2 de junho de 2018

Capítulo nove


Mare

— EU DISSE CHEGA DE SURPRESAS — sibilo para Davidson, seguindo em seu encalço enquanto nos conduz pelo palácio. Farley marcha ao seu lado, com a mão sobre a pistola na cintura, como se esperasse que os saqueadores pulassem dos armários.
Os prateados do nosso grupo estão igualmente inquietos. Anabel os mantém unidos. Retarda Tiberias vez ou outra, segurando-o atrás do escudo protetor formado pelos guardas da Casa Lerolan, de sua confiança. Evangeline é melhor em esconder o medo, mantendo a expressão de sempre em seu rosto, um misto de escárnio e desdém. Ela tem dois guardas para si — primos Samos, imagino. Seu vestido muda depressa, transformando-se em uma armadura de escamas enquanto atravessamos os corredores do palácio de Montfort.
O primeiro-ministro olha por cima do ombro quando falo, me avaliando de maneira intimidadora. Os sinos e o alarme ecoam pelo corredor de maneira estranha, como se dançassem em torno de suas palavras.
— Mare, temo estar sujeito aos caprichos dos saqueadores. Não controlo seus ataques, por mais frequentes que sejam.
Sustento seu olhar e acelero o passo, com uma raiva fervente correndo pelas veias.
— Não controla mesmo? — Eu não ficaria surpresa. Já vi reis fazendo pior com seu próprio povo em troca de poder.
Davidson endurece, apertando os lábios em uma linha fina. Um rubor repentino se espalha por suas amplas bochechas. Sua voz baixa a um sussurro.
— Recebemos um aviso. Sabíamos que estavam vindo. E tivemos tempo o bastante para nos certificar de que as redondezas fossem protegidas. Mas me ofende a sugestão de que eu derramaria sangue do meu próprio povo, de que arriscaria suas vidas. Para quê? Para um efeito dramático? — ele sibila, sua voz mortal como a ponta de uma faca. — Sim, é uma oportunidade para a Guarda Escarlate e Calore cumprirem seu lado do acordo, para que provem a si mesmos antes de irmos implorar ao governo. Mas não é uma troca que fico feliz de fazer — ele solta. — Preferiria mil vezes estar sentado no terraço me embebedando alegremente com meu marido e assistindo crianças com poder demais pegarem no pé umas das outras.
Não gosto de ser repreendida, mas fico aliviada. Davidson olha para mim, o fogo queimando em seus olhos dourados. Em geral, ele é sereno, imperturbável, impossível de ler. Sua força reside não apenas em sua habilidade ou em seu carisma, mas em uma calma bem treinada que funciona como uma máscara. Não agora. A mera sugestão de uma traição a seu país, ainda que pequena, o incendeia. Entendo esse tipo de lealdade. Eu a respeito. Quase posso confiar nela.
— Então o que vai acontecer? — pergunto, dando-me por satisfeita pelo momento.
O primeiro-ministro desacelera e para, virando as costas para a parede. Para que possa olhar para todos nós. Isso nos pega de surpresa, e a ampla passagem se enche de vermelhos e prateados à espera. Até a rainha Anabel olha para Davidson com atenção e seriedade.
— Nossas patrulhas relataram saqueadores atravessando a fronteira há uma hora — ele diz. — Em geral, eles se dirigem aos vilarejos nas planícies, ou à cidade em si.
Penso em meus pais, em meus irmãos, em Kilorn. Ou dormindo ignorante ao barulho ou se perguntando do que se trata. Não quero lutar, não se significa deixá-los para trás e em risco. Os olhos de Farley encontram os meus. Vejo o mesmo medo nela. Clara também está lá em cima, no berço.
Davidson faz seu melhor para nos tranquilizar.
— O alarme é uma precaução, e nossos cidadãos sabem disso — ele diz. — Ascendant está preparada para ataques. As montanhas por si só fornecem proteção suficiente contra a maior parte das investidas, limitando-as às planícies ou à base das escarpas orientais. Teriam que escalar até a boca da fera para que a cidade entrasse na mira.
— Esses saqueadores são completos idiotas então? — Farley pergunta, tentando afastar a preocupação, mas sem tirar a mão da arma.
O canto da boca de Davidson se ergue, e Carmadon disfarça um “sim” tossindo por cima.
— Não — o primeiro-ministro retruca. — Mas estão mais preocupados com a impressão que podem causar. Atacar a capital de Montfort se tornou um hábito para eles. Agrada seus iguais e os lordes de Prairie.
Tiberias levanta o queixo. Ele se move devagar, colocando-se à frente de um de seus guardas. Posso dizer pela tensão em seus ombros que odeia ficar encurralado assim. Odeia estar em qualquer lugar que não a linha de frente. Não é da natureza de Tiberias Calore pedir que outra pessoa faça o que não está disposto a fazer, que encare o perigo em seu lugar.
— E quem exatamente são “eles”? — Tiberias pergunta.
— Vocês perguntaram sobre os prateados de Montfort — Davidson diz, com a voz alta o bastante para se sobrepor aos alarmes. — Sobre como vivem desse jeito. Sobre como mudamos as coisas décadas atrás. Alguns deles concordam com o ideal de liberdade, de democracia. Muitos, devo dizer. A maioria. — Ele cerra a mandíbula. — Enxergaram como o mundo deveria ser. Ou viram o resto do mundo e decidiram que era melhor ficar, que era mais fácil se ajustar.
Seus olhos pousam em Evangeline, e por algum motivo ela cora sob seu escrutínio, quase escondendo o rosto.
— Alguns não. Prateados mais velhos, a realeza, nobres que não conseguiam suportar nosso novo país. Eles fugiram ou lutaram até chegar nas fronteiras. Norte, sul, oeste. No leste, formaram bandos nas colinas ermas entre nossas montanhas e Prairie. Tentativas de manter suas próprias terras e senhorios. Sempre brigando, disputando entre si e conosco. Vivem como sanguessugas, sobrevivendo do que conseguem encontrar. Não cultivam nada; não constroem. Pouco os une além da raiva e de um orgulho moribundo. Atacam veículos, fazendas, cidades, tanto em Prairie quanto em Montfort. Focam nas vilas e nos vilarejos vermelhos, aqueles que não podem se defender das investidas prateadas. Eles se deslocam, atacam, se deslocam de novo. Por isso os chamamos de saqueadores.
Carmadon solta um resmungo alto. Passa a mão pela careca negra e brilhante.
— É um belo rebaixamento de meus semelhantes prateados. Por nada além de orgulho.
— E pelo que acham que é poder — Davidson acrescenta. Seus olhos repousam em Tiberias. O príncipe exilado se endireita e levanta o queixo. — Pelo que acham que merecem. Preferem perder tudo a viver abaixo daqueles que consideram inferiores.
— Idiotas — xingo.
— A história é repleta de pessoas assim — Julian comenta. — Resistentes à mudança.
— Isso só torna aqueles que estão dispostos a mudar mais heroicos — digo, esperando que minhas palavras tenham o devido impacto.
Tiberias não morde a isca.
— Onde eles vão atacar? — ele pergunta apenas, sem tirar os olhos do rosto de Davidson.
O primeiro-ministro abre um sorriso sombrio.
— De acordo com informações de um dos vilarejos nas planícies, já estão próximos — ele diz. — Parece que no fim das contas vou ter a oportunidade de lhe mostrar a Via do Falcão, majestade.


