2 de junho de 2018

Capítulo oito

Mare

A ESCOLTA DE MONTFORT NOS CONDUZ até um complexo palaciano localizado no alto da cordilheira, com vista para o vale central, em cuja encosta está o resto de Ascendant. Por toda parte, estandartes verde-escuros com um triângulo branco tremulam na doce brisa da noite. Uma montanha, me dou conta, me sentindo tola por não ter compreendido seu símbolo antes, que também aparece em seus uniformes.
Não estou de uniforme — optei por roupas simples, peças reunidas em Corvium e Piedmont. Provavelmente foram de uma prateada, a julgar pela qualidade da jaqueta, da calça, das botas e da blusa. Farley me acompanha em seu uniforme adaptado, com Clara no colo. Está de vermelho da cabeça aos pés, com três quadrados de metal no colarinho. A marca de uma general do Comando.
Os prateados atrás de nós são mais chamativos, e não esperava menos de sua gente. Eles formam um arco-íris forte e vibrante contra as passarelas brancas que se espalham por Ascendant. É difícil ignorar Cal em sua capa vermelho-fogo, mas eu certamente tento. Ele anda ao lado de Evangeline, e fico quase esperando que ela o atire de um dos muitos terraços ou lances de escada ameaçadores.
Fico próxima de meu pai, ouvindo sua respiração. Há muitos degraus em Ascendant, e ele é um homem mais velho com uma perna nova, sem mencionar o pulmão reparado. O ar rarefeito não deve estar ajudando.
Ele se esforça para não tropeçar, o rosto vermelho o único indicativo disso. Minha mãe fica do seu lado esquerdo, provavelmente pensando o mesmo que eu. Suas mãos estão a postos atrás dele, os dedos abertos para ajudá-lo se fraquejar. Eu pediria algum tipo de auxílio, de um forçador talvez, ou mesmo de Bree e Tramy, se meu pai aceitasse. Mas sei que ele não quer isso. Segue em frente, tocando meu braço uma vez ou outra. Grato pela minha presença, mas também por minha discrição.
Então os degraus terminam, e deparamos com uma arcada esculpida para parecer troncos de árvores e folhas. Do outro lado dela há uma praça, cujo piso de pedra forma uma espiral xadrez de granito verde e calcário leitoso. Pinheiros de todos os tipos acompanham as arcadas que rodeiam o lugar, alguns tão altos e tão largos quanto torres. Fico impressionada com a força do canto dos pássaros ali, chilreando contra o céu arroxeado.
Atrás de mim, Kilorn solta um assovio baixo, impressionado. Ele olha mais além das árvores, para um prédio alto com pilares, mais acima na encosta. É uma estranha mistura de pedrinhas coloridas, como o fundo do leito de um rio, com detalhes em madeira laqueada e mármore. Há sacadas em suas inúmeras alas, algumas cheias de flores do campo. Todas dão para o vale, com vista para a cidade.
É a casa do primeiro-ministro, tenho certeza. Um palácio em tudo menos no nome. Fico desconfortável, enquanto o resto da minha família parece deslumbrada, e com razão. Já vi palácios suficientes para saber que não devo confiar no que há por trás de maravilhas esculpidas e janelas brilhantes.
Não há muros em volta da construção, nenhum portão. Tampouco parece haver em volta de Ascendant. Ou pelo menos não do tipo que se possa ver. Tenho a sensação de que a geografia dessa cidade, desse país, é sua própria demarcação. Montfort é forte o bastante para não precisar de muros. Ou tolo o bastante para não construir nenhum. A julgar por Davidson, duvido que seja a segunda opção.
Farley deve estar pensando o mesmo. Seus olhos passam pelas arcadas, pelos pinheiros, pelo palácio, reparando em tudo com precisão focada. Então ela volta o rosto para os prateados que seguem atrás de nós, tentando não parecer impressionados pela residência de Davidson.
O primeiro-ministro acena para que todos sigam em frente, adentrando cada vez mais o coração de seu país.
Como em Piedmont, as acomodações oferecidas à família Barrow são muito melhores do que estamos acostumados. Os aposentos na residência de Davidson são amplos o bastante para que cada um de nós tenha seu próprio quarto. Kilorn e Gisa se distraem explorando o lugar, entrando e saindo dos diferentes cômodos. Bree está menos interessado nisso, e logo senta num sofá de veludo no grande salão. Posso ouvi-lo roncar de onde estou, no terraço. Isso é tudo temporário, até que uma casa nos seja providenciada na cidade.
Fico sozinha, ou porque ninguém nota ou porque me deixam ficar. Para mim, tanto faz.
Ascendant brilha lá embaixo, como uma constelação na montanha. Posso sentir sua eletricidade, distante e constante, piscando nas muitas luzes. É como se tudo isso fosse reflexo do céu. As estrelas parecem impossivelmente claras aqui, próximas o bastante para tocar. Respiro fundo, sentindo a frescura selvagem das montanhas. É um bom lugar para deixá-los. O melhor que eu poderia pedir.
Ao longo da beirada da sacada, há flores em vasos e caixas, de todas as cores. As que estão à minha frente são roxas e têm uma forma estranha, com pétalas que parecem rabos.
— São chamadas de flores-elefante.
Tramy vem até meu lado, apoiando os cotovelos no parapeito. Ele se inclina para olhar a cidade lá embaixo. Apesar da estação, a noite traz consigo o frio. Devo estar tremendo, porque ele me oferece um xale.
Eu o aceito e coloco nos ombros. Ele franze a testa.
— Mas não sei o que “elefante” significa.
A palavra me lembra alguma coisa, mas balanço a cabeça e dou de ombros.
— Nem eu. Talvez seja um animal. Julian deve saber.
Falo seu nome sem pensar e quase faço uma careta. Sinto uma pontada no peito.
