2 de junho de 2018

Capítulo seis

Evangeline

O AR AQUI É ESTRANHO. RAREFEITO. Limpo demais, como se fosse isolado do resto do mundo.
Eu o sinto nos contornos do meu ferro, da minha prata, do meu cromo. E, é claro, na carcaça metálica dos jatos, com os motores ainda quentes da jornada. A sensação é avassaladora, mesmo depois das longas horas amontoada dentro da aeronave Laris. Tantas placas, tubos e parafusos. No voo, passei mais tempo do que quero admitir contando rebites e passando a mão pelas dobradiças de metal. Se abrisse ali, ou ali, ou ali, poderia enviar Cal, Anabel ou quem quer que fosse voando de encontro à própria morte. Até a mim mesma. Fiquei sentada perto de um lorde Haven durante a maior parte da viagem, e seu ronco rivalizava com um trovão. Saltar do jato quase parecia uma escolha melhor.
Apesar da época do ano, o ar está mais frio que eu esperava, e meus pelos se arrepiam por baixo da leve seda que envolve meus ombros. Tomei o cuidado de me vestir como uma princesa, ainda que agora esteja passando frio por causa disso.
É minha primeira visita oficial, tanto como representante de Rift quanto como futura rainha de Norta. Se esse futuro maldito vai se tornar realidade, preciso representar meu papel de maneira impressionante e formidável, até as unhas pintadas dos pés. Tenho que estar preparada. Estou muito além dos limites do mundo como o compreendo. Inspiro de novo, com a respiração estranhamente rasa. Até respirar aqui é diferente.
Não é tarde o bastante para o sol se pôr, mas as montanhas são tão altas que a luz já diminui. Sombras compridas atravessam o campo de pouso, localizado nas profundezas do vale. Sinto como se pudesse tocar o céu. Passar minhas garras cheias de joias nele e fazer com que sangre o brilho das estrelas. Em vez disso, mantenho as mãos ao lado do corpo, com meus muitos anéis e braceletes escondidos entre as dobras da saia e minhas mangas. Pura decoração. Acessórios lindos, inúteis e silenciosos. Como meus pais querem que eu seja.
Do outro lado da pista, há um precipício. As escarpas esculpidas das montanhas emolduram o horizonte como uma janela. Vejo a silhueta de Cal observando o horizonte, onde a tarde cai em tons nebulosos de roxo. A cordilheira lança sua própria sombra, e o mundo todo parece desaparecer na escuridão própria de Montfort.
Cal não está sozinho. Seu tio, um infinitamente peculiar lorde Jacos, se mantém ao seu lado. Ele anota algo em um caderno, movendo-se com a energia nervosa e animada de um passarinho. Dois guardas, um com as cores de Lerolan, vermelho e laranja, outro com o amarelo Laris, acompanham os dois a uma distância respeitosa. O príncipe exilado olha a paisagem, imóvel a não ser por sua capa escarlate, que tremula ao vento. Inverter as cores de sua Casa foi uma sábia decisão, para se distanciar de tudo o que o rei Maven representa.
Estremeço com a lembrança de seu rosto branco, de seus olhos azuis, de como cada parte dele parecia queimar em chamas. Não há nada em Maven além de voracidade.
Cal não vira até que Mare desce do jato com sua família e são todos conduzidos até uma escolta de locais. As vozes dos Barrow ecoam pelas paredes de pedra do vale de montanhas altas. A família é um tanto quanto… falante. E, para uma garota tão baixa e compacta, Mare tem irmãos surpreendentemente altos. A visão de sua irmã mais nova revira meu estômago. A menina tem cabelo vermelho. Mais escuro que o de Elane, sem nada do seu brilho. Sua pele não resplandece, nem por habilidade nem por um encanto intrínseco que não sei explicar. Ela tampouco é pálida ou sedutora. Seu rosto é de uma beleza mais simples, mais dourada, mediana. Comum. Vermelha. Elane é única, tanto por dentro quanto por fora. Aos meus olhos, não há ninguém igual. Mas, ainda assim, a garota Barrow me lembra da pessoa que eu mais quero e que nunca poderia ter de verdade.
