2 de junho de 2018

Capítulo dois

Evangeline

SERIA FÁCIL MATÁ-LA.
Há um cordão de ouro rosé entre as joias vermelhas, pretas e laranja no pescoço de Anabel Lerolan. Uma torcidinha e eu romperia a jugular. Destruiria a oblívia e seus planos. Acabaria com sua vida e esse noivado na frente de todo mundo aqui.
Minha mãe, meu pai, Cal — sem mencionar os criminosos vermelhos e as aberrações estrangeiras a quem estamos amarrados. Mas não Barrow. Ela ainda não voltou. Provavelmente ainda está chorando a perda de seu príncipe.
Levaria a outra guerra, claro, estilhaçar uma aliança já cheia de rachaduras. Eu seria capaz de fazer algo assim? Trocar minha lealdade pela minha felicidade? Sinto vergonha só de cogitar isso, mesmo na segurança dos meus pensamentos.
A velha deve sentir meu olhar. Seus olhos encontram os meus por um segundo, o sorriso em seus lábios é inegável enquanto volta a se acomodar na cadeira, resplandecente em vermelho, preto e laranja.
São as cores dos Calore, não só dos Lerolan. Suas alianças são claras como o fogo.
Com um arrepio, volto a atenção para minhas mãos. Uma unha está arruinada. Quebrou na batalha. Tomo fôlego e transformo um dos meus anéis de titânio em uma garra e a encaixo no dedo. Arranho o braço do meu trono, só para irritar minha mãe. Ela me olha de soslaio, a única evidência de seu desdém.
Fico fantasiando a morte de Anabel por tempo demais e esqueço o conselho detestável conspirando à minha volta. Nossos números se reduziram, e restam apenas alguns poucos líderes das facções unidas às pressas. Generais, lordes, capitães e a realeza. O líder de Montfort fala, então meu pai, então Anabel, então de volta ao início. Todos em tom controlado, forçando sorrisos e fazendo promessas vazias.
Queria que Elane estivesse aqui. Deveria tê-la trazido. Ela pediu para vir. Na verdade, implorou. Sempre quer ficar por perto, mesmo diante do perigo letal.
Tento não pensar em nossos últimos momentos juntas, em seu corpo nos meus braços. Ela é mais magra que eu, e mais macia. Ptolemus ficou do lado de fora da porta, para garantir que não fôssemos perturbadas.
— Me deixe ir com você — Elane sussurrou no meu ouvido uma dezena de vezes, centenas de vezes. Mas o pai dela e o meu proibiram. Já chega, Evangeline.
Amaldiçoo a mim mesma. Eles não teriam como saber, em meio ao caos. Elane é uma sombria, afinal de contas. É fácil contrabandear uma garota invisível. Tolly teria ajudado. Ele não impediria sua esposa de vir junto, não se eu pedisse ajuda.
Mas eu não podia. Tinha uma batalha a vencer primeiro, uma batalha que não sabia se podíamos de fato vencer. E não ia correr aquele risco com ela. Elane Haven pode ser talentosa, mas não é uma guerreira. No fim das contas, seria apenas uma distração e uma preocupação. Não podia me dar ao luxo de nenhuma das duas coisas. Mas agora…
Chega.
Meus dedos agarram os braços do trono, lutando para não transformar o ferro em pedacinhos. As muitas galerias de metal da mansão Ridge eram uma terapia acessível. Eu podia destruir tudo em paz. Canalizar qualquer raiva recente nas estátuas que sempre mudavam, sem ter que me preocupar com o que os outros iam pensar. Me pergunto se vou encontrar a mesma privacidade aqui em Corvium para fazer esse tipo de coisa. A promessa de tal válvula de escape me mantém sã. Passo o anel em forma de garra no trono, metal no metal. Leve o bastante para que apenas minha mãe ouça. Ela não pode me olhar feio por isso, não na frente do resto desse estranho conselho. Se tenho que ficar numa vitrine, vou pelo menos aproveitar as vantagens.
Finalmente, afasto os pensamentos do pescoço vulnerável de Anabel e da ausência de Elane. Se vou dar um jeito de escapar do plano de meu pai, preciso pelo menos prestar atenção no que está acontecendo.
— O exército dele está em retirada. Não podemos dar tempo para que as forças do rei Maven se reagrupem — meu pai diz, tranquilo. Atrás dele, a janela alta da torre mostra o sol começando sua descida rumo às nuvens que se demoram a oeste no horizonte. A paisagem destruída ainda solta fumaça. — Ele está lambendo as feridas.
— O garoto já está no Gargalo — a rainha Anabel responde rápido. O garoto. Ela se refere a Maven como se não fosse seu neto. Imagino que já não o considere mais mesmo. Não depois que ajudou a matar seu filho, o rei Tiberias. Maven não tem seu sangue, só o de Elara.
Anabel se inclina para a frente, apoiada nos cotovelos, e cruza as mãos enrugadas. Sua antiga aliança de casamento, surrada mas ainda inteira, cintila no dedo.
