2 de junho de 2018

Capítulo onze

Mare

MAL DORMI, APESAR DE ESTAR EXAUSTA. Levamos até quase o amanhecer para voltar para Ascendant, com os curandeiros tratando nossos ferimentos ao longo de todo o caminho. Quando chegamos, só tínhamos umas poucas horas até o discurso que Davidson planejava fazer. Tentei dormir, mas quando a adrenalina da batalha com os saqueadores finalmente baixou, fui tomada pelo nervosismo por causa da reunião iminente. Passei o que restava da noite olhando através das cortinas, observando a luz azul que antecede o amanhecer ir crescendo. Agora estou inquieta enquanto espero no terraço inferior, mexendo no vestido. É desconfortável, de um roxo intenso, com uma faixa dourada na cintura e mangas largas apertadas nos pulsos. O decote é baixo e deixa ver a ponta da marca de Maven. Penteei o cabelo para trás, deixando o rosto à mostra. Exibo com orgulho as cicatrizes que descem pelo meu pescoço. Ideia minha, não de Gisa. Quero mostrar aos políticos de Montfort o quanto já sacrifiquei. E quero parecer o máximo possível com a garota elétrica, ainda que essa pessoa não seja real. Posso tirar forças dela, assim como tiro de Mareena. Ainda que sejam versões falsas de mim, também são pedaços de alguém real, por menores que sejam.
O nascer do sol nas montanhas é estranho. Espalha-se atrás de mim, lançando raios de luz por cima dos picos e além. Lenta e inexoravelmente, a escuridão esvanece, fugindo com a neblina matinal ao longo das encostas da cidade. Ascendant parece acordar com a luz, e um rumor baixo de atividade reverbera até o palácio.
A rainha Anabel não é de atrasar, especialmente para algo tão importante. Ela desce a entrada do palácio com o neto e seus guardas bem próximos. Julian segue um pouco atrás, os braços cruzados sobre os trajes longos e dourados. Olha nos meus olhos e acena com a cabeça. Retribuo o cumprimento. Posso não concordar com sua decisão de apoiar o sobrinho, mas a compreendo. Compreendo o apoio à família acima de qualquer coisa.
Com as cores de Lerolan — vermelho e laranja flamejante —, Anabel parece mais uma sentinela protegendo seu rei do que a avó dele. E é tão mortal quanto uma. Usa um casaco brocado com uma túnica combinando. A calça preta justa tem a barra decorada com bronze reluzente, lembrando uma armadura. Anabel Lerolan está preparada para o tipo de luta que não se trava no campo de batalha. O sorriso que abre para mim não condiz com seu olhar.
— Majestade — cumprimento, baixando de leve a cabeça. — Tiberias — acrescento, dirigindo-lhe um olhar fugaz.
Ele sorri sozinho, com uma admiração sombria pela minha recusa de chamá-lo de qualquer outra coisa, como seu apelido ou seu título.
— Bom dia — Tiberias responde. Está bonito como sempre. Talvez até mais. A batalha contra os saqueadores ainda paira sobre ele. Quase posso sentir o cheiro das cinzas que deve ter passado a noite esfregando até sair. Talvez fosse melhor não pensar nele tomando banho, lembro a mim mesma.
O amanhecer combina com o príncipe de fogo, com seu manto escarlate sobre os trajes de seda negros. Ele usa a coroa sobre o cabelo preto arrumado. Trabalho de um magnetron. Mais uma das criações de Evangeline. A coroa combina com Tiberias. Não tem joias ou detalhes intrincados: é apenas um aro simples de ferro, esculpido na forma de uma labareda. Percorro-a com os olhos, concentrada nessa coisa tão simples que Tiberias tanto ama.
Embora a tensão ainda exista entre nós, não sinto o ódio ou a raiva de ontem. Nossas palavras na montanha, ainda que poucas, surtiram um efeito calmante.
Queria que tivéssemos tempo para chegar a algum entendimento.
Mas que entendimento pode existir?
Por mais que tente, não consigo apagar a esperança que arde no meu coração. Quero que ele me escolha. Perdoaria tudo se ele admitisse o erro. Essa esperança se recusa a morrer, por mais idiota que seja.
É a aparência de Farley que mais me choca. Não porque sua perna está curada — isso eu esperava. Ela vem atrás do impecável primeiro-ministro, e a princípio não a reconheço. Foi-se o uniforme surrado, o macacão vermelho-escuro manchado pelo uso, desgastado pelas batalhas. No lugar dele, usa um uniforme de gala, mais semelhante a algo que Tiberias ou Maven usariam. Jamais Farley.
Pisco admirada para ela, observando-a ajustar as mangas de seu casaco rubro, feito sob medida. A insígnia de general, três quadrados de ferro, foi costurada ao colarinho. Ela carrega medalhas e condecorações no peito, de metal e fita. Duvido que sejam reais, mas a fazem parecer impressionante. Está claro que Davidson e Carmadon a ajudaram a se vestir para a reunião, com o intuito de legitimar a Guarda Escarlate através dela. Acrescentando a cicatriz no canto da boca e o aço rígido no azul de seus olhos, me pergunto se existe algum político capaz de negar o que ela pede.