— Você pode perguntar no jantar — meu irmão diz, pensativo, passando a mão pela barba áspera.
Dou de ombros de novo, tentando apagar qualquer menção a Julian Jacos.
— Você precisa se barbear, Tramy — provoco. Inalando o ar doce de novo, volto às luzes da cidade. — E pergunte você mesmo a Julian hoje à noite.
— Não.
Algo em sua voz me faz parar, talvez um leve tremor de determinação. Ousadia. Tramy não é do tipo que diz não para a família. Está acostumado a seguir Bree por toda parte, ou passar panos quentes nos nossos problemas. É um pacificador, muito longe do tipo que não arreda pé.
Levanto o rosto para ele, esperando uma explicação.
Tramy cerra o maxilar, seus olhos castanho-escuros procuram os meus. Ele tem os olhos de mamãe, e eu também.
— Não é nosso lugar.
Nosso.
O que quis dizer está claro. Só vamos até aí. Os Barrow não são políticos ou guerreiros. Não têm motivo para ser o foco das atenções ou correr os riscos que corro. Mas a perspectiva de ficar sozinha, sem eles… O medo é infinito, egoísta, repentino.
— Mas pode ser — digo rápido demais, pegando seu pulso. Tramy rapidamente cobre minha mão com a sua. — Deveria ser seu lugar. De todos vocês. São minha família…
Uma porta se abre para o terraço, então se fecha atrás de Gisa e Kilorn. Minha irmã nos avalia, com os olhos brilhando.
— Quantas pessoas têm um poder que não deveriam ter só porque um membro da família lhes deu? — ela pergunta.
Está falando dos prateados. Da realeza e dos nobres que passam seu poder para os filhos, independente de servirem para isso ou não. A obsessão pelo sangue, pela dinastia, é o motivo pelo qual Maven está no trono. Um rei menino perturbado controlando um país quando não pode controlar nem a própria mente.
— É diferente — murmuro de volta, mas só em parte sincera. — Vocês não são como eles.
Gisa estica as mãos para ajeitar meu xale. Ela cuida de mim como uma irmã mais velha, embora eu esteja alguns anos à sua frente. A flor ainda está em sua orelha, pálida como a alvorada. Devagar, toco as pétalas, então corro os dedos por um cacho de seu cabelo. A flor fica bem nela. Mas ela vai ficar bem em Montfort?
— Como Tramy disse — Gisa retruca —, suas reuniões, seus conselhos, a guerra que está lutando, nada disso é para nós. E não queremos que seja. — Ela me encara, e ficamos olho a olho. Estamos da mesma altura agora, mas espero que continue crescendo. Não merece ver o mundo como eu vejo.
— Está bem. — Eu respiro e a puxo para perto. — Está bem.
— Eles concordam — ela murmura contra meu corpo.
Mamãe. E até papai.
Algo em mim se solta, liberando um peso considerável. Mas é uma âncora que me puxa para baixo ou que me mantém firme? Pode ser as duas opções, na mesma medida. Com meus pais e irmãos em segurança, quem vou me tornar?
Quem eu devo.
Com a cabeça apoiada no ombro de Gisa, não posso evitar olhar para Kilorn às suas costas. Seu rosto está sombrio enquanto nos observa, como uma nuvem de tempestade. Quando sente meu olhar e nos encaramos, vejo determinação nele. Kilorn se juntou à Guarda Escarlate há muito tempo, e não vai aproveitar a oportunidade de quebrar sua promessa. Nem mesmo para ficar aqui, em segurança, com a única família que conhece.
— Agora… — Gisa diz, se afastando. — Vamos arrumar você para esse tal jantar.
Meses vivendo em bases rebeldes só acentuaram o olhar da minha irmã para cor, tecido e moda. De alguma forma, ela garimpou algumas boas opções de roupa no palácio, todas confortáveis e formais ao mesmo tempo, em uma variedade de estilos. Não chegam perto das monstruosidades cheias de pedraria que os prateados de Norta usam, claro, mas ainda são apropriadas para sentar à mesa com reis e outros líderes. Tenho que admitir que gosto de me arrumar assim. Correr os dedos pelo algodão ou pela seda. Decidir como vou usar o cabelo. É uma boa distração. E necessária.
Tiberias certamente sentará à mesa comigo, brilhando em suas roupas rubras. Fazendo cara feia porque me mantive fiel aos meus princípios, enquanto ele cuspiu nos seus. Quero que veja exatamente a que virou suas costas, e a quem. Essa ideia me enche de um prazer doentio, mas satisfatório.
Embora Gisa prefira roupas mais complexas, eventualmente chegamos a um acordo com um vestido de que ambas gostamos. É simples, de um vermelho-ameixa profundo, com mangas compridas e saia bufante. Nada de joias além dos brincos. O rosa de Bree, o vermelho de Tramy, o roxo de Shade e o verde de Kilorn. A última pedra vermelha, tão escarlate quanto sangue fresco, está enfiada no meio das minhas coisas. Não posso usar o brinco que Tiberias me deu, mas tampouco consigo jogá-lo fora. Ele se mantém lá, imperturbado, mas não esquecido.
Gisa costura depressa uma trança dourada, uma peça intricada que havia sido bordada previamente, ao punho de cada manga. Não sei onde conseguiu um kit de costura, ou se os criados de Davidson sabiam que deviam lhe disponibilizar um.
Seus dedos ágeis são igualmente habilidosos ao mexer no meu cabelo, torcendo os cachos cor de lama em algo que mais parece uma coroa. Esconde bem as pontas cinzentas, ainda que tenham se espalhado tanto. A tensão constante certamente cobrou seu preço, o que não deixo de notar diante do espelho. Pareço desgastada, magra, com sombras escuras que se assemelham a hematomas em volta dos olhos. Tenho cicatrizes de todos os tipos, graças à marca de Maven, a machucados que ainda não se curaram e aos meus próprios raios. Mas não estou arruinada. Ainda não.