Quando ela surpreendeu a todos na mansão Ridge anunciando sua intenção de apoiar o neto, não usava nenhum tipo de metal. Para se esconder de nossos instintos de magnetrons. Agora utiliza abertamente, desafiando-nos a usar sua coroa ou suas próprias joias contra ela. Cada parte dessa mulher é uma escolha calculada. E não lhe faltam armas. Anabel foi uma guerreira antes de se tornar rainha, uma oficial no front de Lakeland. É uma oblívia de toque mortal, capaz de explodir qualquer coisa — ou qualquer pessoa.
Se eu não odiasse o que está me forçando a fazer, respeitaria pelo menos sua dedicação.
— A essa hora, a maior parte de suas forças vai estar além das cataratas de Maiden e da fronteira — ela acrescenta. — Devem estar em Lakeland agora.
— O exército de Lakeland também está ferido e vulnerável. Devemos atacar enquanto podemos, nem que seja só para pegar os retardatários. — Meu pai desvia o olhar de Anabel para um dos lordes prateados. — A frota Laris ficaria pronta em uma hora, não?
O general Laris se endireita sob o olhar do meu pai. Seu cantil está vazio agora, enquanto desfruta da névoa bêbada da vitória. Ele tosse, limpando a garganta.
Sinto o cheiro de álcool em seu hálito do outro lado da sala.
— Sim, majestade. É só dar as ordens.
Uma voz grave o interrompe.
— Sou contra.
As primeiras palavras de Cal desde seu retorno da discussão com Mare Barrow certamente não são à toa. Como sua avó, ele usa preto decorado com vermelho, tendo há muito trocado o uniforme emprestado que usou em combate. Ele se ajeita no assento ao lado de Anabel, assumindo sua posição como sua causa a defender, seu rei. Seu tio, Julian da Casa Jacos, está à sua esquerda. No meio dos dois, prateados nobres de sangue poderoso, Cal representa uma frente unida. Um rei merecedor de nosso apoio.
E eu o odeio por isso.
Cal poderia ter acabado com meu sofrimento rompendo nosso noivado, recusando quando meu pai ofereceu minha mão. Mas, pela coroa, ele desistiu de Mare. Pela coroa, me deixou encurralada.
— Como é? — é tudo o que meu pai diz. Ele é um homem de poucas palavras e de ainda menos perguntas. Só ouvi-lo fazer uma já é perturbador, e fico tensa involuntariamente.
Cal afasta os ombros para trás, alongando o corpo calmamente. Ele apoia o queixo nos nós dos dedos. Suas sobrancelhas estão unidas em reflexão. Parece maior, mais velho, mais esperto. No mesmo nível do rei de Rift.
— Eu disse que vou me opor às ordens de despachar a frota aérea ou qualquer destacamento da nossa coalizão para iniciar uma busca em território hostil — Cal explica de imediato. Devo admitir que, mesmo sem coroa, ele tem um ar majestoso. Que exige atenção, se não respeito. O que não é de surpreender, já que foi preparado para isso, e Cal não é nada além de um aluno muito obediente. Sua avó aperta os lábios em um sorriso discreto mas genuíno. Está orgulhosa dele. — O Gargalo ainda é literalmente um campo minado, e não temos informações suficientes para nos guiar do outro lado das cataratas. Pode ser uma armadilha. Não vou colocar a vida de soldados em risco.
— Tudo nessa guerra é um risco — ouço Ptolemus dizer do outro lado do meu pai. Ele se alonga como Cal, revelando toda a sua altura em seu trono. O pôr do sol dá um tom avermelhado ao cabelo de Tolly, fazendo as mechas prateadas oleosas brilharem sob a coroa de príncipe. A mesma luz banha Cal com as cores de sua antiga Casa, deixando seus olhos vermelhos enquanto sombras escuras se estendem atrás de si. Os dois ficam se encarando da maneira estranha que os homens fazem. Tudo é uma competição, penso.
— Bem apontado, príncipe Ptolemus — Anabel diz, seca. — Mas sua majestade, o rei de Norta, está muito ciente da natureza da guerra. E eu concordo com sua avaliação.
Ela já o chama de rei. Não sou a única a notar sua escolha de palavras.
Cal abaixa os olhos, atordoado. Ele se recupera depressa, com o maxilar apertado em resolução. Sua escolha foi tomada. Não há como voltar atrás agora, Calore.
O primeiro-ministro de Montfort, Davidson, assente de seu lugar à mesa. Sem a comandante da Guarda Escarlate e Mare Barrow, é fácil ignorá-lo. Quase o tinha esquecido.
— Concordo — ele diz. Até sua voz é neutra, sem inflexão ou sotaque. — Nossos exércitos também precisam de tempo para se recuperar, e essa coalizão precisa de tempo para encontrar… — Davidson para e pensa. Não consigo ler sua expressão, o que me irrita profundamente. Imagino se um murmurador conseguiria penetrar seu escudo mental. — Equilíbrio.
Minha mãe não é tão estoica quanto meu pai, e concentra seu olhar sinistro e ardente no líder dos sanguenovos. Sua cobra imita seus movimentos, encarando o primeiro-ministro.
