2 de junho de 2018

Capítulo quinze

Evangeline

ANABEL ENROLA COM TALENTO enquanto esperamos por seu neto pouco pontual. Não sei se peço uma aula ou se a cravo na parede com o aço do meu trono.
Há cerca de doze pessoas na sala, apenas as necessárias para um conselho de guerra. Vermelhos e prateados — Guarda Escarlate e agentes de Montfort ao lado das Casas nobres de Rift e de Norta. Não importa quantas vezes eu olhe, não consigo me acostumar com a visão.
Nem meus pais. Minha mãe está encolhida em seu trono de esmeraldas, como uma de suas cobras. Usa seda preta e joias brutas, parecendo incompleta sem um predador de estimação no colo. Talvez a pantera esteja indisposta hoje. Ela mantém a cara fechada, enquanto Anabel traça círculos com seus passos.
Meu pai, por outro lado, permanece atento, seu foco concentrado totalmente em Anabel. Na tentativa de pressioná-la. A chefe da Casa Lerolan não cede, o que é digno de nota. Sou magnetron. Reconheço aço quando vejo. E ela tem aço nos ossos.
— Tiberias VII precisa de uma capital. Um lugar onde fincar sua bandeira. — Ela faz uma pausa, para aumentar o efeito das palavras, enquanto anda de um lado para o outro e inspeciona a sala do trono. Tenho vontade de gritar: Vamos logo, sua velha!
O que ela deveria mesmo fazer é ir atrás do Cal, onde quer que esteja, e trazê-lo para cá pelas orelhas. Perdemos a base de Piedmont, e esta é uma reunião do conselho de guerra dele, sem falar que estamos na corte do meu pai. Nos deixar esperando não é só grosseria: é uma falha política. E um desperdício do meu tempo precioso.
Ele deve estar discutindo com Mare de novo, enquanto finge não olhar para os lábios dela. O príncipe é terrivelmente previsível, e imagino que os dois vão acabar reatando seu relacionamento não lá muito secreto. Será que eu vou ter que vigiar a porta?, ironizo comigo mesma.
Num lampejo, vislumbro a vida que ele quer para todos nós. A vida a que nos sujeitaria. A coroa na minha cabeça, o coração na mão dela. Meus filhos ameaçados o tempo todo por qualquer filho que ela venha a ter. Meus dias ocupados em ceder à vontade dele, ainda que seja gentil ao manifestá-la. Não importa quantos dias eu queira passar com Elane, desde que possa passar os dele com Mare.
Se ao menos ele a quisesse mais. Se ao menos eu pudesse fazê-lo querê-la mais. Como eu disse a Mare em Corvium, Cal não é do tipo que abdica. Você também não era, lembro a mim mesma. Até sentir o gostinho do outro lado.
Ao pensar nisso, sinto um nó nas entranhas. Empolgada, esperançosa e… exausta. Já estou irritada com a perspectiva de me enrolar com Cal e Mare ainda mais. Mesmo que seja pela minha própria felicidade.
Pare de reclamar, Samos.
Quando a general Farley e Mare finalmente entram na sala, com Cal logo atrás, suspiro. Mare não é desprovida de beleza, mas não é nenhuma beldade. Cal deve gostar disso. De um acabamento mais bruto. Calor, sujeira debaixo das unhas, gênio forte. Não enxergo atrativo. Mas ele deve enxergar.
— Ah — Anabel diz, girando graciosamente sobre os saltos. — Majestade.
Seu rosto relaxa aliviado quando chama Cal para se juntar a ela diante dos tronos. O resto da câmara observa.
— Que gentileza da sua parte se juntar a nós, rei Tiberias — meu pai diz. Ele passa a mão pela barba prateada, puxando os fios. — Certamente sabe da situação periclitante.
Cal se curva, surpreendendo a todos. Reis e rainhas de sangue prateado não se curvam, nem mesmo uns aos outros. Mas ele o faz.
— Mil perdões, fui retido — Cal diz, sem acrescentar mais nada. E sem nos dar chance de fazer perguntas, acenando de imediato para que Farley dê um passo à frente. — Creio que a general Farley tenha boas notícias pelo menos.
— Comparadas à perda da nossa base em Piedmont? — meu pai desdenha. — Assim como a perda de qualquer influência que tínhamos sobre o príncipe Bracken? Devem ser notícias muito boas.
