2 de junho de 2018

Capítulo doze

Evangeline

APESAR DE MONTFORT SER BONITA, estou muito feliz por partirmos pouco tempo depois da nossa chegada. Mais ainda: vou para casa. Para a mansão Ridge, Ptolemus, Elane. Estou tão satisfeita que mal me incomodo de fazer minhas próprias malas.
É a decisão mais inteligente. Até os vermelhos sabem. Rift fica mais perto de Montfort do que a base de Piedmont, sem falar que não está cercada por território de Bracken. É um lugar bem protegido e forte. Maven não vai ordenar um ataque às nossas terras, e teremos tempo para juntar nossos recursos e nossos exércitos.
Ainda assim, minha pele fica a tarde inteira arrepiada. Mal consigo digerir o sorriso largo de Cal quando saímos para o pátio do palácio de Davidson. Às vezes gostaria que ele tivesse apenas um grama da astúcia de Maven, ou pelo menos bom senso. Assim talvez entendesse o que aconteceu pela manhã na Galeria do Povo. Cal confia demais, é bom demais, ficou satisfeito demais com seu próprio discursinho para perceber as manipulações de Davidson.
A votação já estava certa. Tenho certeza. Os políticos de Montfort já sabiam o que o primeiro-ministro ia pedir, e já sabiam o que iam responder. O exército já estava garantido. Todo o resto, toda a visita à cidade, foi espetáculo e sedução. É o que eu faria.
As palavras de Davidson para mim foram uma forma de sedução também. Outra coisinha que temos permissão de fazer aqui, disse assim que cheguei. Ele sabe sobre Elane, sabe exatamente o que dizer para me balançar. Para me fazer pensar. Para que eu considere, ainda que por um instante, a possibilidade de jogar minha vida fora em troca de um lugar aqui.
O primeiro-ministro é bom de lábia, para dizer o mínimo.
Cal atravessa o pátio para se despedir dele e de Carmadon. Ao olhar para o casal, sinto o ímpeto familiar da inveja e depois náusea. Dou as costas, para olhar para qualquer outra coisa.
Meus olhos se detêm sobre outra desprezível demonstração pública de sentimentos. Mais uma rodada nauseante de despedidas antes que essa tropa de fantoches parta para Rift.
Não entendo por que Mare não pode se despedir lá dentro, onde o restante de nós não precisaria assistir a tamanho espetáculo. Como se a perda dela fosse original. Como se fosse a única aqui que teve que abrir mão de alguém.
Mare dá adeus aos membros da família um a um, cada abraço mais demorado que o anterior. A mãe chora; o pai chora; os irmãos choram. Ela se esforça para não fazer o mesmo, mas fracassa. As fungadas abafadas ecoam pela pista de decolagem, e o restante de nós é forçado a agir como se não estivesse esperando as despedidas chorosas acabarem.
É uma coisa tipicamente vermelha, imagino. Eles não têm que se preocupar com o que uma demonstração de fraqueza pode causar, porque, no geral, já são fracos. Alguém devia conversar a respeito com Barrow. A esta altura ela já devia saber a importância de manter sua imagem.
O vermelho alto, o bichinho de estimação loiro e bronzeado de Barrow, também abraça a família dela como se fosse sua. Imagino que vá continuar conosco então.
A conversa sussurrada entre Cal e Davidson parece chegar perto de um fim. O primeiro-ministro não vai voltar com a gente, por enquanto. Agora que seu governo concordou em nos ajudar com força total, tem muito o que organizar. Prometeu nos encontrar em Rift em cerca de uma semana. Mas não acho que seja disso que estão falando. Cal parece acalorado demais, nervoso demais, apertando o braço de Davidson com força e sem vacilar. Os olhos, porém, se mantêm serenos. Ele está pedindo alguma coisa, alguma coisa pequena e sem importância para qualquer outra pessoa.
Ao se afastar, o príncipe passa por Mare a passos largos e ligeiros. Os irmãos dela o observam ir, seus olhares acompanhando os passos dele. Se fossem ardentes da Casa Calore, acho que Cal estaria pegando fogo. A irmã parece menos hostil e mais frustrada. Fecha a cara diante daquela retirada, mordendo o lábio. Fica mais parecida com Mare quando faz isso, principalmente quando assume um ar de desprezo.
