2 de junho de 2018

Capítulo dezesseis

Mare

— NÃO SOU IDIOTA, EVANGELINE — vocifero quando as portas do vestiário batem atrás de nós.
Ela apenas solta um suspiro e empurra um uniforme de treino contra meu peito. Com movimentos treinados e calculados, tira o vestido simples e o joga de lado, descartando a seda como se fosse lixo. Então veste seu uniforme de treino, claramente feito sob medida, com um padrão de escamas pretas e prateadas.
Meu uniforme azul-marinho é menos ornamentado. Furiosa com a armadilha dela, arranco minhas roupas com tudo e visto o traje.
— Daria no mesmo você nos enfiar num quartinho e trancar a porta — reclamo, observando-a fazer uma trança no cabelo prateado para tirá-lo do rosto. Ela é rápida, enrolando a trança como uma coroa em volta da cabeça. Evangeline apenas torce os lábios.
— Eu até faria isso, se achasse que iria funcionar para você. Para ele, tenho certeza que um quartinho seria suficiente. Já você… — Ela abre bem os braços e dá de ombros. — Você nunca facilita nada.
— E agora? Vai tentar me dar uma surra na esperança de que ele sinta dó? Que cuide de mim até eu sarar? — Balanço a cabeça em desgosto.
— Pareceu funcionar em Montfort. — Os olhos dela me analisam. — Aqueles silenciadores fizeram um bom estrago em você.
Estreito os olhos.
— Bom, tenho meus motivos — disparo na defensiva. A lembrança chega como um tapa na cara seguido de um chute forte no estômago. Enterro as unhas nas palmas das mãos, na tentativa de impedir a sensação de sufocamento. Ao pé das montanhas, ou num quarto do palácio. Por prateados ou por algemas. Sem pensar, envolvo o pulso e o aperto. Quase vomito no piso lustroso.
— Eu sei — ela diz, mais branda do que antes. Se fosse outra pessoa, talvez pensasse que há alguma sombra de preocupação na sua voz. Mas não Evangeline Samos. Ela não é capaz de sentir compaixão por vermelhos.
Pigarreio e tento recuperar um pouco a compostura.
— Mesmo que conseguisse nos fazer reatar, não adiantaria nada. Você mesma disse que ele não é do tipo que abdica. É um plano idiota, Evangeline — acrescento, pelo bem de nós duas.
Ela me olha de esguelha, afivelando uma tira com adagas em torno da coxa. Um canto de sua boca se levanta. Não consigo determinar se é um sorriso de escárnio ou sincero.
— Veremos.
Com toda a graça e agilidade, ela vai em direção à saída e faz um gesto para que eu a acompanhe até o ringue de madeira encerada.
É o que faço, relutante, prendendo o cabelo num rabo de cavalo. Parte de mim torce para que Tiberias já tenha ido. Concentro o olhar num ponto no meio das costas de Evangeline.
— O plano é idiota não só porque Tiberias já fez sua escolha — continuo, ultrapassando-a e abrindo um sorriso largo para ela. — Mas também porque você não vai encostar nem um dedo em mim.
Evangeline aperta a mão contra o peito fingindo dor. A porta do vestiário bate atrás dela.
— Sou eu quem tem excesso de confiança aqui.
Continuo sorrindo, andando de costas para ficar de olho nela. Nunca acredito que alguém vá fazer uma luta justa, muito menos Evangeline.
— Talvez Elane possa lamber suas feridas…
Evangeline apenas levanta o queixo para me olhar.
— Ela lambe, e com frequência. Está com inveja?
Meu rosto arde. Sinto o calor dele descer até o pescoço.
— Não.
Agora é a vez de Evangeline sorrir. Ela me ultrapassa com tudo, batendo o braço no meu com uma força intencional. Viro para desviar, mas Evangeline mantém o corpo alinhado ao meu, impedindo que eu saia de sua mira. Parecemos parceiras de dança num salão de festa. Ou lobos se rodeando no escuro, predadores testando um ao outro. À procura de aberturas e fraquezas. De oportunidades.
Tenho que admitir que a possibilidade de aliviar um pouco a tensão e talvez ter alguns bons momentos me deixou animada. A adrenalina já corre pelas minhas veias com a expectativa. Uma boa luta, sem consequências ou perigos reais, soa deliciosa. Ainda que implique admitir que Evangeline tinha razão sobre o treino.
Do outro lado do salão, noto Kilorn observando, com Tiberias de pé ao seu lado. Ptolemus mantém distância. Não desperdiço minha atenção com eles, ainda que seja isso o que Evangeline quer. Ela provavelmente vai fatiar meu rosto no instante em que eu baixar a guarda.