— Considero o resgate de mais de cem dos nossos em Piedmont boas notícias, senhor — ela diz, também se curvando, mas numa reverência rápida e deplorável. — A Guarda Escarlate e nossos aliados de Montfort deixaram uma tropa exígua em Piedmont. Restavam poucos soldados na base quando Bracken atacou. Segundo nosso serviço de inteligência, pelo menos um terço conseguiu chegar aos pântanos. A Guarda Escarlate dispõe de contingente em toda a região; somos mais do que capazes de resgatar e transportar os que escaparam em segurança.
— Quantos mortos vocês estimam? — Anabel pergunta, cruzando as mãos.
— Cem — Farley responde com dificuldade, como se pudesse passar correndo pela informação. Mas parece se arrepender, pois repete, mais devagar: — Cem mortos.
— Perdemos mais em Corvium — digo, tamborilando os dedos. — Uma troca dura, com certeza — acrescento, fingindo compaixão para que a vermelha não entre numa espiral de fúria.
— Será difícil avançar sem a base — Ptolemus acrescenta, chamando atenção para o ponto mais óbvio de todos. Às vezes acho que ele só quer ouvir a própria voz, mesmo em situações como esta.
— É verdade — Cal diz. — Ainda temos Rift e todos os seus recursos, mas perdemos duas das nossas conquistas em questão de semanas. Primeiro Corvium…
— Escolhemos destruir Corvium; não perdemos nada — Mare se intromete, encarando-o cheia de veneno. Posso apostar que está feliz por se ver livre daquela cidade.
Cal concorda com a cabeça, mas parece contrariado.
— E agora Piedmont — ele retoma. — Não passa muito uma imagem de força, sobretudo para as Casas ainda aliadas a Maven que talvez possam ser trazidas para o nosso lado.
Minha mãe se inclina para o lado no trono, os dedos cintilando com as joias.
— E Montfort? — ela arqueia a sobrancelha, vasculhando a sala. — Me disseram que tivemos êxito nas negociações para usar seus exércitos.
— Não conto meus soldados antes de estarem enfileirados — Cal responde, mais áspero do que deveria. — Confio que o primeiro-ministro Davidson vai cumprir o que seu governo promete, mas não vou tomar decisões baseadas em recursos que ainda não podemos ver.
— Você precisa de uma capital — Anabel diz, repetindo sua ladainha de sempre. Ela recomeça a andar de um lado para o outro, suas vestes reais vermelhas e laranja combinando com a luz do crepúsculo lá fora. — A cidade de Delphie servirá. A sede da Casa Lerolan apoiará o rei legítimo.
Cal evita seu olhar.
— É verdade, mas…
— Mas? — ela dispara, parando no ato.
Ele joga os ombros para trás, seguro de si.
— É fácil demais.
Como uma verdadeira avó, Anabel lhe dá um tapinha no braço, tal qual quem ensina a uma criança de dois anos alguma lição de vida piegas.
— Nada na vida é fácil, mas temos que aproveitar as folgas que ela dá, Tiberias.
— O que quero dizer é que não significa nada — ele responde, escapando da mão dela. — Nada para o povo de Norta, nada para nossos aliados, e com certeza nada para nossos inimigos. É um movimento vazio. Esperado. Delphie já é minha, só preciso hastear a bandeira e proclamar isso.
— É — ela diz, piscando. — Por que jogar fora um presente desses?
Ele suspira, um pouco exasperado, e eu sinto o mesmo.
— Não estou jogando fora. O presente já foi dado. Você tem razão: precisamos de uma fortaleza, de preferência em Norta. Outra vitória para provar nossa força. Para pôr medo em Lakeland e Piedmont, como pusemos em Maven.
— Onde sugere? — pergunto, me inclinando para a frente. Quero deixar Tiberias desenvolver seu plano, pelo menos para acabar com esse espetáculo ridículo.
Ele acena com a cabeça para mim.
— Harbor Bay.
— Era o palácio favorito da sua mãe — Anabel balbucia ao lado dele, sem pensar. Cal não responde, como se não a ouvisse. — Mas é governada por famílias leais a Maven.
