2 de junho de 2018

Capítulo quatro

Iris

A ÁGUA DA BAÍA BATE EM MEUS tornozelos expostos, refrescante, revigorante. Faz frio antes do sol nascer, mas mal noto. Essa simples sensação é como um santuário.
Conheço essas águas tão bem quanto meu próprio rosto. Posso senti-las muito além dos meus pés, o pulso da mais leve corrente, a menor ondulação no rio que alimenta a baía, e a baía alimentando o lago. A luz incipiente da alvorada sangra na superfície suave. O reflexo se distorce em traços azul-claro e cor-de-rosa. A calmaria permite esquecer quem sou, mas não por muito tempo. Sou Iris Cygnet, nascida princesa e transformada em rainha. Não posso me dar ao luxo de esquecer qualquer coisa, não importa o quanto eu queira.
Esperamos juntas, minha mãe, minha irmã e eu, com a atenção fixa na face sul do horizonte. Uma neblina baixa toma conta da boca estreita da baía, ocultando a península pontilhada por torres de vigia e o lago Eris mais adiante. Algumas luzes das torres piscam em meio à névoa, como estrelas baixas. Conforme ela se movimenta, levada pelo vento, mais e mais torres se tornam visíveis. Estruturas elevadas de pedra, aprimoradas e reconstruídas uma centena de vezes em centenas de anos. As torres viram mais guerra e ruína do que os historiadores podem contar. Suas luzes flamejam, muitas ainda vívidas tão perto do amanhecer. Os faróis continuarão acesos o dia todo, as tochas queimando e as luzes elétricas brilhando. As bandeiras que balançam ao vento são diferentes das que normalmente são vistas em Lakeland. Cada torre exibe o azul com faixas pretas.
Para honrar os muitos mortos em Corvium. Para lamentá-los.
Para se despedir do nosso rei.
Derramei muitas lágrimas ontem à noite. Não achei que me restasse mais nenhuma, mas elas ainda vêm. Minha irmã, Tiora, consegue se controlar melhor. Ela levanta o queixo, com o diadema brilhando na testa. É uma armação de safira escura e âmbar preto. Embora eu seja uma rainha agora, minha coroa é muito mais simples, uma fileira de diamantes azuis pontuados por pedras vermelhas que simbolizam Norta.
Temos a mesma pele cor de bronze, as mesmas feições, com maçãs do rosto acentuadas e sobrancelhas arqueadas, mas seus olhos cor de mogno vieram da nossa mãe. Os meus são cinza como os de nosso pai. Tiora está com vinte e três, é quatro anos mais velha que eu e herdeira do trono de Lakeland. Eu costumava dizer que ela nasceu severa e quieta, odiava chorar, era incapaz de rir. Sua natureza séria a torna uma boa herdeira de nossa mãe. Tiora é muito mais habilidosa no controle das emoções, embora eu faça meu melhor para me manter tão parada quanto o lago. Minha irmã fixa o olhar à frente, com a coluna ereta e o orgulho que nem mesmo um funeral pode macular. Apesar de sua natureza estoica, até ela chora a perda de nosso pai. Suas lágrimas são menos evidentes, caindo depressa na baía que banha nossos pés. Ela é uma ninfoide, como o resto da família, e usa sua habilidade para afastar as lágrimas sem que deixem nenhum rastro. Eu faria o mesmo se tivesse essa força, mas não consigo reunir mais energia agora.
O mesmo não acontece com nossa mãe, Cenra, rainha de Lakeland. Suas lágrimas pairam no ar, uma nuvem de partículas de cristal que reflete a luz crescente da alvorada. Aos poucos, a nuvem cresce e as lágrimas giram constantes, brilhando rápidas, produzindo leves arco-íris em sua pele marrom. Pequenos diamantes nascidos de seu coração partido.
Ela está à nossa frente, com a água até os joelhos, as vestimentas de luto flutuando atrás de si. Como eu e Tiora, minha mãe usa principalmente preto, com detalhes em azul real. O vestido é refinado, feito de camadas intrincadas de uma seda leve, mas não tem forma, como se o tecido tivesse sido apenas jogado sobre seu corpo. Tiora se certificou de que eu e ela estivéssemos preparadas para o funeral, escolhendo joias e vestidos apropriados, mas minha mãe não se deu ao trabalho. Ela parece simples, com o cabelo solto formando uma trilha brilhante em tons de escuridão e tempestade. Nada de braceletes, brincos ou coroa. Uma rainha apenas na postura. E é o bastante. Fico tentada a me agarrar à sua saia como fazia quando era pequena. Poderia me segurar nela e nunca mais soltar. Nunca mais sair de casa. Nunca retornar à corte caindo aos pedaços em volta de um rei partido.
Pensar no meu marido me torna fria. E resoluta.
As lágrimas nas minhas bochechas secam.
Maven Calore é uma criança brincando com uma arma carregada. Se sabe atirar ou não, continua um mistério. Mas é certo que tenho alvos em mente, pessoas que posso apontar para ele. O prateado que matou meu pai, claro. Algum lorde Iral. Ele cortou sua garganta. Atacou-o por trás como se fosse um cão sem honra. Mas ele servia outro rei. Samos. Volo. Outro sem a menor inclinação à honra ou à dignidade. Ele se rebelou para conseguir sua coroa mesquinha, pelo direito de se considerar senhor de um canto insignificante do mundo. E não está sozinho.
Outras famílias de Norta ficaram ao seu lado, prontas para substituir Maven por seu irmão, o Calore exilado. Antes da morte do meu pai, eu não ligaria se meu marido de repente fosse deposto ou morto. Desde que a paz entre Norta e Lakeland permanecesse, que diferença faria para mim? Mas agora tudo mudou. Orrec Cygnet se foi. Meu pai morreu por causa de homens como Volo Samos e Tiberias Calore. O que eu não faria para enfileirá-los e afogá-los todos com minha fúria.
É exatamente o que vou fazer.
Barcos atravessam a neblina, movendo-se em silêncio. Os mastros me são familiares, as proas pintadas de prata e azul. Cada um tem um único deque. Não foram construídos para a guerra, mas para serem velozes e silenciosos, seguindo a vontade dos poderosos ninfoides. Seus cascos têm ranhuras feitas especialmente para seguir nossas correntes, como acontece agora.
Foi ideia minha mandar os barcos. Não conseguia suportar a ideia do corpo do meu pai sendo arrastado numa longa marcha desde Mour, a terra que em Norta chamam de Gargalo. Ele teria que passar por cidades demais no caminho, e as notícias de sua morte correriam à frente do horrível cortejo. Não, eu queria que ele voltasse para casa para podermos nos despedir primeiro.
E assim eu não perderia a coragem.
Ninfoides usando o azul de Lakeland, nossos primos do lado Cygnet, se amontoam no deque do primeiro barco. Dá para ver o sofrimento nos rostos sombrios, todos de luto como a gente. Meu pai era muito amado, ainda que fosse de um ramo menor da linhagem. É minha mãe que vem da realeza, descendendo de uma sequência ininterrupta de monarcas. Por isso não tem permissão para atravessar as fronteiras de nosso país, a não ser em casos de extrema necessidade. O mesmo acontece com Tiora, que, para preservar a linha de sucessão, não pode sair nem mesmo em caso de guerra.
Pelo menos as duas nunca terão o mesmo destino do meu pai, morrendo no campo de batalha. Ou o meu, vivendo meus dias tão longe de casa.