Elane não está aqui, nem meu irmão. Esse é o preço. Da segurança dele, de sua vida. A general Farley vai matá-lo se tiver a oportunidade, e não tenho nenhuma intenção de permitir. Mesmo às custas do meu próprio coração.
Cal vira para observar Mare desaparecendo, seu olhar fixo nas costas dela enquanto é levada embora com a família. Meus lábios se retorcem diante de sua tolice. Ela está bem à frente dele, mas Cal ainda a afasta. Por algo tão frágil e instável quanto uma coroa. Mesmo assim, eu o invejo. Ele ainda poderia escolhê-la se desejasse. Queria ter a chance de fazer o mesmo.
— Acha que meu neto é um tolo, não é mesmo?
Viro e me deparo com Anabel Lerolan me encarando, com seus dedos letais cruzados à sua frente e uma tiara de ouro rosé na cabeça. Como o restante de nós, fez um esforço para estar em seu melhor.
Rangendo os dentes, faço uma reverência perfeita, ainda que curta.
— Não tenho ideia do que está dizendo, majestade. — Não me dou ao trabalho de soar convincente. As consequências serão insignificantes, para bem ou para mal.
Não faz diferença o que ela acha de mim. Essa mulher controla minha vida de qualquer jeito.
— Você é próxima de uma garota Haven, não? A filha de Jerald. — Anabel dá um passo corajoso à frente. Quero arrancar o rosto de Elane de sua cabeça com minhas próprias mãos. — Se não estou enganada, ela é casada com seu irmão. Será rainha, assim como você.
A ameaça se enrosca em suas palavras como uma das cobras de minha mãe.
Forço uma risada.
— Minhas relações passadas não são da sua conta.
Um de seus dedos tamborila sobre uma junta enrugada. Ela aperta os lábios e as linhas de expressão em volta de sua boca se aprofundam.
— Na verdade, são sim. Principalmente quando está tão disposta a mentir para manter Elane Haven distante de qualquer escrutínio. Uma relação passada? Eu não diria isso, Evangeline. Você está claramente apaixonada. — Ela estreita os olhos. — Acho que vai descobrir que você e eu temos muito mais em comum do que pensa.
Sorrio na sua cara, mostrando os dentes em um escárnio velado.
— Conheço os antigos rumores a seu respeito tão bem quanto qualquer um. Está falando de consortes. Seu marido tinha um, chamado Robert. Acha que é capaz de me compreender por causa disso?
— Casei com um rei Calore e fiquei ao seu lado mesmo sabendo que ele amava outra pessoa. Acho que sei como fazer isso — ela chacoalha dois dedos à minha frente — funcionar. E devo dizer que é melhor que todas as partes envolvidas estejam em acordo e saibam de tudo. Gostando ou não, você e meu neto precisam ser aliados em todos os aspectos. É a melhor forma de sobreviver.
— Sobreviver à sombra dele, você quer dizer — solto, incapaz de me controlar.
Anabel pisca para mim, com o rosto contorcido em uma rara confusão. Então ela sorri e abaixa a cabeça.
— Rainhas também podem lançar sombras. — Seu comportamento muda no mesmo instante. — Ah, primeiro-ministro. — Ela vira para a minha esquerda, na direção do homem atrás de mim.
Faço o mesmo e observo Davidson se aproximar. Ele assente para nós duas, sem nunca baixar o olhar. Seus olhos amendoados, estranhamente dourados, passam de Anabel para mim. São a única parte dele que parece viva. O resto — das expressões vazias e neutras aos dedos parados — parece treinado para se controlar.
— Majestade. Alteza — Davidson cumprimenta, baixando a cabeça de novo.
Por cima do ombro dele, vejo os guardas de Montfort em seus uniformes verdes, assim como seus oficiais e soldados com sua insígnia. Há dezenas deles. Alguns o acompanharam desde Piedmont, mas outros estavam esperando aqui por sua chegada.
