2 de junho de 2018

Capítulo dezessete

Iris

ARCHEON JAMAIS SERÁ MEU LAR.
Não por causa da localização, do tamanho, da falta de santuários e templos, nem mesmo pelo meu profundo desprezo pelo povo de Norta. Nenhuma dessas coisas pesa tanto quanto o vazio que sinto sem minha família por perto.
É um buraco que tento tapar com treinos, orações e meus deveres de rainha, por mais entediantes que sejam. Mas tudo é necessário. O mais importante é estar em forma para lutar. Seria fácil me acomodar nos meus aposentos de seda e veludo, servida por criados vermelhos que atropelam uns aos outros para me levar tudo o que quero. Era o mesmo em Lakeland, mas nunca tive vontade de encontrar consolo na comida e no álcool como acontece aqui. Meu treinamento também estabelece um bom equilíbrio, e ajuda a evitar que eu caia na mesma armadilha em que tantos nobres e membros da realeza se veem cedo ou tarde. É uma armadilha que Maven prepara bem. A maior parte dos nobres que ainda apoiam seu governo parece muito mais preocupada com as festas e os banquetes do rei do que com os lobos à porta. Imbecis.
É mais difícil me sentir inspirada a orar neste país sem deuses. Não há templos em Archeon, e o santuário que pedi que me construíssem aqui é pequeno, um armário embelezado num canto dos meus aposentos. Não que eu precise de muito espaço para entrar em comunhão com meus deuses sem nome. Mas, no calor do auge do verão, o espaço lotado de rostos cansados não é muito confortável — mesmo quando uso meu poder para fazer a umidade do ar circular.
Tento rezar em outros lugares, ou pelo menos sentir meus deuses ao longo do dia, mas fica cada vez mais difícil, considerando que meu tempo longe de casa só aumenta. Se não consigo ouvi-los, será que eles conseguem me ouvir? Estou completamente sozinha?
Acho que é mais fácil assim. Não quero vínculos com Norta. Nada me prenderá a este lugar depois que Maven for derrotado pelo irmão ou pela minha mãe — quem conseguir primeiro.
Meus deveres de rainha são a única coisa que me tiram do isolamento. Minha programação de hoje envolve atravessar a enorme ponte que se estende sobre o rio Capital para ir até o outro lado da cidade. O mais longe de Maven que posso, mas ainda dentro da muralha de diamante. Ele sai do palácio cada vez menos, ocupado com infinitas reuniões do conselho. Ou em suas longas horas de solidão.
Ouço os cochichos dos criados. As roupas dele acabam queimadas na maioria dos dias, carbonizadas sem chance de conserto. Isso quer dizer que está perdendo o controle, ou que não se dá mais ao trabalho de mantê-lo. Talvez as duas coisas.
O leste de Archeon espelha o outro lado, erguendo-se das margens pedregosas do rio que se desfazem em encostas suaves. Tudo está verde nesta época do ano. Isso ao menos me faz lembrar de casa, embora poucas outras coisas façam. Até a água é errada. É salgada, não doce, e marcada pela poluição da favela correnteza acima. Eles acham que a barreira de árvores filtra a maior parte dos resíduos, mas qualquer ninfoide perceberia a diferença com apenas uma fungada.