O palácio do primeiro-ministro é vasto, mas a planta é simples o bastante, e não preciso de muito tempo para achar meu caminho até o térreo, onde fica a área comum. De lá, posso seguir o cheiro de comida, deixando que me conduza por cômodo após cômodo de grandes salões e galerias. Passo por uma sala de jantar do tamanho de um salão de festas, dominada por uma mesa grande o bastante para quarenta pessoas, e por uma enorme lareira de pedra. Mas a mesa está vazia e a lareira, apagada.
— Srta. Barrow, correto?
Viro para a voz gentil e encontro um rosto ainda mais gentil. Um homem acena de uma das muitas portas em arco que conduzem para o terraço. É completamente careca, com a pele da cor da meia-noite, quase roxa, e seu sorriso brilha como a lua crescente sobre um terno de seda ainda mais branco.
— Sim — respondo no mesmo tom.
Seu sorriso se abre.
— Ótimo. Vamos jantar aqui, sob as estrelas. Achei que seria melhor, na sua primeira visita.
O homem gesticula e eu obedeço, atravessando o grande salão de jantar para encontrá-lo. Com movimentos suaves, ele toma meu braço com firmeza e me conduz para o ar fresco da noite. O cheiro de comida se intensifica, fazendo minha boca salivar.
— Tão firme — o homem brinca, movendo o braço um pouco para aumentar o contraste com meus músculos rígidos. Sinto-me tão à vontade que quero desconfiar dele. — Meu nome é Carmadon, e fiz o jantar desta noite. Então, se tiver reclamações, guarde para si mesma.
Mordo o lábio, tentando esconder um sorriso.
— Vou fazer meu melhor.
Ele apenas toca o nariz em resposta, como se compartilhássemos um segredo. As veias em seus olhos são cinza e se ramificam através do branco. Ele é um prateado. Tento engolir o caroço que se forma na minha garganta.
— Posso perguntar qual é a sua habilidade, Carmadon?
Ele responde com um sorriso leve.
— Não é óbvio? — Ele aponta para as inúmeras plantas e flores, no terraço e despencando das muitas sacadas e janelas. — Sou um humilde verde, srta. Barrow.
Forço um sorriso para ser simpática. Humilde. Já vi cadáveres com raízes saindo dos olhos e da boca. Não existe um prateado “humilde” ou indefeso. Todos têm a capacidade de matar. Mas suponho que nós também. E todos os humanos do mundo.
Andamos pelo terraço, na direção do cheiro, das luzes brandas e do burburinho baixo da conversa empolada. Esta parte do palácio se projeta da montanha, permitindo uma visão desobstruída dos pinheiros, do vale e dos picos nevados ao longe. Eles parecem brilhar à luz da lua nascendo.
Tento não parecer ansiosa, interessada ou mesmo brava. Não quero dar nenhum indício das minhas emoções. Ainda assim, sinto o coração pular e a adrenalina subir quando distingo a silhueta familiar de Tiberias. Mais uma vez, ele está observando a paisagem, incapaz de encarar qualquer um à sua volta. Sinto meus lábios se contorcerem em desaprovação. Quando foi que virou um covarde, Tiberias Calore?
Farley anda de um lado para o outro alguns metros adiante, ainda usando o uniforme do Comando. Ela lavou o cabelo, que brilha à luz das lâmpadas penduradas sobre a mesa no terraço. Assente para mim antes de irmos sentar.
Evangeline e Anabel já estão em suas cadeiras, num dos cantos da mesa, cada uma de um lado. Devem ter a intenção de rodear Cal e marcar sua importância ficando à sua esquerda e à sua direita. Enquanto Anabel parece confortável no mesmo vestido de antes, de seda vermelha e laranja, Evangeline se protege com uma estola preta de pele de raposa. Ela me observa enquanto me aproximo da mesa, os olhos piscando como duas estrelas sinistras. Quando sento do outro lado da mesa, o mais longe possível do príncipe exilado, seus lábios se contorcem no que poderia ser um sorriso.
Carmadon não parece notar ou se importar que seus convidados se odeiem. Ele senta graciosamente na cadeira à minha frente, do lado direito de onde imagino que Davidson vá ficar. Uma criada surge das sombras para servir a taça de Carmadon, decorada com detalhes intrincados.
Eu a observo com os olhos estreitos. Tem sangue vermelho, a julgar pelas bochechas coradas. Não é nem velha nem jovem, e sorri enquanto trabalha. Nunca vi uma criada vermelha sorrir desse jeito, a menos quando ordenam.
— Eles são pagos, e de maneira justa — Farley diz, sentando ao lado do nosso anfitrião. — Já conferi.
Carmadon gira o vinho na taça.
— Pode revirar e escrutinar o quanto quiser, general Farley. Olhe atrás das cortinas, não me importo. Não há escravos na minha casa — ele diz, com a voz assumindo um tom mais severo.
— Ainda não fomos apresentados de forma apropriada — digo, me sentindo mais hostil que o normal. — Seu nome é Carmadon, mas…
— Claro, desculpe minha falta de modos, srta. Barrow. Sou casado com o primeiro-ministro, que por sinal está atrasado. Peço desculpas se o jantar esfriar por causa dele — Carmadon faz um gesto para a mesa de apoio logo ao lado, onde está nosso primeiro prato —, mas sua pontualidade não tem nada a ver comigo.
Suas palavras são duras, mas seus modos são amistosos e abertos. Se é difícil ler Davidson, seu marido é um livro aberto. Assim como Evangeline neste momento.
Ela encara o homem com uma inveja tão declarada que sua pele está quase literalmente verde. E não é de admirar. A vida deles, um casamento desse tipo, é algo impossível em nosso país. Proibido. Considerado um desperdício de sangue prateado. Mas não aqui.
Cruzo as mãos no colo, tentando não me inquietar apesar da energia nervosa que toma conta da mesa. Anabel não disse nada, ou porque não aprova Carmadon ou porque não aprova o fato de ter que jantar ao lado de vermelhos. Talvez pelos dois motivos.