Cal para à minha direita, com as pernas bem espaçadas e os braços cruzados sobre o uniforme preto simples.
— Você precisa de uma máscara melhor, Calore — sussurro. Ele faz cara feia. — E Mare precisa cumprir o horário.
— Ela está deixando a família para trás, Evangeline — ele resmunga em resposta. — Podemos perder esses minutos.
Respiro fundo e confiro as unhas. Nada de garras hoje. Não preciso delas na viagem de volta para casa.
— Tantas regalias quando se trata de Barrow. Gostaria de saber onde fica o limite, e o que vai acontecer quando ela ultrapassá-lo.
Em vez de rebater com força, como eu esperava, ele solta um risinho baixo do fundo da garganta.
— Pode espalhar sua infelicidade o quanto quiser, princesa. É a única coisa que te resta.
Cerro os dentes e preparo os punhos. De repente, sinto falta das garras.
— Não finja que sou a única infeliz aqui — disparo.
Isso o intimida o bastante para que se cale. As pontas das suas orelhas queimam, cinzentas.
Com um último abraço, Mare enfim encerra a baboseira histérica. Tensa, ela dá meia-volta, os ombros retos para que não carreguem seu remorso. Os traços de seus familiares variam, mas todos guardam certa semelhança. Olhos escuros e pele em tons de dourado. Cabelo castanho-escuro, exceto pela irmã ruiva e pelos pais já grisalhos. Há uma aspereza comum a eles, vinda do sangue. Como se tivessem sido moldados da terra, enquanto nós, da pedra.
O garoto vermelho segue os passos de Mare, vindo na nossa direção como se fosse puxado por uma coleira invisível. Ele olha por cima do ombro para acenar para a família, mas Mare não o imita. Respeito isso nela, pelo menos. Seu hábito teimoso e muitas vezes imprudente de seguir em frente a todo custo.
Cal levanta os olhos quando Mare passa pisando forte para entrar no jato. Seus dedos roçam o braço dela. A pele pálida dele contra a jaqueta ferrugem dela. Mare não se detém, e ele não a segura. Apenas observa sua silhueta desaparecer, engasgado com as palavras que não tem força para dizer.
Parte de mim quer atiçar Cal com uma faca bem afiada para que vá atrás dela. O resto quer cortar o coração dele fora, já que insiste em ignorá-lo e em me submeter a uma dor semelhante.
— Podemos ir, futuro marido? — resmungo, oferecendo meu braço. Os rebites do meu casaco metálico se recolhem, cintilando em convite.
Cal me lança um olhar sombrio, os dentes cerrados num sorriso amarelo. Diligente até o fim, ele passa o braço por baixo do meu e pousa a mão abaixo do meu punho. O toque da pele dele arde, quente demais. Sinto o suor brotar no meu pescoço e me controlo para não estremecer de nojo.
— Claro, futura esposa.
Não sei como um dia desejei isso.
Qualquer repulsa que eu sinta é logo engolida pela emoção de embarcar no jato, de subir naquele gigante de ferro com nossos passos sincronizados. Tudo o que me separa daqueles que mais amo são umas poucas horas de voo. Espremida com Cal, Mare e sei lá quantos suspiros dramáticos e olhares cheios de significado eles podem vir a trocar. Mas eu aguento. Ptolemus me espera.
E Elane.
Mesmo a milhares de quilômetros de distância, sinto o bálsamo refrescante da presença dela, uma toalha fria sobre a pele fervente. Pele branca, cabelo ruivo, todas as estrelas nos olhos, a lua no sorriso.
Aos treze anos, deixei Elane em pedaços na arena de treino. Pelo meu pai, por ao menos uma chance da aprovação dele. Chorei por uma semana e passei mais um mês pedindo desculpas. Ela compreendeu, claro. Conhecemos bem nossas famílias, sabemos o que exigem, como devemos ser. E, com o passar dos anos, coisas assim se tornaram esperadas. Comuns. Lutávamos todo dia, machucando uma à outra, machucando a nós mesmas. No treino, com os curandeiros a postos. Perdíamos a sensibilidade para a violência necessária à nossa rotina. Mas eu não faria isso com ela agora. Não poderia machucá-la por ninguém neste mundo, mesmo com os melhores curandeiros para cuidar dela. Nem pelo meu pai, nem pela minha coroa. Se ao menos Calore se sentisse assim em relação a Mare. Se ele a amasse como amo Elane.