Os edifícios aqui são altos e sufocantes, colunas de granito e mármore, os telhados coroados com pássaros esculpidos com asas abertas e pescoço arqueado. Cisnes, falcões, águias. Suas penas são de cobre e aço, polidos até brilhar. Mesmo no meio da guerra, a capital preserva seu contentamento ignorante. Os vermelhos caminham pelas ruas, usando pulseiras escarlates ou as cores das Casas que servem. Os prateados se deslocam em veículos. Museus, galerias, teatros: tudo funciona sem mudança ou atrasos.
Imagino que estejam habituados à guerra, como Lakeland. Mesmo quando acontece dentro das fronteiras do seu reino.
Hoje tenho um almoço em memória dos soldados perdidos quando o irmão de Maven e seus rebeldes tomaram Corvium. Como sempre, estarei acompanhada por sentinelas em seus uniformes flamejantes. Embora use sempre minhas cores em homenagem à minha terra natal, hoje minha camisa e meu casaco azuis têm detalhes no rubro-negro de Maven. Me sinto mal de me sujar desse jeito, mas ninguém parece notar minha aversão.
Sorrio e aceno para a elite, trocando palavras vazias com os prateados desejosos de adular a nova rainha. Ninguém fala nada com serventia real. É tudo pelas aparências, mesmo com a família dos mortos. Claramente não gostariam de estar aqui, preferindo enfrentar o luto a sós. Uma após a outra, vêm explicar como seus entes queridos morreram, assassinados por um terrorista vermelho ou uma aberração de Montfort. Alguns mal conseguem terminar suas falas.
É uma tática esperta, e com certeza meu marido está por trás dela. Qualquer pessoa que queira se opor à guerra ou que prefira o irmão de Maven no trono teria trabalho para se apegar às próprias convicções depois de um espetáculo como este. E eu represento bem meu papel.
— Estamos aqui para lamentar, mas também para mandar uma mensagem. Não vamos ser controlados pelo medo — digo com a maior firmeza que consigo, correndo os olhos pela câmara repleta de nobres com olhares afiados. Eles me observam com a mais completa atenção. Seja por educação ou para descobrir minhas rachaduras. Minhas fraquezas. Sei que muitos abandonariam a Norta de Maven se julgassem essa a melhor opção para sua Casa.
Meu trabalho é convencê-los do contrário. Ficar. Lutar. Morrer.
— Não vamos ceder à vontade de rebeldes e terroristas, e animais sedentos de poder escondidos atrás de falsas promessas. Não vamos jogar fora tudo o que nosso país é, nossos ideais, os pilares de Norta, os pilares da nossa própria vida. — Minhas aulas de oratória me vêm à mente. Embora eu nunca tenha sido talentosa como Tiora, dou o melhor de mim. Encaro dezenas de olhares simultâneos sem tremer, sem tropeçar. Cerro o punho escondido entre as saias do vestido. — Norta é um país prateado, nascido da nossa força, do nosso poder, das nossas conquistas e do nosso sacrifício. Vermelho nenhum vai tomar o que temos ou mudar o que somos. Eles não são nada para nós, não importa com quem se aliem. Maven Calore prevalecerá. A verdadeira Norta prevalecerá. Força e poder! — Contenho um sorriso ao acrescentar as palavras familiares no discurso previamente aprovado: — Que enfrentem nossa enchente.
Apesar de todo o meu comedimento, não posso deixar de sorrir quando a multidão aplaude e celebra as palavras de Lakeland. Palavras da minha mãe. Podem ir se acostumando. Vão se curvar às minhas cores logo mais.