Farley mal balança a cabeça em agradecimento quando Carmadon enche sua taça com um vinho rico e quase negro, mas dá um gole generoso.
Fico na água gelada com fatias de limão. A última coisa de que preciso é ter a cabeça e os pensamentos borrados com Tiberias Calore por perto. Eu o observo de longe, passando os olhos pelos ombros largos e familiares sob a capa. Parece em chamas sob as luzes quentes do terraço.
Quando vira, baixo o rosto. Posso ouvi-lo se aproximar, sinto sua presença pesada no ar. Ele arrasta a cadeira de ferro forjado no chão de pedra do terraço, em um movimento agonizante de tão lento e deliberado. Quase pulo quando me dou conta de onde exatamente decidiu sentar.
Seu braço toca o meu por apenas um segundo, e sinto seu calor à minha volta. Amaldiçoo o conforto familiar, especialmente no frio das montanhas.
Finalmente ouso levantar o olhar, e encontro Carmadon com a cabeça inclinada, o queixo descansando no punho fechado. Parece infinitamente entretido. Ao seu lado, Farley parece mais inclinada a vomitar. E não preciso olhar para Anabel para saber que está fazendo uma careta.
Embaixo da toalha, aperto tanto os dedos que as juntas ficam brancas. Não de medo, mas de raiva. Tiberias se inclina, com um cotovelo no braço da cadeira bem ao meu lado. Ele poderia sussurrar no meu ouvido se quisesse. Aperto os dentes, resistindo ao instinto de cuspir.
Do outro lado da mesa, Evangeline quase ronrona como um felino. Ela passa a mão pela pele de raposa, com as garras decorativas brilhando.
— Quantos pratos teremos, sr. Carmadon?
O marido de Davidson não desvia os olhos de mim. Seus lábios se curvam no que poderia ser um sorriso malicioso.
— Seis.
Farley faz careta e vira o resto do vinho.
Carmadon sorri e gesticula para os criados nas sombras.
— Dane e Lorde Julian vão ter que correr para nos acompanhar — ele diz, pedindo que o primeiro prato seja servido com um movimento dos dedos. — Espero que gostem. Preparamos algumas das delícias de Montfort com todo o cuidado.
O serviço é rápido e tranquilo, tão eficiente quanto o que vi nos palácios de reis prateados, embora menos formal. Carmadon coordena tudo enquanto pequenos pratos de uma porcelana elegante são colocados diante de nós. Olho para uma fatia de peixe rosado, do tamanho do meu dedão, com algum tipo de queijo cremoso e aspargos por cima.
— Salmão fresco, do rio Calum, a oeste — Carmadon explica, antes de enfiar tudo na boca. Farley o imita em seguida. — O Calum desagua na costa oeste, no oceano.
Tento visualizar o que está dizendo, mas meu conhecimento destas terras é pobre, para dizer o mínimo. Sei que há outro oceano, banhando a margem oeste do continente, mas isso é tudo o que consigo lembrar agora.
— Meu tio está ansioso para aprender mais sobre seu país — Tiberias responde. Ele fala devagar e com convicção. Isso faz com que pareça décadas mais velho. — Imagino que ele e o primeiro-ministro estejam atrasados justamente por causa de suas perguntas.
— Pode ser. Meu Dane realmente ama sua biblioteca.
Assim como Julian. Me pergunto se o primeiro-ministro está tentando formar seus próprios laços, talvez conquistar um aliado em um prateado mais amistoso de Norta. Ou talvez ele só esteja desfrutando da presença de outro estudioso, ansioso para compartilhar informações sobre seu país.
Depois do salmão vem uma sopa quente de legumes, soltando vapor no ar frio, e uma salada de folhas verdes com ericáceas selvagens crescidas nas próprias montanhas. Carmadon não parece se importar com o fato de que ninguém conversa. Ele preenche o silêncio sozinho, parecendo muito confortável ao detalhar cada aspecto da refeição que preparou. Os pormenores do molho da salada, a melhor época para colher as frutas, por quanto tempo os legumes devem cozinhar, o tamanho de sua horta particular, e por aí vai. Duvido que Evangeline, Tiberias ou Anabel tenham cozinhado uma vez sequer na vida, e me pergunto se Farley já comeu algo que não fosse roubado ou racionado.
Faço o melhor para parecer educada, embora não tenha muito a dizer.
Principalmente com Tiberias tão próximo, devorando todos os pratos. Dou uma olhada de vez em quando, capturando relances de seu rosto. Sua mandíbula cerrada, sua garganta trabalhando. Ele nunca fez a barba tão rente. Se não tivesse meu orgulho ou minha convicção, poderia passar os dedos por sua bochecha, para sentir a pele macia.
Dessa vez, seus olhos encontram os meus antes que eu possa desviá-los.
Meu instinto é piscar, interrompendo a tensão. Voltar ao meu prato ou até pedir licença e sair da mesa. Mas mantenho o contato visual. Se o futuro rei quer me levar ao limite, me derrubar dos saltos, que seja. Posso fazer isso também. Abro os ombros, endireito a coluna e, o mais importante de tudo, lembro de respirar.
Tiberias é só mais um prateado que vai manter meu povo escravizado, não importa o que diga. Ele é um obstáculo e um escudo. Um delicado equilíbrio deve ser mantido.
Ele pisca primeiro, voltando à comida.
Faço o mesmo.
Queima ficar tão perto dele, tão perto de uma pessoa em quem eu costumava confiar. De um corpo que conheço tão bem. Uma escolha, uma palavra, e as coisas seriam tão diferentes. Passaríamos o jantar trocando olhares, comentando de maneira silenciosa sobre Evangeline, Anabel ou a ausência de Davidson. Ou eles nem estariam aqui. Seríamos só nós dois nesse terraço, sob as estrelas, cercados por um novo tipo de país. Talvez imperfeito, mas ainda assim um objetivo. Carmadon é prateado, e é casado com um sanguenovo vermelho. Seus criados não são escravos. Vi pouco de Montfort, mas o bastante para saber que este lugar parece ser diferente. E nós poderíamos ser diferentes aqui. Se ele apenas deixasse.