Ele sempre teve tantos guardas em seu encalço? Tantas armas? Sinto as balas nas câmaras. Então as conto, por força do hábito, e engrosso os revestimentos de ferro do meu vestido, protegendo os órgãos mais importantes.
O primeiro-ministro gesticula, estendendo o braço.
— Gostaria de escoltá-las até a capital e ser o primeiro a lhes dar as boas-vindas à República Livre de Montfort. — Embora ainda faça seu melhor para não demonstrar emoções, noto certo orgulho. Por seu lar, por seu país. Isso, pelo menos, eu consigo entender.
Anabel lhe lança um olhar que colocaria até nobres prateados no lugar — homens e mulheres terrivelmente poderosos e ainda mais arrogantes. Mas o primeiro-ministro nem pisca.
— Isto — ela solta, olhando para os picos sem vegetação em ambos os lados — é sua república?
— Isto — Davidson responde — é uma pista particular.
Rodo um anel no dedo, procurando me distrair com minhas joias para não rir. De canto de olho, vejo alguns botões brilhando. Metal pesado, bem forjado, em formato de chama. Eles se aproximam, presos às roupas do meu noivo. Ele para ao meu lado, irradiando um calor fraco e constante.
Cal não me diz nada, e fico feliz com isso. Não falamos de verdade há meses. Não desde que escapou da morte no Ossário. Antes, quando ficamos noivos pela primeira vez, nossas conversas eram esparsas e enfadonhas. Cal só pensa em guerra e em Mare Barrow. Nenhuma dessas coisas me interessa muito.
Dou uma olhada nele e já percebo que sua avó cuidou bem de sua apresentação. O corte de cabelo grosseiro e a barba por fazer desapareceram. Suas bochechas estão macias, seu cabelo preto está ajeitado e lustroso, penteado para trás. Parece que Cal acabou de sair de Whitefire, pronto para sua coroação, e não de uma viagem de seis horas em um jato de carga, depois de sobreviver a um cerco. Mas seus olhos cor de bronze parecem desinteressados, e ele não usa coroa. Ou Anabel não arranjou uma ou Cal se recusou a colocá-la. Imagino que seja a segunda opção.
— Uma pista particular? — Cal pergunta, olhando para Davidson.
O primeiro-ministro não parece se incomodar com a diferença de altura. Talvez não compartilhe da infinita preocupação masculina com tamanho.
— Sim — Davidson diz. — Este campo de pouso fica a uma altitude elevada e tem acesso mais fácil à cidade de Ascendant, em comparação com as planícies e os vales mais entremeados nas montanhas. Achei melhor que viéssemos para cá, embora a subida pela Via do Falcão no leste tenha uma vista esplêndida.
— Gostaria de ver, quando a guerra tiver terminado — Cal diz, tentando ser educado, mas sem conseguir esconder seu desinteresse.
Davidson não parece se incomodar.
— Quando a guerra tiver terminado — ele ecoa, com os olhos brilhando.
— Bem, não queremos que se atrase para sua reunião com o governo. — Anabel pega o braço de Cal, fazendo o papel da avó amorosa. Ela se apoia nele um pouco mais do que precisa, formando uma imagem apropriada e calculada.
— Não se preocupe com isso — Davidson diz com um de seus sorrisos tranquilos e lânguidos. — Devo falar diante da assembleia de Montfort pela manhã. Só então farei o pedido.
Cal se sobressalta.
— Amanhã de manhã? O senhor sabe tão bem quanto eu que o tempo…
— É quando a assembleia se reúne. Esta noite, espero que aceitem meu convite para jantar — Davidson diz, plácido.
— Primeiro-ministro… — Cal começa, rangendo os dentes.
Mas o sanguenovo é contundente e severo, ainda que tente se justificar.
— Meus colegas já concordaram em realizar uma sessão extraordinária. Garanto a você que estou fazendo o que posso dentro dos limites das leis do meu país.