Assim que estamos seguros dentro do jato, com paredes curvadas recobertas de assentos acolchoados e cintos de segurança, mesas chumbadas ao chão e janelas de vidro grosso, Cal me deixa. Ele vai se aninhar ao lado da avó, se acomodando numa das poucas áreas com mesa.
— Vovó — eu o ouço balbuciar o cumprimento, usando aquele tratamento mais do que ridículo para um homem daquele tamanho e posição.
Pela primeira vez desde que a conheci, ela aparenta cansaço. Oferece ao neto um sorriso gentil e discreto quando se senta.
Acho um assento do meu gosto, perto da janela, com mesa e no fundo, onde posso dormir sem ser incomodada. O jato é mais confortável do que as aeronaves militares, embora também tenha sido confiscado da Frota Aérea de Piedmont. O interior é alegre, branco com detalhes amarelos e pequenas explosões de estrelas roxas nas paredes. São as cores e o símbolo do príncipe Bracken.
Nunca encontrei o príncipe, apenas seus vários diplomatas, além dos príncipes Alexandret e Daraeus, seus enviados. Ambos estão mortos. Vi Alexandret morrer em Archeon com uma bala na cabeça durante o primeiro atentado à vida de Maven. A lembrança faz meu estômago revirar.
Um membro da Casa Iral se levantou, apontou a pistola e disparou contra o rei sentado meio metro à minha esquerda. Ele errou, obrigando todos nós a agir como os aliados que fingíamos ser.
Maven devia ter morrido nesse dia. Queria que tivesse.
Ainda consigo sentir o ferro no seu sangue, escorrendo feito mercúrio sobre as pedras, jorrando como uma corredeira aos meus pés.
A tentativa de assassinato fracassou. As Casas rebeldes fugiram, retirando-se para suas terras e suas fortalezas. Elane não é nenhuma guerreira e já estava longe, tendo fugido antes do ataque. Mas a Casa Samos teve que manter o disfarce. Precisei permanecer no conselho de Maven — de pé, porque o desgraçado me negou até a cortesia de uma cadeira — enquanto ele interrogava a irmã dela. Assisti o primo Merandus de Maven espremer sua memória antes de a executarem por traição.
Elane nunca fala disso, e não pretendo forçá-la. Não consigo imaginar o que faria se Ptolemus tivesse o mesmo destino. Não, não é verdade. Consigo imaginar muitas coisas. Um milhão de formas diferentes de violência e dor. Nenhuma seria capaz de preencher o vazio. Os laços de sangue prateado, quando fortes, são inquebráveis. Nossa lealdade aos poucos que amamos está gravada nos nossos ossos.
Então o que Bracken vai fazer pelos filhos dele?
Não perguntei deles nem do tratamento que recebem em Montfort. É mais fácil assim. Uma preocupação a menos num mundo cheio delas.
Minha privacidade é interrompida por um furacão de músculos e cabelo loiro curto. A general da Guarda Escarlate solta o corpo com tudo para se sentar, fazendo o chão tremer.
— Você se move com a elegância de um bisão — provoco, na esperança de fazê-la desistir do assento à minha frente.
Farley não se abala nem reage. Apenas me encara com um lampejo de raiva nos seus olhos azuis como galáxias. Então vira para a janela e encosta a testa contra o vidro, soltando um suspiro baixo e seco. Não está chorando. Não como Barrow, que entrou no jato aos soluços e com os olhos vermelhos.
Ainda assim, consigo ver a agonia da general se acumulando como uma maré. O rosto dela meio que se apaga, perdendo a expressão pétrea de sempre e o nojo que joga na cara dos prateados, especialmente na minha.
Sei que ela tem uma filha em algum lugar.
Não aqui. Não neste jato.
Barrow toma o assento ao lado dela, e eu resmungo. Viajamos para cá em dois jatos, o bastante para manter vermelhos e prateados separados, bem como para carregar o espólio de Corvium. Me pego desejando que esse ainda fosse o caso e não estivéssemos todos espremidos para a jornada até Rift.
— Há uns sessenta lugares neste avião — murmuro.
É a vez de Mare me encarar, num misto de raiva e pesar.
— Fique à vontade para mudar de lugar se quiser — ela responde. — Mas duvido que vai encontrar um melhor.