Tiberias ainda não usa coroa, mas eu a vejo nele do mesmo jeito. Em seus ombros, em seus olhos, em seus modos lentos e firmes. É um rei tanto quanto alguém pode ser. Até o sangue. Até os ossos.
Quando os criados levam os pratos com a salada, Carmadon olha para a porta de relance, como se esperasse que Davidson se juntasse a nós. Ele franze a testa de leve quando ninguém aparece, então gesticula para que sirvam o próximo prato.
— Esta é uma iguaria especial de Montfort — ele diz, com um sorriso meio artificial.
Um prato é colocado à minha frente na mesa. Parece um corte de carne particularmente suculento e grosso, acompanhado por batatas fritas douradas e um molho de cogumelos, cebolas e ervas. Em outras palavras, parece delicioso.
— Filé? — Anabel pergunta, inclinando-se para a frente com um sorriso antipático. — Garanto que também temos no nosso país, sr. Carmadon.
Mas nosso anfitrião sacode um dedo escuro. Ele incendeia a velha rainha tanto quanto sua indiferença a títulos da nobreza.
— De modo algum. Vocês têm bois. Isto é bisão.
— O que é isso? — pergunto, louca para experimentar.
Sua faca raspa no prato enquanto ele corta um pedaço.
— É uma espécie diferente, ainda que parente dos bois de vocês. Muito maior, com carne mais saborosa. Mais forte e valente, com chifres, pelos desgrenhados e músculos suficientes para derrubar um veículo. A maior parte deles é selvagem, embora existam alguns rebanhos. Eles se espalham pelo Vale do Paraíso, as colinas e as planícies. Sobrevivem a invernos que poderiam matar qualquer homem ou outro animal. Ninguém que ficou cara a cara com um bisão poderia confundi-lo com um boi, isso eu garanto. — Observo fascinada sua faca cortar essa carne tão peculiar. O suco vermelho sangra, manchando a porcelana branca. — É interessante pensar no bisão e no boi. São tão similares. Dois ramos de uma mesma árvore, mas completamente diferentes um do outro. E, apesar de separados, divididos como só duas espécies podem ser, vivem juntos sem problemas. Seus rebanhos se misturam. Podem até procriar.
Tiberias tosse ao meu lado, quase engasgando com um pedaço de comida.
Minhas bochechas queimam.
Evangeline leva a mão à boca para esconder a risada.
Farley termina com a garrafa de vinho.
— Eu disse algo inapropriado? — Carmadon olha de um para o outro, seus olhos negros dançando. Ele sabe exatamente o que disse e o que significa.
Anabel interrompe antes que outra pessoa fale, sob o pretexto de aliviar o constrangimento do neto. Ela observa o palácio por cima da borda da taça.
— O atraso do seu marido é bastante indelicado, milorde.
O sorridente Carmadon não hesita nem por um segundo.
— Concordo. Vou me certificar de que seja punido adequadamente.
A carne de bisão é magra, e Carmadon está certo: é melhor que nosso filé. Não me importo com a etiqueta, já que ele próprio pega as batatas com as mãos. Devoro metade da carne em um minuto, e como todas as cebolas caramelizadas.
Estou tão focada em limpar o prato, montando uma garfada perfeita, que mal noto a porta se abrindo às minhas costas.
— Peço desculpas, é claro — Davidson diz, com a passada constante e rápida, enquanto se aproxima da mesa. Julian o segue de perto. Lado a lado, fico impressionada com a similaridade entre os dois. Em estilo, não aparência. Ambos têm certa voracidade intelectual. Em outros aspectos, não poderiam ser mais diferentes. Julian é magro demais, com o cabelo grisalho ficando ralo e fino, os olhos castanhos sempre úmidos. Davidson é a imagem da saúde, com o cabelo grisalho bem cortado e brilhando. Apesar da idade, é puro músculo. — O que foi que perdemos? — ele pergunta, sentando ao lado do marido.
Depois de alguns olhares desconfortáveis, Julian examina a mesa e se apropria do único assento disponível. O que deveria ser de Tiberias, se ele não estivesse tão determinado a me irritar.
Carmadon bufa.
— Falamos sobre o cardápio, a procriação dos bisões e sua falta de pontualidade.
A risada do primeiro-ministro é aberta e sincera. Ou não sente necessidade de fingir ou finge perfeitamente em sua própria casa.
— O de sempre então.
Do outro lado da mesa, Julian se inclina para a frente, envergonhado.
— Temo que a culpa seja minha.
— A biblioteca? — seu sobrinho pergunta, com um sorriso sabichão. — Ouvimos falar.
Meu coração se aperta diante do calor na voz de Tiberias. Ele ama o tio, e qualquer lembrete da pessoa que é por baixo de suas péssimas escolhas me faz sofrer.
Um canto da boca de Julian se levanta.
— Sou assim previsível?
— Gosto de previsibilidade — murmuro. Mas sai alto o bastante para que a mesa inteira ouça.
Farley sorri para o próprio prato. Tiberias franze o cenho, virando o pescoço depressa para me encarar. Ele abre a boca, como se estivesse prestes a dizer algo impensado e tolo.
Sua avó fala antes, para protegê-lo de si mesmo.
— E o que torna essa biblioteca tão… interessante? — ela pergunta, com o desdém evidente.
Não consigo me segurar.
— Provavelmente os livros.
Farley não se dá ao trabalho de tentar conter uma risada, enquanto Julian tenta esconder um sorriso com o guardanapo. O resto deles é mais acanhado. O riso baixo de Tiberias me faz congelar. Viro para ele e o vejo sorrindo, os cantos dos olhos enrugados ao retribuir meu olhar. Percebo que, por um momento, ele esqueceu de onde estamos — e de quem somos. Sua risada morre em um instante, o rosto retornando a uma expressão mais neutra.