Não é difícil identificar meu marido em meio aos uniformes azul-escuros. Quatro sentinelas o acompanham, tendo trocado seus uniformes flamejantes por equipamentos táticos. Mas ainda usam as máscaras cravejadas de pedras preciosas escuras, lindas e assustadoras ao mesmo tempo. Maven usa preto, como sempre, destacando-se apesar da falta de medalhas, coroa ou insígnia. Nenhum monarca é tolo o bastante para marchar para a batalha com um alvo pintado no corpo. Não que eu ache que ele tenha lutado. Maven não é um guerreiro — pelo menos não no campo de batalha. Ele parece tão pequeno perto dos seus soldados e dos meus.
Fraco. Pensei o mesmo quando nos conhecemos e olhamos um para o outro de lados opostos do pavilhão, em meio a um campo minado. Ainda é um adolescente, pouco mais que um menino, um ano mais novo que eu. Mas sabe usar sua aparência a seu favor. Aproveita-se do que os outros pressupõem. Faz isso em seu próprio país, alimentando as pessoas com suas mentiras e sua falsa inocência.
Vermelhos e prateados de fora da corte acreditam nas histórias sobre seu irmão, o príncipe dourado seduzido por uma espiã e levado a cometer assassinato. Uma história suculenta, uma bela fofoca com que se deleitar. O fato de que encerrou a guerra entre nossos países só o torna mais querido. E o coloca em uma estranha posição. Trata-se de um rei apoiado pelo povo, mas não por quem está próximo dele. Não pelos nobres que o cercam. Eles permanecem ali porque precisam de Maven para preservar um reino em situação delicada.
E, por mais que eu odeie admitir, porque Maven é muito hábil no jogo da corte. Ele manipula bem os nobres, jogando umas Casas contra as outras. Tudo isso enquanto controla o restante da nação com mão de ferro.
A corte real de Norta é um ninho de cobras, agora mais do que nunca.
As maquinações de Maven nunca vão funcionar comigo, no entanto. Sei que não posso subestimá-lo. Principalmente agora, quando suas obsessões parecem governá-lo. Sua mente está tão estilhaçada quanto seu país. O que só o torna mais perigoso.
O primeiro barco chega à costa, o calado raso o suficiente para que atraque a alguns metros da minha mãe. Os ninfoides saem primeiro, pulando na água. Seus pés vão abrindo caminho na água, permitindo que pisem sobre o leito seco. Não por causa deles, mas de Maven.
Ele desce em seguida, pisando em terra firme tão rápido quanto pode. Ardentes como ele não gostam da água, e Maven olha para as paredes líquidas ao redor com desconfiança. Não espero compaixão quando passa por mim, com os sentinelas em seu encalço, e não me decepciono. Ele nem me olha. Para alguém conhecido como a Chama do Norte, seu coração é brutalmente frio.
Os primos Cygnet continuam próximos ao barco e soltam seu controle das águas da baía, que correm e incham antes de se levantar, como uma criatura erguendo a cabeça. Ou um pai se esticando para segurar o filho.
Soldados tiram uma prancha de madeira do deque, revelando uma vista familiar.
Não sou uma criança. Já vi cadáveres antes. Meu país está em guerra há mais de um século. Como a filha mais nova, a segunda a nascer, sou livre para entrar nos campos de batalha. Fui treinada para lutar, não para governar. É meu dever apoiar minha irmã como meu pai apoiou minha mãe, da forma que precisar.
Tiora reprime um raro soluço. Seguro sua mão.
— Calma como o lago, Ti — sussurro para ela, que aperta minha mão em resposta. Suas feições se contraem numa máscara neutra.
Os ninfoides Cygnet levantam os braços e a água acompanha o movimento, levantando-se também. Devagar, os soldados baixam a prancha e o cadáver enrolado em um único lençol branco. Ela flutua na superfície, se afastando suavemente do barco.
Minha mãe dá alguns passos à frente, afundando mais na baía. Ela para quando seus pulsos ficam submersos, e eu noto o movimento sutil de seus dedos curvados.
O corpo do meu pai vem boiando em sua direção, como se puxado por cordas invisíveis. Nossos primos marcham ao lado do rei, protegendo-o mesmo na morte. Dois deles choram.
Quando minha mãe toca o lençol, luto contra a vontade de fechar os olhos. Quero preservar as lembranças que tenho do meu pai, não as corromper com a visão de seu cadáver. Mas ia me arrepender depois. Respirando devagar, me concentro em manter a calma. A água envolve meus tornozelos, uma corrente gentil em redemoinho, igual à sensação de náusea no meu estômago. Foco nela, traçando círculos com a mente para impedir que o grosso do sofrimento extravase. Mantenho os dentes cerrados e o queixo alto. As lágrimas não retornaram.
Seu rosto está estranho, a cor drenada junto com a vida. Sua pele morena e macia, com poucas rugas apesar da idade, adquiriu um tom mais pálido, doentio.
Queria que estivesse apenas doente, e não morto. Minha mãe segura seu rosto, encarando-o com uma força que não consigo reunir. Suas lágrimas continuam a pairar como um enxame de insetos brilhando. Depois de um longo momento, ela beija suas pálpebras fechadas, passando os dedos por seus cabelos compridos e grisalhos. Então ela une as mãos curvadas acima do rosto dele. As lágrimas se aproximam e se acumulam ali. Finalmente, minha mãe as solta.
Quase espero que ele se retraia, mas meu pai não se move. Não pode mais fazê-lo.
Tiora é a próxima, e usa as mãos para pegar um pouco de água da baía e molhar o rosto dele. Ela se demora enquanto o estuda. Sempre foi mais próxima de nossa mãe, como sua posição exige. Isso não aplaca a dor, no entanto. Sua compostura vacila e ela se afasta, escondendo o rosto com a mão.
O mundo parece encolher enquanto me movo pela água, minhas pernas lentas e distantes. Minha mãe permanece ali perto, segurando o lençol que cobre o resto do corpo. Ela me encara, com o semblante imóvel e vazio. Conheço esse olhar. Eu o uso sempre que preciso mascarar a tempestade de emoções dentro de mim. Eu o usei no dia do meu casamento. Mas para esconder o medo, não a dor.
Não é igual.
Imito Tiora, despejando água sobre meu pai. As gotas rolam por seu nariz aquilino e suas bochechas, acumulando-se nos cabelos. Afasto uma mecha grisalha, de repente desejando cortar um cacho para guardar. Em Archeon, tenho um pequeno templo — uma espécie de santuário, na verdade — cheio de velas e emblemas desgastados de deuses sem nome. Por mais limitado que pareça, o pequeno recanto do palácio é o único lugar onde me sinto eu mesma. Gostaria de tê-lo comigo lá.
Um desejo impossível.
Quando me afasto, minha mãe se aproxima de novo. Ela leva as mãos abertas à prancha de madeira. Tiora e eu a imitamos. Nunca fiz isso antes, e gostaria de não ter que fazer. Mas é o desejo dos deuses. Volte, eles dizem. Ao que você é, à sua habilidade. Enterre um verde. Sepulte um pétreo em mármore e granito. Afogue um ninfoide.
Se eu ainda estiver viva quando Maven morrer, vou poder queimar seu cadáver?
Fazemos força para submergir a prancha com nossas mãos e nosso poder. Usamos nossos músculos e o peso da nossa corrente para afundar o corpo. Mesmo no raso, a água distorce seu rosto. O dia amanhece à minha esquerda, com o sol levantando de trás dos morros mais baixos. Ele reflete na superfície da água, me cegando por um momento.
Fecho os olhos e penso em meu pai como era.
Ele retorna ao abraço da água.