A onda de calor passou, tornando mais agradável minha caminhada de volta à caravana de veículos à espera. Quero ficar mais na rua, desfrutando o ar fresco e a luz amena do sol, por isso avanço o mais devagar que posso. Os sentinelas acompanham meu ritmo, ladeando-me numa formação bem treinada com suas luvas e máscaras. Estamos adiantados, pelas minhas contas. Só preciso voltar ao palácio e me preparar para o jantar de hoje.
Chego à porta aberta do veículo rápido demais. Subo bufando e com os olhos baixos. A porta se fecha atrás de mim.
— Boa tarde, majestade.
Dois rostos me encaram nos assentos à minha frente. Um é conhecido, o outro posso imaginar quem seja. Ambos são inimigos.
Solto um ganido, afundando no assento de couro. Por instinto, levo a mão ao cantil que sempre mantenho por perto. A outra mão começa a tatear à procura da pistola sob o banco.
Dedos agarram meu queixo e me forçam a levantar a cabeça. Me preparo para descobrir que são do cantor, o tio capaz de afugentar meus pensamentos, virando-me do avesso.
Contudo, levanto os olhos e dou com a mulher mais velha, seus olhos de bronze acesos e determinados. Congelo, sabendo exatamente o que o toque de Anabel Lerolan é capaz de fazer. Já a vejo apertar mais meu rosto, forçar os dedos, então meu crânio se abrir com um estrondo, espirrando cérebro e ossos por todo o interior do carro.
— Alguns conselhos, de rainha para rainha, minha cara — Anabel diz, sem soltar meu queixo. — Não faça nenhuma besteira.
— Certo — sussurro, mostrando as mãos vazias. Sem pistola, sem cantil. Sem armas além do ar dentro do veículo. Olho para além dela, para a silhueta do motorista e do sentinela. Ambos do outro lado do vidro.
Julian Jacos acompanha meu olhar e suspira. Então dá algumas batidas na divisória. Nenhum dos guardas se move.
— Receio que eles não vão ouvi-la por um tempo — ele diz. — Foram orientados a voltar ao palácio pela rota mais longa. — Com um sorriso vazio, ele olha para fora da janela enquanto avançamos por vielas desconhecidas. — Não estamos aqui para te machucar, Iris.
— Ótimo. Eu não achava que fossem burros a ponto de tentar — rebato, um pouco travada pelos dedos letais de Anabel. — Se importa? — sibilo para ela.
Acenando a cabeça de forma condescendente, a mulher me solta, mas não recua, mantendo-me ao alcance. Tento juntar a umidade da minha pele e do ar. Do suor frio que brota do meu corpo. Talvez possa erguer uma espécie de escudo se ela tentar qualquer coisa.
— Se quiserem mandar recados a Maven, usem os canais adequados — disparo, recobrindo-me com uma muralha de determinação.
Ela desdenha, parecendo enojada:
— O recado não é para aquele pirralho maldito.
— Seu neto — lembro a ela.
Anabel fecha a cara, mas continua:
— Quero que diga algo à sua mãe. Como costuma fazer.
Fungando, cruzo os braços.
— Não faço ideia do que estão falando.
Anabel faz uma cara de tédio e troca olhares com Julian. É bem mais difícil decifrar o rosto dele, com sua expressão concentrada e plácida.
— Não preciso cantar para que confesse — ele diz simplesmente —, mas você sabe que posso fazer isso, se necessário.
Não digo nada. Não faço nada. Meu rosto permanece como a superfície de um lago tranquilo. Não confirmo nem que sim nem que não.
Anabel insiste, me analisando de cima a baixo.
— Diga à rainha de Lakeland que o legítimo rei de Norta não tem disputas com ela. E que possui toda a intenção de preservar a paz negociada pelo usurpador. Isto é, se houver garantias.