Nenhum palácio está completo sem um arsenal.
Os guardas de Davidson já estão lá, preparando-se na grande sala que reúne equipamentos e armamentos. Eles não vestem os macacões verdes que estou acostumada a ver, e sim uniformes pretos justos e botas altas. Úteis para se defender de um ataque noturno. Eles me fazem lembrar do meu treinamento, quando usava roupas listradas de roxo e prateado que me marcavam como filha da Casa Titanos. Prateada dos pés à cabeça. O que era mentira.
À porta, Anabel leva a mão ao braço de Cal. Ela suplica com os olhos, mas ele se solta da avó, ainda que de forma delicada, e segue em frente. Os dedos dela deslizam pelas bordas da capa vermelha com brocado preto conforme ele escapa de seu alcance.
— Preciso fazer isso — eu o ouço murmurar. — Ele está certo. Preciso lutar por eles se vão lutar por mim.
Ninguém mais fala. O silêncio recai sobre nós tão denso quanto uma nuvem baixa. Só consigo ouvir o farfalhar das roupas. Deixo o vestido cair sobre meus pés e rapidamente coloco o uniforme sobre as roupas de baixo. Conforme me visto, meus olhos encontram músculos familiares.
Tiberias evita me olhar. Tirou a camisa e por enquanto vestiu apenas a parte de baixo do uniforme. Percorro com os olhos a extensão de sua coluna, notando as poucas cicatrizes na pele macia de seu corpo escultural. São velhas, mais velhas que as minhas. Foram adquiridas no treinamento no palácio e na linha de frente de uma guerra que não existe mais. Ainda que o toque de um curandeiro pudesse apagá-las rapidamente, ele as mantém, colecionando-as como outros fariam com medalhas ou distintivos.
Será que vai ganhar mais cicatrizes hoje? Davidson vai manter sua promessa? Parte de mim se pergunta se isso é uma armadilha para o verdadeiro rei Calore. Uma tentativa de assassinato disfarçada de ameaça externa. Mas, mesmo que Davidson tenha mentido quanto a não o machucar, ele não é idiota. Tirar o Calore mais velho do caminho só nos enfraqueceria, removendo o escudo vital que separa Montfort e a Guarda Escarlate de Maven.
Continuo encarando, incapaz de me conter. As cicatrizes podem ser velhas, mas não a marca quase roxa no ponto em que seu pescoço e seu ombro se encontram. Essa é nova. Tem poucos dias. É minha, penso, reprimindo uma lembrança ao mesmo tempo próxima e infinitamente distante.
Alguém bate no meu ombro, resgatando-me da areia movediça que é Tiberias Calore.
— Ei — Farley diz, brusca, como um alerta. Ela não tirou o uniforme vermelho-escuro do Comando e me observa, com os olhos azuis bem abertos. — Deixa que eu ajudo.
Seus dedos sobem o zíper nas minhas costas com rapidez. Eu me remexo um pouco, ajustando o tecido espesso das mangas compridas demais. Qualquer coisa para distrair minha atenção do príncipe exilado, que no momento enfia os braços em seu próprio uniforme.
— Não tinha nada do seu tamanho, Barrow?
A fala arrastada de Tyton é uma distração muito bem-vinda. Ele está ao nosso lado, com as costas apoiadas contra a parede e uma perna comprida esticada. Usa o mesmo uniforme que eu, que envolve seu corpo elegante muito melhor. Sem nenhuma insígnia de trovão. Nenhuma marca. Nenhuma indicação de quão mortífero esse sanguenovo é. Com ele por perto, me dou conta de que Davidson não tem nenhuma necessidade de armar acidentes para derrubar seus oponentes. Tyton basta. O pensamento macabro de alguma forma funciona como um bálsamo. Não é uma armadilha, pelo menos. Não há necessidade de uma.
Enfio as botas, sorrindo.
— Vou ter uma conversinha com o alfaiate quando voltarmos.
Do outro lado da sala, Tiberias dobra as mangas de seu uniforme, deixando o bracelete exposto. Evangeline parece quase entediada ao seu lado. Deixou a pele de raposa cair ao chão para revelar uma armadura que a cobre de cima a baixo. Ela me pega observando e sustenta o olhar.
Não espero que se arrisque por ninguém além de Elane Haven, mas me sinto mais segura com ela por perto. Evangeline já me salvou duas vezes. E ainda sou valiosa para ela. Nosso acordo se mantém.
Tiberias não pode subir no trono.
O vestiário vai esvaziando conforme os soldados se dirigem às fileiras e fileiras de armas nos fundos da sala. Farley se enche de munição, colocando uma pistola do outro lado do quadril e uma metralhadora nas costas. Presumo que já tenha guardado suas facas. Não quero nenhuma arma, mas Tyton pega um cinto, uma pistola e um coldre da prateleira e passa para mim.
— Não precisa, obrigada — resmungo, irritada. Não gosto de armas ou de balas. Não confio nelas. E não preciso delas. Não posso controlá-las como controlo meus raios.
— Alguns deles são silenciadores — Tyton explica, sua voz grave. A mera ideia faz meu estômago se revirar. Conheço a sensação da Pedra Silenciosa bem demais. Não é algo que gostaria de enfrentar de novo.
Sem aviso, ele prende o cinto em mim, seus olhos e dedos trabalhando rápido nas fivelas. Tyton guarda a pistola no coldre, que parece pesada e pouco familiar na lateral do meu corpo.
— É melhor ter uma segunda opção — diz —, caso não possa contar com seu poder.
Atrás de nós, a temperatura se eleva. Sinto uma onda de calor que só pode significar uma coisa. Levanto o rosto a tempo de ver Tiberias passar, tomando o cuidado de se manter à distância, com os olhos grudados no chão. Tentando furiosamente me ignorar.
Daria na mesma se usasse uma placa no pescoço.
— Cuidado com essas mãos, Tyton — ele grunhe por cima do ombro. — Ela morde.
Tyton só dá uma risada sombria. Não precisa responder, e nem tenta. Só deixaria Tiberias ainda mais incendiado.
Uma vez na vida, não me importo com o rubor que esquenta minhas bochechas. Eu me afasto de Tyton, que ainda está rindo.
Tiberias me observa indo em sua direção, seus olhos cor de bronze acesos com algo além do fogo de sempre. Uma energia elétrica pulsa pelos meus braços e pernas. Eu a mantenho controlada, usando-a como combustível para minha determinação.
— Não seja um babaca possessivo — solto, dando uma cotovelada em suas costelas ao passar. É como bater em uma parede. — Se insiste em ser chamado de rei, poderia pelo menos começar a agir como um.
Atrás de mim, ele solta algo entre um rosnado e um suspiro frustrado.
Não respondo, não olho para trás e não paro. Só sigo o fluxo constante de soldados em direção à praça central onde chegamos algumas horas atrás. Veículos pretos e verde-floresta se concentram sobre o piso de pedra, perfeitamente alinhados. Davidson espera à frente, com o marido a seu lado. Eles dão um abraço rápido, tocando as testas e dando um beijo antes que Carmadon se afaste. Nenhum deles parece incomodado com o conflito iminente. Deve ser algo comum, ou são muito bons em mascarar o medo. Talvez uma mistura de ambos.
O palácio se assoma sobre o número crescente de soldados, e sombras se movimentam nas sacadas. Empregados e hóspedes. Aperto os olhos, tentando distinguir minha família entre as silhuetas. O cabelo de Gisa deveria se destacar, mas vejo meu pai primeiro. Ele está inclinado sobre o parapeito, observando tudo. Quando me vê, inclina a cabeça, mas só um pouco. Quero acenar, mas parece algo tolo a fazer. Quando ouço os veículos ganharem vida e os motores roncando entre os pinheiros, sei que gritar para eles é inútil.
Farley está esperando ao lado de Davidson. Ela sobe no primeiro veículo da fila para entrar. Esses veículos altos são diferentes daqueles com que estou acostumada. As rodas são muito maiores, quase da minha altura, com ranhuras profundas para enfrentar o terreno pedregoso e irregular das montanhas. A carcaça é reforçada com aço e decorada com inúmeros apoios de pé e de mão, além de correias, com propósitos óbvios.
Tyton dá um pulo e trepa na traseira do veículo. Ele se prende à parte externa da carcaça, ao lado de outro soldado. As correias se conectam à cintura deles, permitindo certa mobilidade, mas sem deixar seus corpos chacoalharem. Outros soldados, de todos os tipos de sangue, fazem o mesmo nos demais transportes. Não posso ter certeza sem as insígnias, mas presumo que sejam os melhores, tanto no uso de armas quanto no de suas habilidades.
O primeiro-ministro segura a porta do veículo, esperando que eu me junte a ele lá dentro. Algo voraz e selvagem me leva a desobedecer.
Subo ao lado direito de Tyton, prendendo meu corpo à parte externa do transporte. Seu leve sorriso é o único reconhecimento da minha escolha.
O veículo atrás de nós é destinado a Tiberias e Evangeline. Os guardas deles, com suas cores inconfundíveis, o rodeiam. Eu a observo apoiar o pé no degrau para subir. Ela levanta os olhos, não para mim, mas para o palácio atrás de si. Para Carmadon, esperando na entrada principal de braços cruzados, as vestes brancas brilhando sob os holofotes. Anabel também está ali perto, a alguns passos de distância. Beirando a falta de educação. Ela ergue o queixo quando Tiberias surge, atravessando a praça com passos largos.
Sem suas cores, ele parece com o resto de nós. Um soldado obedecendo ordens. É apropriado, já que ele pensa que é isso mesmo. Só mais uma pessoa seguindo as ordens de seu pai, obedecendo a vontade de alguém que está morto. Nossos olhares se encontram de novo, e algo queima dentro de nós dois.
Apesar de tudo, sua presença me deixa mais segura. Afasta qualquer temor que eu possa ter pela minha própria vida.
Mas ao mesmo tempo só evidencia o temor que sinto pelas pessoas que amo. Por Farley, pela minha família. E, ainda e sempre, por ele.