Detraon é uma cidade de canais, aberta por ninfoides no leito de pedras da extremidade oeste da baía. A cidade que costumava ficar aqui já não existe, levada pelas enchentes há mais de mil anos. Descendo o rio, ainda encontramos áreas enormes de destroços, engasgadas com as ruínas apodrecidas de outro tempo. Pó de ferro carcomido pela ferrugem se transforma em terra vermelha até hoje, e magnetrons fazem a colheita nesses campos como fazendeiros colhendo trigo.
Quando a água baixou, o local continuava sendo perfeito para nossa capital, por estar bem ao lado do Eris, com fácil acesso ao Neron por um estreito diminuto e o restante dos lagos mais além. De Detraon, através de hidrovias abertas tanto de maneira natural quanto por ninfoides, pode-se chegar rapidamente a qualquer ponto do nosso reino. Toda a extensão desde o Hud, no norte, às disputadas fronteiras ao longo do Grande Rio a oeste, e o Ohius ao sul. Nenhum senhor ninfoide pôde resistir, então ficamos aqui, tirando nossas forças e nossa segurança das águas.
Os canais são uma forma fácil de organização, cortando a cidade em setores rodeando os principais templos. A maior parte dos vermelhos mora no sudeste, longe da nossa abençoada água, enquanto o palácio e os nobres ficam na própria baía, com vista para aquilo que tanto amamos. O Bairro do Sorvedouro, como é comumente conhecido, ocupa o nordeste, onde os vermelhos mais abastados e os prateados menos importantes vivem lado a lado. Reúne principalmente comerciantes, mas também executivos, oficiais e soldados de hierarquia mais baixa, além de estudantes carentes das universidades do bairro nobre. Assim como vermelhos de estirpe ou que se fazem necessários. Trabalhadores habilidosos, em geral independentes. Criados com dinheiro ou importantes o bastante para morar nas residências prateadas, e não nas vermelhas. A administração da cidade não é meu forte, e sim de Tiora, mas faço o que posso para me inteirar a respeito.
Mesmo que me entedie, preciso no mínimo saber do que se trata. A ignorância é um fardo que não tenho a intenção de carregar.
Não usamos os canais hoje, já que o palácio fica próximo da baía. Ótimo, penso, desfrutando da caminhada familiar. Arcos se abrem nas paredes turquesa e douradas do bairro nobre, tão fluidos e suaves que só podem ser trabalho de prateados. Casas de família que conheço de cor surgem em toda parte, com as janelas abertas para a manhã, as cores de sua dinastia transmitidas pela brisa com orgulho. A bandeira vermelha dos Renarde, o jade da antiga e formidável linhagem dos tempestuosos Sielle — nomeio todos mentalmente. Os filhos e filhas que lutaram pela nova aliança. Quantos morreram ao lado de meu pai? Quantos deles eu conhecia?
Parece que vai ser um lindo dia, com o sol se erguendo no céu com nuvens esparsas. O vento que vem do Eris permanece, levantando meu cabelo com seus dedos leves. Fico esperando que o cheiro de decadência, destruição, derrota venha do leste. Mas só sinto o aroma das águas do lago e do verde do verão. Nenhum sinal do exército cambaleando atrás de nós, depois de derramar sangue nos muros de Corvium.
Nossa escolta, formada por soldados atentos de Lakeland e pelo contingente de Maven, se espalha. A maior parte dos nobres do meu marido ainda está com o exército, se movendo tão depressa quanto possível. Mas ele ainda tem seus sentinelas. Eles se mantêm próximos, assim como seus dois generais de mais alto escalão, cada um com seus próprios ajudantes e guardas. A general da Casa Greco tem cabelo grisalho e é estranhamente magra para uma forçadora, mas não há como deixar passar o extravagante emblema amarelo e azul em seu ombro. Tiora se certificou de que eu estudasse as principais linhagens de Norta, suas Casas, até que as soubesse tão bem quanto as nossas. O outro, o general Macanthos, com insígnia azul e cinza, é jovem, tem cabelo castanho-claro e olhos nervosos. Ele é novo demais para sua posição. Suspeito que tenha acabado de ser promovido, substituindo algum parente falecido.
Maven é esperto o bastante para ser deferente à minha mãe no país dela, e anda alguns passos atrás. Faço como esperam de mim, me mantendo ao lado dele. Não nos tocamos. Não damos as mãos, nem os braços. A regra é dele, não minha.
Maven não me toca desde o dia em que deixou Mare Barrow escapar. A última vez que nos tocamos foi um beijo frio enquanto uma tempestade se formava. Sou grata por isso, ainda que não o diga. Sei qual é meu dever como prateada, como rainha, como uma ponte entre nossos países. É o dever dele também, um fardo que supostamente devemos aguentar. Mas se ele não falar nada sobre um herdeiro, certamente não serei eu a puxar o assunto. Para começar, tenho apenas dezenove anos. Atingi a maioridade, claro, mas ainda tenho tempo de sobra. Desse modo, se Maven falhar, se seu irmão retomar a coroa, não precisarei ficar. Sem filhos, estarei livre para voltar para casa. Não quero nada que me ancore a Norta sem necessidade.
Nossos vestidos arrastam no chão, deixando um rastro molhado nas ruas largas. A luz do sol reflete nas pedras brancas. Meus olhos vão de um lado para o outro, absorvendo a imagem de um dia de verão na minha antiga capital. Queria poder parar como fazia antes. Sentar no muro baixo que divide a avenida e a baía. Treinar minhas habilidades despreocupada. Talvez até desafiar Tiora em uma disputa amistosa. Mas não há tempo nem oportunidade. Não sei quanto vamos ficar, ou quanto tempo tenho com o que resta da minha família. Tudo o que posso fazer é prolongar os momentos. Decorá-los. Tatuá-los na minha mente, como as ondas turbulentas nas minhas costas.
— Sou o primeiro rei de Norta a pisar aqui em um século.
A voz de Maven sai baixa e fria, como a ameaça do inverno na primavera. Depois de tantas semanas em sua corte, estou começando a aprender um pouco sobre seus estados de humor, já que o estudo como estudei seu país. O rei de Norta não é uma criatura bondosa, e embora minha sobrevivência seja necessária para a aliança, meu conforto provavelmente não é. Ele não me trata mal. Na verdade, não me trata de maneira nenhuma. Ficar fora de seu caminho exige pouco esforço dado o tamanho do Palácio de Whitefire.