Ela aponta o queixo na direção do resto do avião, que vai se enchendo com seguidores de Cal e da Guarda Escarlate.
Afundo o corpo mais uma vez no assento acolchoado, quase bufando. Ela não está errada. Não tenho vontade de passar horas vestindo a máscara da corte, empunhando um sorriso como se fosse um escudo, trocando informações e ameaças veladas com outros prateados. Nem tenho qualquer desejo de fechar os olhos entre vermelhos que gostariam de cortar a minha garganta. Não. Estranhamente, Mare Barrow é meu maior porto seguro aqui. Nosso acordo protege nós duas.
Mare me deixa para lá, virando o corpo para a general. As duas não falam nada, e Farley nem a olha. Está completamente focada na janela, parece capaz de estilhaçar o vidro. Nem parece notar quando Mare pega sua mão.
O jato ronca e ganha vida, seus motores começam a rugir, e ela não se mexe. Range os dentes, fazendo os músculos do maxilar saltarem. Só quando decolamos, quando subimos rumo às nuvens e deixamos as montanhas para trás, ela fecha os olhos.
Acho que a escuto dizer adeus.


Sou a primeira a descer do jato, tragando o aroma fresco de Rift no verão. Sinto o cheiro da terra, do rio, das folhas e do calor úmido, permeado pelo toque do ferro sob as montanhas. O sol brilha forte no céu úmido, realçando as cores e fazendo tudo cintilar. As serras se estendem pela paisagem, verdejantes e cheias de vida contra o preto plano e quente da pista pavimentada. Se eu espalmasse a mão no chão, ia me queimar. O calor faz ondas de distorção emanar do asfalto, estremecendo o mundo ao meu redor. Ou talvez seja eu mesma, tremendo de desejo. Tento não correr. Tento me apegar a algum senso de polidez.
Meu relacionamento com Elane Haven é um segredo de conhecimento geral a essa altura, pequeno em comparação com a miríade de alianças e traições que parece emaranhar nossas vidas em tantas teias.
Pequeno, mas vergonhoso. Um obstáculo. Uma dificuldade.
Em Norta. Em Rift, uma voz diz na minha cabeça. Não em outros lugares.
Ela não vai estar me esperando aqui, à vista de todos. Não é seu estilo. Ainda assim, meu coração lateja.
Ptolemus não é tão contido. Está de pé na pista, suando teimosamente num uniforme de linho cinza com insígnias próprias à realeza. O único metal que traz reluz nos seus pulsos. Uma tira grossa de ferro trançado, mais arma do que joia. Uma precaução, especialmente ao lado de mais de uma dezena de guardas com as cores dos Samos. Alguns são primos, caracterizados pelos cabelos prateados e olhos pretos. O resto jurou fidelidade à nossa Casa, à coroa do meu pai, da mesma maneira que os guardas de Maven juraram a ele. Não me preocupo em memorizar suas cores. Não importam.
— Eve — ele diz, abrindo os braços para mim. Retribuo o gesto e o abraço na cintura, deixando todos os músculos do meu corpo relaxarem num longo momento de alívio. Meu irmão está são e salvo sob meus dedos. Sólido. Real. Vivo.
Não posso mais dar isso por certo.
— Tolly — sussurro em resposta, recuando para olhá-lo bem. O mesmo alívio brilha nos olhos nublados dele. Odiamos ficar longe um do outro. É como separar a espada do escudo. — Desculpe ter partido.
Você não o abandonou. Isso supõe uma escolha, e você não teve escolha. Meus dedos apertam os ombros dele. Foi meu pai que me mandou para Montfort. Para passar uma mensagem. Não à coalizão, mas a mim. Ele é meu rei e senhor da minha Casa. É meu dever obedecê-lo. Ir aonde deseja, fazer o que diz, casar com quem ordena. Viver como quer.
Mas não vejo outra maneira ou qualquer outro caminho além do que ele traça.
— Triste por ter perdido a confusão? — Ptolemus pergunta, afastando-se devagar. — Papai está meio surtado com a construção de uma corte de verdade. É prata pra todo lado. E não consegue escolher um trono.
— E mamãe? — pergunto, sondando.
Apesar do calor, Ptolemus enfia meu braço no seu e me conduz rumo ao nosso veículo. Os outros formam uma fila atrás de nós, mas não lhes dou muita atenção.