Um assentamento na planície do outro lado da montanha está em risco e pede ajuda. Não há tempo para descer a encosta e contornar o vale. Então vamos por cima.
Há estradas subindo a montanha a partir do palácio, se embrenhando entre os pinheiros. Rasgamos a paisagem íngreme, sob galhos tão densos que bloqueiam a luz das estrelas. Mantenho-me encostada no transporte, com medo de ser atingida por algum galho pendurado. Logo as árvores desaparecem completamente e a estrada fica mais pedregosa. Sinto a cabeça doer, e meus ouvidos entopem como durante uma decolagem. A neve acompanha o terreno inclinado, acumulando-se nas concavidades primeiro, até cobrir totalmente o pico mais alto. Meu rosto exposto fica vermelho de frio, mas o uniforme foi feito para manter o calor do corpo. Ainda assim, bato os dentes, e me pergunto o que exatamente me possuiu para que decidisse ir no exterior do veículo em vez de dentro dele.
O topo da montanha está logo à frente, como uma faca branca cortando o céu pontilhado de estrelas resplandecentes. Eu me inclino tanto quanto ouso. A vista faz eu me sentir pequena.
O equilíbrio se altera quando começamos a descida. Espalhamos neve em nosso encalço, depois pedras e poeira, levantando uma nuvem de detritos enquanto os transportes seguem escarpa oriental abaixo. Sinto um friozinho no estômago quando voltamos a nos aproximar das árvores. A planície se estende além dos pinheiros, infinita e escura como o oceano. Sinto como se conseguisse enxergar milhares de quilômetros à frente. Até Lakeland e Norta. Maven e o que quer que tenha planejado para nós. Outro martelo vai cair, em breve. Mas onde? Sobre quem? Ninguém sabe dizer ainda.
Nós nos enfiamos entre as árvores, e os veículos chacoalham ao passar por cima de raízes e seixos. Não há estradas propriamente ditas deste lado, só caminhos abertos por entre os galhos arqueados. Meus dentes batem a cada pulo, e sei que as correias vão deixar marcas no meu quadril.
— Atenção — Tyton grita, inclinando-se na minha direção para que eu possa ouvi-lo por cima do ronco do motor e do barulho do vento. — Se prepara.
Assinto, me endireitando. É fácil despertar a faísca da eletricidade. Tomo o cuidado de não a puxar dos motores próximos, mas dos raios que só eu posso invocar. Roxa e perigosa, ela troveja sob minha pele.
Os enormes pinheiros rareiam, e vejo a luz das estrelas de relance por entre as folhas. Não acima, mas além. Lá fora. Em frente.
Solto um grito agudo, grudando o corpo na carcaça do transporte enquanto ele derrapa para fazer uma curva fechada e repentina à esquerda e pegar uma estrada pavimentada que margeia o penhasco. Por um momento assustador, acho que vamos cair da montanha e nos estatelar na escuridão abaixo. Mas o veículo se segura firme, os pneus aderindo ao solo, e um a um os outros do comboio o seguem derrapando.
— Fica calma — Tyton diz, com os olhos em mim.
Fagulhas roxas correm por baixo de toda a minha pele, respondendo ao medo. Elas se apagam inofensivas, faiscando na escuridão.
— Não tinha um jeito melhor de fazer isso? — murmuro.
Ele parece indiferente.
De tempos em tempos aparecem arcos de pedra esculpida na estrada, estruturas bem acabadas de mármore e calcário. Cada uma é coroada por um par de asas entalhadas, as penas gravadas profundamente na rocha para abrigar lanternas que iluminam o caminho.
— A Via do Falcão — digo. Um nome propício para uma estrada que fica na altura em que essas aves voam. À luz do dia, deve ser de tirar o fôlego.
A estrada ziguezagueia à beira do penhasco, cheia de curvas bruscas e precárias. Deve ser o modo mais rápido de descer até a planície, e o mais insano. Mas os motoristas são incrivelmente habilidosos, seguindo a trilha sinuosa com precisão. Talvez sejam todos silfos ou o equivalente sanguenovo, e sua agilidade se estenda à máquina que conduzem. Tento me manter vigilante enquanto descemos, procurando prateados hostis entre as rochas e as árvores retorcidas. As luzes da planície entram em foco. As poucas cidades que Davidson mencionou pontilham a paisagem. Parecem pacíficas, intocadas. E vulneráveis.
Estamos no meio de mais uma curva quando algo que parece gritos corta a noite. É o som de metal dilacerado, de placas se soltando. Viro o rosto e vejo um transporte do meio do comboio tombar e capotar inúmeras vezes. Tudo parece acontecer em câmera lenta conforme foco minha atenção e meus sentidos no veículo espiralando no ar. Os soldados de Montfort a bordo tentam se soltar das correias, lutando para vencer a gravidade. Um deles, um forçador, tenta se agarrar à beira da estrada. Ela escapa de seus dedos, o asfalto quebrando ao seu toque. O transporte continua a cair, girando sobre o próprio eixo. Não pode ser um acidente. A trajetória é perfeita.
Ele vai nos esmagar.
Mal tenho tempo de me abaixar quando o veículo em que estou dá um solavanco. Os freios guincham, tentando parar a tempo. Fumaça sai dos pneus, que travam.
A estrada treme quando o outro veículo cai à frente. Batemos nele. Tyton agarra as costas do meu uniforme, me puxando para cima, enquanto tento me livrar das correias, rompendo o tecido grosso com minha eletricidade. Somos jogados para a frente quando o veículo de Tiberias e Evangeline bate na traseira, prendendo-nos entre ele e o transporte que despencou.
Ouvimos o ruído dos freios e das batidas ecoando atrás de nós, um veículo depois do outro, em uma reação em cadeia de motores parando e borracha queimando. Só os últimos seis da fila escapam ilesos. Os motoristas conseguem frear a tempo.
Olho de um lado para o outro, para a frente e para trás, sem saber aonde ir. O veículo caído está virado, como uma tartaruga de costas. Davidson já desceu do seu transporte e cambaleia até os soldados presos ali embaixo. Farley o acompanha, com a arma na mão. Ela se apoia em um joelho, observando o penhasco acima de nós.
— Magnetrons! — Davidson ruge, com a mão erguida para ajudar. Ele estende a palma, formando um nítido escudo azul ao longo dos limites da estrada.
De alguma maneira, Evangeline já está ao seu lado, as mãos dançando no ar. Ela silva ao levantar o transporte pesado, revelando membros retorcidos e cérebros escorrendo de crânios esmagados, como uvas pisoteadas. Davidson não perde tempo, avançando para tirar quaisquer sobreviventes de baixo do veículo suspenso no ar.
Devagar, Evangeline volta a baixar o transporte. Com um movimento dos dedos, ela arranca uma das portas, permitindo que aqueles que estavam lá dentro saiam. Os soldados estão ensanguentados e desorientados, mas vivos.
— Saiam do caminho! — ela grita, gesticulando para que se afastem do transporte. Quando o fazem, mancando para longe, ela une as mãos em uma batida de palmas ressonante.
O veículo faz como ela ordena, compactando-se em uma bola densa e amassada do tamanho de uma das portas. Ela o deixa cair com um estrondo. Vidro e borracha voam em todas as direções, livres do controle de Evangeline. Um pneu rola pela estrada, em uma estranha visão.
Percebo que ainda estou de pé sobre meu veículo. Evangeline se vira, e sua armadura reflete a luz das estrelas. Mesmo com Tyton ao meu lado, sinto-me exposta. Um alvo fácil.
— Tragam os curandeiros! — grito, olhando para a fila de veículos engavetados sob as arcadas. — E iluminem a estrada!
Acima de nós, algo cintila, como um raio de sol. Efeito de sombrios manipulando a luz, sem dúvida. Eles fazem com que uma claridade forte e uma escuridão mais forte ainda dancem sobre nós. Aperto os olhos e cerro o punho, soltando faíscas elétricas das juntas. Como Farley, mantenho os olhos nas saliências das rochas à nossa volta. Se os saqueadores de alguma forma conseguiram chegar até o terreno mais elevado e estão acima de nós, perdemos nossa vantagem.