— General Farley — digo, abrindo um sorriso torto. — Belos trajes.
— Cuidado, Barrow, senão vou te obrigar a usar um destes também — ela resmunga enquanto briga com as mangas. — Mal consigo me mexer nesta coisa.
O casaco está justo nos ombros, impedindo a movimentação com que ela está acostumada. A movimentação necessária numa briga.
Reparo no quadril dela, e na calça feita sob medida e enfiada dentro das botas.
— Sem arma?
Farley faz uma careta.
— Nem me lembre.
Evangeline Samos chega por último, o que não é nenhuma surpresa. Passa pelas grandes portas de carvalho ladeada pelos primos, que usam casacos cinzentos com detalhes pretos que combinam perfeitamente. O vestido dela é de um branco ofuscante que passa a um preto intenso como nanquim nas mangas e na cauda comprida. À medida que se aproxima, percebo que se trata de lasquinhas de metal resplandecente, formando um degradê perfeito desde o branco perolado, passando pelo cinza-aço até o preto-ferro. Ela avança com determinação, deixando o vestido se espalhar atrás de si, raspando nas pedras verdes e brancas do piso.
— Quem dera conseguíssemos repetir uma entrada dessas na Galeria do Povo — Davidson murmura para Farley e para mim, observando Evangeline se aproximar. Ela endireita os ombros, caminhando com altivez.
O primeiro-ministro mantém sua simplicidade esplêndida de sempre, vestindo um terno verde-escuro com botões brancos esmaltados. Seu cabelo grisalho, lambido para trás, reluz.
— Podemos? — ele diz, apontando para os arcos que conduzem para fora do palácio.
Em nossas diferentes cores e em graus diferentes de prontidão, todos o seguimos pelas escadarias sinuosas que dão para a cidade.
Gostaria que a caminhada fosse mais longa, mas a Galeria do Povo, o edifício onde o governo de Montfort se reúne para discutir assuntos como o nosso, não fica longe, separada do palácio do primeiro-ministro por poucas centenas de metros ladeira abaixo. De novo, nada de muros para defender um lugar tão importante. Arcadas de pedra branca e terraços arrebatadores circundam a construção abobadada com vista para Ascendant e o vale. O sol continua a se levantar, refletindo na cúpula verde dezenas de metros à frente. O vidro é imperfeito demais para ter sido feito por prateados, e fica ainda mais bonito com as ranhuras e curvas imperfeitas que captam a luz de formas mais interessantes do que painéis lisos e meticulosos. Choupos de casca cinzenta e folhas douradas erguem-se em intervalos regulares, contornando a estrutura feito colunas vivas.
Eles são obra dos prateados. De verdes, sem dúvida.
Soldados ladeiam cada árvore, em seus trajes verde-escuros. Orgulhosos, impassíveis. Atravessamos o longo passadiço de mármore até as portas escancaradas da Galeria.
Respiro fundo para acalmar os nervos. Não vai ser difícil. Montfort não é nosso inimigo. E nosso objetivo é claro. Obter o maior exército que pudermos. Derrubar o rei louco e seus aliados, obcecados em se manter no poder, mesmo à custa de vidas vermelhas e de sanguenovos. Não deve ser difícil para a República Livre de Montfort concordar. Não luta pela igualdade, afinal?
Pelo menos foi o que me disseram.
Cerrando os dentes, estendo o braço e tomo a mão de Farley. Aperto seus dedos calejados só por um segundo. Ela aperta os meus também, sem hesitar.
O primeiro salão é cheio de colunas. Suas paredes são decoradas com seda verde e branca atada com fitas prateadas e vermelhas. As cores de Montfort e dos dois tipos de sangue. O sol entra pelas claraboias, preenchendo o espaço com um brilho etéreo. Há passagens para várias câmaras, visíveis pelos arcos entre as colunas ou trancadas atrás de portas de carvalho polido. E, claro, há pessoas no salão, todas de olho em nós. Homens e mulheres, vermelhos e prateados, suas peles numa vasta gama de tons, desde porcelana até meia-noite. Tento me blindar, me proteger do olhar deles.
À minha frente, Tiberias segue de cabeça erguida, com a avó no braço direito enquanto Evangeline segura o esquerdo. Ela faz questão de acompanhar o ritmo das passadas largas dele. Nenhuma filha da Casa Samos anda atrás de quem quer que seja. A cauda do seu vestido obriga Farley e eu a manter distância. Não que eu me importe.
Julian caminha atrás de nós duas. Consigo ouvi-lo murmurar consigo mesmo enquanto olha para lá e para cá. Fico surpresa que não tome notas.
A Galeria do Povo faz jus ao nome. À medida que nos aproximamos da entrada da câmara, ouço o burburinho de centenas de vozes aumentando rápido, até abafar quase tudo exceto as batidas do meu próprio coração.