— Você devia treinar mais — Evangeline diz num tom de voz um pouco mais alto. Suas palavras ecoam pelo espaço aberto. Me pergunto se simplesmente nasceu sem vergonha. — Tirar esse estresse do corpo de outras maneiras. Ou com outras pessoas.
Pisco várias vezes, surpresa. Meu corpo inteiro transborda calor, e pela primeira vez não é culpa de Cal. Ela acha graça no meu desconserto e chega até a inclinar a cabeça na direção dele e de Kilorn, a uns metros de distância. Ambos ouvem claramente a conversa, mas tentam fingir que não. Então ela se foca em Kilorn, examinando-o atentamente.
E eu capto a insinuação.
— Ele não é…
— Não me faça rir — Evangeline desdenha, dando um passo para trás. — Estou falando daquele outro sanguenovo. De Montfort. Cabelo branco, voz grossa. Magro, alto.
De repente, o calor que percorria meu corpo vira gelo, e sinto os pelos da nuca se eriçarem. Cal vai para o fundo do ginásio. Seus olhos deslizam por mim quando vira e se agacha para a sequência final de exercícios. Flexões. Num ritmo firme e rápido, ele sobe e desce. No silêncio, consigo ouvir sua respiração compassada sobre meu coração vergonhosamente disparado.
Por que minhas mãos estão tão suadas?
Evangeline sorri, maliciosa. Estica o queixo um pouco e acena com a cabeça. Provocando. Vamos, ela diz sem palavras.
— O nome dele é Tyton, e ele não está aqui — vocifero, com ódio de mim mesma por fazê-lo. Do outro lado do ginásio, Cal acelera o ritmo. — Esse seu plano é ainda mais idiota — acrescento, baixando o volume para o mais próximo que consigo de um sussurro.
Evangeline afasta a cabeça para trás.
— É mesmo?
E quebra meu nariz com o crânio antes mesmo que eu possa responder.
Minha visão fica embaçada. Vejo tudo preto, vermelho, todas as cores numa espiral vertiginosa enquanto tombo de joelhos. Sangue rubro jorra, escorrendo pelo meu rosto, pela minha boca, pelo meu queixo. O sabor conhecido desperta algo. Em vez de desabar, firmo as pernas e dou um salto.
Minha cabeça colide com o peito dela, e a ouço arfar quando o ar foge de seus pulmões. Ela tomba para trás, sacudindo os braços no ar até se estatelar de costas. Limpo o rosto com a mão, que volta grudenta de sangue, e estremeço, tentando pensar em meio à dor latejante.
Do outro lado da sala, Cal está de joelhos, os olhos arregalados, o queixo firme, prestes a se levantar. Balanço a cabeça para ele e cuspo sangue no chão. Fique onde está, Calore.
Ele fica.
A primeira adaga passa zunindo pelo meu ouvido, como alerta. Mergulho quando vem a segunda e saio rolando pelo piso de madeira liso, quase escorregadio. A gargalhada de Evangeline ecoa nos meus ouvidos. Logo a faço calar, partindo para agarrar seu pescoço. Ela desvia antes de eu conseguir firmar a pegada e finalizar a luta com um choque. Só algumas faíscas a acertam enquanto se esquiva, tirando vantagem do piso encerado. Ainda assim, as faíscas não são nada delicadas. Evangeline contorce o corpo ao se mover, como se tentasse repelir um inseto persistente.
— Você é melhor do que eu lembrava — ela comenta sem fôlego quando para a alguns metros de distância.
Cerro um punho e aperto o nariz com a outra mão na tentativa de represar o rio de sangue. Não deve ser uma imagem muito bonita. O chão já está coberto de vermelho.
— Posso derrubar você aí mesmo onde está — digo, lembrando do que aprendi com os eletricons. Raio em teia, tempestade de raios. Só não controlo ainda o raio mental de Tyton.
Evangeline balança a cabeça, sorrindo. Está gostando.
— Você pode tentar.
Retribuo seu sorriso. Tudo bem.
Meus raios emergem, roxos e brancos, ofuscantes, ardentes, estalando no ar já úmido de suor. Ela reage com uma velocidade quase sobre-humana, suas facas de repente se fundindo numa única lâmina comprida de aço. Evangeline a crava no chão no exato momento em que lanço o raio, que rebate no metal. Minha eletricidade erra o alvo com um clarão que cega a mim mesma.
Então o cotovelo dela explode no meu queixo e me joga para trás. Vejo estrelas de novo.
— Belo truque — resmungo com a boca cheia de sangue. Tenho a impressão de ouvir um dente tilintar no chão ao cuspir. Confirmo a suspeita com a língua, ao sentir a lacuna repentina e estranha nos dentes de baixo.
Evangeline dá de ombros, com a respiração entrecortada.
— Eu precisava nivelar as condições de algum jeito.
Com um leve grunhido, ela arranca a lança do chão e a gira ao redor do pulso.
— Terminou de se aquecer? — pergunta.
Gargalho.
— Pode apostar.