— Mais do mesmo — ele diz. — Ansiosa por netos. Escolta Elane até meus aposentos todas as noites. Acho que é capaz até de montar guarda na porta.
Sinto a bile subir pela garganta, mas a engulo.
— E? — Tento evitar que minha voz vacile. Ele me aperta com mais força.
— Fazemos o que todos combinamos. — Ele hesita. — O que deve ser feito para dar certo.
Uma inveja quente ruge no meu peito.
Achei que não teria ciúmes. Meses atrás, quando nós três chegamos a essa decisão. Quando decidimos que o noivado de Elane e meu irmão prosseguiria. No começo, era apenas para protegê-la. Tirá-la do foco de qualquer outra Casa até conseguirmos pensar em uma saída. Eu não podia deixar Elane se casar com um verde Welle afetado ou com um forçador Rhambos rude. Estariam ambos fora do meu alcance e do meu controle. Ela é uma garota bonita, uma sombria talentosa. Sua Casa tem grande valor. E Ptolemus é o herdeiro dos Samos. Era uma combinação de iguais, compreensível, previsível. Útil por um tempo. Quando pensávamos que não havia outras opções. Eu ainda estava prometida a Maven, fadada a ser sua rainha. Ptolemus estava próximo dele, era sua mão direita. O casamento manteria Elane perto também.
Não sabíamos dos planos de nosso pai. Não mesmo. Não os detalhes. Se eu soubesse na época o que sei agora… teria tomado decisões diferentes? Ptolemus estaria solteiro, seria um príncipe disponível. E Elane poderia seguir você, sua princesa, aonde fosse. E casar com qualquer membro da corte que você escolhesse. Não estaria acorrentada ao seu irmão, em outro reino, outro país, outro quarto, pelo resto da vida.
Meu pai poderia ter nos impedido, mas não o fez. Deixou-nos cometer esse erro. Aposto que gostou, ciente de que estava me separando da única pessoa que eu queria mais do que a coroa.
— Eve? — Ptolemus sussurra, inclinando-se para a frente. Ele é pelo menos um palmo mais alto do que eu. Mais largo também. O primogênito, quatro anos mais velho. Filho de Volo Samos, herdeiro do reino de Rift. Amo meu irmão, mas a vida dele sempre será mais fácil do que a minha. E me dou o direito de sentir uma pequena mágoa por isso.
— Está tudo bem — forço-me a dizer por entre os dentes cerrados. Foi bom não ter colocado meus adereços metálicos de costume, ou já teriam virado pó. Pelo canto do olho, percebo que Tolly está ajustando os braceletes que apertam sua pele. — Foi escolha nossa. Temos que viver com ela.
A voz estranha e distante surge de novo. Será mesmo?
Num lampejo, surgem na minha mente um terno branco e outro verde, dois homens, as mãos de cores diferentes, os dedos entrelaçados. Eles nublam minha visão, então deixo Ptolemus me conduzir pelos poucos passos que faltam. Ele quase precisa me carregar para dentro do veículo.
A visão de Davidson e Carmadon é substituída por outra. Meu irmão e Elane num quarto conhecido. A sombra da maldita da minha mãe à porta. Só há um jeito de apagar a visão que ameaça se gravar a fogo nos meus olhos.
Enquanto os outros se dirigem para a recém-preparada sala do trono, com o intuito de saudar meu pai como exige um rei, sigo na direção contrária. Conheço a mansão Ridge tão bem quanto meu próprio rosto, e não é difícil escapar pelo pátio de entrada, desaparecendo em meio às árvores e flores bem arranjadas. O jardim dos criados leva à cozinha, pela qual passo mal me dando conta dos vermelhos. Eles se encolhem perante a minha presença, acostumados com minhas mudanças de humor. No momento, me sinto uma nuvem de tempestade, escura e agourenta, prestes a explodir.
Elane aguarda no meu quarto. No nosso quarto. As janelas estão limpas e as cortinas, abertas. Ela sabe que gosto de sol, especialmente batendo em seu corpo. Está sentada à janela, as costas apoiadas num travesseiro, as pernas balançando, nuas até o alto da coxa, onde está a barra do vestido preto simples. Não se vira quando entro, dando-me tempo para me adaptar à sua presença.
