2 de junho de 2018

Capítulo dezenove

Evangeline

NUNCA GOSTEI DE HARBOR BAY. Fede a peixe e água salgada, mesmo nos distritos prateados. Em breve, só terá cheiro de sangue.
As duas semanas de descanso em Rift passaram voando, cada minuto mais rápido do que o anterior. Ontem mesmo estava em casa, aninhada em Elane, sussurrando minhas despedidas. Não sentia medo naquela hora. Não acreditava que meu pai deixaria seus herdeiros chegarem perto do perigo real. Achava que Ptolemus e eu estaríamos seguros, mantidos na reserva para assistir ao cerco e entrar em cena quando a luta acalmasse.
Estava errada.
A fome dele é mais profunda do que jamais imaginei.
Nos colocou na linha de frente sem pensar duas vezes.
Agora nossos barcos correm pelo azul tempestuoso, despontando sobre as ondas de espuma branca. Estreito os olhos contra os jatos d’água que invadem meus óculos. O vento bate no meu cabelo e sinto o frio úmido da água do mar. Eu cairia se minhas botas não estivessem fundidas ao convés de aço sob meus pés. Meu poder traça o curso, uma pulsação baixa sincronizada com o barco que salta sobre a água.
Corremos com a neblina, escondidos. Os soldados tempestuosos de Montfort são talentosos e poderosos. Reparo pelo canto do olho na que está conosco, alta e graciosa em seu uniforme verde apertado pela armadura. Está de capacete também, o que deixa apenas suas mãos nuas, os dedos abertos para arrastar a neblina. Todos abandonaram os macacões e as roupas de treino. Agora é pra valer.
A Casa Samos lidera o ataque marítimo, impulsionando nossas embarcações de metal em alta velocidade. Meu pai está disposto a arriscar nossa Casa pela vitória.
Três primos constituem a ponta da nossa formação de ataque, suas embarcações rasgando à frente. Atrás de mim, no mesmo barco, Ptolemus se mantém firme, o corpo ancorado pelo peso da armadura espelhada e do armamento. Há cintos de munição nos meus quadris, se aconchegando entre meus músculos. Tenho uma pistola, mas prefiro arremessar eu mesma as balas se preciso. Meus primos carregam tanto rifles quanto explosivos. Visualizo os muros do Forte Patriota, imensos contra as ondas. Nosso primeiro obstáculo. Minha concentração aumenta conforme nos aproximamos, focando no nosso objetivo.
Tomar a cidade.
Sobreviver.
Voltar para casa.
Eles vão nos ver chegando. Ou, pelo menos, vão ver a neblina rolando sobre a água. Mas é cedo ainda, aquela hora em que o ar ainda está pesado e cinza. Poderia ser confundida com uma neblina natural. Poderia nos dar cobertura por mais tempo do que qualquer outra coisa. E quando Cal atacar por terra e a Casa Laris pelo ar, os guardas da cidade e as tropas do forte não vão saber para qual lado virar.
Contra qual frente lutar.
Tudo está bem coordenado, desde o ataque como um todo até o papel de cada barco. Nosso comando é bem organizado. Pelo menos dois magnetrons, um tempestuoso e um gravitron em cada embarcação, acompanhados por soldados vermelhos treinados ou outros sanguenovos de Montfort. Bem como alguns curandeiros espalhados em cada batalhão.
Cada um tem uma função. Para sobreviver, temos que desempenhá-las bem.
O Forte Patriota aparece, uma sombra nebulosa escurecendo conforme nossa neblina avança. Os muros despontam no meio das intensas ondas brancas. Nenhuma terra abaixo. Nenhum ponto de apoio. Não importa.
Mesmo com toda a minha fúria, gostaria que meu pai estivesse aqui. Não há lugar mais seguro do que ao lado dele.
Perco a concentração por um momento quando meu foco passa ao meu irmão. Posso senti-lo atrás de mim e imaginar com facilidade o formato de sua armadura. Cada um de nós carrega no cinto um disco pequeno, mas sólido, de cobre. Um metal incomum em um ataque. Fácil de distinguir e de sentir. Fácil de rastrear. Me apego à sensação do dele e do meu, memorizando-a. Se as coisas derem errado, quero ser capaz de achar Tolly o mais rápido possível.
A neblina nos revela, dissipando-se contra o muro que se aproxima rapidamente. Se tivesse um alarme dentro de mim ele apitaria mais alto, com mais insistência. A hora é agora.
Tremendo, viro em um impulso e jogo os braços em volta dos ombros de Tolly. O abraço é rápido, preciso e sem gentilezas. O barulho do choque dos metais das nossas armaduras é engolido pelo rugido das ondas e do trovão crescente no meu peito.