— Então não temos agentes de inteligência do outro lado da fronteira? Me desculpe, mas estava com a impressão de que a Guarda Escarlate — ela quase cospe o nome — tinha uma rede intrincada de espiões tanto em Norta quanto em Lakeland. Certamente poderiam ser úteis, a menos que os vermelhos tenham nos enganado quanto ao seu alcance e força.
A aversão escorre de suas palavras como veneno de presas.
— Nossos agentes estão em ordem, majestade.
A general vermelha, uma loira com um sorriso de escárnio permanente no rosto, entra na sala, com Mare em seu encalço. As duas cruzam o recinto para sentar com Davidson. Movem-se depressa e em silêncio, como se assim pudessem evitar os olhares de todos os presentes.
Mare se acomoda na cadeira e mantém os olhos à frente, focados em mim, por incrível que pareça. Para minha surpresa, percebo uma emoção estranha neles. Poderia ser vergonha? Não, impossível. Mas um calor sobe para minhas bochechas.
Espero não estar corada, seja de raiva ou constrangimento. As duas coisas se agitam dentro de mim, por uma boa razão. Desvio o olhar, virando para Cal, nem que seja apenas para me distrair com a única pessoa mais infeliz do que eu.
Ele tenta não parecer afetado pela presença dela, mas não é como o irmão. Diferente de Maven, é pouco habilidoso quando se trata de mascarar as emoções. Um tom prateado floresce sob sua pele, colorindo suas bochechas, seu pescoço e até o topo de suas orelhas. A temperatura na sala aumenta um pouco, afetada por qualquer que seja a emoção contra a qual ele luta. Que idiota, zombo mentalmente. Você fez sua escolha, Calore. Condenou nós dois. Deveria pelo menos fingir que tem tudo sob controle. Se alguém vai perder a cabeça por um coração partido, que seja eu.
Quase espero que comece a miar como um gatinho perdido. Ele pisca furiosamente, desviando os olhos da garota elétrica. A mão se fecha no braço da cadeira, e o bracelete de chamas em seu pulso brilha vermelho ao sol se pondo. Ele o mantém sob controle. Assim como a si próprio.
Mare é uma pedra comparada a Cal. Rígida, obstinada, impassível. Não solta nem mesmo uma fagulha de sentimento. Só fica me encarando. É irritante, mas ela não o faz em desafio. Seus olhos estão estranhamente esvaziados da raiva de sempre. Não são bondosos, claro, mas tampouco brilham de aversão. Acho que a garota elétrica deve ter poucos motivos para me odiar agora. Meu peito se aperta — ela sabe que não foi escolha minha? Só pode ser.
— Que bom que voltou, srta. Barrow — eu digo, com sinceridade. Sempre podemos contar com ela para distrair os príncipes Calore.
A garota não responde, só cruza os braços.
Sua acompanhante, a general da Guarda Escarlate, não está tão inclinada ao silêncio. Infelizmente. Ela franze o cenho para minha mãe, brincando com o destino.
— Nossos agentes estão a postos, acompanhando a retirada do exército do rei Maven. Recebemos notícias de que as tropas marcham depressa para Detraon. O próprio Maven e alguns generais estão a bordo de navios no lago Eris. Supostamente também em direção a Detraon. Estão falando em um funeral para o rei de Lakeland. Eles têm muito mais curandeiros do que nós. Quem sobreviveu à batalha vai estar pronto para outra muito antes de nós.
Anabel faz uma careta e lança um olhar cortante para meu pai.
— Sim, a Casa Skonos continua dividida, e a maioria de seus membros permanece leal ao usurpador. — Como se fosse culpa nossa. Fizemos o que podíamos, convencemos quem podíamos. — Sem falar que Lakeland tem suas próprias Casas de curandeiros de pele.
Com um aceno de mão e um sorriso apertado, Davidson inclina a cabeça. Rugas se formam no canto de seus olhos, marcando sua idade. Suspeito que tenha por volta de quarenta, mas é difícil ter certeza.
Ele leva os dedos à sobrancelha em uma estranha forma de cumprimento ou promessa.
— Podem contar com Montfort. Pretendo entrar com uma petição por mais curandeiros, tanto prateados quanto rubros.
— Petição? — meu pai ladra. Os outros prateados ficam igualmente confusos, e me pego olhando mais adiante na nossa fileira, procurando os olhos de Tolly. Ele franze a sobrancelha. Não entende o que Davidson quer dizer. Meu estômago se revira, e mordo o lábio para conter a sensação. Quando um de nós não compreende o que se passa, o outro costuma entender. Mas, neste caso, estamos ambos à deriva. Assim como meu pai. Por mais que esteja brava com ele, isso me assusta mais que qualquer outra coisa. Meu pai não pode nos proteger do que não entende.