Tiberias já sabe disso.
— Fiquem de olho nos penhascos! — ele grita, de costas para o próprio veículo. Também tem uma arma na mão, enquanto chamas rodeiam os dedos da outra.
Não que os soldados precisassem de tal instrução. Todo mundo que tem uma arma já a sacou e está com o dedo no gatilho. Só precisamos de um alvo.
Mas a Via do Falcão está estranhamente silenciosa, a não ser pelo grito ocasional ecoando conforme as ordens são passadas adiante pelo comboio.
Cerca de uma dúzia de soldados de Montfort vai descendo pela via sinuosa, meras silhuetas nos uniformes pretos. Eles param a cada transporte, usando suas habilidades para tentar separar os veículos batidos. Magnetrons e forçadores, ou seus correspondentes sanguenovos.
Evangeline e seus primos se mantêm no lugar, concentrados em separar o veículo em que eu estava do deles.
— Consegue consertar? — eu pergunto.
Ela escarnece enquanto força o metal retorcido a se soltar.
— Sou uma magnetron, não uma mecânica — resmunga, em meio aos destroços.
De repente, sinto falta de Cameron e de seu cinto de ferramentas. Mas ela está bem longe e fora de perigo, com seu irmão em Piedmont. Mordo o lábio, com a mente a toda. É claramente uma armadilha, que nos deixa vulneráveis no meio da montanha. Ou pelo menos presos aqui, enquanto os saqueadores espalham o caos nos vilarejos mais abaixo ou na cidade atrás de nós.
Tiberias está pensando a mesma coisa. Ele se apressa até a beira da estrada e olha para a escuridão lá embaixo.
— Consegue se comunicar com os assentamentos? Precisamos alertá-los.
— Já estamos fazendo isso — Davidson grita de volta. Ele se agacha diante de um dos soldados feridos, segurando seu braço enquanto um curandeiro trabalha na perna do homem. Ao lado do primeiro-ministro, uma oficial fala rápido no rádio.
Tiberias franze a testa, dando as costas para o penhasco e encarando a carnificina.
— Mande uma mensagem para a cidade também. Peça um segundo destacamento. Jatos, se conseguirem chegar a tempo.
Davidson mal assente. Tenho a sensação de que já fez isso também, mas segura a própria língua, concentrado no soldado à sua frente. Cerca de meia dúzia de curandeiros trabalha diligentemente pelo comboio, atendendo aqueles que se feriram no enorme desastre.
— E quanto a nós? Não podemos ficar aqui por muito tempo. — Desço do veículo, em uma aterrissagem suave. É bom pisar em terra firme de novo. — Alguém derrubou esse transporte.
Ainda no teto do veículo, Tyton leva as mãos aos quadris. Ele olha para a estrada sinuosa acima, investigando o espaço vazio de onde o primeiro transporte caiu.
— Talvez tenha sido uma mina de carga pequena. Se detonada no momento certo, pode virar um veículo.
— Muita coincidência — Tiberias grunhe. Ele caminha pela estrada, o corpo inteiro tenso. Seus guardas Lerolan o seguem perto demais, quase pisando em seu pé. — Muito coordenado. Tem alguém aqui com a gente. Precisamos descer antes que ataque de novo. Somos um alvo fácil.
— Um alvo fácil à beira de um penhasco — Evangeline acrescenta. Ela dá um chute frustrado em seu veículo, deixando uma bela marca na frente já amassada. — Temos que passar os transportes que estão funcionando para a frente. Enchê-los tanto quanto possível.
Tiberias balança a cabeça.
— Não é o bastante.
— Mas pelo menos é alguma coisa — eu solto.
— Estamos a algumas centenas de metros de altitude. Parte do regimento pode descer correndo até a planície — Davidson diz, ajudando um soldado mancando a abrir caminho. A oficial de comunicação o segue, ainda falando no rádio. — O posto avançado de Goldengrove tem veículos. Não fica muito longe do pé da montanha.
Ainda no chão, Farley gira, abaixando a arma depressa.
— Está sugerindo que a gente se separe?
— Por pouco tempo — Davidson responde.
Ela levanta, pálida.
— Mas pode ser o bastante se…
— Se? — ele pergunta.
— Se for uma armadilha. Um blefe. Vocês receberam a informação de que saqueadores estavam perto dos vilarejos. Mas onde está o ataque? — Ela gesticula para o horizonte escuro. — Não há nenhum. Não lá.
Davidson franze a testa, movimentando os olhos.
— Por enquanto não.
— Ou nem planejavam atacar. Só queriam que deixássemos a cidade — Farley diz. — Para nos pegar nos penhascos. Você mesmo disse que eles lutam por orgulho. E a cidade é muito bem defendida. É um belo jeito de reunir alvos valiosos em campo aberto.
O primeiro-ministro vai até ela, com o rosto sombrio e severo. Ele põe a mão em seu ombro e aperta de leve. Um gesto amistoso e talvez um pedido de desculpas.
— Não vou dar as costas ao meu povo porque talvez estejamos em perigo. Não posso fazer isso, general Farley. Acho que compreende minha posição — ele diz, soltando um suspiro.
Espero que Farley insista, mas ela abaixa o queixo, quase como se assentisse. Morde o lábio e se mantém em silêncio.
Satisfeito, Davidson olha por cima do ombro.
— Capitão Highcloud, capitã Viya — ele chama. Dois oficiais de uniforme preto dão um passo à frente, prontos para receber suas ordens. — Desçam com suas unidades. Marcha firme, a toda velocidade. O ponto de encontro é Goldengrove.
Eles batem continência em resposta e se viram para reunir seus soldados. Tiberias faz uma careta ao ver as duas unidades rumando para a frente do comboio. Ele corre até o primeiro-ministro, pegando seu braço. Não para ameaçá-lo, mas para implorar.
Conheço a expressão de medo de Tiberias Calore, e é o que vejo nele agora.
— Pelo menos deixe os gravitrons — ele suplica. — Caso decidam explodir a montanha…
Depois de um breve momento de reflexão, Davidson range os dentes.
— Está bem — ele diz. — E, se não se importa, alteza — o primeiro-ministro acrescenta, virando para encarar Evangeline —, aqueles transportes não vão passar por toda essa bagunça sozinhos. Use os gravitrons também. Eles vão facilitar o trabalho.
Ela o olha com profunda irritação, desacostumada a receber ordens de qualquer outra pessoa que não seu pai. Mesmo assim, suspira e vai fazer o que ele sugere.
— E quanto a mim? — pergunto, colocando-me entre Tiberias e Davidson. Os dois se sobressaltam, parecendo ter esquecido que eu estava ali.
— Fique atenta — é tudo o que o primeiro-ministro diz, dando de ombros. — A menos que possa levantar um veículo do chão, não há muito o que fazer no momento.
Muito útil, penso. Mas minha frustração é comigo mesma. Minha habilidade tem a finalidade de destruir. Ela não nos serve de nada agora. Não sirvo para nada neste momento.
Assim como Tiberias.
Ele observa Davidson se afastar, com a oficial de comunicações logo atrás, deixando-nos sozinhos, de costas para a carcaça destruída do meu veículo. A adrenalina e a eletricidade ainda correm pelas minhas veias. Tenho que me inclinar contra o metal e manter os dedos apertados para controlar os tremores.
— Não gosto disso — Tiberias murmura.
Ironizo, raspando as botas novas no chão da estrada:
— Presos em um penhasco, sem metade dos soldados, com os veículos arruinados, um ataque de saqueadores iminente e sem ter conseguido terminar o jantar? Achei que fosse o paraíso.
Apesar das circunstâncias, ele abre seu sorriso malicioso que me é tão familiar. Cruzo os braços, torcendo para que não possa me ver corando sob a luz fraca.
Tiberias me encara, seus olhos cor de bronze passando pelo meu rosto com ardor e concentração. Devagar, seus lábios caem e seu sorriso desaparece conforme se lembra das decisões que tomamos. Das nossas escolhas. Mas seu olhar se mantém, e eu sinto o fogo subindo dentro de mim. Raiva, desejo e arrependimento na mesma medida.
— Não me olhe assim, Tiberias.
— Não me chame de Tiberias — ele retruca, baixando o rosto.
Solto uma risada amarga.