— Não morra — ele sussurra. Só consigo assentir enquanto viro de volta.
Nenhum movimento nos muros, nem acima nem abaixo. Só as ondas. Talvez a neblina tenha funcionado.
— Prontos? — pergunto sobre o barulho, olhando para o gravitron de peitoral largo de Montfort.
Ele abaixa o queixo assentindo antes de ajoelhar no barco, abrindo os braços e as mãos. Pronto para decolar.
Nas outras embarcações, outros gravitrons fazem o mesmo.
Os soldados atrás de mim se ajoelham. O tempestuoso, nossos dois oblívios de Lerolan e Ptolemus se seguram para o salto. Não há vermelhos no meu barco. Quero sobreviver a esse ataque, sem depender da fraqueza do sangue vermelho, não importa quão treinados sejam.
Me ajoelho com os outros, os músculos tensionados, temendo a chance de um impacto se o gravitron não estiver à altura da tarefa. Nessa velocidade, posso não ser capaz de impedir o barco de se chocar contra o paredão.
As ondas se quebram contra a base do muro, cinza metálico sob a neblina. Elas se dobram no alto, maiores do que a marca que a água salgada gravou ali ao longo do tempo. Mais altas do que qualquer maré.
Meu coração desaba no peito.
— Ataque ninfoide! — consigo gritar enquanto outra onda violenta quebra… na nossa direção.
Assim começa a batalha de Harbor Bay.
A parede de água, repentina e furiosa, arremessa os barcos da frente como se fossem de brinquedo, lançando os soldados de Rift e de Montfort pelo oceano agitado. Só os gravitrons escapam, saltando alto, para fora do alcance da água. Vejo os primos Samos utilizando o controle que possuem sobre suas armaduras para se manter fora da água ou sobre as ondas, mas são arrastados para baixo, sem força suficiente para escapar do rastro de destruição. Não sei o que acontece com o restante.
Temos nossos ninfoides, prateados nativos de Montfort. Mas em menor número e bem mais fracos do que quem quer que esteja por trás dos muros do forte. Tudo o que fazemos para acalmar as ondas que brotam não é suficiente.
Outra onda se eleva, cobrindo metade da altura do muro, bloqueando a luz cinzenta, lançando uma sombra sobre nossa formação de ataque. Vai nos aniquilar, nos afogar, nos esmagar contra o fundo do mar.
— Vamos atravessar! — ordeno, agarrando a proa do barco. Despejo a mim mesma e o meu poder no casco. Espero que o gravitron possa me escutar. Sei que Ptolemus pode.
A embarcação estremece com meu toque, estreitando, a proa se afunilando como a ponta de uma faca. Ganhando velocidade. Me abaixo o máximo que posso. Miramos a onda, uma bala com passageiros.
A água é um tapa gelado, e tudo que posso fazer é manter a boca fechada enquanto nos atinge. Disparamos pela onda, pegando impulso no ar para o outro lado. Navegando para o alto e avante, em direção ao muro.
— Segurem! — Ptolemus ruge enquanto nos lançamos com toda a velocidade em direção à pedra.
Aperto os dentes, e meus dedos se afundam no casco de metal. Torcendo para não cair, torcendo para não bater.
O gravitron nos dá o impulso extra de que precisamos, nos mantendo no ar. Batemos com força, o casco contra o muro. Deslizando para cima, contra a gravidade.
Outras embarcações se lançam ao nosso lado, subindo em disparada numa formação desordenada.
A maior parte da nossa força de ataque sobrevive.
Metal raspando contra pedra, ultrapassando as ondas abaixo, mesmo enquanto avançam cada vez mais altas, lançando jatos d’água como um temporal. Cuspo água do mar e pisco, grata por meus óculos enquanto avançamos até o topo. Ninfoides cercam a muralha, marcados com faixas azuis sobre uniforme cinza ou preto. Soldados prateados treinados e guardas. As tropas do Forte Patriota, reforçadas por soldados de Lakeland.
Saltamos dos barcos sem muita elegância, escorregando pela passagem que circunda o topo do muro. Uso minha armadura para me impedir de despencar da beirada, enquanto Ptolemus retalha os barcos com facilidade, descartando navalhas afiadas em todas as direções. Os gravitrons arremessam os soldados inimigos ao mar. A neblina rasteja por cima da muralha e para dentro do forte, obscurecendo nossos soldados. Em algum lugar, nossos tempestuosos surgem. Seu trabalho é invocar trovões. Cultivar raios. Chocar e apavorar as tropas, colocá-los para correr.
Fazê-los pensar que Barrow está aqui.
Pontos de fogo e fumaça brotam no muro. Oblívios vão de um lado para o outro, deixando cadáveres por onde passam. Um deles grita quando é surpreendido por um guarda e arremessado nas águas furiosas.
