2 de junho de 2018

Capítulo dezoito


Mare

NÃO HÁ ESTRELAS PERTO DE CIDADE NOVA. O céu em torno da favela vive permanentemente sufocado pela neblina da poluição. O cheiro é péssimo e venenoso, mesmo nas fronteiras, onde a fumaça nociva é menos espessa. Subo o lenço que tenho enrolado no pescoço e respiro através do tecido.
Os soldados ao meu redor fazem o mesmo, cobrindo o rosto para se proteger do ar tóxico. Cameron não. Está acostumada.
Sinto uma injeção de alívio toda vez que olho para ela, para seu corpo escuro e esbelto se movendo pela floresta no breu. É tão alta que fica fácil notá-la entre as dezenas de pessoas que nos acompanham. Kilorn se mantém perto dela, com sua silhueta familiar. Ao observar os dois, meu alívio logo se transforma em vergonha.
Cameron escapou da base de Piedmont. Fugiu pelos pântanos com o irmão e umas poucas dezenas de sobreviventes. Muitos morreram. Soldados vermelhos da Legião Adaga, crianças que juramos manter seguras. Sanguenovos de Montfort. Sanguenovos do Furo. Prateados. Tantos que minha cabeça entra em parafuso.
E eu vou mandá-la de volta para o perigo.
— Obrigada por fazer isso, Cam — sussurro de forma quase inaudível. Como se um simples agradecimento valesse alguma coisa.
Com um sorriso no rosto, ela olha por cima do ombro para mim. Seus dentes reluzem à luz fraca das lanternas. Apesar das circunstâncias, nunca a vi sorrir como hoje.
— Como se você pudesse fazer isso sem mim — ela cochicha de volta, quase provocativa. — Mas não me agradeça, Barrow. Sonho com esse dia desde pequena. Essa maldita cidade vai estar destruída antes que possa se dar conta.
— Vai mesmo — murmuro comigo mesma, pensando na manhã que temos pela frente.
O medo me esfola, como aconteceu no voo de Rift para cá. Estamos prestes a atacar a favela em que ela nasceu, um lugar cercado de muros e guardas, marcado por décadas de opressão.
E não somos a única frente em ação. Quilômetros a leste, o resto da coalizão parte para Harbor Bay.
Os soldados de Rift vão atacar pelo mar, e a esquadrilha de Laris pelo ar. Tiberias e Farley já devem estar nos túneis, prontos para liderar a maior parte do exército cidade adentro. Tento visualizar mentalmente o ataque tríplice. Não parece com qualquer batalha a que eu tenha sobrevivido. Nem essa, longe do príncipe de fogo e de Farley. De tanta gente querida. Pelo menos o fiel Kilorn ainda está ao meu lado, determinado. Há um pouco de simetria nisso. Voltamos para onde estávamos. Esgueirando-nos por becos vestindo roupas sujas. Os rostos escurecidos e indistintos. Sombras. Ratos.
Ratos com dentes mais afiados e garras maiores.
— Estas árvores estão apodrecendo — Cameron diz, passando a mão pela casca preta de uma das milhares nesta maldita floresta. Criadas por verdes, elas deveriam filtrar a poluição da favela. Circundam todas as cidades técnicas, estendendo-se até seus muros. — Quem fez isso crescer não se dá mais ao trabalho de cuidar. Acham que só estão envenenando a gente, mas estão envenenando a si próprios também — ela conclui, a voz fervilhando.
Nós nos movemos com ajuda de sombrios de Haven e do poder de abafar o som de Farrah, uma das minhas antigas recrutas sanguenovas do Furo. Em vez de disfarçar cada um dos cinquenta membros da tropa, eles nos mascaram como grupo, cobrindo-nos com seus poderes como se fossem um cobertor. Somos invisíveis e inaudíveis a qualquer um fora do círculo de influência de ambos. Podemos ver e ouvir um ao outro, mas ninguém a alguns metros de distância é capaz de fazê-lo.
O primeiro-ministro Davidson caminha a passos leves atrás de mim, ladeado pelos próprios guardas. A ampla maioria do Exército de Montfort vai atacar Harbor Bay, mas alguns sanguenovos estão aqui com ele, embora não vistam seus uniformes habituais. Mesmo Ella, Tyton e Rafe cobriram o cabelo com lenço ou chapéu. Todos se misturam a nós, vestidos com roupas velhas — andrajos, jaquetas remendadas às pressas, calças esfarrapadas. Roupas de técnicos, uma cortesia da rede de assobiadores contrabandistas de Harbor Bay. Fico me perguntando se foi um ladrão que as passou para eles. Uma garota sem outra escolha senão roubar. Sem outro meio de sobreviver.
O ar fica mais carregado à medida que nos aproximamos. Muitos começam a tossir, engasgando com a fumaça. O cheiro doce e enjoativo da gasolina recai sobre nós, como se a terra sob nossos pés estivesse saturada dela. No alto, as folhas vermelhas oleosas das árvores de contenção tremulam com uma brisa leve. Mesmo no escuro, parecem sangue.
— Mare — Kilorn cutuca meu braço. — Estamos chegando à muralha.
Só consigo agradecer acenando a cabeça enquanto forço a vista por entre as árvores. De fato, as muralhas atarracadas e espessas da Cidade Nova despontam à frente. Não são tão impressionantes como o vidro de diamante dos palácios reais, nem tão intimidadoras como as altas muralhas de pedra das cidades dos prateados. Mas, ainda assim, são um obstáculo a superar.
A liderança cai bem em Cameron, embora ela nunca vá admitir. Endireita os ombros quando nos aproximamos, mostrando toda a sua altura imponente. Me pergunto se já fez dezesseis anos. Nenhuma adolescente deveria ser tão calma, centrada e impassível.
— Cuidado com os pés — Cameron chia, passando o aviso para o resto das tropas.
Com um clique, ela liga sua lanterna vermelha e fraca. O restante de nós faz o mesmo, exceto os sombrios Haven. Eles precisam se concentrar para mascarar o brilho infernal.
— Os túneis saem atrás do limite das árvores. Arrastem os dedos dos pés. Procurem no mato mais grosso.
Fazemos o que ela diz, embora Kilorn cubra bem mais terreno do que eu. Ele vai chutando as folhas mortas e apodrecidas com suas pernas compridas, tateando à procura da dureza reveladora de um alçapão.
— Você não lembra da localização exata? — ele pergunta a Cameron.
Agachada, ela levanta a cabeça e bufa, com a mão por baixo das folhas.
— Nunca passei pelos túneis. Não tinha idade para entrar para o contrabando. Além disso, não era coisa para minha família — ela acrescenta, estreitando os olhos. — “Mantenha a cabeça baixa” era nosso lema. E veja onde fomos parar…
— Vasculhando a terra atrás de um buraco — Kilorn responde. Consigo notar um risinho em sua voz.
— Liderando um exército — contraponho. — Onde você veio parar por mérito próprio, Cameron.
Ela muda de expressão, tensa. Seus lábios se retorcem em algo próximo a um sorriso. Um sorriso triste. Cameron disse em Corvium que não queria mais saber de matar. Que não queria mais saber do seu poder de silenciar e sufocar. Seu objetivo passara a ser proteger. Defender. Embora tenha mais motivos do que a maioria das pessoas para sentir raiva, para querer vingança, tem também uma força infinita para conseguir dar as costas.
Eu não.