— É estratégica — ele argumenta.
A general Farley franze a testa.
— Mais um cerco e mais uma batalha que podem terminar com centenas de nós mortos.
— É onde está o Forte Patriota — Cal rebate. — Serve ao Exército, à Frota Aérea, à esquadrilha da Marinha. — Ele conta um por um nos dedos. Seu fervor é palpável, quase contagioso. Consigo entender o motivo de ter sido nomeado general tão jovem. Se eu fosse um simples soldado, se não tivesse experiência, talvez seguisse esse homem de bom grado até a morte. — Podemos estrangular uma parte grande das forças armadas de Maven, e talvez tomar parte dela no processo. No pior dos casos, conseguiremos repor o que perdemos em Piedmont. Armas, veículos, jatos. Está tudo lá para pegarmos. E a cidade em si é um caldeirão da Guarda Escarlate.
Meu pai arqueia a sobrancelha, quase sorridente, formando uma expressão selvagem.
— Sábia decisão — diz. O apoio parece tomar Cal de surpresa, mas não deveria. Conheço meu pai e vejo a fome de poder que sempre traz consigo. Aposto que já sonha com Harbor Bay espoliada, com uma bandeira Samos hasteada no alto da cidade. — Maven tomou um forte de nós. Tomaremos uma cidade dele.
Cal abaixa a cabeça.
— Exatamente.
— Se você conseguir tomá-la — Mare emenda, olhando para ele por cima do ombro. Seu cabelo castanho e cinzento gira com o movimento, reluzindo avermelhado no crepúsculo.
Ele inclina a cabeça, com a testa franzida.
— O que você está dizendo?
— Atacar Harbor Bay. Tentar tomar a cidade. É um risco que vale a pena correr. Mas, se fracassarmos, existe um outro jeito de dar um belo golpe nas forças de Maven.
Contra minha vontade, fico intrigada. Aliso a minha saia, com camadas onduladas de gotas de prata e seda branca, ao me inclinar para ela.
— Como, Barrow?
Ela parece quase agradecida, abrindo um sorriso relutante para mim.
— Invadindo a Cidade Nova, a favela perto de Harbor Bay. Podemos libertar os vermelhos. É um centro industrial que abastece Norta tanto quanto qualquer forte prateado. Se atingirmos a Cidade Nova, a Cidade Cinzenta, a Cidade Alegre…
De novo, meu pai é pego de surpresa.
— Você quer acabar com os centros de técnicos? — ele cospe as palavras como se ela tivesse dito para cortar o próprio coração.
Mare Barrow se mantém firme sob o olhar confuso dele.
— Quero.
Anabel a encara descrente, quase rindo.
— E depois que a guerra tiver acabado, srta. Barrow? Vai pagar para reconstruí-los?
Mare quase morde a língua para segurar uma resposta súbita e grosseira. Ela respira fundo, tentando assumir uma postura semelhante à calma.
— A destruição delas pode significar a vitória — diz devagar, ignorando as perguntas de Anabel. — Ganhar o país.
O olhar de Cal muda, e ele meneia a cabeça devagar. Concorda com ela porque tem razão — ou porque ainda é um cãozinho apaixonado.
— Desmontar pelo menos um centro já vai comprometer muito a capacidade de contra-ataque de Maven, disseminando dúvidas entre seus apoiadores. Se os vermelhos nos virem como libertadores, não vão deixar de nos ajudar — ele diz. — Se somarmos a isso a tomada do Forte Patriota, meu irmão poderia perder o controle de tudo a norte de Harbor Bay, até a fronteira com Lakeland. — Pensativo, ele encara a avó, assumindo uma postura mais aberta com ela. — Podemos tomar a região inteira. E espremer Maven entre nossa já leal Delphie, Rift e a nova conquista.
Visualizo o mapa de Norta na cabeça, ou como era um ano atrás. Imagino linhas dividindo o território, como uma torta sendo fatiada. Um pedaço para nós, dois para Cal. E o resto? Meus olhos se detêm na general vermelha e em Mare Barrow. Penso naquele primeiro-ministro insuportável a mais de mil e seiscentos quilômetros de distância. Que pedaço eles vão pegar?
Sei o que querem, pelo menos.
A torta inteira.