Mare tampouco compreende, franzindo o nariz em confusão. Essas pessoas, resmungo para mim mesma. Me pergunto se nem a mulher com a cicatriz e a cara amarrada sabe do que Davidson está falando.
O primeiro-ministro solta uma risadinha. O velhote está gostando. Ele abaixa os olhos, batendo os cílios escuros. Se quisesse, poderia ser bonito. Mas suponho que isso não sirva de nada a quaisquer que sejam seus propósitos.
— Não sou rei, como todos sabem. — Ele levanta o olhar para meu pai, depois Cal e Anabel. — Sirvo à vontade do meu povo, que tem outros políticos eleitos para representar seus interesses. Precisamos estar todos de acordo. Quando eu voltar a Montfort para pedir mais tropas…
— Voltar? — Cal ecoa, interrompendo Davidson. — Quando pretendia nos pôr a par disso?
Davidson dá de ombros depois de um instante.
— Agora.
Os lábios de Mare se contorcem. Não sei se lutando contra uma careta ou um sorriso. Provavelmente a segunda opção.
Não sou a única a notar. Os olhos de Cal brilham, passando dela para o primeiro-ministro com cada vez mais desconfiança.
— E o que faremos em sua ausência, primeiro-ministro? — ele exige saber. — Esperamos? Ou lutamos com uma mão amarrada atrás das costas?
— Fico lisonjeado que considere Montfort tão vital à sua causa, majestade — Davidson diz, sorrindo. — Peço desculpas, mas as leis do meu país não podem ser quebradas, nem mesmo na guerra. Não vou trair os princípios de Montfort, e defendo os direitos do meu povo. Afinal, entre eles estão pessoas que vão ajudá-lo a reaver seu próprio país. — O aviso em suas palavras é tão claro quanto o sorriso fácil que continua em seu rosto.
Meu pai é melhor que Cal nisso. Ele também abre um sorriso vazio.
— Nunca pediríamos a um governante que desse as costas para sua própria nação.
— Claro que não — a vermelha com a cicatriz acrescenta, seca. Meu pai ignora a falta de respeito, mas apenas pelo bem da coalizão. Se não fosse por nossa aliança, poderia matá-la só para ensinar uma lição de etiqueta a todo o resto.
Cal se acalma um pouco, fazendo seu melhor para manter a cabeça no lugar.
— Por quanto tempo vai ficar fora, primeiro-ministro?
— Depende do meu governo, mas não acho que haverá um longo debate — Davidson diz.
A rainha Anabel bate as mãos com entusiasmo. Ela ri, aprofundando as linhas de expressão de seu rosto.
— Que interessante! E o que seu governo considera um longo debate?
Sinto que estou assistindo a uma peça com atores medíocres. Nenhum deles — meu pai, Anabel, Davidson — confia um pouco que seja nos outros.
— Ah, anos. — Davidson suspira diante do humor forçado de Anabel. — A democracia é bem curiosa. Não que qualquer um de vocês saiba disso.
O último comentário foi feito para doer, e atinge o alvo. O sorriso de Anabel se transforma em gelo. Ela bate a mão na mesa, em outro aviso. Sua habilidade pode causar destruição com muita facilidade. Como a de todos nós. Somos todos letais, e todos temos nossas próprias intenções em jogo. Não sei por quanto tempo mais posso suportar.
— Eu adoraria ver com meus próprios olhos.
Mal as palavras saem da boca de Mare, a temperatura da sala aumenta. Ela é a única que não olha para Cal. Ele a encara, os olhos queimando, mordendo o lábio para segurar a língua. Mas Mare permanece resoluta, com a expressão agradavelmente neutra. Deve estar aprendendo com Davidson.
Levo a mão à boca depressa para reprimir uma risadinha surpresa. Mare Barrow tem um talento especial quando se trata de perturbar os Calore. Fico me perguntando se faz de propósito. Se fica acordada à noite pensando nas melhores maneiras de confundir Maven ou distrair Cal.
Será possível? Ela faria algo do tipo?
Por instinto, tento apagar a fagulha de esperança que surge no meu peito. Então deixo que floresça.
Ela fez isso com Maven. Manteve o rei ocupado. Inseguro. Distante de você. Por que não pode fazer o mesmo com Cal?
— Então você será a emissária perfeita de Norta. — Tento parecer entediada, desinteressada. Não ávida. Não quero que ninguém perceba que estou jogando o osso bem longe, sabendo que o cachorrinho vai atrás. Os olhos de Mare me encontram, as sobrancelhas se erguendo um centímetro. Vamos, Mare. Fico contente que ninguém aqui possa ler minha mente.
— Não, ela não será, Evangeline — Cal diz depressa, forçando as palavras por entre os dentes cerrados. — Não quero desrespeitar o primeiro-ministro, mas não conhecemos o bastante sobre essa nação…
Pisco para meu noivo, inclinando a cabeça. Meu cabelo prateado desliza pela armadura na altura da clavícula. O poder que tenho neste momento, por menor que seja, perpassa todo meu corpo.