Os túneis brilham com a luz vermelha que banha todos nós. Até os prateados leais a Cal ou a Rift. Os sombrios da Casa Haven, os silfos da Casa Iral. Uma dúzia deles, misturados entre nós. Todos, por um instante, vermelhos como a aurora.
Fico de olho neles conforme avançamos sob as muralhas da Cidade Nova. Receberam ordens dos seus reis e senhores. Não confio neles nem um pouco, mas confio em sua lealdade. Os prateados são fiéis ao sangue. Fazem o que ele ordena. E nós não estamos indefesos.
Ella e Rafe vão na retaguarda. Ambos parecem cheios de energia, loucos por outra luta depois da derrota em Piedmont. Tyton caminha mais ao meio, deixando-me liderar, para que os eletricons fiquem igualmente distribuídos. Os olhos dele parecem brilhar à luz baixa.
Cameron vai batendo a mão na cintura. Contando os passos. Seus olhos atentos examinam as paredes com uma concentração fervorosa. Ela desliza o dedo pelo ponto em que a terra compactada dá lugar ao concreto. Isso muda algo dentro de Cameron, escurece sua expressão.
— Sei como é — cochicho. — Voltar diferente.
Cameron olha para mim com a sobrancelha erguida.
— Do que está falando?
— Só voltei para casa uma vez depois de descobrir o que era — explico. Foram apenas algumas horas. Tempo mais do que suficiente para mudar minha vida de novo. Recordar a visita ao meu velho povoado é difícil e doloroso. Shade ainda não estava morto, mas eu achava que estava. Me juntei à Guarda Escarlate para vingá-lo. Tudo isso enquanto Tiberias esperava do lado de fora, encostado na sua moto reconstruída. Ainda príncipe. Sempre príncipe. Tento afastar a lembrança como um sonho ruim. — Não vai ser fácil olhar para coisas familiares e ver algo que você não reconhece.
Cameron apenas cerra o maxilar.
— Aqui não é minha casa, Barrow. Nenhuma prisão é — ela murmura. — E é isso que estas favelas são.
— Então por que não vão embora? — Sinto vontade de bater em Kilorn por sua falta de jeito e pela grosseria da pergunta. Ele capta meu olhar furioso e gagueja: — Quer dizer, vocês têm esses túneis…
Fico surpresa com o sorriso que ela abre ao responder:
— Você não entenderia, Kilorn. — Cameron balança a cabeça, com cara de tédio. — Acha que cresceu num lugar ruim, mas aqui é pior. Pensava que estava preso àquele povoado na beira do rio, mas preso pelo quê? Dinheiro? Um emprego? Alguns guardas olhando de esguelha? — Ela fica corada, despejando as palavras. — Bom, nós tínhamos isto.
Ela puxa a gola da blusa para mostrar o pescoço tatuado. A profissão, o lugar, a prisão estampada em tinta permanente. CN-MMPF-188907.
— Cada um de nós tinha um número aqui — Cameron continua, tocando o teto. — Se você desaparece, o próximo número da sequência desaparece também. E não de um jeito bom. Famílias inteiras precisam fugir. E para onde vão? Para onde podem ir? — A voz dela vai baixando, o eco morre nas sombras vermelhas.
— Espero que isso seja passado agora — ela murmura.
— Prometo que sim — Davidson responde a uma distância educada. Seus olhos amendoados se enchem de rugas quando ele tenta abrir um sorriso amargo. No mínimo, o primeiro-ministro é um símbolo poderoso do que pode acontecer. De como alguém como nós pode subir.
Cameron e eu trocamos um olhar. Queremos acreditar nele.
Temos que acreditar.