Ptolemus faz todo um teatro enquanto rumina minha proposta. Ele corre o dedo pela borda do copo de água, fazendo o cristal cantar. O som é assustador, um eco etéreo que entremeia nosso jantar. Meu irmão tem um queixo grande e largo, com o nariz comprido do meu pai e a boca minúscula como um botão de rosa da minha mãe. Parece mais com ela a essa luz, com olheiras cada vez maiores e as bochechas sulcadas. Suas roupas são frescas e casuais para seu estilo: linho puro e branco, leve o bastante para o verão.
Elane o observa brincar com o copo incomodada, o canto dos lábios retorcido. A luz evanescente reflete em seu cabelo, criando uma auréola rubi que é melhor do que qualquer coroa. Ela vira o vinho, manchando os lábios com amoras, uvas e ameixas.
Me contenho, deixando minha taça intocada. Geralmente, um jantar tranquilo longe dos meus pais e dos olhos curiosos da corte reunida é desculpa para beber o quanto quiser, mas tenho negócios a tratar.
— É um plano idiota, Evangeline. Não temos tempo para brincar de cupido — Ptolemus murmura, parando de deslizar o dedo na borda do vidro. — Harbor Bay pode ser o fim de todos nós.
Estalo a língua.
— Não seja covarde. Você sabe que papai não arriscaria nossas vidas num cerco fadado ao fracasso.
Somos investimentos valiosos, Tolly. O legado dele depende da nossa sobrevivência.
— Se Cal ganha Harbor Bay ou não, não me interessa — concluo.
— Temos tempo ao menos — Elane argumenta. Ela me encara com seus olhos escuros que brilham como estrelas cadentes num céu safira. — Uma movimentação sem as tropas de Montfort não é possível. E ainda temos que equipar nossos próprios soldados e preparar o cerco.
Deslizo a mão por baixo da mesa para sentir a maciez da seda sobre o joelho dela.
— É verdade. E não estou propondo que a gente ignore a guerra, Tolly. Só acho que podemos dividir a atenção. Olhar para outro lado quando possível. Dar um empurrãozinho nas peças no tabuleiro de xadrez.
— Um empurrãozinho na direção da cama, você quer dizer — Ptolemus replica com um sorriso seco. Ele solta o copo de água e pega a taça bojuda com um licor claro e ardente acompanhado de gelo. — Acha que sou capaz de influenciar Mare Barrow sem acabar com a garganta cortada? — pergunta, dando um gole corajoso. Meu irmão estremece e puxa o ar pelos dentes. — É melhor eu ficar longe dela.
— Concordo. — Barrow prometeu deixar meu irmão vivo, mas confio cada dia menos nessa promessa. — Mas você pode ficar de olho em Cal. Eu pensava que ele era obstinado, que estava completamente dedicado à conquista de Norta, mas… podemos ter uma oportunidade de impedir isso.
Meu irmão dá outro gole.
— Não somos exatamente amigos.
Dou de ombros.
— Mas podem ser. Pelo menos estavam perto disso um ano atrás.