Espero minha vez enquanto observo Wren trabalhar no rosto de Evangeline. Um olho dela está fechado de tão inchado, com uma coloração cinza-arroxeada quase preta que fica mais intensa a cada minuto. A outra pálpebra fica tremendo com espasmos. Um nervo foi atingido. Ela bufa para mim, subindo e descendo os ombros, então se encolhe, levando a mão ensanguentada à lateral do corpo.
— Fique parada — Wren murmura pela terceira vez. Ela corre os dedos pelo rosto de Evangeline e o inchaço se desfaz. — Você quebrou uma costela.
Evangeline me encara o melhor que pode com o olho que mal funciona.
— Bela luta, Barrow.
— Bela luta, Samos — respondo com alguma dificuldade. Entre o lábio partido, o nariz quebrado e o queixo inchado, até falar dói. Tenho que evitar colocar o peso no tornozelo esquerdo, que não para de sangrar por causa de um corte acima do osso exposto.
Tiberias, Kilorn e Ptolemus estão atrás de nós, dando-nos todo o espaço de que precisamos para respirar.
Kilorn olha para Evangeline e para mim, com o queixo caído em descrença. E talvez medo.
— Garotas são esquisitas — ele balbucia consigo mesmo.
Tiberias e Ptolemus acenam com a cabeça, concordando.
Acho que Evangeline está tentando piscar. Ou os movimentos involuntários da pálpebra estão piores do que eu achava. Pode ser a exaustão da luta, mas quase rio. Não dela, mas com ela. Ao tomar consciência disso, volto à realidade, e a sensação elétrica e pulsante da adrenalina começa a esvanecer. Não posso esquecer quem ela é, ou o que sua família fez com a minha. Seu irmão, a apenas alguns metros de distância, matou Shade. Levou embora o pai de Clara, o companheiro de Farley. Tomou um filho da minha mãe e do meu pai. Me tirou um irmão.
E eu tentei fazer o mesmo.
Evangeline percebe minha mudança e baixa os olhos; seu rosto retorna à expressão pétrea, esculpida cuidadosamente.
Wren Skonos é talentosa. Seu poder de curandeira deixa Evangeline pronta para outra luta em questão de minutos. As duas são um contraste: Evangeline com o cabelo prata trançado e a pele branca, Wren com uma trança preta comprida e brilhante sobre o ombro negro. Não deixo de notar o jeito como Ptolemus observa a curandeira trabalhar. Os olhos dele se detêm em seu pescoço, seu rosto, seu ombro. Não nos dedos ou na técnica. É fácil esquecer que ele é casado com Elane. Pelo menos no papel. Imagino que sua irmã passe mais tempo com ela do que ele, que prefere a companhia de Wren. Que família confusa.
— Agora você — a curandeira diz, gesticulando para que eu assuma o lugar de Evangeline. A princesa Samos se levanta, endireitando o dorso recém-curado com elegância.
Eu sento com cuidado, me contorcendo de dor.
— Chorona — Kilorn caçoa.
Em resposta, abro um sorriso agressivo, tratando de mostrar o novo buraco entre os dentes manchados de sangue. Ele simula um calafrio.
Ptolemus dá risada diante da cena, que lhe rende uma encarada tanto minha como de Kilorn.
— Alguma coisa engraçada? — Kilorn provoca, dando um passo na direção do homem de cabelo prateado. Meu amigo é corajoso demais para seu próprio bem, parecendo não ter consciência de que o príncipe magnetron é capaz de cortá-lo ao meio.
— Kilorn, encontro você em seguida — interrompo bem alto, na esperança de abafar qualquer conflito antes mesmo que comece. Não estou a fim de limpar seu sangue do chão. Ele me lança um olhar, irritado com a minha superproteção, mas permaneço firme. — Está tudo bem, pode ir.
— Certo — ele diz por entre os dentes antes de se retirar, fazendo questão de continuar encarando Ptolemus.
Quando o eco dos seus passos some, Evangeline se levanta com suavidade e intenções claras. Quase sorri ao nos deixar também, com o irmão atrás, embora tomem direções diferentes. Ela lança um olhar por cima do ombro que passa de mim para Tiberias. Ele permanece calado ali perto. Seus olhos se acendem de esperança. O que só parte meu coração.
É um plano idiota, quero dizer novamente.
Os dedos de Wren bombeiam alívio, curando cada músculo dolorido e ferida aberta. Fecho os olhos, deixando que trabalhe à vontade no meu corpo. Ela é prima de Sara Skonos, filha de uma Casa nobre dividida entre dois reis Calore. Servia a Maven antes, e foi minha curandeira em Archeon. Era quem cuidava de mim naqueles dias. Mantinha-me viva, impedindo que o peso da Pedra Silenciosa me matasse. Mantinha meu rosto e meu corpo apresentáveis para as transmissões de Maven. Nenhuma de nós era capaz de prever onde estaríamos hoje.
De repente, não quero que a dor vá embora. É uma distração fácil do desejo do meu coração. Enquanto os dedos de Wren dançam pela minha mandíbula, estimulando o crescimento do osso para substituir meu dente perdido, tento não pensar em Tiberias. Mas é impossível. Ele está perto o bastante para que eu possa sentir seu calor familiar, intenso e constante.
Evangeline disse que eu dificultava as coisas, mas acho que está enganada. Se me prendesse com Tiberias num quartinho, eu provavelmente cederia.
Seria tão terrível assim?
— Você está corada demais.
Forço-me a abrir os olhos e dou com Wren bem diante do meu rosto, os lábios carnudos apertados. Ela pisca, os olhos do mesmo cinza que os de Sara.
— Está quente aqui — respondo.
Tiberias cora também.