— Mais de um século, se minha memória não falha — respondo, escondendo a surpresa por ter falado comigo. — Tiberias II foi o último rei Calore a fazer uma visita oficial. Antes que nossos ancestrais entrassem em guerra.
Ele se irrita diante do nome. Tiberias. Ressentimentos entre irmãos não é uma novidade para mim. Há muitas coisas que invejo em Tiora. Mas nunca experimentei nada como o ciúme profundo e irrestrito que Maven sente do irmão exilado. Vem do fundo de sua alma. Cada menção a ele, mesmo enquanto desempenha suas funções de monarca, provoca a mesma reação de uma facada. Imagino que o nome ancestral seja mais uma coisa a invejar. Mais uma validação que nunca vai possuir.
Talvez seja por isso que ele persegue Mare Barrow com foco inabalável. As histórias parecem verdadeiras. Tive provas disso. Ela não é apenas uma sanguenova poderosa, uma vermelha com habilidade prateada, mas também é alvo do amor do príncipe exilado. Uma garota vermelha. Tendo-a conhecido, quase posso entender por quê. Mesmo aprisionada, ela lutava. Resistia. Era um mistério que eu teria adorado decifrar. E, parece, é um troféu que os irmãos Calore disputam. Nada comparado à coroa, mas importante o suficiente para que ambos os garotos rivais tentem puxar para si, como cachorros disputando um osso.
— Posso organizar um tour pela capital se desejar, majestade — continuo. Embora passar mais tempo do que o devido com Maven esteja longe do ideal, significaria ficar mais na cidade. — Os templos são conhecidos em todo o reino por seu esplendor. E sua presença certamente honraria os deuses.
Alimentar seu ego não funciona, como costuma acontecer com outros nobres e cortesãos. Ele retorce os lábios.
— Tento manter o foco em coisas que de fato existem, Iris. Como a guerra que ambos estamos tentando ganhar.
Fique à vontade. Engulo a resposta com um desapego frio. Os descrentes não são problema meu. Não posso abrir seus olhos, tampouco é meu trabalho fazê-lo. Ele que encontre os deuses na morte e veja como estava errado antes de entrar no inferno que criou para si mesmo. Vão afogá-lo por toda a eternidade. É a punição para os ardentes no além-vida. Assim como as chamas seriam minha condenação.
— Claro. — Abaixo a cabeça, sentindo as joias frias da coroa na minha testa. — O exército irá para a Cidadela dos Lagos quando chegar, para se recompor e rearmar. Podemos encontrá-los lá.
Ele assente.
— Sim.
— E há Piedmont a considerar ainda — acrescento. Eu não estava em Norta quando os lordes leais ao príncipe Bracken pediram a ajuda de Maven. Nossos países ainda estavam em guerra. Mas os relatórios do serviço secreto foram bem claros.
Um músculo se contrai na bochecha de Maven.
— O príncipe Bracken não vai lutar contra Montfort, não enquanto aqueles bastardos mantiverem seus filhos como reféns. — Ele fala como se eu fosse uma simplória.
Mantenho o controle, abaixando a cabeça de novo.
— Claro. Mas se uma aliança pudesse ser feita em segredo… Montfort perderia sua base no sul e todos os recursos que Bracken lhe cedeu. Eles fariam um inimigo poderoso. Outro reino prateado contra quem lutar.
Seus passos ecoam pelo corredor, altos e constantes. Posso ouvir sua respiração, a maneira como exala em suspiros lentos e sonoros enquanto espero por uma resposta. Ainda que tenhamos quase a mesma altura e provavelmente o mesmo peso, se é que não peso mais, sinto-me pequena ao lado de Maven. Pequena e vulnerável. Um pássaro ao lado de um gato. A sensação não me agrada.
— Tentar recuperar os filhos de Bracken seria tolice. Não sabemos onde ou quão bem vigiados estão. Podem ter sido levados para o outro lado do continente. Podem estar mortos, até onde sabemos — Maven murmura. — O foco deve ser em meu irmão. Quando tiver me livrado dele, não terão atrás de quem se esconder.
Tento não parecer decepcionada, mas meus ombros murcham mesmo assim. Precisamos de Piedmont. Sei disso. Deixar o país para Montfort é um erro que pode acabar na nossa ruína e morte. Então tento de novo.
— As mãos do príncipe Bracken estão amarradas. Ele não pode tentar resgatar os filhos, mesmo se soubesse onde estão — murmuro, baixando a voz. — O risco de fracassar é grande demais. Mas será que ninguém pode fazê-lo por ele?
— Está se oferecendo para o trabalho, Iris? — ele pergunta, olhando para mim. Fico tensa com a tolice do comentário.
— Sou uma rainha e uma princesa, não um cachorro brincando de ir buscar.
— Claro que você não é um cachorro, minha querida. — Maven sorri, sem se abalar. — Cachorros obedecem.
Em vez de me retrair, ignoro o insulto descarado com um suspiro.
— Imagino que esteja certo, meu rei. — Então jogo a carta que guardei na manga. — Afinal, tem experiência quando se trata de reféns.
Sinto o calor crescer ao meu lado, tão perto que começo a suar de imediato. Lembrar Maven de Mare — de como a perdeu — é um jeito certeiro de despertar seu mau humor.
— Se a localização das crianças for descoberta — ele rosna —, talvez algo possa ser arranjado.
É tudo o que consigo com o rei Calore. Considero nossa conversa um sucesso.
As paredes de tinta turquesa com detalhes em dourado são substituídas por outras de mármore reluzente, marcando o fim da área nobre e o começo do palácio real. Arcadas ainda marcam o caminho, mas fechadas por portões e vigiadas por soldados de Lakeland em seu uniforme azul estoico. Há outros guardas patrulhando o muro, que observam a rainha conforme passam. O ritmo da caminhada de minha mãe acelera um pouco. Ela quer entrar logo, ficar longe dos olhares curiosos. Quer ficar sozinha conosco. Tiora também acelera, não para se manter perto de nossa mãe, mas para abrir distância de Maven. Ele a incomoda, como faz com a maior parte das pessoas. Há algo na intensidade de seus olhos elétricos. Parece errada em alguém tão jovem. Artificial até. Plantada.
Com uma mãe como a dele, talvez seja mesmo.