Leis. Podem existir num país assim? Sem trono, sem coroa, sem ninguém para tomar a decisão final quando todo o resto briga por conta de detalhes? Como Montfort espera sobreviver? Como pode esperar avançar com tantas pessoas puxando em direções diferentes?
Mas, se Montfort não puder se mover, se Davidson não conseguir mais tropas, então a guerra talvez termine do jeito que eu quero. E mais cedo do que eu esperava.
— Então… para Ascendant? — pergunto, querendo sair logo do frio. E para aproximar Cal de toda a distração que este lugar tem a oferecer. Como Anabel já está de braços dados com o neto, ofereço o meu a Davidson. Ele o aceita com uma mesura discreta, sua mão leve como uma pluma na minha.
— Por aqui, alteza.
Fico surpresa ao notar que o toque de um sanguenovo não é tão revoltante quanto o do meu noivo. Ele anda a um bom ritmo, guiando-nos para longe dos jatos e para o caminho que leva a Ascendant.
A cidade fica no alto da porção oriental da cordilheira maciça, dando vista para os picos mais baixos e para além das fronteiras. Prairie desaparece no horizonte, assim como seus limites, conhecidos como “terra de saqueadores”, onde grupos itinerantes de prateados desligados de qualquer nação atacam quem passa. O resto são planícies vazias, marcadas apenas pelos vestígios do que já foi uma cidade, muito tempo atrás. Nem sei seu nome.
Ascendant parece ter nascido das próprias montanhas, construída sobre encostas e vales, arqueando-se sobre os córregos, com o maior rio traçando seu caminho rumo a leste pelos cânions sinuosos. As poucas estradas são cheias de túneis, e veículos aparecem e desaparecem de vista. Deve haver mais abaixo da superfície, esculpidas no coração de pedra dessas montanhas.
A maior parte das construções da cidade é de pedras como granito, mármore e quartzo, esculpidas em tijolos brancos e cinza impossivelmente lisos. Pinheiros se estendem entre os prédios, alguns mais altos que as construções, suas folhas do mesmo verde-escuro da bandeira de Montfort. O pôr do sol e as montanhas banham a cidade com tiras alternadas de rosa-choque e roxo-escuro, luz e sombra. Acima de nós, em direção ao oeste, os picos nevados descansam triunfantes sob um céu que parece grande e perto demais. Algumas estrelas adiantadas salpicam o crepúsculo. Elas me são familiares, formando padrões que conheço bem.
Nunca vi uma cidade assim, e isso me preocupa. Não gosto de surpresas, nem de ser impressionada. Significa que algo é melhor que eu, que meu sangue, que minha terra.
Mas Ascendant, Montfort e Davidson conseguiram.
Não consigo evitar me maravilhar com esse lindo e estranho lugar.
A cidade fica a pouco mais de um quilômetro, mas os muitos degraus fazem parecer mais. Acho que o primeiro-ministro quer se exibir, então em vez de pegarmos algum tipo de transporte, ele nos força a andar para que admiremos a cidade em sua plenitude.
Se eu estivesse de volta à corte de um rei Calore de braços dados com outra pessoa, não ia me dar ao trabalho de puxar conversa. A Casa Samos já tem grande reputação. Mas aqui tenho que me provar. Então suspiro, ranjo os dentes e olho para Davidson ao meu lado.
— Então você foi eleito para ocupar essa posição.
A palavra me é estrangeira, e se revira na minha boca como uma pedra lisa. Davidson não consegue controlar uma risada, que é como uma rachadura em sua máscara inescrutável.
— De fato. Há dois anos. O país votou. Na próxima primavera, quando completar três anos, teremos novas eleições.
— Quem exatamente vota?
Sua boca se estreita.
— Todos os povos, se é a isso que se refere. Vermelhos, prateados, rubros. Uma eleição não faz distinções.