Caminhamos em silêncio. As paredes de vidro da mansão Ridge dão para a escuridão extrema, enquanto os corredores são repletos de luzes. Nossos reflexos nos acompanham, e fico impressionada com a visão de nós dois lado a lado. Nunca esqueço do quanto ele é alto, um lembrete firme de que não combinamos. Apesar do treino, do suor ainda grudado na pele, Tiberias é um príncipe, descendente de três séculos de reis. Foi criado para ser melhor do que qualquer um, o que se faz notar.
Sinto-me menor do que o normal ao lado dele. Um grãozinho cheio de cicatrizes e mágoas.
Ele sente meu olhar e abaixa a cabeça.
— Cidade Nova, então.
Suspiro, me preparando para a discussão.
— Precisamos fazer isso — comento. — Não apenas pela guerra, mas por nós, vermelhos. As cidades de técnicos se baseiam na escravidão.
Nunca pus os pés numa delas, mas já vi a Cidade Cinzenta, um amontoado de cinzas e fumaça que se ergue à margem envenenada do rio. Vi o pescoço de Cameron e do irmão, ambos com uma tatuagem grosseira do lugar que lhes foi designado. Sua “profissão”. Sua prisão.
Minha intenção é transformar a Cidade Nova e as outras favelas em carcaças. Deixá-las vazias, mortas. Fadadas a apodrecer, desaparecer, cair no esquecimento.
— Eu sei — Tiberias diz baixo, a voz marcada por uma nota de arrependimento. Volto-me para ele e vejo seus olhos escurecerem. Sabe bem do que estou falando. Se não houvesse uma coroa entre nós, eu tomaria sua mão e beijaria seu ombro. Agradecida por essa pequena demonstração de apoio.
Mordo o lábio e pisco rápido, para afugentar o ímpeto de tocá-lo.
— Vou precisar de Cameron.
O nome o desperta.
— Ela está…
— Viva? — completo, deixando a palavra ecoar pelas pedras lapidadas do corredor. Paira sobre nós, como pergunta e esperança ao mesmo tempo. — Tem que estar.
Ele desacelera o passo.
— Farley ainda não ouviu nada?
— Vai ouvir logo.
O contingente da Guarda Escarlate em Piedmont, agora se reunindo em Lowcountry para evacuar quem tiver escapado da base, deve mandar informações em questão de horas. E Ibarem terá mais informações para transmitir quando Rash encontrar os outros sobreviventes. Não existe nenhuma possibilidade de Cameron não estar entre os que escaparam. Ela é forte demais, esperta demais, teimosa demais para acabar morta.
Não posso nem cogitar a ideia.
Não porque vamos precisar dela para destruir sua cidade natal, mas porque seria mais um cadáver na minha consciência. Mais um amigo que empurrei para a morte.
Fecho bem os olhos, tentando não pensar nos outros que estavam em Piedmont quando Bracken tomou a base. O irmão de Cameron, Morrey. Os adolescentes da Legião Adaga, resgatados de um cerco para serem pegos em outro.
Nada se compara à agonia da morte de Shade, mas perder outros também acabaria me destruindo. Quanto tempo isso vai durar? Quantas vidas mais vamos arriscar?
Isto é uma guerra, Mare Barrow. Arriscamos todo mundo, todos os dias.
Principalmente a pessoa ao meu lado.
Mordo o lábio, quase tirando sangue, para bloquear a imagem de Tiberias, Cal, morto e enterrado.