— Ah, sim — Julian retoma, talvez apenas para distrair a todos. — Os volumes são bem abrangentes. Não só dedicados às ciências, mas à história também. Temo que tenhamos perdido noção do tempo. — Ele balança a cabeça e prova o vinho. Então levanta a taça na direção de Davidson. — Ou o primeiro-ministro fingiu que perdeu só para me agradar.
Davidson levanta a taça em retribuição. O relógio em seu pulso tiquetaqueia.
— Fico sempre feliz em compartilhar meus livros. O conhecimento é uma maré alta. Levanta todos os barcos, por assim dizer.
— Você deveria visitar as cavernas do vale — Carmadon sugere. — Ou a Montanha do Chifre.
— Não pretendemos ficar aqui por tempo suficiente para fazer turismo — Anabel diz, bufando. Devagar, ela apoia os talheres no prato pela metade, indicando que está completamente farta disso tudo.
Evangeline, ainda usando a pele de raposa no pescoço, levanta a cabeça. Como um gato, avalia a velha rainha. Considerando algo.
— Concordo — ela diz. — Quanto antes pudermos retornar, melhor.
Retornar para alguém, ela quer dizer.
— Bom, mas isso não dependente de nós, depende? Com licença — Farley diz, enquanto se inclina sobre a mesa. Os olhos de Anabel quase saltam das órbitas enquanto observa a rebelde vermelha pegar seu prato abandonado e colocar as sobras no seu. Com as mãos firmes, Farley fatia o pedaço extra de bisão, a faca dançando pela carne. Já a vi fazer pior com carne humana. — Depende do governo de Montfort e de sua decisão de nos fornecer ou não mais soldados. Certo, primeiro-ministro?
— De fato — Davidson diz. — Guerras não podem ser vencidas apenas por rostos conhecidos. Não importa quão brilhante a bandeira, quão alto o mastro. — Seu olhar se alterna entre mim e Tiberias. O sentido de suas palavras é claro. — Precisamos de exércitos.
Tiberias assente.
— E vamos consegui-los. Se não de Montfort, de onde for possível. As Grandes Casas de Norta podem ser persuadidas.
— A Casa Samos tentou. — Evangeline pede mais vinho com um mover de dedos preguiçoso e familiar. — Fizemos alianças com quem conseguimos, mas eu não confiaria no restante.
Tiberias empalidece.
— Acha que continuariam leais a Maven quando…
— Quando podem escolher você? — a princesa Samos ironiza, interrompendo-o com seu olhar imperioso. — Tiberias, querido, eles poderiam ter escolhido você há meses. Mas, aos olhos de muitos, ainda é um traidor.
À minha frente, Farley faz uma careta.
— Seus nobres são tão idiotas que ainda pensam que Tiberias matou o próprio pai?
Balanço a cabeça, com a faca na mão.
— Um traidor por estar conosco, ela quer dizer. Por ter se aliado aos vermelhos. — A lâmina corta o restante da carne no meu prato. Faço isso com uma força desproporcional, sentindo a amargura na boca. — Por tentar tão desesperadamente encontrar um equilíbrio entre nossos povos.
— É o que eu espero fazer — Tiberias diz, com a voz estranhamente suave.
Afasto o olhar da carne para encará-lo de novo. Seus olhos encontram os meus, bem abertos e irritantemente gentis. Endureço diante do seu charme.
— Você tem um jeito interessante de demonstrar isso — zombo.
Anabel é rápida para retrucar.
— Já chega, vocês dois.
Meu maxilar fica tenso, e olho de Tiberias para sua avó, que agora me encara. Retribuo seu olhar com a mesma intensidade.
— Essa é a força de Maven, uma de suas muitas forças — digo. — Ele coloca um contra o outro sem esforço, sem nem tentar. É o que faz com seus inimigos, e com seus aliados.
Na ponta da mesa, Davidson une as pontas dos dedos. Ele me observa por cima das mãos, sem quebrar o contato com uma piscadela que seja.
— Continue.
— Como Evangeline disse, há famílias nobres que nunca vão abandoná-lo, porque Maven não vai mudar o jeito como as coisas são. E ele é bom no comando, conquistando seus súditos ao mesmo tempo que mantém os nobres satisfeitos. Acabar a guerra com Lakeland lhe rendeu muito respeito entre as pessoas — aponto, lembrando que até vermelhos celebraram quando ele viajou pelo interior. Ainda faz meu estômago revirar. — Ele joga com esse amor, do mesmo jeito que joga com o medo. Quando fui sua prisioneira, Maven era cuidadoso a ponto de manter crianças na corte, herdeiras de diferentes Casas, reféns veladas. É um jeito fácil de controlar as pessoas, possuir o que elas mais amam.
Vivi isso na pele.
— Acima de tudo — continuo, engolindo o nó na minha garganta —, Maven Calore é imprevisível. Sua mãe ainda sussurra em sua cabeça, manipulando-o, mesmo morta.
Sinto uma onda fraca de calor ao meu lado. Tiberias encara a mesa, parecendo prestes a abrir um buraco em seu prato. A cor foi embora de suas bochechas, pálidas como osso.
Com os olhos ainda em mim, observando-me devorar os últimos pedaços de carne, Anabel contorce os lábios.
— O príncipe de Piedmont está sob nosso controle — ela diz. — Vai nos dar o que quer que precisemos.
Bracken. Mais uma das armações de Montfort. O príncipe que governa Piedmont está em nossas mãos enquanto a república mantiver seus filhos cativos. Eu me pergunto onde estão e quem são. São jovens? Crianças? Inocentes em meio a tudo isso?
A temperatura começa a se elevar, em um ritmo lento, mas constante. Ao meu lado, Tiberias está tenso. Ele encara fixamente a avó.
— Não quero soldados que não lutem por mim por vontade própria. Principalmente os prateados de Bracken. Não se pode confiar neles. Nem no príncipe.