Se ela estivesse viva, não permitiriam sua entrada em Detraon, muito menos sua aproximação da família real. Em Lakeland, ninguém confia em seu tipo de prateado — murmuradores que controlam a mente das pessoas. Eles nem existem mais aqui. A linhagem dos Servon foi extinta há muito tempo, e por uma boa razão. Quanto a Norta, tenho um pressentimento de que a Casa Merandus logo pode encontrar o mesmo destino. Ainda não falei com nenhum murmurador desde que fui para Whitefire. Depois que o primo de Maven morreu no nosso casamento, acho que tem mantido o resto da família da mãe à distância, se é que ainda estão vivos.
O Royelle, nosso palácio, se estende nos vastos terrenos deste setor. Tem canais e aquedutos próprios, além de fontes e cascatas. Parte da água surge em nosso campo de visão a caminho da baía, enquanto outra parte corre por baixo da terra. No inverno, a maior parte congela, decorando tudo com esculturas de gelo que nenhum humano poderia criar. Sacerdotes dos templos leem o gelo em dias festivos e feriados para comunicar a vontade dos deuses. Normalmente falam em enigmas, escrevendo suas palavras na terra e nos lagos de modo que apenas os abençoados possam lê-las e poucos possam compreendê-las.
É preciso coragem para que um rei ardente de uma nação até pouco hostil entre na fortaleza de Lakeland, e Maven o faz sem pestanejar. Alguém poderia pensar que ele é incapaz de sentir medo. Que sua mãe removeu algo tão fraco dele. Mas não é verdade. Vejo medo em tudo o que ele faz. Medo do irmão, principalmente. Medo porque a garota Barrow foi embora e está fora de seu alcance. E, como todo mundo, morto de medo de perder seu poder. É por isso que está aqui. Que casou comigo. Vai fazer qualquer coisa para manter a coroa.
É muita dedicação. É tanto sua maior força quanto sua maior fraqueza.
Nós nos aproximamos dos portões grandiosos que se abrem para a baía, ladeados por guardas e cascatas. Os homens se curvam quando minha mãe passa, e até a água se agita, incitada por sua imensa habilidade. Do outro lado dos portões fica meu pátio preferido: um refúgio amplo e bem cuidado de flores azuis de todos os tipos. Rosas, lírios, hidrângeas, tulipas e hibiscos — pétalas em tons que vão do mais claro ao índigo profundo. Ou, pelo menos, elas deveriam ser azuis. Mas, como as bandeiras, como minha família, as flores estão de luto. Suas pétalas estão pretas.
— Majestade, posso requisitar a presença da minha filha em nosso santuário? Como manda nossa tradição?
É a primeira vez esta manhã que ouço minha mãe falar. Ela usa o tom da corte, assim como a língua de Norta, para que Maven não tenha como interpretar mal seu pedido. Seu sotaque é melhor que o meu, quase imperceptível. Cenra Cygnet é uma mulher inteligente, com um bom ouvido para línguas e um talento para a diplomacia.
Ela para e vira para Maven, em um simples gesto de cortesia. Não se pode dar as costas a um rei quando se quer algo dele. Mesmo que o que queira seja eu, sua filha, uma pessoa viva com vontade própria, penso enquanto sinto um gosto azedo na minha boca. Mas não é bem assim. Ele está acima de você. Você é dele agora, não dela. Tem que fazer o que ele desejar.
Ou fingir, pelo menos.
Não tenho a menor intenção de ser uma rainha mantida na rédea curta.
Por sorte, Maven é menos desdenhoso da religião na frente da minha mãe. Ele abre um sorriso apertado e faz uma leve mesura. Perto da minha mãe, com seu cabelo grisalho e suas rugas, parece mais jovem. Novo. Inexperiente. Mas não é nada disso.
— Precisamos honrar a tradição — Maven diz. — Mesmo em tempos caóticos como esses. Nem Norta nem Lakeland podem esquecer quem são. Pode ser nossa salvação, majestade.
Ele fala bem, com palavras macias como algodão.
Minha mãe abre um sorriso, mas seus olhos não acompanham.
— De fato. Venha, Iris — ela acrescenta para mim.
Se eu não tivesse nenhum controle, pegaria sua mão e correria. Mas tenho controle de sobra, e mantenho um ritmo estável. Quase lento demais, enquanto sigo minha mãe e minha irmã através das flores pretas, dos corredores de padrão azul, para o terreno sagrado que é o templo pessoal da rainha em Royelle.
O templo contíguo aos aposentos reais do monarca é isolado e simples, localizado entre salas e quartos. A tradição está nos ornamentos de sempre. Uma fonte que bate na cintura borbulha no centro de uma pequena câmara. Rostos desgastados, sem expressões, ao mesmo tempo desconhecidos e familiares, olham das paredes e do teto. Nossos deuses não têm nome ou hierarquia. Suas bênçãos são aleatórias, suas palavras, esparsas, suas punições, impossíveis de prever. Mas eles existem em todas as coisas. Podem ser sentidos o tempo todo. Procuro meu favorito, um rosto vagamente feminino, com olhos vazios e cinza, que pode ser distinguido apenas por um leve sorriso nos lábios, que poderia ser uma falha da pedra. Ela parece saber de algum segredo. Mesmo agora, me reconforta, à sombra do funeral do meu pai. Vai ficar tudo bem, parece me dizer.
O lugar não é tão grande quanto o outro templo do palácio, aquele que usamos para os serviços da corte, ou tão ostensivo quanto os enormes templos no centro de Detraon. Não há altares dourados ou livros da lei celestial cravejados com pedras. Nossos deuses requerem pouco mais que fé para se fazer notar.
Apoio a mão em uma janela que me é familiar e fico esperando. O sol nascente parece fraco ao atravessar o vidro grosso de diamante, com vidraças dispostas em formato de ondas. Só quando as portas se fecham atrás de nós, deixando-nos com ninguém além dos deuses e de nós mesmas, solto um suspiro baixo de alívio. Antes que meus olhos se ajustem à luz fraca, minha mãe pega meu rosto em suas mãos quentes e não consigo evitar me contrair.
— Você não precisa voltar — ela sussurra.
Nunca a ouvi implorar. É um som estranho.
Minha voz falha.
— Quê?
— Por favor, minha querida. — Ela volta a falar nossa língua. Seus olhos se afiam, parecendo mais escuros nas sombras do templo estreito. Eu poderia afundar em seus poços profundos e nunca mais sair. — A aliança pode sobreviver sem que você precise garanti-la.
Ela não solta meu rosto, e seus dedões acariciam minhas bochechas. Por um longo momento, só fico ali. Vejo a esperança florescer em seus olhos e fecho os meus bem apertados. Devagar, ponho as mãos sobre as dela e as afasto.
— Você sabe que isso não é verdade — digo, me forçando a encará-la.