— Quer que a gente desista? — pergunto com desprezo. Ela me olha com o mesmo desdém. — Impossível.
— Não, nada disso. Devemos manter as aparências, claro — Anabel diz, estendendo os dedos. Observo cada um deles tamborilar ritmado sobre a perna. — Mas tenho certeza de que podemos encontrar um meio-termo que fuja à guerra franca entre nossos dois soberanos.
Mais uma vez, dou uma olhada nos meus guardas atrás do vidro, enfeitiçados para nos ignorar. A estrada do lado de fora é desconhecida. Para mim, pelo menos.
Cerro os dentes.
— Ele não é soberano nenhum. Nossa aliança não é com Tiberias Calore, traidor do seu reino e da sua gente.
Julian inclina a cabeça para o lado, me examinando como se eu fosse um quadro. Então pisca devagar.
— Seu marido mente melhor do que você.
Marido. O lembrete da minha condição aqui e do meu lugar ao lado de Maven é um golpe fácil, mas dói mesmo assim.
— Mentira ou não, o povo acredita — rebato. — Vermelhos e prateados, pelo país inteiro, acreditam no que ouvem. E vão lutar pela pessoa que acham que Maven é.
Para minha surpresa, Anabel faz que sim com a cabeça. Sua expressão se desfaz, e ela parece preocupada.
— É disso que temos medo. E é por isso que estamos aqui. Para evitar todo derramamento de sangue que pudermos.
— Anabel Lerolan, você devia ser atriz — digo, com um risinho irônico.
Ela só acena com a mão e olha para fora da janela. Seus lábios se curvam num esboço de sorriso.
— Fui uma grande patrona das artes, muito tempo atrás.
Por algum motivo, Julian olha para ela, sereno. Anabel retribui, com uma discrição estranha. Algo se passa entre os dois. Uma palavra não dita ou uma lembrança comum, talvez.
Ela é a primeira a se recompor e voltar a olhar para mim. Sua voz sai dura, e tenho a sensação de estar levando uma bronca sem saber o motivo.
— Tiberias está disposto a ceder terra e dinheiro quando conseguir o trono, em troca da cooperação de Lakeland.
Levanto a sobrancelha, meu único indício de interesse. Afinal, quem sabe onde isso vai dar? É prudente manter as opções abertas.
Ela percebe a abertura e continua:
— Pode conceder toda a região do Gargalo.
De novo, sou obrigada a rir, jogando a cabeça para trás. A umidade contra minha pele, já quase um escudo, pinica.
— É uma terra inútil — desdenho. — Um campo minado. Querem nos presentear com mais trabalho.
A velha rainha finge não me ouvir.
— E prometer uma união com seu primeiro filho, descendente dos Calore e dos Samos. Realeza por dois lados, herdeiro de dois reinos.
Para salvar as aparências, continuo a rir, mas meu estômago se revira de repulsa. Ela está tentando barganhar com uma criança que ainda nem nasceu. Que será minha filha ou de Tiora. Sangue do nosso sangue. Independente de consentimento. Pelo menos eu concordei com o arranjo que me propuseram. Mas fazer o mesmo com um bebê? Desprezível.
— E seus cachorros vermelhos? — pergunto, me inclinando para a frente e entrando no espaço dela. É minha vez de atacar. — A Guarda Escarlate? As aberrações de Montfort? Mare Barrow e sua gente?
Julian responde antes de Anabel. Ela não parece gostar nem do jeito dele nem do que diz.
— Você se refere ao próximo passo da nossa evolução? — ele pergunta. — Não é prudente ter medo do futuro, majestade. Nunca acaba bem.
— Alguns futuros podem ser evitados, Lord Jacos.
Penso no outro mascote sanguenovo que Maven perdeu, o que conseguia prever o futuro distante. Só ouvi rumores dele, mas me bastaram. Ele enxergava todas as possibilidades à medida que mudavam. Até destinos que jamais aconteceriam.