— Temos os filhos dele — Farley diz. — Isso deve bastar.
— Montfort tem os filhos dele — Tiberias retruca, com a voz mais profunda.
Antes, na base, era fácil ignorar o preço que alguém pagava. O mal feito por boas razões. Olho para Davidson, que confere o relógio. Isto é guerra, ele disse uma vez, tentando justificar o que deveria ser feito.
— Se eles fossem enviados de volta, conseguiríamos convencer Piedmont a ficar de fora? — pergunto. — Permanecer neutro?
O primeiro-ministro gira a taça de vinho vazia nas mãos, deixando os detalhes no vidro refletirem a luz suave das lâmpadas. Acho que vejo arrependimento nele.
— Duvido muito.
— Eles estão aqui? — Anabel faz a pergunta com uma calma tão forçada que me surpreende que uma veia não pule em seu pescoço. — Os filhos de Bracken?
Davidson não responde, movendo-se apenas para pegar mais vinho.
A velha rainha tamborila o dedo, os olhos brilhando.
— Ah. Eles estão. — Seu sorriso se amplia. — É uma boa vantagem. Podemos pedir mais soldados de Bracken. Um exército inteiro, se desejarmos.
Olho para o guardanapo no meu colo, com manchas dos meus dedos engordurados e marcas de batom. Eles podem estar neste palácio. Olhando para nós neste instante. Crianças na janela, atrás de portas trancadas. Será que são tão fortes a ponto de precisarem de guardas silenciadores, ou até mesmo da tortura de correntes como as que eu costumava usar? Sei como esse tipo de prisão é. Por baixo da mesa, toco meus pulsos, sentindo minha pele. Carne em vez de algemas. Eletricidade em vez de silêncio.
De repente, Tiberias bate com o punho fechado na mesa, fazendo os pratos e as taças pularem. Eu me sobressalto, surpresa.
— Não faremos nada do tipo — ele grunhe. — Nossos recursos bastam.
A avó faz cara feia para ele, e as rugas em seu rosto se aprofundam.
— São necessários corpos para vencer guerras, Tiberias.
— A discussão sobre Bracken está encerrada — é tudo o que ele diz em resposta. Como se para confirmar isso, corta o último pedaço de carne em seu prato ao meio. Anabel faz uma careta, mostrando os dentes, mas não diz nada. Ele é seu neto, mas também é um rei, proclamado por ela mesma. A velha rainha já ultrapassou os limites do aceitável em um debate com um soberano.
— Então precisamos implorar amanhã — murmuro. — É nossa única escolha.
Frustrada, sinalizo para pedir uma taça de vinho, e não perco tempo em tomá-lo. A doçura tinta cai tão bem que quase consigo ignorar a sensação de seus olhos em meu rosto. Seus olhos cor de bronze.
— Acho que sim — Davidson diz, com o olhar distante. Ele confere o relógio, então olha para Carmadon, ao seu lado. A troca de olhares diz muito, mas não sei o quê. Fico com inveja, e de novo me pego desejando que as coisas fossem diferentes.
— Qual é a nossa chance? — Tiberias é curto e grosso. Tudo o que lhe ensinaram que um rei deve ser.
— Do destacamento de cada soldado de nosso exército? — Davidson balança a cabeça. — Nenhuma. Temos nossas próprias fronteiras para proteger. Mas de metade? Um pouco mais? Posso ver a balança pendendo a nosso favor. Se.
Se. Odeio essa palavra.
Eu me seguro na cadeira, subitamente mais inquieta que o normal. Sinto como se o terraço pudesse ruir sob meus pés e mandar todos nós para o fundo do vale. Farley tem meus piores medos estampados no rosto. Ela mantém a faca na mão, atenta ao nosso aliado.
— Se o quê?
Os sinos tocam antes que Davidson possa responder. O resto de nós pula, assustado pelo barulho, mas ele nem se move. Está acostumado.
Ou esperava por isso.
Não se trata de badaladas que marcam as horas. Os sinos produzem um som grave e profundo, fazendo a montanha tremer, ecoando por Ascendant e convocando outros sinos pela cidade. O ruído se espalha como uma onda, descendo uma escarpa e subindo pela outra. As luzes se espalham com o barulho.
Luzes fortes e duras. Holofotes. Luzes de segurança. O alarme que se segue é mecânico, alto. Destrói a tranquilidade do vale com seu lamento.
Tiberias levanta de imediato, com a capa balançando nos ombros. Ele abre bem os dedos de sua mão livre, e o bracelete solta uma faísca por baixo da manga. Se convocar o fogo, ele virá. Evangeline e Anabel fazem o mesmo, ambas letais. Não parecem com medo, só determinadas a se proteger.
Sinto a eletricidade em mim crescer na mesma medida, e meus pensamentos voam para minha família, que também está no palácio. Insegura, mesmo aqui. Mas não tenho tempo para mais um coração partido.
Farley também se põe de pé, apoiada nas duas mãos. Ela olha para Davidson.
— Se o quê? — solta de novo, gritando por cima do alarme.
Ele olha para ela, estranhamente sereno em meio ao caos. Soldados substituem os criados nas sombras, cercando nossa mesa. Fico tensa, e minhas mãos se cerram ao lado do corpo.
— Se Montfort vai lutar por vocês — o primeiro-ministro diz, voltando os olhos para Tiberias —, também devem lutar por nós.
Carmadon não parece assustado com os sinos. Ele só olha na direção do palácio antes de suspirar, parecendo aborrecido.
— Saqueadores — diz. — Toda vez que tento oferecer um jantar.
— Isso não é verdade — Davidson diz sorrindo, mas sem cortar o contato visual. Continua encarando Tiberias, mais em desafio que qualquer outra coisa.
— Bom, mas parece — Carmadon diz, fazendo beicinho.
Enquanto luzes de segurança se acendem à nossa volta, os olhos de Davidson brilham como chamas douradas. Os de Tiberias queimam vermelhos.
— Chamam vossa majestade de Chama do Norte. Mostre-nos seu fogo.
Então o primeiro-ministro olha para mim.
— E você, sua tempestade.