Portas enormes pintadas de branco e verde e envernizadas se abrem suavemente, as dobradiças bem azeitadas, como se elas se curvassem diante da vontade do primeiro-ministro. A entrada de Davidson é recebida com o barulho crescente de aplausos, que vai se espalhando à medida que o seguimos pelo anfiteatro.
Há centenas de pessoas apinhadas nas fileiras de assentos em meia-lua, a maioria usando ternos como o de Davidson, em tons variados de verde e branco. Alguns são claramente militares, a julgar pelos uniformes de gala e pelas insígnias. Todos se levantam à nossa entrada, batendo palmas… Em homenagem a nós? Ou ao primeiro-ministro?
Não sei.
Alguns não aplaudem, mas se levantam mesmo assim. Por respeito ou tradição.
Os degraus do corredor são baixos. Eu seria capaz de descê-los correndo, de olhos fechados. Mesmo assim, me concentro nos meus pés e na barra do meu vestido.
Davidson avança até seu assento, na frente e no centro, ladeado pelos políticos ainda em pé. Há cadeiras vazias para nós também, cada uma marcada por um tecido colorido. Laranja para Anabel, prata para Evangeline, roxo para mim, escarlate para Farley, e assim por diante. Enquanto Davidson cumprimenta os homens e as mulheres à sua volta, apertando as mãos deles com um sorriso aberto e carismático, assumimos nossos lugares.
Não importa quantas vezes eu seja obrigada a desfilar, nunca me acostumo.
Não é assim para Evangeline. Ela senta ao meu lado, ajeitando as dobras do vestido com uma única passada de mão. Então arqueia a sobrancelha, imperiosa, como uma pintura viva. Nasceu para momentos assim; mesmo que estivesse desconfortável, nunca demonstraria.
— Mate esse medo, garota elétrica — ela murmura para mim, dirigindo-me um olhar enérgico. — Você já fez isso antes.
— Verdade — cochicho de volta, pensando em Maven, seu trono e todas as coisas vis que eu disse ao seu lado. Isso deve ser fácil em comparação. Não vai me despedaçar.
Davidson não senta, só observa os outros presentes assumirem seus lugares numa simultaneidade estrondosa. Ele junta as mãos e curva a cabeça. Uma mecha de cabelo grisalho cai sobre seus olhos.
— Antes de começarmos, gostaria que fizéssemos um minuto de silêncio por aqueles que caíram na noite passada defendendo nosso povo dos saqueadores. Eles não serão esquecidos.
Todos ali, políticos e militares, inclinam a cabeça em aprovação e a mantêm assim. Alguns fecham os olhos. Não sei o que é mais apropriado, então imito o primeiro-ministro, enlaçando os dedos e afundando o queixo.
Depois de alguns instantes que parecem durar uma eternidade, Davidson volta a erguer a cabeça.
— Meus caros compatriotas — diz, e sua voz ecoa pelo anfiteatro. Alguma coisa na arquitetura do lugar maximiza a acústica. — Gostaria de agradecer a vocês. Tanto por concordar com essa sessão especial da Galeria do Povo como… por aparecerem.
Ele faz uma pausa, sorrindo diante da onda de risadas educadas que recebe. A piada insossa é útil. Pelas reações, consigo apontar com precisão quem são os apoiadores de Davidson. Alguns políticos não se deixam levar — para minha surpresa, tanto vermelhos quanto prateados, a julgar pelo leve tom de sua pele.
Davidson continua, andando de um lado para o outro:
— Como todos sabemos, nossa nação é jovem, construída pelas nossas próprias mãos ao longo das duas últimas décadas. Sou apenas o terceiro primeiro-ministro, e muitos de vocês estão no primeiro mandato. Juntos representamos a vontade e o interesse do nosso povo diversificado, trabalhando por sua segurança. Nos últimos meses, tenho feito o que julgo necessário para preservar o que nosso país é e salvaguardar o que ambiciona ser.
As linhas na testa de Davidson se aprofundam, e seu rosto fica mais sério. Ele retoma:
— Um farol de liberdade. Uma esperança. Uma luz na escuridão que nos cerca. Montfort é o único país neste continente onde a cor do sangue não governa. Onde vermelhos, prateados e rubros trabalham lado a lado, de mãos dadas, para construir um futuro melhor para todos os nossos filhos.
Aperto as mãos, e os nós dos meus dedos ficam brancos. O país de que Davidson fala, o que ele representa… será mesmo possível? Um ano atrás, a Mare Barrow com lama até os joelhos em Palafitas não teria acreditado nele. Não seria capaz disso. Eu estava alienada tanto pelo que haviam me ensinado como pelo único mundo que me permitiam ver. Minha vida era limitada pelas fronteiras do trabalho ou do recrutamento. Dois destinos possíveis. Já seguidos por milhares, milhões. Não adiantava sonhar que a vida poderia ser diferente. Só partiria um coração já partido.
É cruel dar esperanças quando não há nenhuma, meu pai me disse uma vez. Mas nem mesmo ele repetiria tal coisa. Não agora, quando vimos que a esperança é real.