— E não haverá melhor oportunidade para conhecer. Ela vai ser recebida como uma heroína. Montfort é um país de sanguenovos. Sua presença só vai ajudar nossa causa. Não acha, primeiro-ministro?
Davidson fixa seus olhos vazios em mim. Sinto seu olhar me perscrutar. Pode olhar o quanto quiser, vermelho.
— Sem dúvida.
— E confia no relato dela do que encontrar lá? Sem exageros ou omissões? — Anabel zomba, descrente. — Não se engane, princesa Evangeline. A garota não é leal a ninguém de sangue prateado.
Cal e Mare abaixam os olhos ao mesmo tempo, como se evitassem se encarar.
Dou de ombros.
— Então mandem um prateado com ela. Que tal Lord Jacos? — O velho magro de vestes amarelas parece se assustar com a menção ao próprio nome. Ele tem um aspecto frágil, como um pedaço de tecido desgastado. — Se não estou enganada você é um estudioso, não?
— Sou — ele murmura.
Mare levanta a cabeça num gesto brusco. Suas bochechas estão vermelhas, mas o resto dela parece composto.
— Mandem quem quiserem conosco. Vou a Montfort, e nenhum rei tem o direito de impedir. Fiquem à vontade para tentar.
Excelente. Calore fica tenso na cadeira. A avó se aproxima dele, parecendo pequena em comparação. Mas a semelhança ainda é clara. Os mesmos olhos de bronze, ombros largos, nariz reto. O mesmo coração de soldado. E, sobretudo, a mesma ambição. Ela o observa enquanto fala, cautelosa quanto a sua resposta.
— Então Lord Jacos e Mare Barrow vão representar o verdadeiro rei de Norta na…
O bracelete de Cal faísca, originando uma pequena chama vermelha. Ela caminha pelos nós de seus dedos devagar.
— O verdadeiro rei representará a si mesmo — ele diz, observando a chama.
Do outro lado da sala, Mare cerra os dentes. Preciso de todas as minhas forças para ficar quieta no lugar, mas, por dentro, estou dançando em comemoração. Tão fácil.
— Tiberias — Anabel sibila. Ele não se dá ao trabalho de responder. E ela não pode pressioná-lo. Foi você que fez isso, velha idiota. Você o tornou rei. Agora obedeça.
— Admito que tenho um pouco da curiosidade de meu tio Julian — Cal diz. — E da minha mãe. — Ele se acalma com a lembrança dela. Confesso que não sei muito sobre Coriane Jacos. Ela não era um assunto que a rainha Elara gostava de discutir. — Quero visitar essa república livre e descobrir se todas as histórias são verdadeiras. — Ele baixa a voz e encara Mare com intensidade, como se assim pudesse obrigá-la a retribuir. O que ela não faz. — Gosto de ver as coisas com meus próprios olhos.
Davidson assente com um brilho nos olhos, a máscara de neutralidade se desfazendo por apenas um segundo.
— Será muito bem-vindo, majestade.
— Ótimo. — Cal extingue o fogo antes de bater o punho na mesa. — Então está resolvido.
Sua avó aperta os lábios, como se tivesse comido algo azedo.
— Resolvido? — ela escarnece. — Não tem nada resolvido. Você precisa hastear sua bandeira em Delphie, proclamá-la sua capital; precisa conquistar territórios, recursos, o povo, trazer mais Grandes Casas para o seu lado…
Cal não se deixa abalar.
— Preciso mesmo de recursos: soldados. Montfort tem muitos.
— É verdade — meu pai diz, sua voz um estrondo profundo que traz um velho medo de volta ao meu coração.
Ele está bravo comigo por ter forçado isso? Ou satisfeito? Quando criança, aprendi o que acontecia quando alguém contrariava Volo Samos. Se tornava um fantasma. Ignorado. Malquisto. Até que voltasse às suas graças através de conquistas e inteligência.
De canto de olho, observo o meu pai. O rei de Rift está sentado ereto em seu trono, pálido e perfeito. Por baixo da barba meticulosamente aparada, entrevejo um sorriso. Também identifico um suspiro silencioso e sutil de alívio.
— Um pedido direto do legítimo rei de Norta vai influenciar o governo do primeiro-ministro — meu pai continua. — E só pode fortalecer essa nossa aliança. Por isso, devo mandar um emissário próprio, para representar o reino de Rift também.
Não o Tolly!, minha mente grita. Mare Barrow prometeu poupá-lo, mas não confio em sua palavra, muito menos em circunstâncias tão oportunas. Já posso até ver. Diriam que ele sofreu algum “acidente”. E Elane teria que ir também, a esposa dedicada ao lado do marido. Se meu pai mandar Tolly, ele vai voltar morto.
— Evangeline vai acompanhá-los.
A náusea ofusca o alívio em um segundo.
Fico dividida entre pedir outra taça de vinho e vomitar o que já bebi nos meus pés. Vozes gritam na minha cabeça, todas dizendo a mesma coisa.
A culpa é toda sua, menina idiota.