O Forte Patriota está cheio de forçadores inimigos. Sangue da Casa Rhambos ou de seus primos Greco e Carros. Um deles, uma mulher musculosa como uma montanha, destroça um tempestuoso de Montfort diante dos meus olhos, rasgando carne e ossos como papel.
Mantenho minha cabeça no lugar. Já vi coisas piores. Acho.
Tiros salpicam o ar. Balas e poderes são uma combinação mortal.
Ergo o braço com o punho cerrado para me proteger do ataque. Balas ricocheteiam contra meu poder, amassadas ou despedaçadas. Pego algumas e as lanço de volta com violência pela neblina, buscando a carne dentro das torres de artilharia.
Temos que abrir os portõesTomar o forte.
Nosso objetivo é claro, mas não é simples. O Forte Patriota divide o porto da cidade ao meio, separando as águas do porto Aquarian, dos civis, e do Porto da Guerra. Nesse momento, só me importo com um deles.
O rugido grave das armas pesadas, do tipo que se vê em navios de guerra, soa como um tambor. Tento localizar os mísseis, percorrendo a distância com meu poder para decifrar a trajetória deles. Estão bem longe, mas posso adivinhar. Sou prateada. Sei como pensamos.
— Formem um escudo! — grito para os magnetrons de Samos, arrancando o metal dos nossos barcos e das nossas armas.
Ptolemus faz o mesmo, costurando uma parede de aço o mais rápido que pode. O assobio da artilharia se aproxima e eu ergo a cabeça, apertando os olhos para enxergar através do nevoeiro. Com um estalo, arranco os óculos e vejo um rastro de fumaça vindo na nossa direção.
O primeiro míssil explode a menos de cinquenta metros de onde estamos, pulverizando um trecho do muro, transformando inimigos e aliados em nuvens cinza ou rosadas. Só os oblívios sobrevivem, alguns nus, as armaduras e os uniformes carbonizados. Nos encolhemos atrás do aço, protegidos da explosão que pulsa à frente.
A fumaça arde, irritante e envenenada com poeira de ossos.
Não sobreviveremos a um ataque direto como esse. Não com o que temos aqui. Podemos redirecionar os mísseis com toda a nossa força, mas é só uma questão de tempo até um deles nos pegar.
— Saiam do muro — me esforço para gritar, sentindo o sangue no ar. — Para dentro do forte.
Tudo para seguir o plano.
Faça os navios de guerra atacarem, atingindo os próprios muros. Mantenha a artilharia pesada no forte, não na cidade ou na frota aérea. Foi isso que Cal disse que fariam. De alguma forma, é o que os idiotas estão fazendo mesmo.
Outro ataque, e a pedra racha. Nos agarramos para descer o muro, e nossos soldados se infiltram no Patriota. Olho para trás, contando o mais rápido que posso. Talvez sessenta dos nossos tenham conseguido sobreviver, embora o grupo de ataque original fosse de setenta e cinco. Setenta e cinco prateados mortais e vermelhos forjados no calor da batalha, com armas letais e precisas.
Mas a munição deles está reservada para os prateados. Reparo que não se importam com os soldados de uniforme ferrugem, os muitos recrutados para as tropas do Patriota. Alguns vermelhos seguem seus oficiais, correndo para combater nosso grupo conforme avançamos. Menos do que o esperado, contudo. Como a general Farley garantiu, a mensagem se espalhou pelos canais dela. Os vermelhos da cidade foram alertados. Quando o ataque vier, saiam. Corram. Ou lutem do nosso lado se puderem.
Muitos fazem isso, embarcando no nosso trem da morte.
Nuvens de tempestade pulsam sobre nós, deixando o céu negro. Os raios são imprevisíveis, menos poderosos que os de Mare. Mas ainda assim passam a mensagem.
Os soldados inimigos olham para cima conforme nos aproximamos, e os prateados contemplam algo que só pode ser trabalho da garota elétrica.
Ela não está aqui, seus idiotas covardes. Estão com medo de umas luzinhas no céu?
O interior do forte é caótico. A essa altura Cal deve ter começado seu próprio ataque, marchando com seu batalhão, saindo do sistema de túneis sobre o qual Harbor Bay foi construída. É uma cidade antiga e bem preservada, com raízes profundas e retorcidas. A Guarda Escarlate conhece todas elas.
Chegamos à área central do forte, nos movendo rápido e sem um padrão. Atraindo o ataque do navio de guerra, fazendo com que nos persiga e destrua tudo no caminho. Mantendo o armamento mais pesado longe da cidade em si. Cal se preocupa tanto em proteger inocentes, provavelmente só para provar algo a Mare. Me colocando em perigo no processo.