— Não fica mais fácil — ele diz, as palavras entrecortadas.
Abro os olhos e dou com ele voltado para a frente, com a concentração obstinada que costuma reservar para o campo de batalha ou o conselho de guerra.
— O quê?
— A perda — ele rumina. — Nunca chega um momento em que a sensação passa, não importa quantas vezes aconteça. Você nunca se acostuma.
Uma eternidade atrás, quando eu era Mareena Titanos, entrei no quarto do príncipe. Havia livros por toda parte: manuais, tratados sobre guerra, estratégia, diplomacia. Manobras e manipulações para exércitos gigantescos e para soldados solitários. Fórmulas para ponderar perdas e ganhos, ou quantas pessoas poderiam morrer e ainda assim garantir a vitória. Aquilo tudo era um lembrete de quem era e de que lado estava.
Eu ficara enojada de pensar que ele era uma pessoa capaz de sacrificar vidas de maneira tão irresponsável. De derramar sangue em troca de mais alguns centímetros de avanço. Agora, faço a mesma coisa. E Farley também. E Davidson.
Nenhum de nós é inocente.
Nenhum de nós será capaz de esquecer o que estamos fazendo.
— Se nunca passa — balbucio, com a sensação de que poderia sufocar —, uma hora vai ficar impossível de suportar.
— É — ele diz com aspereza.
Me pergunto quão perto está do seu limite, e quão perto eu estou do meu. Vamos ultrapassá-lo algum dia? Será essa a única resposta? Sairemos disso destroçados e irremediáveis, mas juntos? Ou separados?
Seus olhos ardem sobre mim. Deve estar se fazendo a mesma pergunta.
Trêmula, acelero o passo. É um sinal claro para nós dois.
— Qual é o plano para Harbor Bay? — pergunto, olhando para o fim do corredor, que liga esta ala da mansão Ridge à seguinte, erguendo-se sobre um jardim cheio de árvores e chafarizes quase invisíveis na escuridão.
Tiberias não tem dificuldade de acompanhar meu ritmo.
— Nada será decidido até Davidson voltar. Mas Farley tem algumas ideias, e seus contatos na cidade com certeza vão ajudar.
Concordo com a cabeça. Harbor Bay é a cidade mais antiga de Norta, um viveiro de vermelhos criminosos e suas gangues. Alguns meses atrás, uma delas, a dos Marinheiros, tentou nos vender para Maven enquanto procurávamos sanguenovos. Mas a maré está mudando. Os vermelhos de Norta estão se alinhando à Guarda Escarlate à medida que cresce em poder e notoriedade. Nossas vitórias causam efeito em alguns, pelo menos.
— Haverá baixas de civis — Tiberias acrescenta, em tom burocrático. — Harbor Bay não é Corvium ou Piedmont. É uma cidade, não um forte. Gente inocente, prateada e vermelha, vai se ver no meio do combate — ele diz, para em seguida abrir a mão, esticando os dedos longos e então estalando um por um. — Começamos pelo Forte Patriota. Se conseguirmos assumir o controle de lá, o resto da cidade cairá.
Só vi o forte de longe, e minha lembrança é vaga. É menor do que a base de Piedmont, mas está mais bem equipado e é bem mais importante para os exércitos de Maven.