16 comentários:

  1. To amando a Eve, mais eu n gosto do pai dela esse cretino, ela tentandi juntar o Cal e a Mare e ele querendo q nada de errado com o noivado da filha, só digo uma coisa pra ele vai pra p@#$ q pariu ok!?!😬😠😠
    Karina eu te amooo muito😍😘

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  2. Os três juntos numa viagem! Vamos ver o que vem por aí...

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  3. Saudades da Evangeline!

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  4. Kkkkkk o brilho nos olhos do seu pai era pq iria te ferrar kkkk

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  5. "Fico me perguntando se faz de propósito. Se fica acordada à noite pensando nas melhores maneiras de confundir Maven ou distrair Cal."
    "Sempre podemos contar com ela para distrair os príncipes Calore."

    Nunca pensei que fosse acabar gostando da Eve! Ri demais dos pensamentos dela!
    A Mare e a Eve me lembram a Aelin e a Lysandra

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    1. Será que elas também vão se tornar amigas??? Isso seria um "belo desastre".kkkkkkk

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    2. Verdade. Lembro exatamente delas!

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    3. Eu adorei a relação das duas!

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  6. Meu, ri muito dessas paranóia da Evangeline kkkkkkkkkk

    -MARE CALORE

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  7. Eeeitaa , os três juntos em uma viagem!😕

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  8. Mds que Ilário esse capitcap 😂😂😂😂😂😂😂😂 amei 😍😍

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  9. E será uma lonnnnga viagem

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  10. Gente... a Evangeline é muito esperta. Ela é uma vilã/anti-heroína genial. Melhor que os outros personagens e protagonistas. O Cal é muito burro. Fica caindo em tudo quanto é armação óbvia. Agora... esse cap foi um dos melhores. Acho que esse livro realmente vai ser melhor que os outros.

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  11. Capítulo maravilhoso! Karina,muito obrigada por postar esse livro❤

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Boa leitura, E SEM SPOILER!