Dou um nó mais forte no lenço, piscando para afastar as lágrimas ardidas. O próprio ar parece queimar, e minha pele pinica. A atmosfera parece seca e úmida ao mesmo tempo, nada natural e completamente errada.
Ainda não amanheceu, mas o céu fumacento vai clareando à medida que o sol começa a se aproximar pelo leste. Um apito elétrico agudo soa no fim da viela e ecoa pela favela, de uma fábrica para outra, sinalizando a migração gigantesca que é a troca de turno.
— A caminhada do amanhecer — Cameron murmura.
A visão me faz perder o fôlego. Centenas de trabalhadores vermelhos inundam as ruas da Cidade Nova. Homens, mulheres e crianças, de pele escura e rosto pálido, velhos e jovens, todos arrastando os pés através do ar envenenado. A maioria olha para baixo, exausta de tanto trabalho, destroçada por este lugar.
Isso alimenta a raiva que sempre queima no meu coração.
Cameron se insere no meio deles, com Kilorn e eu logo atrás. O resto do bando se junta às incontáveis caras sujas, misturando-se com facilidade. Olho para trás e vejo Davidson, que nos segue a uma distância segura. Sob a luz crescente, seu rosto fica mais tenso, revelando as tênues linhas da idade e da preocupação sulcadas na pele. Ele enfia o punho cerrado no casaco, perto do coração, e me acena de leve com a cabeça.
Nosso desfile de trabalhadores despeja-se em outra rua, mais larga que as demais, perfilada por blocos de apartamentos estoicos organizados feito um regimento de soldados. Outro turno da fábrica se apressa na nossa direção vindo do lado oposto, com o propósito de tomar nossos lugares.
Com delicadeza, Cameron me puxa de lado, fazendo-me entrar na fila com o restante dos trabalhadores vermelhos. Eles dão passos rápidos e sincronizados, abrindo passagem para os trabalhadores do turno seguinte. Quando se vão, Cameron enterra o punho no casaco, como Davidson.
Faço o mesmo.
Marcando quem somos.
Nossa escolta não é da Guarda Escarlate. Ou não era antes de tudo isto começar. Eles são leais uns aos outros, à sua favela. Às pequenas resistências, as únicas possíveis aqui.
Nosso acompanhante é um homem alto, de pele negra, esbelto como Cameron; seu cabelo está trançado e preso em um coque preciso, salpicado de manchas grisalhas. Cameron bate o pé à medida que se aproxima, quase irradiando energia.
Ele nos alcança e a toma pelo braço.
— Pai — ouço-a sussurrar quando a puxa para um abraço. — Onde está a mamãe?
Ele cobre a mão dela com a sua.
— Saindo do turno. Disse a ela para ficar de cabeça baixa e olhos abertos. Ao primeiro relâmpago, vai sair correndo.
Cameron suspira devagar. Ela baixa a cabeça, concordando. A escuridão ao redor continua a sumir, desfazendo-se em tons mais claros de azul à medida que a aurora se aproxima.
— Ótimo.
— Espero que não tenha trazido Morrey para cá — o pai dela acrescenta com sua voz macia, mas em tom de bronca. Tão familiar que lembra meus próprios pais ralhando comigo por causa de um prato quebrado.
Cameron levanta a cabeça e encontra os olhos do pai, escuros e profundos.
— Claro que não.
Não quero interromper a reunião, mas preciso.
— E a usina de energia? — pergunto, levantando os olhos para o homem.
Ele baixa o rosto para mim. Parece bondoso, o que não é pouca coisa num lugar como este.
— CN tem seis, uma para cada setor. Mas se cortarmos o ponto central já estaremos bem.
A menção ao plano dispara algo em Cameron. Ela endireita o corpo e se concentra.
— Por aqui — diz seca, chamando-nos.
A mudança de turno é muito mais lotada do que os piores dias no mercado de Palafitas. Agentes prateados de uniforme preto vigiam tudo. Não do chão, nas ruas imundas, mas das passarelas arqueadas e das janelas dos postos de vigia. Agentes e postos que conheço bem. Observo-os quando passo, notando seu desinteresse.
Não é o mesmo que os prateados da corte demonstram em relação a nós, seu jeito de nos fazer sentir inferiores. É tédio. Uma inércia. Prateados não são enviados para favelas por serem guerreiros de linhagens importantes. Esse posto não dá inveja a ninguém.
Os guardas da Cidade Nova são bem mais fracos do que os inimigos com que estou acostumada. E não fazem ideia de que já estamos aqui.
O pai de Cameron olha bem para ela enquanto caminhamos, pensativo. Sinto um calafrio quando seu olhar se dirige a mim antes de voltar à filha.
— Então é verdade mesmo. Você é… diferente.
Me pergunto o que terá ouvido. O que a Guarda Escarlate disse aos seus contatos na Cidade Nova. A propaganda e as transmissões venenosas de Maven deixaram clara a existência de sanguenovos. Será que ele sabe o que a filha é capaz de fazer?
Ela sustenta seu olhar.
— Sou — diz, sem vacilar.
— Você está com a garota elétrica.
— Estou — ela confirma.
— E este aqui é…? — ele acrescenta, olhando para Kilorn.
Com um sorriso besta, Kilorn leva a mão à testa e se inclina numa curta saudação.
— Sou os músculos.
O sr. Cole quase ri ao notar o corpo alto e magro de Kilorn.
— Claro, rapaz.
Os prédios ao redor ficam mais altos, empilhados de maneira precária. Há rachaduras nas paredes e nas janelas, e o quarteirão inteiro precisa de uma demão de tinta, ou de uma tempestade para lavá-lo. Os trabalhadores em volta começam a se espalhar rumo a blocos de apartamentos entre cumprimentos e acenos. Nada parece estranho.
— Ficamos felizes com sua ajuda, sr. Cole — digo baixo, mantendo a concentração no caminho à frente. Há guardas prateados numa passarela a alguns metros, e baixo o rosto quando passamos.
— Agradeça aos anciãos, não a mim — o sr. Cole responde. Ele não se dá ao trabalho de se esconder dos guardas. Não é nada para eles. — Estão prontos para isso já faz muito tempo.
Minha garganta se fecha de vergonha.
— Porque já faz muito tempo que alguém deveria ter feito alguma coisa.
Alguém como você, Tiberias. Sabia que existiam lugares assim, e para quem. E para quê.
Cameron cerra os dentes.
— Pelo menos estamos fazendo alguma coisa agora.
Ela fecha os punhos ao lado do corpo. Com seu poder, poderia matar os dois guardas se quisesse. Fazê-los cair mortos da passarela. Mas passamos por eles sem incidente, adentrando a sombra do prédio cinza no fim da rua residencial. Parece um jogo de bloquinhos de uma criança gigante, empilhados alto contra o azul enevoado. Uma seção é maior que a outra, pontilhada por janelas sujas de mofo e fuligem.
É onde precisamos estar.
O sr. Cole olha para mim e depois para a estrutura.
— Para o alto, garota elétrica — ele diz com a voz suave. — Suba, grite. É o plano, não é?
— Sim, senhor — sussurro. Invoco a eletricidade, sentindo-a responder no fundo dos ossos.
Quando chego à base do prédio, estamos quase a sós na rua; a única companhia são os atrasados na troca de turno. Cameron se vira para o pai, com os olhos arregalados.
— Quanto tempo temos?
Ele olha o relógio de pulso. Rugas profundas se formam em sua testa.
— Nenhum. Vocês têm que ir.
Ela pisca rápido, tensa.
— Certo.
— Senhor, creio que isto é seu — Kilorn diz com a mão no casaco. Ele puxa uma pequena pistola e um estojo de munição.
O sr. Cole encara a arma como se fosse uma cobra prestes a dar o bote. Hesita até Cameron tomá-la de Kilorn e apertá-la contra o peito dele. Ela arregala os olhos, em súplica.
— Mire e atire, pai. Não hesite — diz, com uma urgência furiosa. — Os prateados não hesitam.
Devagar e com cautela, ele guarda a arma na bolsa a tiracolo. Quando vira, consigo enxergar a tatuagem no seu pescoço.
— Certo — o sr. Cole balbucia, atônito. Acho que está começando a ser demais para ele. O homem limpa a garganta e continua: — Os técnicos do novo turno na usina central já foram informados. Vão desligar a energia ao primeiro ataque, depois do sinal na outra ponta da cidade. Sincronizem os desligamentos com a tempestade. Os prateados não vão saber que estamos envolvidos. E assim ganhamos tempo.
Essa parte do plano foi combinada com anseio tanto da Guarda Escarlate como dos contatos dentro da cidade.
— Todo mundo sabe dos explosivos? — pergunto.
Os membros da Guarda Escarlate que entraram conosco já estão espalhados pela cidade, plantando bombas. Armando nossas armadilhas.
O rosto de Cole ensombrece e se torna sério.
— Todo mundo de confiança. Além da nossa própria resistência, há informantes por toda parte.
Engulo em seco, tentando não pensar no que poderia acontecer se a pessoa errada ficasse sabendo do que está prestes a acontecer. Maven em pessoa poderia baixar na Cidade Nova e esmagar nossa insurgência. Fazer essa terra envenenada e poluída desmoronar sobre todos nós. E, se fracassarmos aqui, como vai ficar a situação das outras favelas? O que vamos provar?
Que não há nada a fazer. Que não dá para salvar essas pessoas.
Kilorn nota meu desconforto e me cutuca, pelo menos para me fazer acordar. Cameron, como é compreensível, está mais preocupada com o pai.
— Tudo bem — ela diz. — Só tenha cuidado com onde põe a merda do pé.
Cole estala a língua.
— Nada de palavrões, Cam.
Sem aviso, Cameron sorri e joga os braços compridos em volta do pescoço do pai, em um abraço apertado.
— Mande um beijo para mamãe por mim — ouço-a sussurrar.
— Você mesma vai poder fazer isso logo — ele cochicha de volta, erguendo-a um pouquinho do chão. De olhos fechados, ambos se agarram um ao outro. E ao momento frágil e fugaz.
Não consigo evitar pensar na minha família, tão distante. Segura. Escondida nas montanhas, protegida por quilômetros de distância, em outro país que jurou lutar ao nosso lado. Vivendo com esperança pela primeira vez em anos. Não é justo, principalmente para Cameron, que sobreviveu a coisa bem pior do que eu. Mas estou feliz por não ter que suportar o fardo da segurança da minha família, além de todo o resto. Mal posso lidar com o perigo que correm as pessoas que amo e que ainda estão na luta.
Cameron é a primeira a soltar. É um ato de força tremenda. Como o do sr. Cole, ao deixá-la ir. Ele dá um passo para trás, fungando, cabisbaixo. Esconde uma vermelhidão súbita em seus olhos. Lágrimas brotam nos de Cameron, e ela esfrega a bota na rua suja, chutando a poeira para se distrair.
— Vamos? — ela diz, voltando-se para mim, com os olhos ainda úmidos. — Hora de subir.