Meus olhos percorrem suas pernas antes de saltarem para seu cabelo vermelho e reluzente, solto por cima dos ombros pálidos. Parece fogo líquido. A pele dela dá a impressão de brilhar, porque de fato brilha. Esse é seu poder, sua arte. Elane manipula a luz só um pouco, destacando-se sem qualquer necessidade de maquiagem ou joias. Raras são às vezes em que me sinto feia. Sou bonita por natureza e esforço. Mas, depois de um voo longo, sem minha habitual armadura de vestido intrincado e rosto pintado, me sinto pequena perto dela. Indigna. Seguro o ímpeto de me enfiar no banheiro e passar maquiagem.
Por fim, ela se vira, oferecendo-me uma visão completa do seu rosto. Sinto ainda mais vergonha por vir encontrá-la tão desarrumada. Mas o desejo logo afugenta qualquer outra sensação. Elane ri quando fecho a porta com um chute e atravesso o quarto para tomar seu rosto nas mãos. Sinto sua pele suave e fria sob meus dedos, um alabastro perfeito. Ainda assim, ela não fala, deixando-me contemplar seus traços.
— Sem coroa — Elane diz então, erguendo a mão até minha têmpora.
— Não precisa. Todo mundo sabe quem eu sou.
Seu toque é uma leve carícia, descendo pelas minhas bochechas enquanto tenta amaciar minhas preocupações.
— Dormiu na viagem de volta?
Suspiro, correndo os polegares por baixo do seu queixo.
— É seu jeito de dizer que pareço cansada?
Os dedos dela continuam a descer pelo meu rosto, até chegar ao pescoço.
— Estou dizendo que você pode dormir se quiser.
— Dormi o bastante.
Ela sorri, os lábios se curvando na fração de segundo que antecede meu beijo.
Parte meu coração saber que não é minha de verdade.


Alguém esmurra a porta do meu quarto. Não a da antessala, onde os visitantes devem esperar. Do quarto onde durmo, o nosso quarto. Levanto num ímpeto, tentando me desembaraçar dos lençóis, furiosa. Com um giro do pulso, tiro uma faca do armário do outro lado do quarto e a uso para cortar depressa a seda enrolada nas minhas pernas.
Elane não pisca quando a lâmina passa a um centímetro de sua pele descoberta. Apenas boceja, como uma gata preguiçosa, e rola para o outro lado abraçada num travesseiro.
— Que grosseria — murmura, referindo-se tanto a mim quanto ao idiota que decidiu nos interromper.
— Estou treinando para pegar esse mensageiro infeliz.
Levanto e amarro um roupão leve sobre o corpo nu com a faca ainda na mão. As batidas continuam, seguidas por uma voz abafada. Reconheço-a, e um pouco da minha deliciosa e justa ira evapora. Não vou poder assustar o visitante até perder as cores. Chateada, lanço a faca contra a parede. Ela fica lá, com a lâmina enterrada na madeira.
— O que foi, Ptolemus? — suspiro, girando a maçaneta. Ele está tão desarrumado como eu, com o cabelo bagunçado e os olhos vermelhos. Suspeito que também tenha sido interrompido. Ele e Wren Skonos apreciam suas fugas vespertinas.
— Nossa presença é requisitada na sala do trono — ele diz com determinação. — Agora mesmo.
— Papai está tão bravo assim por eu ainda não ter beijado os pés dele? Só passaram alguns minutos.
— Passaram duas horas — Elane avisa, sem se dar ao trabalho de levantar a cabeça. — Oi, marido — ela acrescenta, esticando delicadamente a mão. — Faria a gentileza de pedir que me preparem o almoço?
Aperto o roupão, incomodada.
— E o que vai acontecer? Um açoite público? Ele finalmente vai cumprir a promessa de exibir nossas cabeças no portão? — desdenho, soltando uma risadinha sombria.
— Por incrível que pareça, não tem nada a ver com você — meu irmão responde em tom seco e cortante. — Houve um ataque.
Olho para trás de imediato. Elane está estirada, parcialmente coberta pelos lençóis. Não brilha, já se entregando de novo ao sono. É indefesa, vulnerável. Até mesmo às palavras.
— Aqui fora — sussurro, empurrando meu irmão para a antessala. Posso protegê-la pelo menos disso, se não do resto.
Levo-o até um sofá verde-claro, que combina com a vista da serra na janela. Pedras brutas cobrem o piso sob os tapetes azul-claros.
— O que aconteceu? Onde foi?