— E que ano foi esse — ele murmura, examinando seu reflexo na faca. Seu rosto não mudou, a guerra não diminuiu sua beleza, mas tantas coisas são diferentes agora. Um novo rei, um novo país, novas coroas para nós dois. E uma montanha de problemas atrelados a cada um desses itens.
O período tumultuoso valeu o preço pago, pelo menos para mim. Um ano atrás, eu estava treinando mais duro do que nunca, em preparação para a inevitável Prova Real. Mal conseguia dormir por medo de perder, mesmo que a vitória fosse praticamente garantida. Minha vida estava decidida, e eu sentia prazer em saber o que estava por vir. Em retrospecto, me sinto uma tonta, enxergo a marionete que era. Empurrada para um homem que jamais seria capaz de amar. E aqui estou eu, presa nesse mesmo lugar. Porém mais esperta. Posso lutar. E talvez possa fazer Cal enxergar a verdade como eu enxerguei. Ver o que nossos mundos são, os acordes segundo os quais todos dançamos.
Ptolemus cutuca aqui e ali a refeição especialmente preparada para ele, composta de frango magro pouco temperado, legumes murchos e peixe branco. Tudo permanece praticamente intocado. Em geral, ele engole suas comidas insossas e saudáveis, como se assim pudesse disfarçar a falta de sabor. O prato de Elane, por outro lado, está limpo, sem qualquer vestígio das costeletas de cordeiro ao vinho que compartilhamos.
— De fato — ela diz. Sua voz sai baixa e comedida. Tento ler seus pensamentos, sua expressão cuidadosamente calculada. Será que está recordando nossa vida um ano atrás? Quando pensávamos que seríamos felizes juntas sob o trono de Norta, vivendo um futuro construído sobre nossos segredos? Como se nossa relação já tivesse sido um segredo para qualquer pessoa com um par de olhos…
— E eu? — Elane insiste, pondo a mão sobre a minha. Sua pele quente compensa perfeitamente a minha. — Qual vai ser o meu papel nisso?
— Você não vai ter que fazer muita coisa — respondo, quase rápido demais.
Elane aperta minha mão.
— Não seja boba, Eve.
— Muito bem — digo, rangendo os dentes. — Faça o que fazia antes então.
Os sombrios são espiões perfeitos, muito apropriados para as intrigas de uma corte real. Podem ouvir e observar na segurança de seu escudo de invisibilidade. Não gosto da perspectiva de usá-la em qualquer função que possa ser perigosa, mas como ela mesma disse, temos tempo. Estamos na mansão Ridge. Elane não poderia estar mais segura nem se eu a trancafiasse nos meus aposentos.
O que não seria má ideia…
Ela abre um sorrisinho e afasta o prato, meio de brincadeira.
— Estou dispensada?
Aperto mais a mão dela, sorrindo.
— Pode pelo menos terminar o vinho. Não sou completamente desprovida de coração.
Com um sorriso que me tira o fôlego e faz meu coração disparar, ela se inclina para mim, seus olhos se demorando nos meus lábios.
— Conheço muito bem seu coração.
Do outro lado da mesa, Ptolemus termina a bebida e chacoalha o gelo.
— Continuo aqui — ele resmunga, desviando os olhos.