Minha mãe cerra a mandíbula, endurecendo. Uma rainha não está acostumada com a recusa de ninguém.
— Não venha me dizer o que sei e o que não sei.
Mas também sou uma rainha.
— Os deuses lhe disseram o contrário? — pergunto. — Essas são as palavras deles? — É uma blasfêmia. Podemos ouvir os deuses em nosso coração, mas só os sacerdotes podem espalhar suas palavras.
Até mesmo a rainha de Lakeland está sujeita a essa limitação. Ela desvia o olhar, envergonhada, antes de virar para Tiora. Minha irmã não diz nada, parecendo ainda mais séria que de costume. Como se fosse possível.
— Você fala em nome da coroa? — insisto, abrindo certa distância entre nós. Minha mãe tem que entender. — Isso vai ajudar nosso país?
De novo, silêncio. Ela não responde. Em vez disso, ela se recompõe, assumindo a postura real diante dos meus olhos. Parece endurecer e ficar ainda mais alta. Quase espero que se transforme em pedra. Ela não vai mentir para você.
— Ou fala apenas por si mesma, uma mulher de luto? Porque acabou de perder meu pai e não quer me perder também…
— Não posso negar que quero você aqui — ela diz, firme, e reconheço a voz da soberana. Aquela que usa em suas decisões na corte. — Segura. A salvo de monstros como ele.
— Posso lidar com Maven. Já venho lidando, há meses. Sabe disso.
Como ela, viro para Tiora em busca de apoio. Seu rosto não se altera, mantendo a neutralidade. Ela só observa, analisando tudo em silêncio, como uma futura rainha deve fazer.
— Ah, sim, eu li suas cartas. — Minha mãe desconsidera o que eu disse com um gesto. Seus dedos sempre foram tão finos, tão enrugados, tão velhos? A visão me impressiona. Tão grisalha, penso ao vê-la andar. Seu cabelo brilha à luz fraca. Muito mais grisalha do que eu lembrava.
— Recebo tanto sua correspondência oficial quanto os relatórios secretos que me envia, Iris — minha mãe diz. — Nenhum deles me enche de confiança. E agora que o vi… — Ela solta um suspiro irregular, pensando, então atravessa o templo até a janela oposta, passando os dedos pelas curvas da vidraça de diamante. — Aquele garoto é perigoso, vazio. Não tem alma. Matou o próprio pai, tentou fazer o mesmo com o irmão exilado. O que quer que sua mãe demoníaca tenha feito o amaldiçoou a uma vida de tormento. Não vou fazer o mesmo com você. Não vou deixar que desperdice sua vida ao lado dele. É uma questão de tempo até que sua própria corte o devore, ou o contrário.
Compartilho desse mesmo medo, mas não adianta lamentar decisões que já foram tomadas. As portas já foram abertas. Os caminhos já foram traçados.
— Se você tivesse me dito isso antes… — escarneço. — Eu poderia tê-lo deixado morrer quando aqueles vermelhos invadiram nosso casamento. E papai ainda estaria vivo.
— Sim — minha mãe murmura. Ela estuda o vidro da janela como se fosse uma pintura, para não ter que encarar as filhas.
— Se Maven tivesse morrido… — Abaixo a voz, tentando soar tão firme quanto ela. Como minha mãe e Tiora. Nascida para ser rainha. Devagar, vou para o lado da minha mãe e toco seus ombros estreitos. Ela sempre foi mais magra que eu. — Então estaríamos travando uma guerra em duas frentes. Contra um novo rei em Norta e a rebelião vermelha que parece borbulhar pelo mundo todo.
No meu próprio país, penso. A rebelião vermelha começou dentro das nossas fronteiras, debaixo dos nossos narizes. Deixamos que a podridão se espalhasse. Minha mãe bate os cílios, e o preto se destaca contra as bochechas morenas. Sua mão cobre a minha.
— Mas eu ainda teria vocês duas. Ainda estaríamos juntas.
— Por quanto tempo? — minha irmã pergunta.
Tiora é a mais alta de nós, e nos encara por cima de seu nariz arqueado. Ela cruza os braços, fazendo a seda azul e preta farfalhar. No templo recluso e diminuto, parece uma estátua, assomando sobre nós como os próprios deuses.
— Quem pode dizer que esse caminho não terminaria em mais mortes? — ela aponta. — Com o corpo de todas nós no fundo da baía? Acha que a Guarda Escarlate nos deixaria viver se tomassem este reino? Porque eu não acho.
— Nem eu — murmuro, apoiando a testa no ombro de nossa rainha. — Mãe?
O corpo dela fica tenso com o toque, e os músculos se contraem.
— Pode dar certo — ela diz, seca. — Esse nó pode ser desfeito. Você ainda pode ficar conosco. Mas precisa ser uma escolha sua, monamora.
Meu amor.
Se eu pudesse pedir uma única coisa à minha mãe, seria que escolhesse por mim. Que fizesse como fez por mim milhares de outras vezes. Use isto, coma aquilo, diga o que eu mandar. Eu invejava sua sabedoria, o modo como meus pais assumiam a responsabilidade por mim. Agora desejo poder abrir mão da escolha. Colocar meu destino nas mãos de pessoas em quem confio. Se eu ainda fosse uma criança e isto não passasse de um pesadelo…
Olho por cima do ombro, procurando minha irmã. Ela franze o cenho para mim, desanimada, sem oferecer nenhuma saída.
— Eu ficaria se pudesse. — Tento soar como uma rainha, mas as palavras vacilam. — Sabe disso. E, lá no fundo, sabe que o que está pedindo é impossível. Uma traição à Coroa. Como é que você costumava dizer?
Tiora responde quando minha mãe hesita.
— O dever primeiro. A honra sempre.
A lembrança me aquece por dentro. O que tenho à frente não é fácil, mas é o que preciso fazer. Pelo menos me dá um propósito.
— Meu dever é proteger Lakeland da mesma forma que vocês — digo a elas. — Meu casamento com Maven pode não vencer a guerra, mas nos dá uma chance. Coloca um muro entre nós e os lobos que nos cercam. Quanto à minha honra… não terei nenhuma até que papai seja vingado.
— De acordo — Tiora diz.
— De acordo — minha mãe sussurra, mas sua voz não passa de uma sombra.
Olho por cima do seu ombro, para o rosto da deusa que sorri. Tiro minhas forças de sua confiança, de sua expressão. Ela me dá segurança.
— Maven e seu reino são um escudo, mas também uma espada. Temos que usá-lo, ainda que seja um perigo para todas nós.
— Principalmente para você — minha mãe escarnece.
— Sim, principalmente para mim.
— Eu nunca deveria ter concordado — ela sibila. — Foi ideia do seu pai.
— Eu sei, e foi uma boa ideia. Não o culpo.