Esse lugar, esse passo em direção a um mundo melhor, de alguma maneira também é real. Está bem diante dos meus olhos. Representantes vermelhos com seus rostos corados ao lado de prateados. Um líder sanguenovo bem diante de nós. Farley, com seu sangue tão vermelho quanto a aurora, sentada perto de um rei prateado.
E até eu. Também estou aqui. Minha voz conta. Minha esperança conta.
Estreito os olhos para além de Evangeline, para o verdadeiro rei de Norta. Ele me seguiu até aqui porque ainda me ama, porque ama uma vermelha. E porque realmente quer ver as coisas com os próprios olhos.
Espero que veja o mesmo que vejo aqui. Se ele conquistar o trono, se não conseguirmos detê-lo, espero que aplique o que o primeiro-ministro está dizendo.
Tiberias olha para as próprias mãos, com os dedos cravados nos braços da cadeira e os nós tão brancos quanto os meus.
— Contudo, não podemos afirmar que somos livres, não podemos ser qualquer tipo de farol, se permitimos atrocidades nas nossas fronteiras. — Davidson avança até os assentos mais baixos, olhando um político de cada vez. — Se olhamos para os lados e vemos vermelhos escravizados, rubros massacrados, vidas esmagadas por pés prateados.
Os prateados conosco não se abalam. Nem tentam negar o que o primeiro-ministro está dizendo. Anabel, Tiberias e Evangeline mantêm os olhos voltados para a frente, os rostos congelados na mesma expressão.
Davidson caminha de volta, completando um círculo no chão.
— Há um ano, solicitei autorização para interferir. Para usar uma fração das nossas Forças Armadas para ajudar a Guarda Escarlate a se infiltrar em Norta, Lakeland e Piedmont, reinos construídos com tirania. Era um risco. Expôs nossa nação, que vinha crescendo em segredo. Mas vocês concordaram benevolentemente. — Ele une as pontas dos dedos e faz uma espécie de reverência para a Galeria. — Agora peço novamente. Mais soldados, mais dinheiro. Para derrubar regimes assassinos, para podermos olhar nossos próprios rostos no espelho. Para podermos dizer a nossos filhos que não cruzamos os braços e assistimos a crianças iguais a eles serem assassinadas ou condenadas. É nosso dever lutar, agora que podemos.
Um dos políticos se levanta. É um prateado com cabelo loiro fino, pele branca feito osso e roupas de um esmeralda intenso. Suas unhas polidas a ponto de brilhar são estranhamente compridas.
— Você fala de derrubar um regime, primeiro-ministro — ele diz. — Mas vejo ao seu lado um jovem com sangue prateado e uma coroa na cabeça, a única nesta galeria. Sabe tão bem quanto eu quantas coroas tivemos que destruir para forjar nosso país. Quanto tivemos que queimar para nos erguer das cinzas.
O político toca a própria testa. O significado do gesto é claro. Uma das coroas derrubadas foi a dele. Cerro os dentes para segurar a vontade de virar para Tiberias e berrar: Viu como é possível?
Davidson curva a cabeça.
— É a mais pura verdade, representante Radis. A República Livre foi construída através da guerra, do sacrifício e, acima de tudo, da oportunidade. Antes de surgirmos, as montanhas eram uma colcha de retalhos de pequenos reinos, que lutavam para dominar uns aos outros. Não havia unidade. Foi fácil nos infiltrar pelas rachaduras e acabar com o que já estava se quebrando. — Davidson faz uma pausa. Seus olhos se acendem. — Enxergo uma oportunidade semelhante agora, nos reinos prateados do leste. Temos espaço para mudar as coisas em Norta. Para refazer as coisas, tornando-as melhores.
Outra pessoa se levanta, uma vermelha de pele lisa acobreada e cabelo preto bem curto, com um vestido branco cruzado por uma faixa verde-oliva.
— Vossa Majestade concorda com isso? — ela pergunta, fixando os olhos em Tiberias.
Ele hesita, surpreso com sua franqueza. Não é tão rápido com as palavras como seu maldito irmão.
— Norta está tomada pela guerra civil — ele responde, vacilante. — Mais de um terço da nação se separou, alguns jurando fidelidade ao reino de Rift, cujo líder é pai de minha noiva. — Firmando o maxilar, ele gesticula para Evangeline ao seu lado, que não reage. — Outros se aliaram a mim. Desejando me pôr de volta no trono do meu pai e expulsar meu irmão — um músculo salta em sua bochecha —, que o ocupou depois de assassiná-lo.
Tiberias baixa os olhos devagar. Posso ver seu peito subir e descer rápido sob a capa vermelha. Pensar em Maven ainda dói, em Tiberias mais do que em mim. Eu estava lá quando Maven e Elara o forçaram a matar o antigo rei. Esse momento terrível está escrito no seu rosto sombrio com a clareza das letras de um livro.
A representante não se dá por satisfeita. Inclina a cabeça para o lado e junta seus longos dedos.
— Os informes dizem que o rei Maven é amado pelo povo. Por aqueles que ainda lhe são fiéis, digo. Inclusive pela população vermelha de Norta.