— É o nome que você escolheu.
Ele não tem resposta para isso, e um silêncio desagradável recai sobre nós. Os gritos ocasionais e rangidos metálicos ecoam através da montanha, os únicos sons no vazio da escuridão.
Na estrada sinuosa acima de nós, Evangeline, seus primos e os gravitrons movimentam devagar os veículos, passando os destroços para trás dos que ainda funcionam. Davidson deve ter dito a ela para preservar as carcaças, senão ela poderia simplesmente transformá-las em poeira, liberando a passagem.
— Sinto muito pelo que aconteceu agora há pouco, no arsenal — Tiberias diz, depois de um longo tempo. Ele mantém os olhos no chão e a cabeça baixa. Não é o bastante para esconder o tom prateado que sobe por suas bochechas. — Não deveria ter dito aquilo.
— Não ligo para o que disse. Só para a intenção por trás — digo, balançando a cabeça. — Não pertenço a você.
— Acho que qualquer pessoa com olhos pode ver isso.
— E você? — pergunto, cortante.
Tiberias solta o ar devagar, como se estivesse se preparando para a luta, mas só vira a cabeça para me encarar. As luzes da estrada projetam sombras irregulares sobre ele, que destacam as maçãs de seu rosto. Faz com que pareça velho e cansado, rei há anos, e não há dias.
— Sim, Mare — Tiberias finalmente diz, sua voz grave. — Mas lembre que não fui só eu.
Pisco.
— O quê?
— Você também escolheu outra coisa em vez de mim — ele suspira. — Muitas coisas, aliás.
A Guarda Escarlate. A aurora vermelha. A esperança de um futuro melhor para as pessoas que amo. Mordo o lábio, mastigando minha própria carne. Não posso negar. Tiberias não está errado.
— Se vocês dois já terminaram — Tyton diz alto, inclinando-se em seu posto de observação no veículo —, acho que vão gostar de saber que tem gente ali nas árvores.
Seguro o ar, tensa. Tiberias ergue a mão depressa, tocando meu braço em um leve alerta.
— Não faça nada impensado — ele diz. — Devemos estar sob a mira deles.
Ouço metal ranger e me sobressalto sob os dedos de Tiberias. Ele segura mais forte. Mas são só nossos veículos sendo deslocados.
— Quantos? — pergunto por entre os dentes cerrados, fazendo meu melhor para mascarar o medo.
Tyton volta seus olhos reluzentes para mim. Seu cabelo branco brilha sob as luzes artificiais da Via do Falcão.
— Quatro, dois de cada lado. A uma boa distância, mas posso sentir os cérebros. — Ao meu lado, Tiberias franze a testa, retorcendo os lábios em desagrado. Tyton prossegue: — A menos de cinquenta metros, acho.
Olho além de Tiberias, que olha além de mim, ambos procurando nos pinheiros escuros, tão furtivamente quanto possível. Não consigo enxergar nada fora do nosso círculo de luz. Nem o brilho de olhos nem o reflexo do aço do cano de uma arma. Nada.
Tampouco posso senti-los. Minha habilidade não é nem de perto tão forte ou tão focada quanto a de Tyton.
Os olhos de Farley encontram os meus. Ela se aproxima com uma mão na cintura e a outra ainda segurando a pistola.
— Vocês três parecem que viram um fantasma — diz, olhando de um lado para o outro. — Atiradores nas árvores? — ela pergunta, como se estivesse falando do tempo.
— Você viu alguém? — Tyton sussurra.
— Não. — Ela balança a cabeça. — Mas deu para sacar.
— Você pode derrubá-los, não pode? — pergunto, cutucando a bota de Tyton.
Lembro o que os eletricons me contaram sobre sua habilidade. Raio mental. Ele pode afetar a eletricidade no corpo de alguém, as fagulhas diminutas dentro do cérebro. Pode matar sem que ninguém saiba. Sem deixar rastros.
Tyton franze a testa e as sobrancelhas escuras, que contrastam com seu cabelo tingido.
— Talvez consiga, mesmo a essa distância. Mas só um de cada vez — ele diz. — E só se forem mesmo saqueadores.
Tiberias franze o cenho.
— E quem mais estaria lá em cima?
— Não gosto de matar pessoas sem motivo, Calore — Tyton diz. — E passei a vida inteira nessas montanhas.
— Então vai esperar que atirem na gente? — O príncipe muda ligeiramente de posição, abrindo os ombros para me proteger.
Tyton não cede. Enquanto fala, uma brisa bate, carregando consigo o cheiro forte e pungente dos pinheiros.
— Vou esperar que sua princesa magnetron me diga se estão segurando rifles de artilharia ou não.
Por um lado, concordo com Tiberias. Estamos expostos aqui em cima, e quem mais poderia estar escondido nas árvores, observando nossas dificuldades? Mas também entendo Tyton. Sei como é dar uma descarga em alguém, sentir seus nervos se sobrecarregando e morrendo. Parece que uma parte de você também morre, um fim que nunca se esquece.
— Chame Evangeline — murmuro. — E avise Davidson. Precisamos ter certeza.
Tiberias bufa ao meu lado, mas não discute. Ele passa pelo veículo para ir atrás dela.
A brisa ganha força, batendo no meu rosto. Folhas de pinheiro tocam minha pele, tão suaves quanto dedos. Tento pegar uma, mas ela escapa com o vento crescente.
E então ela brota diante dos meus olhos, como um arbusto crescendo no ar. Ataca um soldado antes que qualquer um de nós possa reagir.
Não é a chuva de balas que esperávamos, mas sim folhas de pinheiro explodindo em um vendaval forte e repentino. Pegam primeiro Tyton, derrubando-o do veículo destruído. Ele cai na estrada, batendo a cabeça contra o pavimento. Então se coloca de joelhos, mas cai de novo, sem equilíbrio. Levanto um braço para proteger os olhos e fico de joelhos enquanto as folhas arranham minha pele exposta. Onde pousam, raízes e troncos surgem em uma explosão viva e serpenteante. Rachaduras aparecem na estrada e os veículos balançam, atingidos pela floresta que cresce diante dos nossos olhos. Perco o equilíbrio e luto para me manter de pé, me segurando no transporte destruído às minhas costas.
Tiberias reage automaticamente. Ele atira bolas de fogo, queimando os pinheiros assim que brotam à nossa volta. As cinzas são levadas pelo vento cada vez mais forte, obscurecendo as luzes da estrada e fazendo meus olhos lacrimejarem.
O ar é tomado pelo som de metal esmagado e vidro quebrado. Evangeline e seu pessoal cansaram de perder tempo. Eles compactam os destroços que continuam no caminho, reduzindo-os a amontoados de ferro e aço. Os motores dos veículos que ainda funcionam revivem, roncando ao avançar, lutando para passar pelas raízes vibrantes e galhos violentos. Evangeline salta em meio ao ar esfumaçado, subindo na carcaça de um veículo. Tiros ecoam, mas as balas caem no caminho, impedidas por sua habilidade.
Escudos azuis ganham vida dos dois lados da estrada, altos e etéreos contra a fumaça e as cinzas. Davidson os controla com os punhos para o alto. Mais tiros ecoam, parando no escudo. Não conseguem penetrá-lo. As balas não nos alcançam.
— Tyton! — eu grito, olhando para o eletricon. — Tyton, mate todos!
Ele consegue se colocar de pé, o corpo instável enquanto sacode a cabeça de um lado para o outro. Tentando afastar a tontura. Então se recosta no veículo mais próximo, usando-o como apoio.
— Só um segundo! — ele grita de volta, balançando a cabeça de novo.
Ainda não conseguimos ver os saqueadores, a salvo em seus esconderijos nas árvores. Pelo menos alguns deles devem ser verdes. As chamas de Tiberias se espalham pela onda de pinheiros na estrada, revirando-se como cobras, tentando devorar cada nova árvore assim que brota. Seus guardas Lerolan correm por entre os troncos, tocando-os. Eles explodem de imediato, estilhaçando-se em nuvens de casca e fogo.
— Entrem nos transportes! — Davidson ruge por cima do caos. Ele mantém os escudos de pé, defendendo-nos da saraivada de balas. — Temos que sair da montanha!