Passo por outra onda de combatentes, usando uma combinação de balas e navalhas para derrubar as pessoas à minha frente. Seus rostos são como sombras para mim. Inumanos. Indignos de serem lembrados. É o único jeito de fazer isso direito.
O zunido e o estouro da artilharia se transformam em um ritmo familiar. Abaixo para me proteger com a mesma facilidade com que luto, me movendo sincronizada com o barulho. Fumaça e poeira serpenteiam com a neblina, deixando todos cegos. As tropas do Patriota estão irremediavelmente à deriva. Não têm um plano para esse tipo de ataque. Nós temos.
Meu primeiro ataque de fúria começa quando percebo que Ptolemus não está mais ao meu lado, que não está mais protegido pelo círculo defensivo dos nossos primos. Olho para cada um deles, vasculhando seus rostos pálidos e seus cabelos prateados. E nada do meu irmão.
— Tolly! — me ouço gritar conforme outro míssil explode, mais próximo dessa vez.
Me agacho e me seguro, esperando a onda de choque passar por mim. Pedras atingem minha armadura, cobrindo meu lado esquerdo de poeira. Fico de pé antes dos outros, piscando e olhando em volta. Na caçada. O pavor percorre minha coluna, abrindo feridas gélidas.
— PTOLEMUS!
Qualquer foco que eu tivesse escapa do meu controle e tudo se despedaça. O mundo gira. Onde está meu irmão? Onde ele está? Deixamos Ptolemus para trás, ele seguiu em frente, está machucado, está morrendo, está morto…
O estalo de uma arma soa muito perto, como um lembrete sinistro. Giro no meio do nosso grupo de ataque. Alguém se choca contra mim, o ombro golpeando o meu, e eu me desequilibro. Ofegante, ignoro meus sentidos e tento buscar Ptolemus com meu poder. Tento localizar aquele disco de cobre. Aquele pequeno pedaço de metal avermelhado, com um peso diferente, com uma sensação diferente. Nenhum sinal. Nada.
Disse a ele que estaríamos seguros, mesmo na linha de frente. Nosso pai não nos descartaria. Não nos deixaria ir a nenhum lugar que colocasse em risco seu legado. Inspiro o ar envenenado, ainda vasculhando as silhuetas à minha volta enquanto as cinzas caem como neve no verão. Elas cobrem nossos uniformes, independente da cor. Todos começamos a parecer iguais.
Mesmo que ele não nos ame do jeito que deveria, ainda nos valoriza. Não trocaria nossas vidas assim. Não deixaria que morrêssemos por sua coroa.
Mas aqui estamos.
Lágrimas transbordam dos meus olhos. Por causa das cinzas, digo a mim mesma. É o incômodo da fumaça.
De repente sinto o cobre nos limites da minha percepção, tão pequeno que quase deixo passar. Meu pescoço estala quando viro com força, procurando meu irmão. Sem pensar, empurro alguns soldados no meu caminho, saltando através da confusão da batalha. Passo por baixo do braço de um forçador que se aproxima, jogando uma bala na direção dele enquanto sigo. Sinto-a atingir seu pescoço, atravessando direto. O homem cai atrás de mim, se agarrando à jugular rasgada.
A cada passo novas formas entram em foco. As ruas do Forte Patriota, meticulosamente organizadas como uma rede, são fáceis de navegar. Me agarro à certeza de que estou me aproximando, como um cão farejando o osso.
Acima de mim, passarelas ligam os vários prédios. Soldados em uniformes ferrugem correm para a frente e para trás, com armas em prontidão. Levanto o antebraço, me protegendo da onda de disparos que vem em seguida. Todos soldados vermelhos, atacando de uma distância segura. Deixo as balas caírem, achatadas, inúteis. Não desperdiço minha energia tentando matá-los.
Ptolemus entra no meu campo de visão ao virar a esquina. Felizmente inteiro, e correndo. Quase desabo de alívio. Fumaça se espirala atrás de mim, evidência de mais disparos da artilharia. Mísseis assoviam no alto de novo, antes de explodirem com um rugido ressonante.
— O que estava fazendo, seu idiota? — grito, deslizando para parar.
— Não para… corre! — ele grita, me agarrando pelo braço, quase me arrastando à força.
Sei que é melhor não discutir quando meu irmão está aterrorizado desse jeito. Tudo o que posso fazer é me recompor, me reorientar e correr o mais rápido possível, mantendo o ritmo ao lado dele.
— O muro — ele se esforça para falar em meio à respiração ofegante.
Não é difícil juntar os pontos.
Cometo o erro terrível de olhar por cima do ombro. Através da fumaça, da neblina, do trovão ressoando no alto. Das rachaduras da parede que se espalham, dos pedaços de pedra que desmoronam. Há uma parede de água se forçando para cima e para dentro.