14 comentários:

  1. "— E o que torna essa biblioteca tão… interessante? — ela pergunta, com o desdém evidente.
    Não consigo me segurar.
    — Provavelmente os livros.
    Farley não se dá ao trabalho de tentar conter uma risada, enquanto Julian tenta esconder um sorriso com o guardanapo. O resto deles é mais acanhado. O riso baixo de Tiberias me faz congelar. Viro para ele e o vejo sorrindo, os cantos dos olhos enrugados ao retribuir meu olhar. Percebo que, por um momento, ele esqueceu de onde estamos — e de quem somos. Sua risada morre em um instante, o rosto retornando a uma expressão mais neutra."
    Rindo muito!!! Rsrs
    Me mijanda de rir kkkk

    😂😂😂

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  2. cara ri muito kkk
    adorei esse Carmadon
    ASS:Janielli

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  3. oiii karina, estou comendo os livros q vc posta, muito obrigada mesmo <3
    nao acredito que montfort nao é incrivel ;(

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  4. — E o que torna essa biblioteca tão… interessante? — ela pergunta, com o desdém evidente.
    Não consigo me segurar.
    — Provavelmente os livros.

    AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK A POEIRA NA PRATELEIRA QUE NÃO É ANABEL KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

    É interessante pensar no bisão e no boi. São tão similares. Dois ramos de uma mesma árvore, mas completamente diferentes um do outro. E, apesar de separados, divididos como só duas espécies podem ser, vivem juntos sem problemas. Seus rebanhos se misturam. Podem até procriar.

    DELICADA ESSA INDIRETA NÉ MEU AMOR


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    1. É daquelas indiretas que parecem uma voadora no meio da cara😂😂😂😂😂😑😑

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  5. — E o que torna essa biblioteca tão… interessante? — ela pergunta, com o desdém evidente.
    Não consigo me segurar.
    — Provavelmente os livros.

    Eu dei pala de rir nessa hora kkkkkk imaginei essa cena kkkkkkk

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  6. Pq isso ta parecendo armação??? Coração ta a mil...

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  7. Aurélia Camargo8 de junho de 2018 22:08

    Eu simplesmente ri. Ahh finalmente teremos um pouco de ação.

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  8. — E o que torna essa biblioteca tão… interessante? — ela pergunta, com o desdém evidente.
    Não consigo me segurar.
    — Provavelmente os livros.




    Kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Morrendo de rir dessa parte 😂😂😂
    Só queria ver a cara da Anabel

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  9. Eu poderia listar as coisas boas desse capítulo ❤

    Muito bom ver a Mare de cabeça erguida e com objetivos.

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  10. É interessante pensar no bisão e no boi. São tão similares. Dois ramos de uma mesma árvore, mas completamente diferentes um do outro. E, apesar de separados, divididos como só duas espécies podem ser, vivem juntos sem problemas. Seus rebanhos se misturam. Podem até procriar.

    QUE INDIRETA TÃO DIRETA. Gostei do Carmadom, mas ele assim como Montfort mim deixa com um pugueiro atras da orelha.

    — E o que torna essa biblioteca tão… interessante? — ela pergunta, com o desdém evidente.
    Não consigo me segurar.
    — Provavelmente os livros.

    LOL DALE MARE.

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  11. Meu muito bom esse capitulo. Ri pa caramba meu Deus ksksksks... mas eu buguei um pouco naquela parte do bisão. Ele tava zuando o Cal e a Mare, né? E mano... AÇÃO ATÉ QUE ENFIIIIMM

    -MARE CALORE

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    1. Zoando não, mas como disse a Belle, foi uma indireta muito direta

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  12. Eita patada 😂😂😂😂😂😂
    Barraco no jantar ne gente. Ainda bem q não se mataram, achei q iam fazer isso antes da sobremesa

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Boa leitura, E SEM SPOILER!