Temos pelo menos uma semana, senão duas, até Davidson voltar com seu exército. Tempo suficiente para eu fazer o que posso, com a vantagem adicional de estar no meu próprio território. Cal e Mare querem um ao outro, não importa quantos obstáculos haja no caminho. Ele só precisa de um empurrãozinho. Uma única palavra dela faria com que disparasse para o seu quarto. Mare, por outro lado, vai ser infinitamente mais difícil, sendo tão apegada a seu orgulho, sua causa e essa fúria constante e persistente que arde em seu peito. Claro, forçar os dois a voltar é apenas a primeira metade da empreitada. Preciso que Cal tome consciência, como eu tomei, do peso de um coração. De como é maior do que o de uma coroa.
Uma partezinha de mim se pergunta se isso é impossível. Talvez ele nunca desperte como eu. Suas escolhas podem estar gravadas em pedra. Mas não pode ser verdade. Noto o jeito como ele a olha e não vou desistir tão fácil. Queria poder resolver tudo isso com meus punhos e uma faca. Aí sim seria prazeroso.
Para ser sincera, qualquer coisa seria mais prazerosa do que circular pela mansão Ridge ao anoitecer, à procura de Mare Barrow. É entediante.
Elane está em algum lugar do outro lado da propriedade, de olho na general Farley, enquanto Ptolemus realiza sua rotina de exercícios na arena de treinamento. Uma rotina que casa lindamente com o cronograma de Cal. O futuro rei é muito comprometido com seus exercícios, especialmente agora que não pode queimar suas energias com a garota elétrica.
Atravesso os corredores da galeria, passando os dedos pelas estátuas de aço escovado e cromo polido. Cada uma delas responde ao meu toque, ondulando como a água perturbada de um lago calmo. Do lado de fora, o céu muda para roxo e as estrelas despontam para a vida. A cidade de Pitarus brilha a vários quilômetros de distância. Um lembrete de que o mundo segue. Vermelhos e prateados comuns vivem sob a sombra crescente da guerra. Me pergunto como deve ser ler sobre as batalhas, ouvir falar de cidades despedaçadas, sem fazer parte do conflito. Sem qualquer influência sobre ele. Impotente caso a guerra bata à sua porta.
E ela certamente baterá.
Esta guerra tem muitos lados, e não há como parar o que já começou. Norta será uma carcaça em decomposição algum dia, com Rift, Lakeland, Montfort, Piedmont e quem mais sobrar uivando sobre ela.
Saio para um dos terraços superiores, me deparando com a escuridão a leste. Um friozinho paira no ar, e concluo que vamos encarar uma frente fria de verão antes do fim da semana.
Barrow não está a sós quando a encontro, para minha tristeza. Ela levanta os olhos para as estrelas enquanto o garoto vermelho espreguiça os braços longos ao seu lado, sem qualquer preocupação com a aparência. É como um emaranhado de cabelo loiro e pele queimada pelo sol.
Kilorn é o primeiro a me ver, apontando o queixo arredondado na minha direção.
— Temos companhia.
— Oi, Evangeline — cumprimenta Mare. Seus joelhos estão encolhidos contra o peito. Ela não se move: seu rosto permanece voltado para o céu e para a crescente luz das estrelas. — A que devemos a honra? — Mare pergunta com a voz arrastada.
Dou uma risadinha e faço uma pausa para me encostar no parapeito que cerca o terraço. Arisca até o fim.
— Estou carente de distrações.
Mare chacoalha a cabeça, entretida.
— Pensei que Elane servisse para isso.
— Ela tem a própria vida — pondero, dando de ombros de um jeito forçado. — Não posso esperar que esteja à minha disposição o tempo todo.
— Você passou todo aquele tempo fazendo de conta que não sentia falta dela, e agora que voltamos continua fingindo. E ainda por cima vem me importunar. — Sagaz, Mare olha para mim por um segundo, e seus olhos castanhos parecem pretos contra a noite cada vez mais intensa. Então, volta a olhar para as estrelas. — O que você quer?
— Nada. Não me interessa saber para onde você e Cal fugiram hoje, ou por que se atrasaram tanto para uma reunião sobre a sobrevivência do nosso povo.
Ao lado dela, o vermelho fica tenso, franzindo a testa.
Mare tenta não morder a isca e ignora a insinuação. Apenas me dispensa com a mão.
— Não foi nada de mais.
— Bom, se quiser, posso mostrar algumas passagens para você. Meios de se mover pela mansão sem ser vista. Para quando não quiser fazer nada de mais com Cal. — Inclino a cabeça para o lado, examinando-a enquanto finge não me ouvir. — Cal dorme na ala leste, perto dos meus aposentos, caso esteja interessada.
Mare levanta a cabeça com tudo.
— Não estou.
— Claro — respondo.
O vermelho me encara furioso, seus olhos assumindo um tom verde-escuro, da cor das esmeraldas mais arrebatadoras da minha mãe.
— É isso que você considera distração? Provocar Mare?
— Não mesmo. Só queria saber se ela estava a fim de treinar.
Mare fica boquiaberta.
— Como é?
— Pelos velhos tempos.
Ela bufa, como se estivesse irritada. Mas noto a inquietação familiar. A necessidade. Bem no meio das entranhas, implorando para se expandir. Barrow olha para os pés, pisca devagar. Esfrega uma mão na outra, alisando as palmas. Imaginando os raios, sem dúvida.
Há um prazer especial em usar nossos poderes por diversão, e não por sobrevivência.
— Quase derrotei você duas vezes, Evangeline — Mare diz.
Abro um sorriso.
— Agora é o tira-teima.
Ela me olha intensamente, incomodada pela fome dentro de si.
— Certo — solta por entre os dentes cerrados. — Uma luta.