Sobre ela, equilibrada em uma plataforma, está a pessoa que controla tudo isso, com os braços bem abertos, a armadura pintada de um azul tão profundo que poderia ser preto.
Iris Cygnet nos observa correr.
Uma onda de pânico quase me prende ao chão, mas Tolly me arrasta, a mão dele envolvendo meu bíceps com um aperto doloroso. Deslizamos, de volta à rua principal, procurando nosso batalhão e nos deparando com os níveis inferiores do forte desertos. Nossos soldados estão mais à frente, e o resto, os inimigos… estão acima. Pendurados nos prédios, sobre os telhados, se agarrando no terreno superior com armas a postos. Não adianta tentar tomar o terreno mais alto. Tudo o que podemos fazer agora é fugir.
Disparamos em meio aos tiros aleatórios vindos de todos os lados. Podemos defletir a maioria deles com bastante facilidade. Alguns eu rebato de volta com força, mas sem mira.
Xingo por entre os dentes cerrados, culpando Cal, Davidson, Farley, meu pai, até eu mesma. Nosso plano previa ninfoides, mas não uma tão poderosa quanto Iris.
Não consigo pensar em mais ninguém, além de alguns poucos lordes ninfoides, que seria capaz de desaguar o oceano no forte. E nenhum deles destruiria o Patriota com tanta vontade. Mas Iris, uma princesa de outra nação, uma mulher sem lealdade a Norta, pode destroçar esse lugar sem piedade. E dirá que foi uma vitória.
A muralha cai atrás de nós, ecoando alto mesmo à distância. Segue-se o rugido do golpe das ondas quebrando e rodopiando, avançando pelas ruas, espumando em volta das construções e dos muros do forte. Imagino uma parede de fogo azul consumindo tudo no caminho.
Corremos e alcançamos nosso batalhão. Ptolemus grita para correrem, e todos obedecem. Mesmo os sanguenovos de Montfort. Não há tempo para manter a pose.
Os portões internos do Forte Patriota não se abrem para a cidade, e sim para uma longa ponte que cruza o porto, conectando a ilha artificial ao continente. O que significa que teremos que correr seiscentos metros pela passagem sobre a água, com ninfoides inimigos atrás de nós, além do oceano vindo em disparada. Não é exatamente uma boa combinação quando a meta é não se afogar.
Nossos oblívios trabalham rápido no primeiro conjunto de portões, explodindo as portas maciças sobre a ponte. Os reforços de ferro voam, batendo com violência na água. Quase não consigo ouvir com o rugido da inundação que se aproxima.
Iris ainda deve estar lá em cima, triunfante, sorrindo enquanto nos vê amontoados como ratos pegos por uma tempestade.
Corremos pelo portão quando a primeira onda explode, trazendo consigo redemoinhos de destroços. Madeira lascada, veículos, armas, corpos. Corro o mais rápido que minhas pernas permitem, lamentando que eu não seja forte o suficiente para nos erguer para longe do perigo. Mas nenhum de nós dominou a arte do voo magnético. Só meu pai consegue fazer isso, pelo tempo que quiser.
Os gravitrons protegem nossa retaguarda, usando seus poderes para empurrar a onda de volta. Ganham tempo, mas o ataque foi pequeno. Quase nem chegou à altura do arco do portão.
Então vem a segunda onda, a verdadeira onda, quebrando sobre os muros, esmagando as pedras e o concreto que protegiam o forte. Os gravitrons são inúteis contra uma força dessas. Só podem salvar a si mesmos, voando por cima da água. Mas, pelo menos um deles é pego pelo jato, se perdendo no turbilhão. Ele nunca volta à tona.
Não desperdiço nenhum pensamento com ele. Não posso.
A ponte foi feita para defender o forte, um longo gargalo para impedir qualquer exército de atacá-lo por terra. Ela nos afunila por uma série de trancas e portões, cada um nos atrasando mais. Os oblívios fazem o que podem, nos liderando no ritmo das explosões que destroem um obstáculo após o outro. Ptolemus e eu arrancamos as dobradiças e os reforços, rasgando o ferro e o aço desesperados.
Passamos da metade do caminho, e a cidade de Harbor Bay desponta diante dos nossos olhos, tão próxima e ainda infinitamente longe. Olhando de relance, percebo que as águas paradas e calmas à nossa volta estão subindo também. Se avolumando. Emergindo. Crescendo como a onda que ainda nos persegue com a força inexorável de um furacão. Jatos salgados explodem no meu campo de visão, molhando meu rosto, atingindo meus olhos. Estico a mão às cegas, me agarrando à gola da armadura de Tolly. Com um urro de frustração, uso meu poder para nos arrastar por cima do próximo portão. Nosso batalhão que se dane. Vão nos seguir se puderem. E, se não puderem, é porque estavam condenados a ficar para trás mesmo.