— Não este — Julian diz, balançando a cabeça. Não sei dizer se está feliz ou arrependido. Tem uma alma triste, esquisita. Atormentado por uma mulher, sem dúvida, como a maioria dos homens. — Não agora.
Olho para ambos, não gostando do que vejo. Tanto um como o outro seria capaz de me matar se quisesse. Apesar de todo o treinamento, eu seria derrotada fácil. Mas, se fosse esse seu objetivo, já teriam agido.
— Vocês perderam Piedmont, por isso querem Lakeland — resmungo. — Sabem que não podem ganhar sem que um de nós faça o trabalho sujo.
— Fazemos bastante trabalho sujo por conta própria, princesa — Anabel replica, a voz baixa e irritada. Ela põe ênfase no meu título de nascença. Não reconhece Maven como rei, portanto não me vê como rainha.
— Vocês põem esperança demais em Montfort — digo. — Será que os sanguenovos deles são mesmo suficientes para derrotar o poderio de três nações?
Julian cruza as mãos sobre o colo, pensativo. Ele é mais difícil de abalar.
— Acho que todos sabemos que o poderio real de Lakeland jamais virá em auxílio de Maven Calore.
As palavras doem um pouco. Fui burra quando revelei minhas intenções durante a conversa com Mare, através daquele sanguenovo na prisão de Piedmont. Não tinha qualquer motivo para isso senão provar que era capaz. Ela passou a mensagem adiante, claro. Ou talvez sejamos muito transparentes. Fico eriçada e disparo:
— Assim como todos sabemos que sua aliança com os vermelhos não vai durar. É mais um barril de pólvora perto do fogo.
Agora, sim, Julian fica desconfortável. Pego desprevenido, ele se remexe, e um leve tom de cinza aflora nas bochechas. O que não acontece com Anabel. Ela ganha força e sorri, como se eu acabasse de lhe servir um prato delicioso. Ainda que não saiba bem por quê, fico com a sensação de ter dado um passo em falso.
Ela estende a mão e eu me jogo para trás, para fora do seu alcance. Anabel parece se admirar com meu medo.
— Há algo mais que podemos oferecer.
Julian fica ainda mais corado. Ele franze a testa e baixa a cabeça, quebrando o contato visual comigo. Está abrindo mão da sua única arma. Eu poderia atacá-lo agora e levar a melhor. Mas Anabel está perto demais, e é letal demais.
E, tenho que admitir, quero saber qual é a última parte da barganha dela.
— Prossiga — sussurro, quase inaudível.
Ela abre um sorriso largo. Apesar de Maven ter saído à mãe, enxergo algo dele na avó. No sorriso afiado, na mente ardilosa.
— Salin Iral enfiou uma faca nas costas do seu pai — Anabel diz, e estremeço à lembrança. — Suponho que gostaria de ter uma conversa com ele.
Respondo sem pensar. Um erro.
— Sim, acho que tenho algumas coisas para dizer a ele.
O sabor fantasma de sangue enche minha boca.
— Tenho certeza de que sabe por que ele fez isso — Anabel diz.
Sinto uma pontada de dor. A morte do meu pai ainda é uma ferida aberta e hemorrágica.
— Porque isto é uma guerra. As pessoas morrem.
Os olhos dela, escuros como bronze derretido, se arregalam.
— Ele só fez o que ordenaram.
Qualquer tristeza que eu possa sentir pela minha perda se transforma rápido em fúria. Uma fúria que lambe minha coluna, quente e suplicante.
— Volo — não posso deixar de sibilar. O nome do rei Samos amarga minha boca.
Mas Anabel sabe como me provocar.
— Gostaria de uma conversa com ele também? — ela sussurra, fazendo a oferta numa voz quase sedutora. Ao lado, Julian volta a olhar para mim, com os lábios apertados. As linhas de seu rosto parecem mais profundas.
Respiro fundo.
— Com certeza — murmuro. — Qual é o preço?
Sorridente, ela me diz.