Respiro fundo para me preparar. Foco. No escuro, não consigo ver as nuvens se formando sobre minha cabeça, mas posso senti-las. Nuvens de tempestade, cúmulos-nimbos. Crescendo ao meu comando, prontas para descarregar. Alguém coloca Tyton no veículo que se aproxima, prendendo-o com as correias. Na estrada, Tiberias direciona seu inferno à floresta letal que tenta nos encurralar no penhasco ou nos jogar dele. O resto do destacamento faz o seu melhor para desviar das árvores ou destruí-las, abrindo caminho para os veículos e para nossa fuga.
Meu coração bate forte contra as costelas, a adrenalina se espalhando pelo sangue. Ela aumenta até eu sentir que poderia explodir. Inspiro de novo, mais fundo que antes, e ergo as mãos abertas. Minha tempestade irrompe sobre nossas cabeças, com raios simultâneos caindo sobre as árvores dos dois lados da estrada. Pinheiros se quebram. Brasas queimam. Troncos envergam e cedem antes de cair na mata. Incêndios brotam entre os galhos, pequenos a princípio, logo gigantes. Alimentados pela força do príncipe Calore.
As balas à nossa esquerda param de vir por tempo suficiente para que Davidson interrompa um escudo e suba no transporte que vem atrás de Evangeline. Os seis veículos estão lotados de soldados, conhecidos e desconhecidos. Com o uniforme preto, parecem insetos, disputando espaço em uma pedra no meio de um rio revolto.
Tyton está do lado de fora do veículo de Evangeline, preso pelo braço ao conjunto de correias. Conforme passa por Tiberias, que ainda luta, ele estende a mão. O príncipe a aceita sem questionar, subindo com facilidade. Sou a próxima.
Aterrisso com força, enfiada entre Tiberias e Tyton, com Evangeline acima de nós. Fundiu as botas de metal ao veículo, o que lhe permite ficar firme de pé, apesar da velocidade crescente. Ela cerra um punho para tirar os últimos destroços do caminho, jogando tudo penhasco abaixo. Estilhaços de vidro caem como chuva.
O último escudo de Davidson cai, passando das árvores à frente para o primeiro transporte. Nesse breve segundo, outra saraivada de balas é dirigida ao comboio. Algumas passam perigosamente perto, perfurando o metal acima da minha cabeça.
A adrenalina devora meu medo. Foco em me segurar no transporte, com os dedos firmes nos apoios de mão, o corpo pressionado contra o aço frio. As chamas nos acompanham, ladeando o veículo. Tiberias as controla, arrastando o redemoinho de fogo conosco, queimando qualquer coisa que se coloca no caminho. Os pneus cantam conforme os veículos descem pelas curvas sinuosas a uma velocidade impressionante.
— Tem mais gente nas árvores — Tyton resmunga por entre os dentes diante do vento. Ele aperta os olhos para a escuridão, transformando-os em fendas. Sei o que está fazendo, ainda que não consiga imitá-lo. Está chegando a seus cérebros, sentindo-os como sinto a tempestade. Tyton pisca uma, duas vezes. Matando quem estiver a seu alcance, disparando uma onda furiosa de eletricidade em seu crânio. Imagino os saqueadores caindo no chão da floresta, seus corpos se contorcendo em uma convulsão mortal antes de ficar eternamente imóveis.
Despejo raios sobre os pinheiros, atingindo mais troncos e galhos. Os lampejos fortes iluminam a floresta por um momento, o suficiente para que eu veja as silhuetas de árvores caindo e corpos voando. Pelo menos uma dúzia.
A Via do Falcão fica mais plana pouco antes do quilômetro final. Deixamos as curvas fechadas e os penhascos para trás. Os veículos rugem, aproveitando-se da reta para disparar numa corrida enfurecida até o pé da montanha. O fogo e a tempestade nos acompanham, dois guardiões sobre asas mortíferas.
Sinto mais motores ao longe. Não tão fortes quanto os nossos, mas igualmente rápidos, vindo na nossa direção a uma velocidade avassaladora.
A primeira motocicleta surge do meio das árvores, cegando-nos com seu único farol. O saqueador montado nela é pequeno, com membros finos, armadura e óculos de proteção. Sua audácia beira a idiotice, porque ele não desvia das pedras maiores, passando por cima delas e levantando um breve voo.
Acima de mim, Evangeline corta o ar com as mãos. A moto é destruída ao seu comando, despojada de rodas e escapamento.
Mas ela não é a única magnetron aqui.
O saqueador continua no assento enquanto a moto se remonta sob seu corpo, saltando sobre o capô do nosso veículo. Ele joga alguma coisa na nossa direção. O aço brilha à luz fraca, tão rápido quanto uma bala.
Facas atravessam o ar, suas lâminas afiadas cortando o vento. Desviamos juntos, Tiberias, Tyton e eu. Uma pega meu ombro. O uniforme evita o pior, mas ainda sinto o arranhão. Mordo o lábio com força, segurando um grito de dor.
A motocicleta pousa do outro lado da estrada com um forte impacto. Os pneus levantam poeira enquanto o saqueador dá a volta para tentar de novo. Ele depara com uma fina parede azul, e a motocicleta é esmagada enquanto seu corpo cai para trás, sangrando.
O escudo de Davidson nos acompanha, tentando bloquear as outras motocicletas que saem do meio das árvores. Alguns dos saqueadores caem, com o corpo em espasmos, indicando que Tyton deu conta deles. Nós nos concentramos em chegar à planície, deixando a estrada. Ao posto avançado, aos nossos reforços, à segurança. Os sanguenovos de Montfort defendem o comboio, impedindo os ataques com tudo o que têm. O fogo de Tiberias se espalha pelas árvores, as cinzas caindo sobre nós como neve, cobrindo-nos de pó. Deixo meus raios rasgarem o céu. O som e a força são o bastante para assustar alguns saqueadores, que voltam para o meio das árvores.
Na escuridão, é difícil distinguir suas sombras. Não parecem os prateados com que estou acostumada, com suas vestes finas, armaduras polidas e joias reluzentes. Nem têm a severidade dos trajes de treinamento e dos uniformes. São diferentes, usando roupas, armas e artefatos descoordenados entre si. Mais do que tudo, eles me lembram a Guarda Escarlate em seus retalhos vermelhos, unidos apenas por uma cor e uma causa.
As motocicletas desaparecem no meio da fumaça e do mato, os faróis tremeluzem e somem de vista. Tento alcançar seus motores antes que saiam do meu alcance. Mas outro estrondo me faz parar, um ruído baixo e forte se aproximando.
Posso senti-lo nos meus dentes.
Monstros surgem das cinzas, com enormes cabeças peludas, chifres baixos, cascos batendo. Dezenas deles, resfolegando e zurrando em fileiras abarrotadas. A manada colide com o comboio, atropelando cada um dos veículos, apesar do caos de balas, fogo, raios e facas. Eles são fortes demais, estranhos demais. Seu couro é grosso, seus músculos são enormes, seus ossos fazem vezes de armadura. Observo um deles levar uma bala na cabeça e seguir em frente, os chifres rasgando o metal como se fosse papel. Mal consigo gritar.
O transporte vacila sob nós, arrancado da estrada por sua força monstruosa. Caímos com ele. Sinto gosto de sangue com o impacto. Alguém me mantém no chão, levando a mão ao meu pescoço. Através do cabelo, consigo ver de relance o veículo flutuando acima de nós. Distingo a silhueta de Evangeline, com os braços abertos e os punhos cerrados. Ela faz um movimento para usar o transporte como aríete, jogando-o contra a horda de criaturas temíveis. Elas o circulam e atacam de novo, seus olhos furiosos e arregalados, claramente sob controle de um ânimos prateado.
Eu me recomponho, apoiando o peso no braço de Tiberias para levantar. A alguns metros de distância, Farley está de joelhos, atirando. Suas balas não têm nenhum efeito nas feras, que correm, se aproximando de nós rapidamente.
Cerrando o maxilar, sacudo e abro os braços, jogando raios roxos e brancos em seu caminho. As criaturas recuam aterrorizadas, ainda animais, independente de quem as esteja controlando. Algumas tentam seguir em frente. Caem no chão com berros de dor, contorcendo-se em espasmos, sacudindo os chifres.