Quanto essa armadura pesa?, uma voz inútil questiona na minha cabeça. Vou afundar antes de poder tirá-la? Meu fim será no fundo da baía? Ou pior: terei que assistir Ptolemus sendo engolido pelas ondas para nunca mais voltar?
A água bate nos meus tornozelos. Minhas botas escorregam sobre a ponte pavimentada e quase perco o equilíbrio. Ptolemus me impede de afundar nas profundezas nojentas, pondo o braço em volta da minha cintura, me mantendo próxima. Se nos afogarmos, será juntos.
Quase posso sentir a fome de Iris enquanto a onda nos persegue. Não tem nada no mundo que ela amaria mais do que nos matar. Deixar Rift de joelhos, mais um inimigo do povo dela. Nos matar como nosso exército matou o pai dela.
Me recuso a morrer assim.
Mas não tenho um plano, não vejo uma forma de atacar sozinha. Os ninfoides que controlam as ondas vão nos matar sem nem mostrar o rosto. A menos que possamos matá-los antes, de alguma forma.
Preciso de um gravitron.
Preciso de um sanguenovo.
Preciso de Mare e de suas tempestades para eletrocutar esses desgraçados.
Atrás de nós, um trovão ruge de novo, seguido pelo brilho de raios aleatórios.
Não é o suficiente.
Tudo o que podemos fazer é correr e torcer para que alguém nos salve.
Ficar tão indefesa me enoja.
Outra onda arrebenta, à nossa direita dessa vez. Menor do que a força da maré atrás de nós, mas ainda assim forte. Faz com que eu escape da mão de Tolly, nos separando. Minhas mãos se agarram ao nada e depois à água ardente quando caio de cabeça, mergulhando no porto.
Alguns disparos resplandecem na superfície. Explosões dos oblívios ou da artilharia, não sei dizer. Tudo o que posso fazer é passar as mãos pelo corpo, arrancando a armadura antes que me afunde mais. Tento manter a mente focada no disco de cobre de Ptolemus conforme ele se movimenta, lutando contra a água comigo. Está se afogando também.
Bato as pernas furiosamente, tentando chegar à superfície. Quando consigo, outra onda acerta minha cabeça, me jogando para as profundezas de novo antes de puxar o ar.
A água salgada ferroa meus olhos e meus pulmões queimam, mas tento nadar, tento vencer os ninfoides na superfície. Quanto mais tempo fico submersa, mais morta pareço. Mais me distancio.
É a vez de Tolly me encontrar.
Um punho se fecha na gola da minha camisa, me puxando. Através da água sombria, vejo a silhueta dele ao lado da minha, a outra mão se agarrando a algo metálico. Aço moldado na forma de uma enorme bala de revólver. Ela nos arrasta para cima, impelida pelo poder de meu irmão. Como um motor.
Cerrando os dentes, seguro firme. Meus pulmões gritam por alívio até o ponto em que não consigo mais suportar, soltando uma corrente de bolhas. Inspiro por reflexo, engasgando com a água.
Com um impulso poderoso e outra explosão de força, Tolly nos direciona para a superfície enquanto minha visão escurece. Ele me joga para a frente, na areia molhada e sinistra.
Apoiada nas mãos e nos joelhos, cuspo e engasgo, tentando pôr a água para fora da forma mais silenciosa possível. Ele bate com o punho nas minhas costas.
Mal consigo pensar, mas olho em volta, ansiosa para me localizar. Mesmo um segundo desprevenidos pode selar nossa morte.
Estamos sob uma das docas do porto Aquarian, na água rasa. Barcos nos escondem de todos os lados, com algas podres, cordas descartadas e cracas ao redor.
Ptolemus olha para além da doca pelo espaço de poucos metros que nos garante uma visão privilegiada da ponte e do Forte Patriota ao longe. O porto é um caldeirão fervente, castigado pelo duelo das marés enquanto o próprio oceano se eleva e se retrai. Uma onda rebenta contra a costa, levando a água rapidamente até nossos pescoços. Grito, agarrando a madeira apodrecida acima da cabeça. Por um momento, penso que vamos nos afogar em terra firme. Mas a água recua, afastando-se com uma força sobrenatural.
Nos movemos com ela, escalando as colunas que sustentam o final da doca.
Agora só tenho minhas facas e minhas balas, com minha armadura descartada em algum lugar no fundo do porto. Não que eu me importe. Posso achar metal em qualquer lugar.
À nossa frente, ondas atacam a ponte de novo e de novo, arremessando os soldados. Nosso batalhão está arruinado. A Casa Samos pagará com sangue hoje. O ataque pelo mar fracassou.