Observamos a cidade como falcões concentrados, cada um numa janela com vista para uma direção diferente. Esfrego o vidro com a manga. O gesto apenas muda o encardido de lugar. O sótão se enche de poeira sempre que nos mexemos, levantando mais uma nuvem. Kilorn tosse contra a mão com sons roucos.
— Estou vendo fumaça deste lado, no meio daquelas fábricas — ele diz.
Da sua janela, Cameron dá de ombros.
— Setor automotivo — indica, sem se virar. — As linhas de montagem travaram faz meia hora. O turno vai ser dispensado, e os trabalhadores vão se amontoar nos portões pedindo a diária. Os supervisores vão negar. Os agentes vão tentar manter a ordem. — Ela sorri para si mesma e acrescenta: — Vai ser um tumulto.
— De que cor é a fumaça, Kilorn? — pergunto, ainda vigiando minha seção do horizonte. Desta altura, a Cidade Nova parece menor, mas ainda deprimente. Tudo cinzento e fumacento, coberto por nuvens baixas de gases brutais. Ela pulsa vagarosamente, e sua eletricidade é quase insuportável.
— Hum, normal — Kilorn balbucia. — Cinza.
Resmungo sozinha, ansiosa para começar.
— São só as chaminés das fábricas — Cameron diz com a voz arrastada. — Não é o sinal.
Kilorn se mexe e tosse mais um pouco. O som seco me faz encolher os ombros.
— O que é que estamos procurando mesmo?
— Qualquer coisa que não seja normal — respondo por entre os dentes cerrados.
— Certo — ele murmura.
Do outro lado do cômodo, Cameron dá batidinhas contra a janela oleosa.
— Acho que essa rebelião já estaria mais adiantada se não dependesse tanto de adolescentes — ela diz, lançando um sorriso para Kilorn. — Especialmente daqueles que não sabem ler.
Ele solta uma gargalhada e morde a isca.
— Eu sei ler.
— Mas será que as cores estão além da sua maldita compreensão? — ela devolve com a rapidez de um chicote.
Ele dá de ombros e ergue as mãos.
— Só estou puxando assunto.
Cameron bufa e faz cara de tédio.
— Porque realmente precisamos de distrações agora, Kilorn.
Aperto os lábios para não rir dos dois.
— É assim que Tiberias e eu ficamos quando discutimos? — pergunto com a sobrancelha erguida. — Nesse caso, aceitem minhas mais sinceras desculpas.
Kilorn fica vermelho, enquanto Cameron se volta rápido para a janela, quase colando o rosto no vidro.
Não percebi o que havia entre Shade e Farley. Será que não percebi isso também?
— Vocês dois são umas dez vezes pior — Kilorn diz afinal, sua voz um ruído baixo e rouco.
Na janela oposta, Cameron solta:
— Você quis dizer cem vezes.
Sorrindo, lanço um olhar para os dois. Ambos estão à flor da pele, apesar das circunstâncias. Tento interpretar a rigidez nos ombros de Kilorn, mas o vermelho das bochechas é mais revelador.
— Eu que dei a deixa, não foi? — murmuro, de volta à minha janela.
Atrás de mim, ele solta uma risada.
— Com certeza.
Então Cameron dá um tapa na janela, sibilando:
— Fumaça verde. Setor de armamentos. Merda.
Kilorn salta para o lado dela, sacando a arma. Ele a encara, preocupado.
— Por que “merda”?
— O setor de armamentos é o que tem mais segurança — ela responde rápido. Com movimentos pausados, Cameron tira o casaco, deixando à mostra a própria arma e uma faca feroz que espero que não precise usar nunca. — Por motivos óbvios.
Solto o ar lentamente. Dentro de mim, os raios se acendem e estalam.
— Tem mais chances de explodir também.
Kilorn dá de ombros e fecha a cara. Ele toca o braço de Cameron de leve, puxando-a da janela.
— Vamos garantir que isso não aconteça — murmura antes de chutar o vidro.
Cacos voam para dentro e para fora, estilhaçando sob a força do golpe. Ainda com o rosto fechado, Kilorn corre a mão enrolada no casaco pela esquadria para tirar os pedaços pontudos. Em seguida, dá um passo atrás para me deixar subir na beirada. Um vento fumacento sopra contra meu rosto, cheirando a vapores e fogo distante. Sem hesitar, passo uma perna para fora, depois a outra. Kilorn agarra a parte de trás da minha camisa.
Olho para o céu, me concentrando na aurora azul que vai se desfazendo em rosa. Apesar de o céu estar sufocado por nuvens corrompidas, elas emitem cores lindas. Meu coração bate como um tambor. O relâmpago dentro de mim pulsa junto, alimentando-se da eletricidade abaixo. Cerro o punho, tentando lembrar o que Ella me ensinou.
A tempestade de raios é a coisa mais forte e mais destrutiva que um eletricon pode criar. Acumula-se; cresce; dispara. No céu, as nuvens de cores brilhantes começam a escurecer e girar, condensando-se com meu poder. Perante meus olhos, sombras idênticas brotam sobre outras duas áreas da cidade. Ella e Rafe. Nós três formamos um triângulo cujo centro é a usina. A cidade espraia-se diante de nós como um campo de batalha. E Tyton está em algum lugar lá em baixo, mais perigoso do que qualquer um de nós, pronto para soltar seus raios pulsantes em quem ousar chegar perto.
Um relâmpago azul é o primeiro a cair, iluminando uma nuvem carregada à minha esquerda. O rugido do trovão próximo explode sobre nós, e sinto Kilorn tremer pelo puxão que dá na minha camisa. Fico firme, agarrada à esquadria da janela.
O roxo e o verde se juntam à batalha quando nossas nuvens colidem, soltando raios sobre o alvo. A usina, um prédio abobadado perto do centro da cidade, é fácil de localizar por causa do emaranhado de fios que chegam de todas as direções. Conectando as estações de energia pela cidade inteira e retroalimentando as fábricas com eletricidade. Que é o sangue de qualquer favela destas. Mesmo à distância, posso sentir seu zunido baixo.
— Faça chover — Kilorn vocifera.
Seguro um suspiro.
— Não é assim que funciona — disparo, lançando um relâmpago pelo céu. Os outros eletricons fazem o mesmo, e o verde e o azul deles acorrem ao meu roxo. Nossos raios acertam bem no topo da usina, produzindo um lampejo ofuscante.