Eles se misturam à cidade como fantasmas. Simplesmente saem do carro numa esquina movimentada e desaparecem em meio aos montes de criados vermelhos e prateados mais modestos. Meus guardas não parecem notar ou ligar; apenas voltam ao trajeto predeterminado. Julian Jacos trabalhou bem, e quando chego ao palácio parece tudo no lugar. Nenhum dos meus guardas percebe que perdeu vinte minutos no abismo do encantamento de um cantor.
Entro rápido, com a intenção de ir para o santuário secreto nos meus aposentos, sentindo necessidade daquele espaço vazio e familiar para organizar meus pensamentos.
Minha mãe precisa saber de tudo o que acabou de vir à tona, o mais rápido possível. Mas não posso ter certeza de que as mensagens não serão interceptadas, mesmo que as passe pelos meios mais ocultos. A proposta de Anabel poderia me fazer ser decapitada, mutilada, queimada, assassinada. Só pode ser transmitida cara a cara.
Consigo chegar em segurança aos aposentos. Com um gesto, dispenso os sentinelas na porta, como sempre faço. Apenas sozinha de verdade me dou conta do que fiz e do que acaba de acontecer.
Começo a tremer, atravessando o vestíbulo chacoalhando as mãos. Meu coração dispara. Penso em Salin Iral e em Volo sob minhas mãos, afogados, mortos.
Pagando o preço mais alto pelo que fizeram com meu pai.
— Trânsito na ponte?
Fico gelada e meus olhos se arregalam. A voz dele sempre me deixa com medo.
Sobretudo quando vem do meu quarto.
Meus instintos me dizem para correr. Dane-se tudo. Dê um jeito de fugir da cidade e encontre um caminho para casa. Uma ideia impossível. Me forço a continuar caminhando e atravesso a porta dupla que dá para a alcova. Para meu possível caixão.
Maven se espraia pela colcha de seda. Tem uma mão atrás da cabeça e a outra no peito. Os dedos tamborilam em sincronia, brancos feito osso contra uma das suas milhares de camisas pretas. Parece entediado e irritado. Uma má combinação.
— Boa tarde, esposa — ele cumprimenta.
Corro os olhos pelo quarto, pelos muitos chafarizes que mantenho perto. Não são decoração, mas proteção. Sinto cada um se perturbar e mover; são mais do que suficientes caso a coisa fique feia. Se ele sabe o que fiz. O que imaginei. O que concordei em fazer.
— Por que está aqui?
Não adianta bancar a esposa devotada, não quando estamos a sós. Ele vai saber que há algo de errado. Se já não souber.
Então percebo, com um calafrio, que ele pode estar aqui simplesmente para cumprir com nossos deveres conjugais, que até agora foram relegados. Não sei o que me aterroriza mais. Embora eu tenha concordado com isso. Embora soubesse que era parte do acordo. Que ele é parte da aliança. Talvez eu tenha superestimado a obsessão dele por Mare. Talvez esteja cansado dela.
Maven vira a cabeça na minha direção, mantendo uma bochecha contra a seda. Uma mecha preta cai em sua testa. Ele parece mais jovem hoje. E mais maníaco. Seus olhos quase não estão azuis de tão tomados pelas pupilas pretas dilatadas.
— Preciso que mande um recado para Lakeland — ele diz. — Para sua mãe.
Fique quieta. Não se mexa. Não demonstre alívio, digo a mim mesma, apesar de meus joelhos ameaçarem tremer.
— Dizendo o quê? — retruco, vestindo a máscara da indiferença.
Ele se move com graça, pondo-se de pé com movimentos suaves. Embora Tiberias seja o irmão guerreiro, Maven não é desprovido de capacidade física.
— Caminhe comigo, Iris — ele diz com um sorriso cortante.
Não tenho escolha senão obedecer. Mas ignoro seu braço estendido para manter uma distância segura de alguns centímetros entre nós.
Ele não fala. Obriga-nos a caminhar em silêncio depois de sairmos juntos dos meus aposentos. Sinto-me atada e suspensa sobre um poço. Meu coração lateja no peito, e faço tudo o que posso para sustentar a máscara pelos longos minutos de caminhada. Apenas quando chegamos à sala do trono, vazia a esta hora do dia, Maven se vira para me encarar.
Preparo-me para o golpe e para revidar.
— Diga à sua mãe para preparar sua frota e seus exércitos — ele fala, como se elogiasse meu vestido.
A surpresa toma o lugar do medo em mim.
Maven continua a andar, subindo os degraus até o trono para passar por trás dele. A influência da Pedra Silenciosa me deixa à flor da pele. Mesmo um leve toque já me faz engolir em seco.
— Agora? — gaguejo, levando a mão à garganta. Avalio Maven, com a mente disparada. Não faz nem uma semana que Bracken reconquistou Piedmont. A coalizão de Tiberias ainda deve estar se reagrupando. — Estamos sob ataque?
— No momento não. — Ele dá de ombros, indiferente. Ainda em movimento. Ainda me fazendo segui-lo. — Mas em breve estaremos.
Estreito os olhos, sentindo um desconforto profundo.
Maven se aproxima de uma das portas atrás do trono, na direção do que deveriam ser os aposentos públicos da rainha. Uma biblioteca, um escritório, saletas. Não uso nada disso; prefiro meu santuário.