Tento ignorar o som terrível e estreito os olhos para enxergar através da quase escuridão, enquanto o medo cede lugar ao instinto. Meus movimentos vêm sem pensar, cada passo ou gesto instantâneo. Estou tão focada que quase não noto a sensação, como um peso recaindo sobre meus ombros. A pressão é gentil a princípio, fácil de confundir com exaustão.
Mas meus raios perdem força, não tão brilhantes como antes. Não tão fáceis de controlar. Eles falham, recaindo fracos sobre o saqueador que tento derrubar. Ele tomba, mas levanta depressa, com o punho cerrado na minha direção.
A força de sua habilidade me coloca de joelhos, e não sinto nem um pingo de eletricidade. Sou como uma vela apagada, incapaz de brilhar ou queimar.
Não consigo respirar. Não consigo pensar.
Não consigo lutar.
Um silenciador, uma voz dentro de mim grita. A dor e o medo familiares tomam conta de mim, fazendo eu me dobrar.
Minhas mãos inúteis vão ao chão, esfregando a terra fria. Minha respiração é fraca, mal consigo me mover, muito menos me defender. Mergulho em uma espiral de medo, e minha visão escurece por um segundo. Sinto as algemas de novo, a Pedra Silenciosa nos meus pulsos e tornozelos, mantendo-me prisioneira atrás de portas trancadas. Acorrentando-me a um falso rei, condenando-me a uma morte lenta e sem sentido.
O prateado caminha na minha direção, e seus passos são como trovão aos meus ouvidos. Ouço o canto do metal raspando quando saca a faca, com a intenção de me dar um fim rápido cortando minha garganta. A lâmina cintila no escuro, refletindo o brilho vermelho das chamas. Ele sorri para mim, seu rosto descorado e branco enquanto agarra meu cabelo, puxando minha cabeça para trás. Quero lutar. Deveria pegar a arma no quadril, que ainda está no coldre. Mas meus membros não se movem. Até as batidas do meu coração parecem lentas. Não consigo nem gritar.
A combinação do silêncio esmagador e do medo me mantém paralisada. Só consigo observar. A lâmina chega perto da minha pele, quase me queimando de tão fria.
Ele olha com malícia, o cabelo oleoso por baixo do lenço grudado na testa. Não sei dizer de que cor é o tecido ou se significa alguma coisa. É inútil pensar nisso agora.
Então seu rosto explode; fragmentos de osso e carne rasgada se espalham. Seu corpo segue o impulso e é lançado para cima de mim, e a minha eletricidade retorna de imediato. Me esquivo, sem pensar, escapando de baixo do cadáver enquanto seu sangue quente e dentes estilhaçados ficam presos no meu cabelo.
Alguém me pega pelo braço, arrastando-me pela terra. Eu deixo, ainda em choque, paralisada pelo medo, incapaz de fazer muito além de dar alguns chutes no ar. À distância, Farley me observa com uma expressão assassina, a pistola ainda erguida e apontada para o homem morto.
— Sou eu — uma voz profunda diz, me deitando a alguns metros de distância. Ou me deixando cair.
Tiberias está à minha frente, com os olhos arregalados, quase brilhando à luz fraca. Sua respiração sai em sopros rápidos enquanto me observa.
Levante, digo a mim mesma. Ponha-se de pé.
Se eu pudesse. Se a lembrança da Pedra Silenciosa fosse tão fácil de apagar. Devagar, esfrego as mãos, chamando as fagulhas para a superfície. Tenho que ver. Preciso saber que não se foram de novo.
Então toco a garganta, molhando os dedos com meu próprio sangue.
Tiberias me observa em silêncio, sem piscar. Retribuo seu olhar até que ele vira o rosto, colocando uma distância relutante entre nós. Quando me recomponho, me dou conta de que não estou indefesa. Ele me deixou perto dos veículos, usando os destroços como cobertura. À minha volta, soldados de Montfort se reposicionam. Davidson passa por eles, com um fio de sangue escorrendo pelo rosto. Parece enojado consigo mesmo, e com os saqueadores.
Tremendo, fico de pé, usando o veículo pesado atrás de mim como apoio. A batalha ainda se desfralda à minha frente, e as feras monstruosas bufam e pisoteiam, em conflito entre sua própria natureza e o comando dos prateados.
Uma rede de raios brancos se forma à frente delas, como uma cerca para contê-las.
Elas balançam a cabeça, aterrorizadas. Conheço a sensação.
— Coitadinhos — ouço Tyton murmurar, parado ao meu lado. Ele olha para as criaturas, estranhamente desolado. Quando uma tenta atacar, Tyton pisca e ela cai, seu corpo maciço retumbando no chão.
Os saqueadores retornam, as motocicletas rosnando e saltando através das árvores esparsas. Evangeline e seus primos lutam contra os outros magnetrons, disputando o controle das motocicletas.
Com uma mão no peito, as unhas agarrando o uniforme, tento me apoderar de uma moto que salta na estrada. Foco nela para sentir as ondas de eletricidade do motor. Com um arroubo de determinação, sinto-as morrer em rápida sucessão. Uma explosão repentina, então nada.
O saqueador se sobressalta, assustado com a falha da máquina. Respirando forte, repito o processo com outro. As motos param uma a uma, seja no chão ou no meio do ar.
Nossos soldados atacam. Devem ter ordens de capturar os saqueadores vivos. O próprio Davidson aprisiona um com seus escudos, deixando que bata inutilmente nas paredes de sua gaiola azul.
Evangeline persegue um pequeno magnetron, derrubando-o na terra. Ele tenta duelar com ela, girando lâminas duplas num formato entre a espada e o chicote. Ela é mais rápida e mais mortífera. As armas dele não são páreo para suas facas, que esfolam sua pele, a habilidade dela forte demais para ser superada. Evangeline Samos não deve nenhuma lealdade a Davidson, nem compartilha de sua clemência. Ela destroça o saqueador, deixando que o líquido prateado escorra sob as estrelas.
Entre o sangue e as cinzas, os morros baixos têm cheiro e gosto de morte. Puxo o ar mesmo assim, tentando recuperar o fôlego.
Os saqueadores que restam sabem que a batalha está perdida. Seus motores começam a esvanecer em sua tentativa de fuga em meio às árvores. Conforme desaparecem, o mesmo acontece com sua influência, e a horda de feras se acalma. Elas dão as costas e se dirigem para a floresta, deixando apenas corpos e vegetação pisoteada para trás.
— Isso é o que você chama de bisão? — pergunto para Davidson, arfando.
Ele assente sombrio, e eu contemplo a ironia. Ainda posso sentir a carne do jantar no estômago, pesada como uma pedra.
À distância, um pouco mais à frente na estrada, faróis vêm em nossa direção. Cerro o punho, me preparando para outra leva de ataques.
Mas Tyton toca meu braço, me observando com seus olhos brilhantes.
— São os veículos de Goldengrove. Reforços.
O alívio toma conta de mim. Relaxo os ombros, soltando o ar. O movimento dispara uma pontada de dor através do corte nas minhas costas. Sibilo, fazendo careta e esticando a mão para conferir o estrago. O corte é grande, mas não é profundo.
A alguns metros de distância, Tiberias me observa avaliando minhas próprias feridas. Ele pula quando meus olhos encontram os seus e me dá as costas.
— Vou chamar um curandeiro — murmura, indo embora.
— Se já parou de chorar por causa desses cortezinhos, estou precisando de ajuda aqui. — Do chão, Farley gesticula, os dentes bem cerrados. Sua arma está no chão, cercada de cartuchos vazios. Um deles salvou minha vida.
Ela se inclina, tomando o cuidado de não mover a perna direita. Porque seu joelho está… estranho.
Minha visão fica borrada por um segundo. Já vi muitos machucados, mas a posição em que seu joelho está torcido, com a parte inferior da perna fora de lugar, faz meu estômago revirar. Esqueço de imediato a dor nos meus próprios músculos, o sangue no meu ombro, até o toque do silenciador, e corro para o lado dela.
— Não se mexa — eu me ouço dizer.
— Jura? — ela rosna de volta, suas mãos firmes na minha.

