sanguenovos também.
— Gostaria que tivéssemos nos conhecido em melhores circunstâncias — ele diz, com sua voz profunda e retumbante. Como é de costume, se inclina em uma leve reverência, observando nossa posição na hierarquia. Pode ser o governante de Piedmont, mas seu país não é páreo para nós.
— Nós também, alteza — respondo, acenando com a cabeça.
Maven imita meus movimentos, rápido demais. Como se quisesse que isso terminasse o mais rápido possível.
— O que tem para nós?
Meu rosto se contorce diante da falta de tato. Por instinto, abro a boca, pronta para abrandar um início de conversa tão precário. Mas, para minha surpresa, Bracken sorri.
— Também não gosto de perder tempo — ele diz, seu sorriso adquirindo um tom mais duro. Uma guarda se aproxima vinda de trás dele. Carrega uma pasta com capa de couro. — Não quando a vida dos meus filhos está em jogo.
— São as informações que tem sobre Montfort? — pergunto, olhando para os documentos que a guarda passa ao seu príncipe. — Reuniu tudo muito rápido.
— O príncipe tem procurado seus filhos, e pessoas que possam ajudá-lo nessa tarefa, há meses — Maven diz pausadamente. — Lembro de seus representantes, os príncipes Alexandret e Daraeus. Sinto muito se não pude… ser de muita ajuda.
Quase rio alto. Um dos príncipes morreu no palácio de Archeon, durante uma tentativa fracassada de tirar Maven do trono. Até onde sei, o outro também está morto.
Bracken dispensa o pedido de desculpas com um gesto de sua mão larga.
— Eles sabiam dos riscos, assim como todos a meu serviço. Perdi dezenas de homens na busca pelo meu filho e minha filha. — Há uma tristeza verdadeira em suas palavras, entremeada pela raiva.
— Só podemos esperar não perder mais nenhum — murmuro, pensando em mim mesma. E no que minha mãe disse. Tem que ser você.
Maven levanta o queixo, seus olhos se alternando entre Bracken e a pasta. Deve estar cheia de informações sobre Montfort, suas cidades misteriosas, seus exércitos. Informações de que precisamos.
— Estamos preparados para fazer o que você não conseguiu, Bracken — ele diz. Maven é um bom ator, carregando suas palavras com a dose certa de compaixão. Se tiver uma chance, o jovem rei vai acabar atraindo Bracken para seu lado antes que eu consiga fazer minha jogada. — Compreendo que, enquanto seus filhos estiverem em Montfort, não pode agir contra eles. Mesmo a menor operação de resgate poderia colocar a vida deles em risco.
— Exatamente. — Bracken assente de imediato. Está devorando tudo o que Maven lhe oferece. — Reunir essas informações já foi perigoso demais.
O rei de Norta levanta uma sobrancelha.
— E?
— Conseguimos localizar o paradeiro das crianças. Estão na capital, Ascendant — o príncipe diz. Ele estende a mão, oferecendo a pasta. — Fica nas profundezas das montanhas, protegida pelo vale. Nossos mapas da cidade são velhos, mas ainda servem.
Pego a pasta antes que um sentinela o faça, sentindo seu peso na mão. Está cheia e vale seu peso em ouro.
— Conseguiu descobrir onde exatamente estão presos? — pergunto, desesperada para abrir a pasta e começar a trabalhar.
Bracken abaixa a cabeça.
— Acho que sim. Por um preço alto.
Cruzo os braços, segurando o precioso material junto ao peito.
— Não vou desperdiçar o esforço.
O príncipe de Piedmont me olha de cima a baixo, com o rosto respeitosamente confuso. Maven é menos óbvio. Ele não se move e sua expressão não muda. A temperatura não sobe nem um grau. Mas posso sentir o cheiro da suspeita vinda dele. E do aviso. É esperto o bastante para manter a boca fechada na frente do príncipe, permitindo que eu teça minha teia.
— Vou liderar as buscas eu mesma — digo, encarando Bracken com meu olhar mais determinado. Ele nem pisca, resoluto como uma estátua. Examinando, avaliando. As roupas simples foram uma boa escolha da minha parte. Pareço mais uma guerreira do que uma rainha. — Vou usar soldados de Norta e de Lakeland, uma força pequena o bastante para passar despercebida. Pode ter certeza de que estamos trabalhando duro desde ontem.
Ponho a mão no braço de Maven, ainda que me cause arrepios. Sua pele está fria por baixo da manga. Não posso ver, mas sinto um leve tremor nele. Meu sorriso se amplia.
— Maven bolou um plano brilhante.
Ele pega a minha mão, seus dedos parecendo gelo. Uma ameaça clara como o dia.
— De fato — Maven diz, abrindo os lábios em um sorriso selvagem para me acompanhar.
Bracken só vê a oferta e a possibilidade do resgate de seus filhos. Não o culpo. Só posso imaginar o que minha mãe faria se fosse comigo e com Tiora.
O príncipe solta o ar em alívio.
— Excelente — ele diz, fazendo mais uma reverência com a cabeça. — E, em troca, prometo me manter fiel à aliança que sustentamos tantas décadas. Até que as aberrações vermelhas decidiram intervir. — Bracken endurece. — Mas chega disso. A maré vira hoje.
Sinto suas palavras com tanta força quanto o rio abaixo de nós, seguindo seu curso. Inquebrável. Impossível de deter.
— A maré vira hoje — ecoo, segurando firme a pasta.
Dessa vez, Maven sobe no meu veículo atrás de mim, e fico tentada a chutá-lo para fora. Em vez disso, vou para o canto mais distante do assento, com as informações de Bracken sobre os joelhos. Maven mantém os olhos em mim ao sentar. Seus modos tranquilos quase me fazem suar.
Espero que ele fale, tentando retribuir seu olhar gelado. Por dentro, amaldiçoo sua presença. Quero abrir a pasta e começar a preencher as lacunas do meu plano de resgate, mas não tenho como começar com Maven me olhando com desdém. E ele sabe disso. Está desfrutando da situação, gosta de incomodar. Acho que faz com que se sinta melhor em relação a seus próprios demônios, criando demônios para os outros.
Só depois que o veículo começa a se movimentar, afastando-se da fronteira em alta velocidade, Maven fala.
— O que exatamente está fazendo? — Sua voz é suave e despojada de emoção.
É sua tática favorita, não dar nenhuma indicação de seu humor. É inútil procurar em seus olhos ou em seu rosto qualquer sentimento, tentar lê-lo como seria possível com qualquer outra pessoa. Ele é habilidoso demais nisso.
Ofereço uma resposta simples, com a cabeça erguida.
— Estou trazendo Piedmont para o nosso lado.
Nosso lado.
Maven solta um “hummm” do fundo da garganta antes de se acomodar para a longa viagem.
— Muito bem — ele diz, e mais nada.