Uma baixa corrente de calor atinge minha pele exposta. O suficiente para indicar o desconforto de Tiberias. Cerro os punhos e falo antes que ele seja obrigado a fazê-lo:
— Maven é um manipulador muito hábil — digo à mulher. — Usa sua imagem de menino obrigado a assumir o trono para enganar qualquer um que não o conheça de verdade.
E às vezes até quem conhece. Tiberias principalmente. Ele me disse uma vez que estava à procura de murmuradores sanguenovos mais fortes do que a rainha Elara, talvez capazes de consertar o estrago que ela causara. Um desejo impossível, um sonho terrível. Vi Maven livre das maquinações dela. Mesmo com Elara morta, ele continua sendo o monstro que ela o obrigou a ser.
A representante volta seu olhar para mim.
— Ele negociou uma aliança com Lakeland — prossigo —, encerrando a guerra para a qual mandavam vermelhos como eu. Acabou com as restrições que seu pai tinha imposto a eles. É simples entender o motivo do apoio. É fácil ganhar a simpatia das pessoas que você alimenta.
Enquanto falo, penso em mim, na minha família. Em Palafitas. Em Cameron e nas favelas cheias de vermelhos. Onde estaríamos se ninguém tivesse quebrado o muro ao nosso redor? Se ninguém tivesse nos mostrado como o mundo deveria ser?
— Principalmente quando você controla o que elas veem nas telas — concluo.
A mulher abre um sorriso para mim, mostrando seus dentes separados.
— Você tem sido uma pedra no sapato dele, Mare Barrow. E uma bênção também. Vimos vídeos da sua captura. Suas palavras também renderam mais apoiadores para ele.
O calor que sinto não é de Tiberias, mas da minha própria vergonha. Ele estende suas garras pelo meu rosto e esquenta minhas bochechas.
— É verdade. E isso me envergonha — digo, seca.
À minha esquerda, Farley cerra o punho. Ela se inclina para a frente e diz:
— Você não pode culpar alguém por palavras ditas sob a mira de um revólver.
A vermelha fica tensa.
— E não culpo. Mas sua imagem foi muito explorada, srta. Barrow. Você não vai ter muito sucesso se tentar persuadir o povo a mudar de lado agora. E, me perdoe, mas tudo o que aconteceu torna mais difícil confiar no que você diz agora e em quem representa.
— Então fale comigo — Farley dispara, e sua voz ecoa pela Galeria. O vermelho das minhas bochechas se abranda com o frescor do alívio. Olho para ela, mais agradecida do que nunca. Farley mantém seu gênio sob controle, usando-o como combustível. — Sou general da Guarda Escarlate, oficial de alta patente do Comando. Minha organização tem trabalhado nas sombras há anos, desde as costas congeladas de Hud até as planícies de Piedmont, e em todos os lugares no meio. Fizemos muito com pouco. Imagine o que conseguiríamos com mais.
Do outro lado da câmara, mais um representante de Montfort ergue a mão cheia de anéis de ouro brilhantes. É vermelho, e fala com um sorriso cortante e irônico:
— Muito? Perdão, general, mas antes de começarem a trabalhar conosco, sua Guarda Escarlate era pouco mais do que uma rede de criminosos. Traficantes, ladrões e até assassinos.
Farley funga antes de retrucar:
— Fizemos o necessário. O primeiro-ministro fala de trabalhar entre as rachaduras. Nós abrimos as rachaduras. Transportamos milhares para longe do perigo. Vermelhos que precisavam de ajuda. Sanguenovos também. O próprio primeiro-ministro de vocês nasceu em Norta, não? — Ela estica o queixo na direção de Davidson, que a encara. — Foi quase executado pelo crime de ter nascido vermelho. Salvamos gente como ele todos os dias.
O representante dá de ombros.
— A questão é que você não pode fazer só isso, general — ele diz. — Apesar de sua causa ser justa, é preciso fazer algumas concessões. Vocês são um grupo sem nação, sem cidadãos a quem prestar contas. Seus métodos vão além do que se costuma praticar na guerra. Temos que pensar em nosso povo.
— Prestamos contas a todos, senhor — Farley responde, tranquila. Ela vira a cabeça só um pouco, o bastante para deixar a cicatriz ao lado da boca refletir a luz que vem da cúpula. — Sobretudo àqueles que acham que ninguém os ouve. Nós ouvimos, e fazemos, e lutamos. E vamos continuar a lutar. Até seu último suspiro, a Guarda Escarlate vai fazer o possível para consertar o que está quebrado. Com ou sem sua ajuda.
Ainda andando de um lado para o outro, Davidson passa por Farley e lhe lança um olhar que não consigo decifrar, com os lábios apertados numa linha neutra. Não sei dizer se está satisfeito ou furioso.
O representante prateado chamado Radis se levanta de novo. Não parece ter nem trinta e cinco anos, mas é velho o bastante para se lembrar de como era o país antes de Montfort. Ele olha para todos nós.