13 comentários:

  1. "As cicatrizes podem ser velhas, mas não a marca quase roxa no ponto em que seu pescoço e seu ombro se encontram. Essa é nova. Tem poucos dias. É minha, penso, reprimindo uma lembrança ao mesmo tempo próxima e infinitamente distante"

    Não entendi, do que q a Mare tava falando??

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    1. acho que é sobre aquela luta no qual um murmurador fez eles lutarem um contra o outro, ai ela deve ter acertado ele, eu lembro mt bem

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    2. No livro antetior ela deu um soco nele!!

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    3. A marca nova é da batalha do treinamento da véspera da batalha de Corvium, quando ela eletrocutou ele e ele queimou ela. Acho que a mensagem é de que ele vai guardar os últimos momentos que teve com Mare na pele até o fim, mesmo que sejam cicatrizes.

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    4. Morri com "uma marca de amor" kkkkkk.

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  2. O nome da camerom ta escrito errado



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  3. Cal e Mare❤️❤️❤️❤️

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  4. Eu não sei se eu odeio muito ou pouco o Cal, ele é muito pau mandado e isso me irrita profundamente.

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  5. 1°Sera que sou a única que tá farta de ouvir Tibérias ao invés de Cal?
    2° Shippei Mare e Tyton, mas não precisamos de um triângulo nessa altura do campeonato.
    3° Rá! As voltas que os livros dão quem iria imaginar lá na Rainha Vermelha que Mare e Evangeline estariam praticamente do mesmo lado.
    4° Os ideais da Guarda Escarlate são muito bonitos na teoria, mas e na pratica?? O mundo real está cheio desse tipo que prega justiça, igualdade e etc, porém quando se vêem no poder fazem justamente aquilo que falsamente condenaram. Não acho que devemos abaixar a cabeça pra um regime ditador que explora o povo que era o caso do Reinado de Tibérias pai, mas também não devemos ser idiotas úteis nas mãos de rebeldes que dizem se importar com o povo, mas que lá no fundo não se importam só querem uma chance de dominar tudo. Oh lembrei-me de Katniss agora que foi uma "idiota"útil para o D13. É só pra dizer que não confio tanto assim nos ideais da Guarda Escarlate.
    5° O que disse no 4° pode parecer nada haver afinal é só uma história de ficção, mas até mesmo uma história de ficção pode nos ensinar algo e nos fazer ver certas coisas com mais clareza

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    1. 1° Não estou farta disso não, pra falar a verdade gostei.

      2° Também shippei mas concorde que não tem mais tempo pra um triangulo ai.

      3° É as voltas que o mundo dá colega. O inimigo de hoje pode ser o aliado de amanhã.

      4° e 5° Concordo em gênero, numero e grau.

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  6. Nem amo essas briguinhas do Cal e da Mare toda hora msm<3

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Boa leitura, E SEM SPOILER!