Cal também está na área de treino, só que nem Mare nem Kilorn sabem disso.
O garoto vermelho nos segue espumando, mas não faz nada para impedir Barrow enquanto eu a conduzo até lá.
As paredes são de vidro, bem parecidas com as outras de Ridge. Pela manhã, oferecem uma vista panorâmica do nascer do sol. É o lugar perfeito para treinar bem cedo. Agora, a vista dá para a escuridão — um azul vago, contundente, que vai passando para o preto. Ptolemus e Cal estão em pontas opostas do lugar, um ignorando o outro. Meu irmão realiza uma série de flexões perfeitas, as costas esguias bem retas. Wren está ali perto, sentada na área elevada de observação. Deve ser a curandeira de plantão, mas sua atenção está fixa em meu irmão e seus músculos flexionados. Eu poderia cravar uma lança no peito de Cal e ela nem piscaria.
O pretendente ao trono não nos vê enquanto passa uma toalha no cabelo e no rosto suado. Percebo que Mare vira uma estátua ao meu lado, como se tivesse sido congelada. Ela arregala os olhos ao percorrer a silhueta de Cal. Não consigo evitar um sorriso ao notar a umidade grudada nas costas e nos ombros dele. Se sentisse alguma atração por Cal — ou por qualquer homem, na verdade —, talvez fosse capaz de compreender por que Mare parece prestes a desmaiar.
Pelo menos parte do plano está funcionando. Barrow claramente não tem objeções ao corpo de Cal.
— Por aqui — digo, tomando seu braço.
Cal se vira na direção da minha voz, com a toalha ainda na mão. Fica surpreso ao nos ver. Bom, ao ver Barrow.
— Estou quase acabando — ele consegue dizer.
— Fique o tempo que quiser. Não faz diferença para mim — Mare replica, com voz e expressão absolutamente neutras. Ela me deixa conduzi-la adiante sem reclamar, mas seu braço se move rápido. Os dedos se enterram na minha pele, as unhas cravando em mim num alerta.
— Kilorn — ouço Cal cumprimentá-lo atrás de nós, provavelmente com um aperto de mão.
Ptolemus levanta os olhos de onde está, mas não diminui o ritmo. Dou-lhe o mais discreto aceno de cabeça, satisfeita com nossas maquinações. O olhar dele passa de mim para Mare.
Ela o retribui com uma expressão assassina que faz meu sangue gelar.
Tento não tremer. Tento não pensar no meu irmão sangrando como o dela, caindo morto por nada.
Recomponha-se, Samos.

6 comentários:

  1. Nunca te amei tanto Envangeline...😄😄😄

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    1. Verdade!!! Desabafo: estou amando esta série (Obrigada Karina!!!), mas este livro é muuuuuuiiiito bom meixmo!!!! Nenhum capítulo me decepcionou ou deixou de me surpreender. Imagine o que vem pela frente..

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  2. Vivemos para ver a Evangeline ser o cupido de Care. Agora uma observação sobre o Cal que ele é uma marionete nas mãos de todos principalmente daquela avó ordinária não restam dúvidas, mas já perceberam que ele é do tipo que não se compromete? Cal é do tipo que só toma uma atitude quando a corda já está a um triz de ser puxada no seu pescoço.

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  3. Até que ela não é uma completa vadia como eu imaginava

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  4. Mare fique com o Kilorn, fique com Tyton, fique até mesmo com Ibarem, mais plis, deixa o Cal pra lá, ele n vale mais a pena. O Cal meio que se tornou um Chaol da vida. Os nome até se parecem. É destino. É fato. Esquece o Cal gata ; )

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Boa leitura, E SEM SPOILER!