— O governador Rhambos e sua Casa são aliados de Maven — comento. — E aliados muito firmes. — Parte disso é culpa minha, já que matei o filho dele na arena durante uma execução fracassada. Bem, ele também estava tentando me matar. — Não vão se render com facilidade.
Tiberias desdenha:
— Ninguém se rende com facilidade.
— E se você conquistar a cidade? — pressiono.
E se você sobreviver?
— Então acho que posso forçar Maven a negociar.
O nome me causa arrepios. A marca de Maven na minha clavícula se acende, coçando como se quisesse atenção.
— Ele não vai negociar. Não vai se render nunca. — Fico enjoada ao pensar nos olhos ocos de Maven, no seu sorriso perverso. Em sua obsessão doentia e incansável de infernizar a vida de nós dois. — Não adianta, Tiberias.
Ele estremece quando uso seu nome completo. Seus olhos se fecham por um segundo.
— Não é por isso que quero ver meu irmão.
A conclusão é clara.
— Ah.
— Preciso ter certeza — ele diz por entre os dentes. — Perguntei ao primeiro-ministro se havia murmuradores no seu país. Se existia algum sanguenovo como Elara. Alguém capaz de ajudar.
— E?
Quando me afastei de Tiberias em Corvium, seu coração pareceu partido, agonizante. Agora não é diferente. O amor consegue nos despedaçar como ninguém.
— Davidson achava que não existiam — ele revela em voz baixa. — Mas disse que ia continuar procurando.
Ponho a mão em seu braço, ainda úmido de suor. Meus dedos conhecem sua pele tão bem quanto a minha. Ele é como areia movediça. Se eu demorar demais, não vou conseguir escapar.
Tento ser delicada.
— Duvido que a própria Elara fosse capaz de consertar Maven agora. Se ele deixasse.
A pele de Cal esquenta sob minha mão, e eu a afasto, caindo em mim. Ele não reage. Não há nada que possa ou deva dizer. Sei o que é deixar Maven Calore para trás.
O corredor à frente termina em um T. Os aposentos dele ficam de um lado, e os meus, de outro. Contemplamos a parede em silêncio. Ninguém ousa se mexer. Conversar com ele é um sonho, um sonho doloroso. Ainda assim, não quero acordar.
— Quanto tempo? — sussurro.
Tiberias não me olha.
— Davidson estará aqui em uma semana. Depois disso, teremos mais uma para planejar. — Ele engole em seco. — Não é muito.
Da última vez que pus os pés em Harbor Bay, estava fugindo. Mas meu irmão estava vivo. Gostaria de poder voltar para aqueles dias, por mais difíceis que tenham sido.
— Sei o que Evangeline está tentando fazer — Tiberias diz de repente, com a voz carregada de sentimentos demais para que eu possa discerni-los.
Lanço um olhar de esguelha para ele.
— Ela não está sendo muito sutil.
Tiberias não retribui minha leveza e continua a encarar a parede à frente, sem se mexer para um lado ou para o outro.
— Gostaria que existisse um meio-termo.
Um lugar onde nossos nomes e nossos sangues não importassem. Um lugar sem pressões. Um lugar que nunca existiu nem vai existir.
— Boa noite, Tiberias.
Chiando, ele cerra o punho.
— Preciso que você pare de me chamar assim.
E eu preciso de você.
Viro para o lado e caminho para o quarto. Meus passos ecoam solitários.