Ele atravessa a porta, e eu o acompanho.
— Como você sabe disso? — pergunto, o pavor se acumulando nas entranhas.
Maven dá de ombros de novo. O ambiente é escuro, as paredes estão cobertas de cortinas pesadas. Mal consigo distinguir as faixas em branco e azul-marinho, cores da última rainha a usar este espaço. Os cômodos têm um ar de poeira e desuso.
— Conheço meu irmão — Maven diz. — Sei do que ele precisa, e o que este país precisa dele.
— E o que é?
Maven sorri para mim e abre mais uma porta do outro lado da sala. Seus dentes reluzem na penumbra. Ele faz tudo o que pode para parecer um predador.
Algo no cômodo seguinte me faz parar. Desperta uma dor em mim, desde os ossos.
Mantenho-me imóvel, tentando aparentar tranquilidade. Mas meu coração dispara.
— Maven? — sussurro.
— Cal tem aliados, mas não suficientes. Não em Norta. — O jovem rei junta os dedos um a um, os olhos cintilantes, e começa a pensar em voz alta. Permanece à porta, sob o batente. Não dá nenhum passo a mais. — Ele quer atrair mais súditos meus para si, mas não é diplomata. É um guerreiro, e vai lutar para ganhar a preferência das Grandes Casas. Para mostrar que é digno da minha coroa. Cal precisa virar o jogo. Fazer os nobres acreditarem que a causa dele não está perdida.
Maven não é burro. Prever os movimentos dos oponentes é seu ponto forte, e a única razão para ter sobrevivido — e vencido — esse tempo todo.
Não tiro os olhos da porta. Forço a vista para ver o que há além dela. O cômodo do outro lado está escuro feito breu.
— Então ele deve atacar outra cidade. Talvez até a capital.
Maven desdenha do meu comentário como se eu fosse tola. Seguro o ímpeto de enfiar a cabeça dele no chafariz mais próximo.
— Meu irmão e seus aliados pretendem atacar Harbor Bay.
— Como pode ter certeza?
O rei contorce os lábios.
— É a melhor opção que ele tem. O forte, os navios no porto, sem falar do valor sentimental — ele acrescenta, cuspindo as palavras enojado. — A mãe dele adorava aquela cidade.
Seus dedos brincam com a tranca da porta aberta. Parece forte. Mais complicado do que deveria ser.
Engulo em seco. Se Maven acha que Cal vai tentar atacar Harbor Bay, eu acredito. Não quero minha mãe ou nossos exércitos nem perto do conflito. Desculpas e mais desculpas me saltam à cabeça, prontas para ser usadas.
— Nossa frota ainda está nos lagos — arrisco, como quem pede perdão. — Vai levar tempo.
Maven não parece surpreso, nem mesmo preocupado, pelas minhas palavras. Vem para mais perto de mim, as mãos a centímetros das minhas. Posso sentir o calor doentio de sua pele.
— Eu esperava por isso — ele diz. — Então vou dar um incentivo à sua mãe.
Um nó se forma no meu estômago.
— Qual?
O sorriso dele reluz. Eu o odeio.
— Você conhece Harbor Bay, Iris?
— Não, Maven.
Se eu fosse uma pessoa qualquer, sem preparo, minha voz teria saído trêmula. Não pelo medo que quer me causar. Mas por ódio. O sentimento perpassa meu corpo como uma tempestade.
Maven não parece notar. Ou ligar.
— Pode ter certeza de que desejo que aproveite a visita — ele diz, ainda sorridente.
— Então sou uma isca — sibilo.
— Eu jamais chamaria você disso. É um incentivo — ele diz entre suspiros. — É, acho que foi disso que chamei.
— Como você ousa…
Ele corta minha fala, a voz saindo mais alta do que antes:
— Com você na cidade, pronta para liderar a defesa, tenho certeza de que sua mãe fará tudo o que puder para cumprir a parte dela na aliança. Não concorda?
Ele não espera minha resposta, cerrando o punho ao lado do corpo.
— Preciso dos exércitos que me prometeram. — Sua voz sai entrecortada. — Preciso de reforços. Preciso de ninfoides na baía para afogar a cidade e todos nela.
Concordo depressa com a cabeça. Pelo menos para aplacá-lo.
— Vou dizer a ela, mas não posso garantir…
Maven reduz o espaço entre nós, o que me deixa tensa. Ele fecha os dedos no meu pulso, apertando forte e me puxando para si. Seguro o instinto de lutar. Só vai causar dor.
— Assim como não posso garantir sua segurança lá — ele diz, bem no limiar da porta. Seus lábios se retorcem num sorriso divertido. — Nem aqui.
A um sinal secreto, uma tropa de sentinelas surge pela porta atrás de nós. Todos fortes, mascarados e uniformizados, reluzentes em suas joias negras e sua seda flamejante. Meus guardas… e carcereiros.
Me dou conta do que é isso. Do que é o próximo cômodo, esse lugar escuro em que Maven fica tão à vontade.
O trono não é a única coisa aqui feita de Pedra Silenciosa.
A ameaça reluz, o fio de uma navalha contra meu pescoço. Ele aperta mais forte, os dedos gelados na minha pele. Não há como escapar de suas ordens.
— E você, meu corajoso e justo rei? — provoco, ainda olhando para o cômodo escuro. Já consigo sentir o toque paralisante da Pedra.
Ele não se abala com o insulto. É inteligente demais para isso.
— Ponha a armadura, Iris. Espere a tempestade. E torça para sua mãe agir tão rápido quanto meu irmão.