Um jato grita através das nuvens, circulando a tempestade que se dissipa sobre o forte. Mais dois entram na perseguição, as pontas das asas no amarelo dos Laris.
Enquanto observo, o avião perseguido explode em chamas, se despedaçando antes de bater nas ondas distantes. Um vento forte rasga o porto enquanto outros jatos dos Laris despontam no céu, voando baixo sobre a cidade. Parece que o som vai partir minha cabeça ao meio, mas eu vibraria por eles se pudesse. A frota é nossa única vantagem.
Especialmente com metade do Forte Patriota submersa.
A maior parte do forte está inundada, incluindo as pistas de pouso. Só as embarcações da Marinha permaneceram intactas, ainda funcionando. Elas viram suas armas para os jatos dos Laris quando passam, cuspindo ferro quente. Um dos jatos cai, uma asa destruída, e os outros dois o seguem.
— Temos que desativar os navios de guerra — murmuro baixo, exausta só de pensar.
Tolly olha para mim como se eu fosse louca.
Talvez seja mesmo.


Corremos pela beirada do porto o mais rápido possível, entrando e saindo de uma batalha em andamento. O ataque terrestre de Cal era o maior dos três planejados, valendo-se de centenas de soldados de toda a coalizão, sem mencionar os agentes da Guarda Escarlate e seus contatos que já estavam na cidade. Soldados treinados lutam lado a lado com ladrões e criminosos enquanto a guerra de guerrilha toma conta de cada rua e beco de Harbor Bay. Uma cidade de pedras brancas e telhados azuis se transforma em vermelho e preto, fumaça e fogo. As cores dos Calore, penso amarga. Mas de qual irmão?
Os prateados de Norta e vermelhos recrutados se veem encurralados nas ruas, restringidos pelo seu próprio treinamento disciplinado. Com a corda no pescoço e em menor número, mas ainda assim perigosos. Tolly e eu arriscamos nossas vidas correndo, recriando nossas armaduras com qualquer coisa que conseguimos encontrar, até peças enferrujadas. Se tivesse tempo para isso, teria vergonha do meu péssimo trabalho.
Em mar aberto, talvez dois quilômetros longe da costa, os jatos dos Laris encontram aeronaves de Norta e Piedmont. Ordens de Cal também. Manter as armas mais pesadas longe da cidade. Mesmo a essa distância, posso ouvi-los enquanto dançam no ar em uma velocidade impossível de acompanhar. Explosões de fogo e fumaça se espalham pela batalha aérea, visíveis entre as nuvens e o horizonte. Não invejo os pilotos, especialmente os que devem enfrentar os dobraventos Laris. Já é bem difícil pilotar sem ter que lutar contra o próprio ar.
Iris ainda deve estar perto do Porto da Guerra, protegendo os navios das ondas agitadas. Conforme nos aproximamos, posso ver que a água em volta dos quatro cascos de aço maciço está parada e tranquila. O resto do porto borbulha e balança, jogando para longe qualquer um que tentar tomar os navios por terra. Logo a princesa de Lakeland vai apontar o armamento pesado contra os jatos em alto-mar ou contra a própria cidade. Para destruir Harbor Bay da mesma forma que fez com o forte. Deixando nada além de ruínas inúteis para qualquer um dos irmãos Calore.
Uma massa vermelha reluzente corta meu campo de visão, saindo de um beco e entrando na estrada. Nunca pensei que ia me sentir tão aliviada de encontrar um esquadrão armado da Guarda Escarlate. Principalmente um liderado pela general Farley.
O bando de criminosos dela nos cerca, com armas em punho. Relutante, mas depressa, levanto as mãos, encontrando os olhos dela.
— Somos nós — ofego, gesticulando para Ptolemus fazer o mesmo.
Ela nos encara, os olhos indo de um para o outro como um pêndulo. Uma balança se equilibrando. Meu alívio se dissolve no instante em que percebo o que pode estar pesando.
A vida do meu irmão.
Ela podia tentar matá-lo, tentar matar nós dois bem aqui, e ninguém saberia. Seríamos considerados vítimas da batalha. E ela teria sua vingança.
Eu faria isso se alguém tirasse Tolly de mim.
A mão dela se movimenta devagar, indo ao encontro da arma na cintura, presa ao cinto de munição já pela metade. Farley andou ocupada. Me concentro em seus olhos azuis trêmulos, sem dizer nada, quase sem ousar respirar. Tento não influenciá-la na direção errada.
Travo meus dentes com força, reunindo cada fração de poder que consigo acionar. Me agarrando à arma dela, às balas restantes, às facas escondidas por seu corpo inteiro. Para impedi-la se decidir atacar.