— Então estão propondo que apoiemos um novo rei prateado e o ajudemos a subir ao trono?
À minha direita, Evangeline sorri. Consigo ver que ela cobriu os caninos com prata. É medonho, e um recado, como o resto da imagem que passa. Vai devorar o coração de qualquer um no seu caminho. Inclusive o de nós todos.
— Dois, na verdade — ela diz, projetando a voz por todo o anfiteatro. — Meu pai, rei de Rift, também deve ser reconhecido como tal.
Um canto da boca de Tiberias estremece, e Anabel entorta os lábios. Como antes, em Corvium, Evangeline faz o máximo para atrasar qualquer progresso que seu noivo venha a fazer.
Radis retribui o sarcasmo com os olhos cinza faiscando:
— Como disse, primeiro-ministro, a República Livre foi construída a partir de reinos assim. Sabemos o que são e no que se tornam. — Ele desvia o olhar de Evangeline para Tiberias. — Não importa quão nobre, quão verdadeiro ou quão honrado seja o governante.
Uma ruga aparece quando a máscara neutra de Davidson ameaça cair. Ele curva a cabeça de leve, reconhecendo o valor da afirmação de Radis. Outros começam a murmurar pela Galeria, ruminando sobre a mesma falha na aliança. Davidson e a Guarda têm outros planos em vista, sem qualquer intenção de apoiar mais monarquias, mas não podemos discutir isso na frente dos prateados.
A mentira me vem fácil.
— Você falou uma coisa antes, primeiro-ministro — digo, levantando rápido da cadeira. — Antes da segunda batalha de Corvium, quando ainda estávamos em Piedmont.
Davidson se vira com tudo para mim, arqueando a sobrancelha.
— Um sacrifício pequeno por tanto — continuo, destacando cada palavra. Ser o foco da atenção de toda a Galeria me faz tremer. Eles têm que concordar. Precisamos do seu apoio se queremos acabar com o reinado de Maven e impedir Tiberias de pegar a coroa que ele deixar cair. — A mudança pode vir rápido ou devagar. Mas o movimento tem que ser sempre para a frente. Sei que alguns de vocês olham para o rei Tiberias, a rainha Anabel e a princesa Evangeline e se perguntam qual é a diferença. Por que derramar nosso sangue para dar um trono a eles é melhor do que permanecer vivos e deixar Maven no poder?
Radis me olha do alto do seu nariz comprido.
— Porque você afirma que Maven Calore é um monstro. Um garoto perverso sem freios.
Jogo a cabeça para o lado e passo a trança para trás. Como Farley, deixo minhas cicatrizes contarem sua própria história. O M na minha clavícula ferve sob o olhar de centenas de pares de olhos.
— Maven Calore é, sem dúvida, sem discussão, a pior alternativa — digo, dirigindo minhas palavras a todos eles. — Não só nunca fará Norta avançar, como vai arrastá-la para trás. Ele não tem consideração pelas vidas vermelhas ou prateadas. Não pensa em igualdade. É incapaz de enxergar além do seu desejo de vingança e de ser amado. E, diferente de Tiberias, diferente do rei Volo em Rift, diferente de talvez qualquer monarca prateado respirando hoje, está disposto a fazer qualquer coisa para manter sua coroa.
Devagar, Radis senta, gesticulando para que eu continue. Não que precise de sua autorização. Ainda assim, me sinto orgulhosa.
— Sim — digo a todos. — Na maior parte das circunstâncias, seria melhor vocês ficarem aqui, protegidos por suas montanhas, isolados do mundo. Se tivessem estômago para ignorar as atrocidades de Norta e de seus aliados. — Alguns se mexem nos assentos. — Mas não agora. Não com Lakeland ao lado de Maven. Vocês podem levar o tempo que quiserem para decidir se vão ampliar sua ajuda, mas o alerta já soou. Vocês votaram a nosso favor antes. Seus soldados estavam no Palácio de Whitefire quando fui resgatada. Seu Exército nos ajudou a proteger as muralhas de Corvium. E Maven Calore jamais esquecerá o que fizeram. Jamais esquecerá que me roubaram dele.
Você é como Thomas, Maven me disse uma vez. Ainda o ouço murmurar na minha cabeça. É a única pessoa com quem me importo. A única pessoa que me lembra que estou vivo. Que não estou vazio. Nem sozinho.
Ele já era um monstro na época, quando me mantinha presa no seu palácio, presa dentro da minha própria pele. Imagino que tipo de animal é agora, sem nada nem ninguém a não ser fragmentos de sua mente.
Cerro os dentes, tentando prever seus movimentos seguintes. Não nos próximos dias, mas daqui a meses. Anos.
— Um dia, os exércitos dele estarão à sua porta. Vindos de Norta, de Lakeland. — A imagem paira diante dos meus olhos, as Grandes Casas com suas cores, o azul real de Lakeland. — Marchando com toda a fúria, atrás de um escudo de soldados vermelhos que vocês serão obrigados a matar. Montfort pode até vencer, mas muitos de vocês vão morrer. Quantos, não sei dizer. Só posso garantir que serão mais.