— Então há prateados aqui. — Isso já foi dito, mas eu duvidava que qualquer prateado concordaria em viver ao lado de um vermelho, muito menos a ser governado por um. Mesmo um sanguenovo. Isso ainda me intriga. Por que viver aqui como um igual quando poderiam viver como deuses em outro lugar?
Davidson abaixa o rosto.
— Há muitos.
— E eles simplesmente permitem isso? — zombo, sem me preocupar em segurar a língua. Só faço isso na frente dos meus pais, que não estão aqui, já que me atiraram aos lobos de sangue vermelho.
— Por que permitem que convivamos com eles como iguais? — A voz do primeiro-ministro assume um tom mais cortante, sibilando em meio ao ar da montanha.
Seus olhos encaram os meus, dourado sobre carvão. Continuamos andando, sem dificuldade apesar dos muitos degraus. Ele espera que eu peça desculpas. Não o faço.
Finalmente chegamos a um patamar, um terraço de mármore que dá para um amplo jardim verdejante. Flores desconhecidas, roxas, laranja e azul-claras, se estendem à nossa frente, selvagens e cheirosas. Alguns metros à frente estão Mare Barrow e sua família, conduzidos por seus anfitriões. Um dos irmãos dela para e verifica as flores mais de perto.
Enquanto o resto do grupo se espalha pela extensão do jardim, Davidson se aproxima de mim, seus lábios quase tocando minha orelha. Resisto à vontade de cortá-lo ao meio.
— Perdoe minha indiscrição, princesa Evangeline — ele sussurra —, mas você tem uma amante, não? E não tem permissão de se casar com ela.
Juro que vou cortar a língua de todo mundo aqui. Não existem mais segredos impronunciáveis?
— Não sei do que está falando — grunho por entre os dentes cerrados.
— Claro que sabe. Ela é casada com seu irmão. Parte de um acordo, não?
Aperto o corrimão de pedra com mais força. É frio e liso, mas não serve para me acalmar. Cravo as unhas nele, e as pontas afiadas e cheias de joias das minhas garras decorativas arranham fundo. Davidson prossegue, suas palavras um tumulto, baixas, rápidas e impossíveis de ignorar.
— Se tudo fosse como deseja, se você não fosse uma moeda de troca no jogo da coroa, se ela já não fosse casada, vocês poderiam se casar? Nas melhores circunstâncias, os prateados de Norta permitiriam que fizesse o que quer?
Viro para ele, com os dentes à mostra. Está perto demais. Ele não pisca ou recua. Posso ver as pequenas imperfeições em sua pele. Rugas, cicatrizes, até os poros. Poderia arrancar seus olhos agora mesmo se quisesse.
— Casamento não tem nada a ver com desejo — rebato. — É para herdeiros e ninguém mais.
Por motivos que não consigo identificar, seus olhos dourados se suavizam. Vejo pena. Vejo pesar. E odeio isso.
— Então o que deseja lhe é negado por causa de quem é. Uma escolha que não foi sua, uma parte de você que não pode mudar. E que não quer mudar.
— Eu…
— Pode menosprezar meu país o quanto quiser — ele murmura, e vejo uma sombra do temperamento que tenta manter escondido. — Questione o modo como as coisas são. Talvez as respostas lhe agradem. — Então ele se afasta um pouco, reassumindo a postura de político. Um homem comum com um charme comum. — Bem, espero que desfrute do nosso jantar esta noite. Meu marido, Carmadon, esteve bem ocupado preparando tudo.
O quê? Só consigo piscar. É claro que não. Entendi errado. Minhas bochechas queimam, prateadas de vergonha. Não posso negar que meu coração pula no peito, e uma onda de adrenalina me percorre só para morrer em um segundo. Não adianta desejar o impossível.
Mas o primeiro-ministro move a cabeça, no mais leve aceno.
Não entendi errado, e ele não explicou mal.
— É outra coisinha que temos permissão de fazer aqui em Montfort, princesa Evangeline.