Não o culpo. Quantas noites passei acordada sozinha no palácio de Whitefire, dizendo a mim mesma que não me arrependia? Sem nenhuma raiva por ter sido vendida como um animal ou um pedaço de terra? Foi uma mentira e continua sendo. Mas minha raiva disso morreu com meu pai.
— Quando tudo isso acabar… — minha mãe diz.
Tiora a corta.
— Se vencermos…
— Quando vencermos — minha mãe a corrige, virando para nós. Seus olhos brilham, refletindo um raio de luz. No centro do templo, a fonte borbulhante desacelera seus movimentos, a queda constante de água parecendo abrandar. — Quando o corpo de seu pai tiver sido lavado com o sangue de seus assassinos, quando a Guarda Escarlate for exterminada como a infestação de ratos que são… — A água para, suspensa por seu fervor. — Vai haver pouca razão para você ficar em Norta. E menos ainda para deixar um rei inadequado e instável no trono de Archeon. Principalmente um que é tão leviano com o sangue de seu próprio povo, e com o nosso.
— De acordo — minha irmã e eu sussurramos em uníssono.
Com um movimento constante, minha mãe vira a cabeça para a fonte congelada, moldando o líquido a seu bel-prazer. Ele se curva no ar, como um enfeite de vidro. A luz bate na água, se refletindo em prismas de todas as cores. Minha mãe nem pisca, sem se mover diante da luz do sol.
— Lakeland vai purificar essas nações ímpias. Vamos conquistar Norta, e Rift também. Eles já estão brigando entre si, sacrificando sua própria gente por rivalidades mesquinhas. Não vai demorar muito até se exaurirem. Não haverá fuga da fúria da linhagem dos Cygnet.
Sempre tive orgulho da minha mãe, desde pequena. Ela é uma grande mulher, a personificação do dever e da honra. Focada e inflexível. É uma mãe para todo o seu reino, assim como para suas filhas. Agora me dou conta de que é muito mais que isso. A determinação dela por baixo da fachada impassível é tão forte quanto qualquer tempestade. E que tempestade será.
— Que eles enfrentem a enchente — digo, repetindo uma antiga sentença. Aquela que usamos para punir os traidores. E inimigos de todo tipo.
— E os vermelhos? Aqueles com habilidades, no país das montanhas? Eles têm espiões em nosso reino. — Tiora franze o cenho, enrugando sua pele. Quero aliviar suas preocupações constantes, mas ela está certa. Pessoas como Mare Barrow também precisam ser levadas em conta. Também fazem parte desta guerra. Também são inimigas.
— Vamos usar Maven contra eles — digo. — Ele é obcecado pelos sanguenovos, principalmente pela garota elétrica. Vai persegui-los até o fim do mundo se for preciso, e gastar todas as suas forças no processo.
Minha mãe assente em uma feliz aprovação.
— E Piedmont?
— Fiz como mandou. — Lentamente, eu me endireito, orgulhosa de mim mesma. — A semente está plantada. Maven precisa de Bracken tanto quanto nós. Ele vai tentar resgatar as crianças. Se conseguirmos trazer Bracken para o nosso lado e usar seus exércitos em vez dos nossos…
Minha irmã termina por mim:
— Lakeland será preservada. Nossas forças estarão reunidas e à espera. Podemos até fazer com que Bracken se vire contra Maven.
— Sim — digo. — Se tivermos sorte, vão todos se matar muito antes que tenhamos que revelar nossas reais intenções.
Tiora estala a língua.
— Não vou contar com a sorte quando é sua vida que está em jogo, petasorre.
Irmãzinha.
Ela diz essa palavra com amor, sem querer me desrespeitar, mas ainda me deixa desconfortável. Não porque Tiora é a herdeira, a mais velha, a filha criada para governar. Mas porque demonstra o quanto se importa e o que está disposta a sacrificar por mim. Algo que não quero dela ou da minha mãe. Minha família já sacrificou o bastante.
— Tem que ser você a resgatar os filhos de Bracken — minha mãe diz, taciturna e fria, o que fica claro tanto por sua voz quanto por seus olhos. — Uma filha de Cygnet. Maven vai mandar seus prateados, mas não irá pessoalmente. Não tem a habilidade ou o estômago para algo do tipo. Mas, se você for com os soldados dele, se retornar com os filhos do príncipe Bracken nos braços…
Faço força para engolir em seco. Não sou um cachorro brincando de ir buscar. Disse isso a Maven há poucos minutos, e quase repito para minha mãe, a rainha.
— É perigoso demais — Tiora diz depressa, quase se colocando entre nós.
Minha mãe se mantém firme, inflexível como sempre.
— É você que não pode atravessar nossas fronteiras, Ti. E se queremos atrair Bracken para o nosso lado, temos que ajudá-lo pessoalmente. É assim que funcionam as coisas em Piedmont. — Ela cerra os dentes. — Ou prefere que Maven o faça e conquiste um fiel aliado? O garoto já é perigoso o bastante sozinho. Não dê a ele outra espada para empunhar.
Mesmo ferindo meu orgulho e minha resolução, vejo a verdade em suas palavras. Se Maven liderar o resgate ou mesmo ordená-lo, certamente cairá nas graças de Bracken. Isso não pode acontecer.
— Claro que não — digo devagar. — Tem que ser eu. De alguma maneira.
Tiora cede também. Ela parece encolher.
— Vou ordenar que os diplomatas façam contato. Tão discretamente quanto possível. O que mais posso fazer?
Assinto, sentindo os dedos entorpecidos. Resgatar os filhos de Bracken. Nem sei por onde começar.
Os segundos escorrem, cada vez mais difíceis de ignorar.
Se ficarmos aqui por muito mais tempo, eles vão desconfiar, penso, mordendo o lábio. Principalmente Maven, se é que já não desconfia. Eu me viro para me afastar da minha mãe, sentindo as mãos de repente frias, na ausência de seu calor.
Quando passo pela fonte, ponho os dedos na água, molhando as pontinhas. Levo o líquido às pálpebras, borrando a maquiagem escura dos meus olhos. Lágrimas falsas rolam pelas minhas bochechas, tão pretas quanto as flores de luto.
— Reze, Ti — digo à minha irmã. — Confie nos deuses, se não confia na sorte.
— Minha fé neles é inabalável — ela responde de forma mecânica, automática. — Vou rezar por todas nós.
Eu me demoro na porta, com a mão sobre a maçaneta simples.
— Eu também.
Então a abro, estourando a bolha que nos protege, encerrando o que pode ser nosso último momento de segurança durante anos. Baixinho, murmuro para mim mesma:
— Vai funcionar?
De alguma forma, minha mãe me ouve. Ela levanta o rosto, seus olhos inescapáveis enquanto me afasto.
— Só os deuses sabem.