19 comentários:

  1. Eu sei que é errado más não consigo deixar de amar o Maven!

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  2. De novo: se não for pra ver cobra comendo cobra... Minha gente! Maven é muito esperto!! Eu gosto de ver as rasteiras que ele dá nos outros prateados tanto quanto eu gosto das de Mare. Apesar de ser muito a favor do romance de Cal e Mare, não dá pra imaginar em como teria sido o romance de Maven e Mare se ele fosse gente e não monstro... teria sido épico! Estou angustiada esperando um plot twist de Cal agora. Só falta ele!

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    1. O problema é que Cal é muito previsível

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    2. Exatamente, Cal é previsível e Maven muito inteligente , cada um usa suas habilidades , Cal na guerra e Maven nas estratégias kkkkkk.
      Tenho que admitir ,Maven é muito esperto mesmo .
      O reino caindo aos pedaços e ele ainda consegue se manter de pé. Ele ja observava Iris faz tempo e sabia que ela era inimiga, afinal "todo mundo pode trair todo mundo ", Maven só esta agindo sempre um paço antes de todos .

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  3. sinto falta do antigo Maven
    ASS:Janiell

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    1. acho que aquele maven do primeiro livro ja era danificado ,mas usava mascara pra enganar todo mundo , como a mãe dele queria .

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  4. Mds, é todo mundo contra todo mundo, aliados oferecendo a cabeça de seus aliados, inimigos fzd parceria, amantes planejando se derrubar, amigos lutando entre si. To morrendo de curiosidade pra saber qual das cobras vai sobreviver.
    ~Diane

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  5. Maven pode ter todos os defeitos do mundo, mas ele é sem dúvidas o melhor personagem da série. Ele é tão bom que as vezes a gente se pega torcendo por ele mesmo sendo errado. E olha a antítese Cal é previsível, transparente como aguá cristalina, um livro aberto ao passo que Maven é justamente o oposto. E essa Anabel?? Que vontade de afogar essa velha.
    E esse livro tá recheado de indiretas eu mesma conheço um povo que vive distraído com festas e afins enquanto os lobos lhes espreitam prontos para devorar o rebanho. Não precisa pensar muito para saber de quem estou falando.

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    1. toda série é boa quando tem um vilão inteligente !!! Maven é fundamental nessa história . E concordo , eu fico só esperando pra ver qual será o próximo plano de maven e torcendo pra ver as cobras se atacando . kkkkkkkkkk
      O motivo do Maven ser inteligente assim é que ele é muito observador , usa toda oportunidade e armas pra manipular as pessoas ,e olha que ele nem participa da guerra kkkkkkk só manipula .

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  6. Nunca vou superar a traição de Maven.

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  7. Ai cara, não consigo não amar Maven. O personagem dele é foda de mais.
    Só gosto dos capítulos da Íris por conta do Maven aparecer neles. Sonho meu um capítulo dele.? Ai como eu queria isso.

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  8. Nossa!! 😱 Que capítulo! 👏🏼👏🏼 Simplesmente amo o Maven! Ele é um malvado tao inteligente ❤️❤️😍👏🏼

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  9. Só digo uma coisa : Iris esta ferrada na mão do Maven ,ou Maven esta ferrado nas mãos de Iris !!! Doideira . Iris é tão inteligente e poderosa quanto Maven ,mas a vantagem dela é que é boa tanto em estratégia quanto em batalha ; ela poderia fazer uma guerra toda sozinha kkkk , Maven não entra nas batalhas ,só faz as estratégias e manipula .

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    1. Sim! E Iris ainda tem o apoio da família, do reino. Maven é no máximo tolerado por seus aliados

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  10. Eu ainda acho q o Maven pode se curar cm a ajuda da Mare, porém tem o Cal né
    Íris q se foda

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  11. Pra mim o maven e o verdadeiro protagonista dessa serie. Cal e mare são coadjuvantes.nao consigo gostar deles como casal.
    Asa:Rosany esteves

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  12. Tenho uma Tara por Maven,que Deus me perdoe !

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Boa leitura, E SEM SPOILER!