É a deixa para nossos aliados lá dentro desligarem os sistemas. Eles o fazem mais rápido do que conseguiríamos, e com bem menos baixas.
Por toda a cidade, as chaminés param de vomitar veneno. O chiado das linhas de montagem cessa. Os veículos nas ruas, funcionando com suas próprias fontes de energia, desaceleram ou estacionam, surpresos pelo blecaute súbito. A tempestade continua, como um monstro de três cabeças, lançando raios em todas as direções. Por ora, mantenho meus relâmpagos longe do chão. Não consigo mirar bem desta distância e não quero pôr vidas inocentes em risco. Sem falar nos explosivos da Guarda Escarlate, já armados em todos os cantos da cidade. Uma faísca minha poderia disparar uma cadeia de explosões fatais.
— Tudo parado — Cameron sussurra perto de mim. Ela contempla a própria cidade maravilhada. — Sem energia, nada de trabalho. Turnos dispensados. Trabalhadores à espera do pagamento. Agentes de segurança distraídos, supervisores sobrecarregados.
Cegos aos assassinos, criminosos e soldados que estão agora entre eles. Cegos às bombas sob seus pés.
— Quanto tempo at…
A primeira bomba interrompe Kilorn, ressoando perto demais para ficarmos confortáveis. Uma explosão emerge à nossa esquerda, a duas ruas de distância, num dos portões da cidade. Pedra e fumaça são lançadas ao ar num arco de pó. A bomba seguinte destrói outro portão, e é seguida por mais duas. É então que as cargas dentro da cidade começam a explodir. Debaixo de bases de segurança, torres de vigia, alojamentos de prateados, áreas de supervisão. Todos alvos prateados. Cada ataque me faz tremer. Tento não pensar em quanto sangue estamos derramando. Dos dois lados. Quem vai ser pego no fogo cruzado?
Acompanhamos em silêncio, intimidados pela visão. Mais fumaça, mais poeira, cinzas. O peito de Cameron sobe e desce, sua respiração arfante. Seus olhos grandes e negros vão de um lado para o outro, sempre voltando para as fábricas do setor de armas. Nada explode por lá.
— A Guarda Escarlate não é burra a ponto de plantar bombas debaixo de um depósito de pólvora — digo a ela na esperança de consolá-la.
E aí vem a explosão.
A força resultante nos joga para trás, e caímos com tudo em cima do vidro quebrado e do pó. Cameron é a primeira a levantar, com um corte na testa sangrando.
— Então isso não foi a guarda que fez — ela geme enquanto me ajuda a levantar.
O zunido nos meus ouvidos abafa qualquer outro som. Balanço a cabeça de um lado para o outro na tentativa de recuperar o equilíbrio. Cameron me pega pelos pulsos e eu pulo no ato, puxando os braços para fora do seu alcance.
— Para! — berro, incapaz de suportar a sensação.
Ela não reage, só vai ajudar Kilorn a levantar. Passa um dos braços dele por cima do ombro para apoiá-lo. Kilorn está com o lábio estourado e uma das mãos cortada, mas de resto parece inteiro.
— Acho melhor ficar lá embaixo — ele diz, ao ver o teto rachado sobre nós.
— Concordo — digo, disparando para a porta. Minha voz soa esquisita, como que estrangulada.
As escadas são uma espiral apertada e infinita. É uma tristeza subir e ainda pior descer, cada degrau uma pontada nos joelhos. Deixo os raios na ponta dos dedos, e as faíscas violeta se movimentam, prontas para atingir qualquer pessoa no caminho.
Kilorn me ultrapassa com facilidade, descendo os degraus de dois em dois. Odeio quando faz isso, e ele sabe. Ainda tem coragem de sorrir para mim, com uma piscadela.
Cameron vê o guarda prateado antes de nós e grita.
Com um gesto, ele joga Kilorn por cima do corrimão, revelando seu poder telecinético. Vejo em câmera lenta Kilorn cair, sacudindo os membros no ar, e a sensação é de uma facada no estômago. O zunido no ouvido ameaça rachar meu crânio, crescendo para um chiado agudo. Escadaria abaixo, lâmpadas estouram e zumbem com meu medo, espalhando escuridão.
O guarda cai de joelhos antes de poder voltar sua ira contra nós. Leva a mão à garganta, virando os olhos. Cameron curva a mão, os dedos feito garras, enquanto o sufoca com seu poder. Desacelerando o coração dele. Escurecendo a visão. Matando.
O estalo e o barulho seco de Kilorn ao bater no corrimão abaixo me dão náuseas. Corremos o mais rápido possível e damos com dois guardas prateados subindo. Um calafrio congela os degraus sob nossos pés. Minhas botas deslizam, quase me levando ao chão. Eu o parto ao meio com um raio furioso, enquanto seu parceiro, um pétreo, cai sob a ira de Cameron. Dilaceramos os dois como facas rasgando o papel.
Sou a primeira a chegar até Kilorn. Ele rolou por dois andares até parar estatelado nos degraus. A primeira coisa que olho é o peito, subindo e descendo. Pouco, mas ainda assim ele respira. Está engasgando com o sangue. Vermelho, rubro, escarlate, rubi. A cor é tão brilhante que quero fechar os olhos. Tosse violentamente, salpicando Cameron e eu. As gotículas quentes pontilham meu rosto.
— Me ajude aqui — murmuro, já tentando levantar seu corpo. Cameron faz o mesmo, num silêncio sepulcral. Tenho vontade de gritar.
Ele não consegue falar, mas tenta se erguer sozinho. Quase lhe dou um tapa.
— Deixe com a gente — esbravejo, passando os braços dele por cima dos ombros. — Cam, o outro lado.
Ela já está lá, arfante. Kilorn é como uma âncora, um peso morto. Ele se sacode e pigarreia, tingindo os degraus com o próprio sangue. Não me preocupo em avaliar os estragos. Só sei que preciso sair, descer, levá-lo a qualquer um dos curandeiros espalhados pela cidade. Preciso de Davidson, preciso de alguém.
Sinto o peito apertado, mas me recuso a sentir a agonia ou o fardo que ele é. Minhas pernas queimam a cada novo passo. Para baixo, para baixo, para baixo.
— Mare… — Cameron soluça.
— PODE PARAR.