21 comentários:

  1. Vai ser uma guerra e tanta, tô super empolgadaaa.

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  2. Não esperava uma narração da Íris

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  3. Meus Deuses ! Nao estava nada à espera.

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  4. Iris de alguma forma planejou tudo com sua mãe e irmã para derrubar Marven.

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  5. Sinceramente achei o capitulo extenso e cansativo, não acho legal colocar tantas narrações diferentes. Aprofundar muito na Iris tira o foco da Mare, Cal e Marven que é quem realmente interessa.
    Não acrescentou nada ao Marven pq só falou coisas que a gente ja sabia...

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    1. Nossa eu achei a mesma coisa. Li muito rápido porque não aguentava mais. kkkkkkk

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  6. Se não for pra ver cobra comendo cobra eu nem começo a ler! Mas é isso que Montford quer, DIVISÃO, TRAIÇÃO, CORRUPÇÃO... Deixar os prateados se matando... Mas desse jeito aí eu não esperava, apesar de fazer absolutamente todo sentido.

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  7. Fiquei surpresa com uma narração da Iris, espero que tenha uma do Cal tbm
    ~Diane

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  8. Xenteeee! Que confusão que vai virar isso heim!! =OO

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  9. se gostei delas ? não, até porque fica meio difícil quando elas destratam tanto os vermelhos, são como todos os outros prateados esnobes que só ligam para o poder. Mais certamente as respeito e bato palma para todas essas maquinações dessas mulheres que parecem ser fodasticas.

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  10. Não consigo nem imaginar o final desse livro! Nenhum prateado que governa, gosta ou quer o bem dos vermelhos. Todos realmente acham que os vermelhos não passam de vermes. Então todos os prateados governantes terá que sair do comando. Espero que eles acabem entendendo que todos são iguais independente da cor!

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  11. Fiquei surpresa com a narrativa da iris

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  12. É o velho e grande lema de a A rainha vermelha: ¨Todo mundo pode trair todo mundo, não confie em ninguém¨

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  13. “Enquanto outra parte corre por baixo da terra. No inverno, a maior parte congela, decorando tudo com esculturas de gelo que nenhum humano poderia criar“.
    Uai, um calafrio poderia criar!

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  14. Uia, essa guerra vai ser ÉPICA, é todos contra todos

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  15. Muito triste a despedida delas com o pai e esposo rei! Mas a Iris não é fraca não, tenho que confessar e o Maven se bobiar vai se dar muito mal não que eu não quera isso...rsrsrsrs! DM

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  16. Já não me lembrava da história já li a prisão do rei à tanto tempo que nem me lembrava quem era a Iris.

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  17. QUERO O MAVEN NARRANDO!

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    1. Queria saber o que passa na cabeça do Maven, seria muito pertubador!!

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  18. Verdade não vejo à hora que ele aparece

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Boa leitura, E SEM SPOILER!