16 comentários:

  1. Eu n sei se gosto fa Iris ou se mando ela ir pastar??!
    #emduvida🤔

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  2. Eu n sei se gosto da Iris ou se mando ela ir pastar??!
    #emduvida🤔😐

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  3. Sinto q vai dar merda!! Pois ks filhos do principe de Piedmont estão no mesmo local q a Mare está!!
    To sentindo q o Maverda(Maven+merda) vai tentar rapitar ela, por mais q ele n saiba q ela esteja lá!!
    😰😵

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    1. Aquele orgulhinho...de ver o apelido q eu inventei pra àquele Maverda sendo usado :3

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  4. Definitivamente Maven é o melhor personagem da série.

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    1. Defitivamente, tenho que discordar com tal afirmação e o elogio que foi direcionado ao personagem mais cruel, porém bem trabalhado, da série de livros " A Rainha Vermelha". Temos que concordar que o "melhor" personagens até agora, pelo menos para o meu gosto e da maioria das pessoas, que ninguém ultrapassa Shade.

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  5. Comparado as narrações de Eve as de Iris são tão fraquinhas.

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  6. Só eu que não gosto da narração da
    Iris?

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  7. EU TBM NAO GOSTO DAS NARRAÇOES DESSA IRIS, ELA É MUITO CHATA. E PODERIA TER NARRAÇOES DE OUTRAS PESSOAS E NAO DELA. PODERIA SER DO MAVEN. SERIA OTIMO VER O PONTO DE VISTA DELE.

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    1. Pelo que sei vai ter narração do Maven e do Cal

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  8. É....ela é bem chatinha.Tomara q melhor a narração dela

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  9. Ou do Cal. Quem sabe o que se passa pela cabeça desse completo imbecil.

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  10. gente perceberam que nesse livro só vem narração das garotas? eu ainda tenho esperança de ter mais pessoas narrando, mais eu gostei das três contando suas histórias. estou super ansiosa pelos capítulos que irão vir

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  11. Iris eve e mare deviam formar uma trindade, chutavam os outros e dominavam tudo

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  12. Íris zzzzzzzzzz
    Maven, ainda te amo tanto kkk

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