Ele solta meu braço sem qualquer cerimônia, acelerando o passo para abrir alguma distância entre nós. Sinto o coração batendo forte. Ele está mentindo? O que disse é ao menos possível? Para minha perplexidade, lágrimas se acumulam em meus olhos e sinto um aperto no peito.
— Diplomacia nunca foi seu forte.
Cal se assoma sobre meu ombro. Sua avó está sussurrando com um lorde Iral mais para trás.
Viro a cabeça, me escondendo por um momento em uma cortina de cabelo prateado. Só o bastante para recuperar o mínimo de controle. Por sorte, ele está ocupado olhando para Mare, acompanhando seus movimentos com um desejo digno de pena.
— Então por que me escolheu? — retruco, esperando que sinta cada centelha da minha raiva e da minha dor. — Por que tornar alguém como eu uma rainha quando não serei nada além de um espinho ao seu lado?
— Se fazer de desentendida também não é seu forte, Evangeline. Você sabe como as coisas funcionam.
— Sei que você teve escolha, Calore. Dois caminhos. E escolheu aquele que levava diretamente a mim.
— Escolha — ele ladra. — Vocês mulheres adoram essa palavra.
Reviro os olhos.
— Bem, parece que é algo desconhecido a você, que fica culpando tudo e todos por uma decisão que tomou.
— Uma decisão que tive que tomar. — Ele vira para mim, com os olhos brilhando. — Ou o quê? Acha que Anabel, seu pai e o resto do mundo teriam feito uma aliança com os vermelhos? Sem conseguir nada em troca? Acha que não teriam encontrado outra pessoa para o meu lugar, alguém pior? Se for eu, pelo menos posso…
Paro firme à sua frente, e ficamos cara a cara. Meus ombros estão abertos, prontos para a batalha. Uma vida de treinamento faz meus músculos endurecerem.
— O quê? Melhorar as coisas? Quando a luta acabar, acha que vai poder sentar no seu novo trono, brincar com suas chamas idiotas e mudar o mundo? — Eu o meço com deboche, meus olhos percorrendo de suas botas até a testa. — Não me faça rir, Tiberias Calore. Você é uma marionete, tanto quanto eu, mas pelo menos teve a chance de cortar os fios.
— E você não?
— Eu cortaria, se pudesse — sussurro, e acho que estou sendo sincera. Se Elane estivesse aqui, se de alguma forma pudéssemos ficar…
— Quando… quando vier a hora e tivermos que casar… — Ele se atrapalha com as palavras. Os Calore não costumam titubear. — Vou tentar facilitar as coisas tanto quanto possível. Visitas oficiais, reuniões. Você e Elane podem fazer como quiserem.
Um arrepio percorre meu corpo.
— Desde que eu cumpra minha parte do trato.
A perspectiva desagrada a nós dois, e desviamos o olhar.
— Não vou fazer nada sem seu consentimento — ele murmura.
Ainda que não esteja surpresa, certo alívio floresce no meu coração.
— Eu cortaria algo fora se tentasse.
Cal oferece uma risada fraca, pouco mais que um suspiro.
— Que confusão — ele murmura, tão baixo que talvez não esperasse que eu ouvisse.
Respiro fundo, trêmula.
— Você ainda pode escolhê-la.
As palavras pairam no ar, torturando nós dois.
Ele não responde, só fica encarando as próprias botas. No jardim, Mare mantém as costas para ele, seguindo no encalço de sua irmã. Apesar da cor diferente de cabelo, noto uma semelhança. Seus movimentos são parecidos. Cuidadosos, calmos, deliberados, como ratos. A irmã colhe uma flor no caminho, um botão verde-claro com pétalas vibrantes, e a coloca no cabelo. Observo enquanto o vermelho alto que Mare insiste em arrastar para toda parte faz o mesmo. Ele parece tolo com a flor atrás da orelha, e as duas irmãs riem. O som ecoa até nós, parecendo uma provocação.
Elas são vermelhas. São inferiores. E estão felizes. Como pode ser?
— Para de choramingar, Calore — solto por entre os dentes cerrados. O conselho vale para nós dois. — Você forjou sua própria coroa. Agora use-a. Ou desista.