19 comentários:

  1. Alguém providencia um quartinho pra eles pfv
    ~Diane

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  2. Mare e Cal são perfeitos juntos ❤❤❤ mas mesmo Maven sendo um monstro gosto dele

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  3. Evangeline e Mare amigas. Sim Shippei essa amizade. "Que família confusa" Kkkkkkkk. Pq será que eu ri disso qnd já conheci famílias ainda mais confusas?

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    1. exatamente kkkkkkk ri muito da cara do "Tolly" quando interrompeu a risada , e o kilorn tentando enfrentar ele .... sem palavras kkkkkkkkkkkkk

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  4. nossa... achei que ele ia segui-la , para o quarto, se é q me entendem...
    #voltamarecal

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  5. - Quem é trouxa para achar que seu shippe vai funcionar no final da série A rainha vermelha?!

    -🙌

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  6. Ainda acho que Evangeline parece com a Celeste , ela é uma personagem fundamental na história . E apoio se ela e Mare se tornarem amigas . Seria uma amizade estranha kkkkkk.

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  7. AAAAHHHHH como faz para esse relacionamento dar certo?

    Eu quero que ela fique com ele, mas ao mesmo tempo sei que o Cal é bem babaquinha e que sempre vai colocar a coroa em primeiro lugar.
    Queria que tivesse um jeito dele ser rei e ela rainha. Mas com certeza aconteceria o que a Farley disse: a Mare só seria a sombra do Cal, não teria muita voz e a situação dos vermelhos continuaria igual.

    Sabem uma coisa que eu tbm quero e que é bem maldosa? "O Cal no trono, no futuro. Tudo na paz com os vermelhos e com os prateados. Mas o Cal está infeliz, tem a coroa mas não tem a pessoa que mais ama... a Mare. Enquanto a Mare tem um filho com Tyton, chamado Shade, e está muito feliz . E o filho deles tem poder de eletricidade, como o deles. E a cor dos raios são azuis, como o do pai. E que o Cal se arrependa profundamente de ter deixado a Mare por sua coroa.
    Uma coroa que no final não lhe traz nenhuma felicidade."

    Sei que é bem maldoso mas eu ficaria secretamente feliz HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

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  8. QUE. CAPITULO. FOI. ESSE. MINHA. GENTE.

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  9. Adoro a ideia da Evangeline tenha uma pequena ideia de que a Mare se tornou o quanto está mais forte, não é mais aquela garota com medo tudo que passou a transformou numa mulher mais forte e como sempre sabe o quer principalmente para o seu povo! Mas apesar disso ainda gostaria de imaginar as duas um dia como amigas apesar de já ter mudado a maneira de se tratarem. Juro estava torcendo que nosso casal não fosse se segurar e fossem se pegar mas errei feio! DM

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  10. Preciso que você pare de me chamar assim.
    E eu preciso de você.
    Viro para o lado e caminho para o quarto. Meus passos ecoam solitários.

    PARTIU MEU ♥.

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  11. Meu coração fica quentinho com uns capítulos desse, mas aí ele se parte com uns finais assim também. 💔

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  12. Eu devo ser alguma maníaca porque eu ainda quero que o maven se tornem bom e volte a ficar com a mare acho meio q fofo essa obsessão dele por ela é só um caso de amor destorcido (não me julguem °^° )

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  13. Finalmente alguns capítulos falando dos relacionamentos deles... Cansada de capítulo do sobre guerra... O terceiro livro foi quase todo sobre isso... E esse tbm...

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  14. eu vivi minha vida pra ver Mare e Eve amigas ai meu core

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Boa leitura, E SEM SPOILER!