A vermelha de cabelo preto estica a mão para chamar a atenção. Seu olhar passa por mim e pousa em Farley, ainda no seu assento.
— Concorda com isso, general? — ela pergunta, e então aponta para Tiberias. — Acredita que esse rei prateado vai ser melhor do que aquele que está no trono?
Farley responde com escárnio:
— Tiberias Calore me preocupa muito pouco. — Meu rosto se contrai e puxo o ar pelos dentes. Farley.
Mas ela ainda não terminou.
— Então pode acreditar em mim quando digo que sim.
A representante acena de leve com a cabeça, satisfeita com a resposta. Não é a única. Muitos dos políticos na Galeria, tanto vermelhos como prateados, cochicham.
— E então, majestade? — a mulher acrescenta, voltando a atenção para Tiberias.
Ele se agita no assento. À direita, Anabel toca seu braço com os dedos ligeiros. Tenho experiência suficiente com mães prateadas para saber que ela seria considerada escandalosamente materna, gentil e carinhosa demais.
Sento enquanto ele se levanta e dá um passo à frente. Davidson enfim assume sua cadeira e deixa Tiberias de pé sozinho. Sua figura parece magnífica contra o granito e o mármore brancos, e a cúpula verde vertiginosa acima de nós. O vermelho da sua capa lembra chamas violentas, um jorro de sangue fresco.
Tiberias ergue o queixo.
— Passei quase um ano no exílio, depois de ser traído pelo meu irmão. Mas também… — Ele faz uma pausa, preparando-se para as palavras. — Mas também pelo meu pai. Ele me criou para ser como os reis anteriores: implacável, imutável. Atado ao passado. Disposto a travar uma guerra sem fim. Casado com a tradição.
Pela primeira vez, Evangeline estremece. Suas unhas afiadas se cravam nos braços da cadeira.
Tiberias prossegue:
— A verdade é que Norta já estava dividida em duas bem antes de meu pai ser assassinado. Senhores prateados em cima, e vermelhos embaixo. Eu sabia que era errado, como todos sabemos, lá no fundo. Mas há limites ao poder dos reis, e eu pensava que mudar a pedra fundamental de um país, que reordenar os males da sociedade, fosse um deles. Pensava que o equilíbrio atual, por mais injusto que fosse, era melhor do que o risco de afundar o reino no caos. — A voz dele vibra com determinação. — Mas estava errado. Muitas pessoas me ensinaram isso. Você foi uma delas, primeiro-ministro — Tiberias diz, olhando para Davidson. — E cada um de vocês. Seu país, por mais estranho que nos pareça, prova que é possível traçar novas linhas. Que um tipo diferente de equilíbrio pode ser sustentado. Como rei de Norta, pretendo enxergar o que antes não conseguia. E fazer tudo o que puder para superar os abismos entre vermelhos e prateados. Curar as feridas. Mudar o que deve ser mudado.
Já o ouvi falar com eloquência antes. Foi o que aconteceu em Corvium, quando disse praticamente a mesma coisa. Ele jurou mudar o mundo conosco. Apagar a divisão entre vermelhos e prateados. Suscitou orgulho em mim na ocasião, mas não agora. Sei o que as palavras dele querem dizer e sei exatamente até onde se estendem suas promessas. Sobretudo quando a coroa está em jogo.
Mesmo assim, fico boquiaberta quando Tiberias apoia um joelho no chão. Sua capa se espalha à sua volta, vibrante e sangrenta contra o mármore.
O burburinho aumenta quando ele inclina a cabeça.
— Não peço a ninguém que lute por mim, mas ao meu lado — Tiberias diz devagar.
A mulher de cabelo preto é a primeira a falar, com a cabeça inclinada para o lado:
— Já sabemos que não é do tipo que manda os outros lutarem no seu lugar, majestade. Isso ficou claro na noite passada. Minha filha, a capitã Viya, lutou com você na Via do Falcão.
Ainda ajoelhado, Tiberias não diz nada, apenas acena com a cabeça. Um músculo salta na sua bochecha.
Do outro lado da câmara, Radis gesticula para Davidson, agitando a mão. Em seguida, uma brisa súbita percorre a Galeria. Concluo que ele é um dobra-ventos.
— Ponha em votação, primeiro-ministro — o prateado diz.
Davidson afunda o queixo. De seu assento, lança um olhar abrangente, que percorre os muitos políticos reunidos. Pergunto-me o que ele enxerga em seus rostos. Depois de um longo instante, ele suspira.
— Muito bem, representante Radis.
— Voto sim — Radis diz logo, com firmeza, e se senta.
Do chão, Tiberias pisca rápido, tentando esconder a surpresa. Minha reação é a mesma.
E ela só cresce a cada sim que ecoa, saídos de dezenas de lábios. Conto sozinha. Trinta. Trinta e cinco. Quarenta.
Há alguns “nãos” aqui e ali, o bastante para moderar qualquer esperança. Mas eles são logo ofuscados, abafados pela resposta de que necessitamos tão desesperadamente.
Por fim, Davidson abre um sorriso e se levanta mais uma vez. Ele avança até Tiberias e toca seu ombro, gesticulando para que fique de pé.
— Você conseguiu seu exército.