Ele ainda está quente, ainda respira, ainda vomita sangue. É o bastante para mim. Provavelmente está com as costelas quebradas, e os ossos partidos perfuram os órgãos. Estômago, pulmões, fígado. Fiquem longe do coração, imploro. Não vai dar tempo se seu coração for perfurado.
Sinto o gosto de sal e me dou conta de que estou chorando, lavando o sangue dele com lágrimas.
Os andares passam indistintos, um depois do outro. Kilorn puxa o ar, trêmulo, com o rosto e as mãos cada vez mais pálidos. Tudo o que podemos fazer é correr. Mais guardas avançam para cima de nós pela escada, atraídos como cães pelo cheiro. Mal os vejo, mal sinto seus nervos se destroçarem sob meus raios. Alguns caem rápido, com sangue nos olhos e na boca e nas orelhas enquanto Cameron ataca seus corpos com seu poder. Mas são tantos, demais, uma enxurrada contra nós.
— Por aqui! — ela berra, a voz ainda carregada de lágrimas, antes de jogar o corpo contra uma porta no andar seguinte.
Sigo-a sem pensar, e atravessamos o apartamento exíguo e entulhado. Não sei dizer para onde nos leva. Tudo o que posso fazer é sustentar Kilorn e meus raios, as únicas duas coisas que existem no meu mundo agora.
— Aguente firme — ouço-me sussurrar para ele, numa voz baixa demais para alguém mais ouvir.
Cameron nos conduz até a janela mais próxima, outro quadrado de vidro encardido. Mas esse dá para o telhado do prédio adjacente. Ela abre a janela com um chute. Meus relâmpagos protegem nossas costas dos prateados que nos perseguem, o que nos dá tempo para sair e chegar ao telhado ao lado.
Os guardas nos seguem, espremendo seus corpos maiores e mais largos pela janela quebrada para chegarem ao telhado cheio de cinzas logo atrás de nós. Sob o céu tormentoso e trovejante.
Assim que há distância suficiente entre eles e nós, baixo Kilorn com cuidado, deitando-o sobre o concreto. Ele move os cílios, os olhos baços. Cameron se aproxima dele e abre os braços numa postura defensiva.
Dou as costas a ela para encarar os prateados que se esforçam para chegar ao telhado. Conto seis já na laje, com mais se espremendo pela janela. Não sei quais são seus poderes ou se pertencem a alguma família que conheço. Não me importo.
Assim que o pé do último prateado toca o concreto, solto.
A tempestade se abre sobre mim, roxa e violenta, ofuscante com minha fúria. Grito, mas a força absorve todo som, todo pensamento. O relâmpago engole os corpos, matando-os tão rápido que nem mesmo os sinto. Nem nervos, nem esqueletos. Nada.
Quando os raios terminam, é o cheiro que me traz de volta. Cheiro do sangue de Kilorn, das cinzas, dos cabelos queimados, da carne frita. Cameron parece lutar para não vomitar. Preciso desviar a vista dos restos torrados. Apenas os botões das roupas e as armas permanecem intactos, soltando fumaça.
Mal dou um suspiro quando um estalo ensurdecedor rasga o ar chamuscado e o telhado treme sob nossos pés. Cameron se abaixa, cobrindo Kilorn com o corpo enquanto o prédio inteiro balança. Ele começa a se inclinar. Devagar no começo, então mais e mais rápido.
Caio de joelhos, agarrando Cameron e Kilorn enquanto a estrutura chacoalha.
Minha tempestade foi forte demais, e o prédio é muito mal construído. As paredes de um dos lados desmoronam, fazendo-nos tombar. Tudo o que posso fazer é me segurar enquanto o telhado se solta e cai, num ângulo inclinado. Deslizo junto, tateando, os dedos em busca de qualquer coisa para agarrar. Meu punho se fecha na gola do casaco de Kilorn, grudenta de sangue quente e úmido. A respiração dele vacila, mais fraca do que nunca, e despencamos.
O chão se ergue para nos encontrar, como um punho de concreto. Guardas prateados nos esperam lá embaixo, prontos para nos matar se sobrevivermos à queda. Cerro os dentes e me preparo para o impacto. Nunca tinha me sentido tão indefesa ou com tanto medo.
A princípio, só consigo piscar perante o brilho azul súbito. Ele paira, segurando um dos cantos do telhado inclinado, impedindo sua queda. Mas não a nossa.
Deslizamos pela inclinação, arrastando-nos pelas cinzas até batermos no escudo. Disparos soam abaixo, e por instinto aperto bem os olhos e me encolho.
As balas ricocheteiam inofensivas no escudo, fazendo ondas de força dançarem sob nós.
Davidson.
Um olho se abre para ver o massacre lá embaixo, uma névoa de raios azuis, verdes e brancos se ramificando entre os prateados. As lanças brancas de Tyton derrubam quatro num instante, enquanto Ella e Rafe esmagam o restante com sua eletricidade arrebatadora. O escudo se move enquanto eles lutam, baixando o telhado cuidadosamente. Tocamos o chão com um ruído leve, fazendo subir uma cortina de pó cinza.
Kilorn é alto e esbelto, mas pesado. Minha adrenalina praticamente anula seu peso. Mal noto o esforço ao levantá-lo de novo, ao jogar um dos seus braços por cima do ombro. Ainda está respirando, ainda está respirando. Cameron o pega pelo outro lado e disparamos em meio às cinzas, sem pensar nos relâmpagos ou nos prateados ainda lutando.
— Curandeiros! — urro o mais alto que posso para que me ouçam em meio aos estrondos. — Precisamos de curandeiros!
Cameron repete meus gritos, sua voz indo mais além. Ela é mais forte e mais alta do que eu, e fica com a maior parte do peso de Kilorn. Isso não a deixa mais lenta.
O primeiro-ministro nos encontra rápido, acompanhado de sua guarda pessoal. Há uma mancha de sangue em sua bochecha. Sangue vermelho. Não tenho tempo para me perguntar a quem pertence.
— Precisamos… — digo, resfolegando, mas Kilorn desfalece, dobrando-se sobre si. Quase cai das nossas mãos, e somos obrigadas a parar. Outra onda de sangue borrifa o chão, tingindo minhas botas.
Quase desmaio de alívio quando o curandeiro abre caminho por entre os soldados de Davidson. O rosto do sanguenovo ruivo é conhecido, mas não tenho energia suficiente para lembrar seu nome.