24 comentários:

  1. Ahhhhhh, um amor por esse livro!

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  2. Omfg tantos sentimentos contraditórios em relação à Evangeline!!

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  3. Jesus!!!!
    "Você forjou sua própria coroa, agora use-a. Ou desista."
    Eu já tinha visto essa frase, mas o jeito que ela foi usada impõe ainda mais impacto!!!
    Acho que morro até o final do livro.... Se não de ancorado, de curiosidade ou de tiros, pq meo dels!!!!

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  4. To adorando cada vez mais a Eve, por mais q eu queira q ela saia do caminha para a Mare poder se casar com o Cal, e ele escolher a Mare, eu gosto muito dela!!! Eu sri q eka n tem culpa disso, os culpados disso são Volvo Samos e Anabel Calore, esses troxas, eles tem q morrer!!!
    #tristepaleMeraepeloCal😭😭😢
    Chorando baldes

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  5. Karina tu sabe quantas paginas tem esse livro? Eu to curiosa desde quando comecei a ler o livro pq ja estou lendo um outro aq no seu blog mas ai esse último chegou e só falta ele pra mim acabar a saga kkkkkkkkkk

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    1. Ih, tem mais de 700! Mas é fácil de ler, flui bem

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    2. Uau, muito obrigada karina. Eu percebi q é realmente fácil de ler, pois acabei esses dias

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  6. Amei❤❤ Karina muito obrigada por postar

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  7. a cada capitulo gosto mais de eve
    ASS: Janielli

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  8. Peeta, o garoto do pão5 de junho de 2018 11:47

    MENTALIDADE REVOLUCIONÁRIA:

    "Casamento não tem nada a ver com desejo — rebato. — É para herdeiros e ninguém mais."

    "Então o que deseja lhe é negado por causa de quem é. Uma escolha que não foi sua, uma parte de você que não pode mudar. E que não quer mudar."

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  9. OMG!!! Montfort vai conquistar até Evangeline?!!! Chocada... Mas eu tô amando demais esse livro (até agora - que continue assim!)!!!

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  10. #MONTFORTMELHORPAIS

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  11. Evangeline é muito irritante quando dá uma de perfeita e melhor coisa que aconteceu na vida de alguém... Gostei do jeito que o Davidson diminuiu o ego dela...

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  12. Se ela não fosse tão racista, eu gostaria mais dela.

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  13. Olha a Eve sendo tentada!!! GENTE!!!

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  14. Montfort me lembra muito Velaris de ACOTAR ❤

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  15. Meu, só eu q tive vontade de gritar c esse capitulo? COMO ASSIM? Davdson gay? Entrei em choque, sei lá... e a reação da Evangeline? Nossa muito bom. Adorei essa, dá um ar ainda maior de liberalidade e igualdade, mas meu, sério. PRA QUE LIVRO MELHOR? (eu gritaria se não fosse cinco horas da manhã ksksksks)

    -MARE CALORE

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  16. N gosto muito da Evangeline....tanto pelo preconceito quanto pelo resto dela...slá, n gosto....mas bora ver

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  17. Karina sei q nao tem nada a ver com o livro mas tu pode me diz se ja tem previsão pra quando vão postar Corte de Névoa e Fúria???
    Por favor, eu preciso muito saber pq la no blog 2 so postaram o primeiro 😭😭

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  18. Gente eu realmente to amando a ever narrando e amando ela também. 😍😍😍😍

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  19. Puta merda, odeio esse instinto de soberania desses prateados

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Boa leitura, E SEM SPOILER!