12 comentários:

  1. "É fácil ganhar a simpatia das pessoas que você alimenta." Muito verdade é assim que muitos lobos em pele de cordeiro sobem ao poder.
    Mare falou bonito. Olha o Cal pode ter sido criado para reinar, mas ele não leva o menor jeito pra ser rei. Pronto falei

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  2. — Como disse, primeiro-ministro, a República Livre foi construída a partir de reinos assim. Sabemos o que são e no que se tornam. — Ele desvia o olhar de Evangeline para Tiberias. — Não importa quão nobre, quão verdadeiro ou quão honrado seja o governante.


    Espero que tenha sido um tapa forte na cara de Cal.

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    1. Somos duas colega. Ainda acredito que Cal vai abandonar a coroa no fim pra ficar com Mare.

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    2. Tbm acho. Mas nao abandonar, acho q ele vai abolir a coroa, vai tornar Norta uma república livre como Montfort...

      -MARE CALORE

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  3. A Mare discursa melhor que o Cal! Acabou aprendendo muito com o Marceneiro.
    Ela e a Farley que convenceram eles...

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  4. Meu Deus, que capítulo é esseeee!!! Maravilhosooo!!
    PS: Um salve especial pra Evangeline com os caninos prateados, ela é mestre na arte de intimidar, nunca pensei que fosse dizer isso, mas, pro bem ou pro mal, ela é incrível!!

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  5. Foi o discurso de Mare que ajudou Cal. Rsrs

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  6. Eu apenas acho q a Mare e o Cal tem q se pegar logo

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  7. Só eu tô achando que o radis é o saqueador loiro que a Iris viu ou pelo e alguém da família dele, pq tinha dobra ventos com os saqueadores

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  8. E so eu que tenho a esperança de que o Maven vire do bem e fique com a Mare?? Ele e vilão mais eu ne apaixonei por ele...

    Ass:Sanshay

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Boa leitura, E SEM SPOILER!