Por algum motivo, imagino Montfort, e meu coração se aperta no peito.
Ptolemus não senta. Anda de um lado para o outro com as mãos na cintura, os braços flexionados.
— Piedmont.
Não consigo conter meu desprezo.
— Que tolice — vocifero. — Maven só vai prejudicar os recursos de Bracken, não os nossos. Não imaginava que fosse tão idiota…
— Maven não atacou Bracken — meu irmão corta. — Foi Bracken quem nos atacou. A base de Piedmont. Duas horas atrás, mas só agora recebemos o pedido de ajuda.
— Quê? — pisco, confusa. Subo a mão até a gola do roupão e o fecho ainda mais. Como se a seda pudesse me salvar de alguma coisa.
— Ele cercou a base e a invadiu com seu próprio exército e outros príncipes de Piedmont. Está retomando tudo. Matando qualquer um na sua frente. Vermelhos de Norta, prateados de Montfort, sanguenovos.
Ptolemus caminha até a janela e apoia a mão no vidro. Olha para o leste, para a neblina da tarde quente.
— Desconfiam que Maven e Lakeland estejam ajudando nos bastidores.
Olho para o chão, para meus pés descalços no tapete.
— Mas os filhos de Bracken… Montfort vai ter que matar os dois.
Que troca. Seus filhos pela coroa. Me pergunto se meu pai faria o mesmo.
Devagar, Ptolemus balança a cabeça.
— Recebemos notícias de Montfort também. As crianças… desapareceram. Foram substituídas por cadáveres vermelhos trabalhados por curandeiros para parecer com eles. Alguém os tirou de lá. — Sua voz vibra baixo na garganta. — Os idiotas de Montfort não sabem como aconteceu. Como alguém entrou e saiu de suas preciosas montanhas totalmente despercebido.
Encerro a questão com um gesto. Isso não importa agora.
— Então perdemos Piedmont?
O queixo dele fica tenso.
— É de Maven agora.
— E o que podemos fazer? — pergunto, com a respiração entrecortada. Minha mente gira. Uma tropa tinha ficado em Piedmont, com soldados da Guarda Escarlate e de Montfort. Vermelhos, sanguenovos e prateados, importantes para nossos exércitos. Cerro os dentes, me perguntando quantos terão sobrevivido.
Pelo menos os homens do meu pai estão aqui em Rift, para onde voltaram depois que destruímos Corvium. O mesmo pode ser dito dos homens de Anabel. A força prateada está intacta, mas a perda da base — e de Piedmont — terá consequências devastadoras.
Engulo em seco. Quando volto a falar, minha voz sai trêmula:
— O que podemos fazer contra Lakeland, Maven e Piedmont?
Meu irmão me lança um olhar grave, e estremeço.
— Estamos prestes a descobrir.

5 comentários:

  1. Tenso o final , mas até que tô gostando dos p.o.v da evangeline, não odeio mais ela kkkk mas se não tiver capítulos na visao do maven e do Cal eu vou tacar pedra na casa da victoria kkkk eu preciso saber como eles se sentem com tudo isso ahhhhh teve até capítulos na visão da chata da Cameron mas não deles ( sinto mt mas não gosto mt dela é a minha opinião tá )

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  2. É muito bom termos POV de outros personagens, mas... Concordo com a Gabrieli cadê o POV do Cal e do Maven? Eu soube que eles teriam POV e espero que não seja um capitulo. E eu ouviu uma coisa que eu não sei se é verdade ou não, mas pra mim tá fazendo sentido. Enfim Vic já deu voz pra Iris que é uma personagem que chegou outro dia não estou achando o POV dela ruim é melhor do que o da Cameron e eu sei que ela precisa contar o que esta rolando onde a Mare não esta e etc, mas... Enfim vamos ver quem sabe Cal e Maven não aparecem narrando já já e o que escutei não passe de blá blá, porque deixar dois personagens com potencial (principalmente o Maven) silenciados por certas questões é o fim.

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  3. Só eu que acho que a Farley vai tentar matar o ptolemus?
    Pq tipo assim tem oq ela discutiu com a Mare e agora ela quase chorando e ainda disse adeus como se nunca mais fosse ver a filha?

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  4. Eu acho que a Evie tem tao popoucamor vindo da família que fica com raiva ao ver pessoas qie o possuem em abundancia como a Mare, pq só pode.

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