— Deitem o rapaz — ele ordena, e nós obedecemos, agradecidas.
Tudo o que posso fazer é segurar a mão de Kilorn, sua pele fria contra a efervescência da minha. Ainda está vivo. Chegamos a tempo. Conseguimos.
Cameron se ajoelha diante dele, calada, observando com as mãos juntas no colo, receosa de tocá-lo.
— Hemorragia interna — o curandeiro diz baixo ao rasgar a camisa de Kilorn. Seu abdômen está quase todo coberto de hematomas. À medida que os dedos do curandeiro dançam sobre ele, pressionando e cutucando, as marcas começam a diminuir. Kilorn faz uma careta e cerra os dentes por conta da sensação tão estranha. — É como se alguém tivesse dado uma marretada nas costelas dele.
— É essa mesmo a sensação — Kilorn diz com esforço.
A voz sai cansada, mas viva. Aperto bem os olhos, desejando ter deuses a quem agradecer pela vida dele. Kilorn aperta meus dedos com força. Obriga-me a olhar para ele.
Os olhos verde-garrafa encontram os meus. Olhos que me seguiram a vida inteira. Olhos que quase se fecharam para sempre.
— Está tudo bem, Mare. Estou bem — ele sussurra. — Não vou a lugar nenhum.
Permanecemos ao seu lado, como guardiãs silenciosas, enquanto o curandeiro trabalha. Encolho o corpo a cada estrondo distante de explosão e disparos. Alguns mais ao longe, além da Cidade Nova, abafados pelos quilômetros. O ataque a Harbor Bay começou, uma investida em três frentes para tomar a cidade. Será que eles vão ganhar? Será que nós vamos ganhar?
Os eletricons se aproximam da gente, desviando das dezenas de corpos prateados amontoados na rua. Tyton mata o tempo virando alguns com o pé sob o olhar de Rafe.
Ella me dá o menor dos acenos ao se aproximar. O lenço se perdeu, e agora seu cabelo azul tem mechas cinza de poeira, fazendo-a parecer mais velha. As nuvens no céu, por ora silenciosas, rodopiam no ritmo do giro casual de suas mãos. Ela pisca para mim, tentando parecer corajosa.
Rafe e Tyton demonstram uma gravidade mais evidente. Ambos mantêm as mãos livres, prontos para revidar qualquer ataque.
Mas ninguém parece vir. Ou o combate está concentrado em outra área ou já acabou.
— Obrigada — murmuro com a voz vacilante.
A resposta de Tyton é rápida:
— Sempre protegemos os nossos.
— Ainda não acabei, mas o pior já passou.
Olho para trás e vejo o curandeiro colocar Kilorn sentado.
Cameron ajuda com cuidado, levando a mão à pele descoberta nas costas dele. De repente, tenho a sensação de estar me intrometendo onde não fui chamada. Com as costas da mão, limpo rápido o sangue, o suor e as lágrimas do rosto.
— Vou descobrir o que está acontecendo — murmuro, e trato de levantar antes que alguém reclame.
Vou pisando sobre os destroços para cortar caminho até os eletricons. Rafe abre um sorriso fraco, em seguida arranca o pano da cabeça e corre a mão pelo cabelo verde batido.
— Ele vai ficar bom? — pergunta, apontando para Kilorn com o queixo.
Suspiro devagar.
— Parece que sim. E vocês?
Ella passa o braço ao redor das minhas costas, ágil como uma gata azul.
— Tivemos menos complicações do que vocês, com certeza. Acho que trouxemos mais poder de fogo do que qualquer um esperaria para um lugar assim.
— Os homens de Norta estavam em menor número e despreparados. — Tyton cospe na rua. — Reis prateados não imaginam que alguém vai se importar com os vermelhos das favelas, quanto mais resgatá-los.
Pisco, surpresa com a conclusão.
— Então ganhamos?
— Estão agindo como se tivéssemos ganhado — Tyton responde.
Ele aponta para os soldados de Montfort e da Guarda que agora protegem as ruas. Poderiam ser técnicos vermelhos se não carregassem metralhadoras. Alguns parecem rir, trocando elogios com o primeiro-ministro, que caminha por ali.
— Queria saber como estão as coisas em Harbor Bay — Ella diz enquanto chuta um punhado de pó.
Baixo a cabeça. Meu coração ainda troveja no peito, bombeando adrenalina para minhas veias. É difícil pensar em qualquer outra coisa além da rua. Ainda mais nas pessoas que amo, lutando e talvez morrendo a alguns quilômetros de distância. Por um segundo, tento esquecer. Me recompor. Respiro fundo e com calma. Não funciona.
— Primeiro-ministro — chamo, já atravessando a rua a passos fortes para encontrá-lo.
Davidson me olha, sorridente, e chega até a acenar para que me junte a ele.
Como se eu precisasse de convite.
— Barrow — diz. — Parabéns pelo trabalho bem-feito.
Não tenho vontade de comemorar com Kilorn estirado a alguns metros, ainda sendo remendado pelo curandeiro. Foi por muito pouco.
— E a cidade? Alguma notícia de Farley?
O sorriso dele fica imóvel.
— Sim.
Sinto um aperto no peito.
— O que isso quer dizer? — pressiono. — Ela está viva?
Davidson aponta para um dos soldados, uma mulher cuja mochila é um emaranhado de fios e equipamentos de rádio.
— Até alguns minutos atrás, estava. Falei com a general pessoalmente.
E Tiberias?, tenho que segurar o ímpeto de perguntar.
— Tudo saiu como planejado? — me esforço para perguntar, enquanto minha mente perpassa as várias facetas da invasão de Harbor Bay.
O rosto do primeiro-ministro enrijece.
— Você esperava que saísse? — ele murmura.
Quase grito de frustração. Outra bateria de artilharia troveja a quilômetros de distância.
À medida que a adrenalina em mim decanta, a frieza toma conta, ameaçando anestesiar meu corpo. Olho para trás por um instante, observando Cameron ajoelhada com Kilorn. Eles não conversam. Estão assustados, quase imobilizados pela exaustão e pelo sabor amargo do medo recente. Em seguida olho para os eletricons. Eles retribuem o olhar, resolutos.
Estão prontos para continuar. Prontos para proteger os seus.
Minha decisão só leva uma fração de segundo.
— Me arranjem um veículo.

9 comentários:

  1. Cameron e Kilorn... shipo!!!! Imaginem os filhos!!!! Mas esse susto de quase morte tenha servido pra Kilorn finalmente perceber do que é que Mare tanto quer protegê-lo. Acho que ele vai ficar mais nas mediações entre sanguenovos e vermelhos como estava fazendo antes.

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  2. Cameron e Kilorn shiipo !!!!
    Estou preocupada com o Cal tomara que ele esteja bem
    ASS:Janielli

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  3. Ahhhh eu necessito de um capítulo na visão do cal. Tem ate da Iris pq n pode ter dele? T-T

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  4. Cameron e Kilorn nunca imaginei, mas taí shippo. E o Kilorn é tipo o Chaol nesse meio entendedores entenderão.

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    1. Na minha opinião o Cal É q é um Chaol da vida, Kilorn ta mais pra Dorian.

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    2. Tbm acho cal igual Chaol kkkkk

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  5. Eu sabiiiia que kilorn iria ter um romance com alguém mas nunca imaginei que fosse com a Cameron!! Omg shippo!!

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  6. eu sempre achei que kilorn ia ficar com a irmã da mare,Gisa. Será que fui a única ?kkkkkkkkkkk

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  7. Se o Kilorn morresse eu parava de ler ele é um dos meus personagens favorito.
    Nada a ver ele com a Cameron tiraram isso do nada
    achei ridiculo

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