— Cal está por aqui — ela diz por fim, quebrando a tensão entre nós. — Precisamos tirar aqueles navios das mãos deles.
— É claro — Ptolemus responde, e eu quase o soco nos dentes.
Fica quieto, quero sussurrar.
Em vez disso, dou um passo à frente, protegendo o corpo dele da ira da general. Farley só se contrai, encarando-o por outro segundo tenso.
— Venham conosco, soldados — ela fala sarcástica, antes de nos virar as costas.
Soldados. Não altezas, não nossos títulos.
Se isso for o pior que ela vai fazer, aceito sem problemas.
Obedecemos, entrando em formação com o restante do grupo. Não reconheço nenhum deles. A Guarda só se distingue pelas faixas vermelhas amarradas no braço, na cintura ou no pulso. É a ralé, um bando formado às pressas, com roupas comuns. Podem ser serviçais, trabalhadores, estivadores, vendedores, cozinheiros ou motoristas. Mas compartilham a disposição de aço e a determinação que ela possui. E estão armados até os dentes. Me pergunto quantos prateados têm um lobo desse tipo dentro de casa.
Me pergunto quantos há na minha.
Nossa coalizão ocupa um trecho da Estrada do Porto onde ela se curva e é possível visualizar os navios de guerra atracados. Atrás de nós há mais quartéis e instalações militares, todos tomados. Muitos dos nossos soldados assumiram posições defensivas, escondidos atrás de janelas e portas. Outros se reúnem de frente para o porto, esperando ordens.
Será que tomamos a cidade?
Cal desponta entre seus tenentes e guardas, mais despenteado do que nunca, o cabelo pegajoso de suor, o resto do corpo coberto de sangue e cinzas. Mal posso discernir a armadura, cintilando em rubi intenso por entre a sujeira. Ele anda inquieto próximo da água, atormentado e frustrado. Toma cuidado para se manter fora do alcance das ondas.
Os príncipes Calore não têm amor nenhum pela água. Ela os deixa desconfortáveis.
Nesse momento, Cal parece pronto para deixar o próprio corpo.
A avó dele o observa, a seda e o vestido substituídos por um uniforme simples sem insígnia para marcar sua patente. E sem suas cores. Poderia ser uma velha qualquer que se perdeu, mas uma pessoa atenta enxergaria que não é nada disso. Anabel Lerolan não deve ser subestimada. Ao seu lado, Julian Jacos se mantém em silêncio, com os lábios tensos e os olhos fixos nos navios de batalha. Esperando para ser útil.
Meu irmão e eu atravessamos a multidão, entrando no campo de visão de Cal. As sobrancelhas dele se elevam ao nos ver. Deve estar tão aliviado quanto eu, e igualmente surpreso com a sensação.
— É bom ver vocês de pé — ele diz, acenando com a cabeça para nós. — E o seu batalhão?
Coloco as mãos na cintura.
— Não sei. Iris nos jogou no porto enquanto nosso grupo cruzava a ponte. Era nadar ou morrer. — Ele me observa enquanto falo, concentrado e afiado. Quase de forma acusadora, como se eu devesse me sentir envergonhada por ter sobrevivido enquanto os outros não tiveram a mesma sorte. Tento ignorar isso. — Algum deles chegou até a cidade?
— Difícil dizer. Mandei espalhar a notícia de que deveríamos nos reagrupar aqui. Veremos quem recebe a mensagem e consegue voltar. — Ele franze a testa olhando para as mãos, depois para os navios de batalha. Na água, eles se mantêm longe das docas, praticamente parados, em vez de seguir para o mar. Voltando as miras para nós. — Vocês são os únicos magnetrons que temos no momento.
Não sobrou nenhum primo Samos. Ninguém além de nós.
Ao meu lado, Ptolemus fecha a cara.
— Faremos o que pudermos com os mísseis.
Cal olha de novo para o meu irmão, seu cabelo preto esvoaçando com o movimento.
— Não vou desperdiçar nenhum dos dois combatendo mísseis. Temos bombardeiros de Montfort suficientes para destruir o que puderem. — Ele aponta na direção do porto. — Quero vocês naqueles navios.
Sei que temos que parar os navios, mas subir a bordo deles? Empalideço tão rápido que posso até sentir o gelo percorrer minhas bochechas apesar do calor, das cinzas e do meu próprio suor.
— Não estava nos meus planos me matar hoje, Calore — rebato. Com ironia, aponto o queixo na direção dos navios de batalha, em segurança na água. — Iris vai nos afundar como pedras antes mesmo de chegarmos perto. Nem mesmo gravitrons…
Cal apenas bufa sozinho, frustrado.
— Quando tomarmos a cidade, me lembre de dar um curso rápido para todos os oficiais prateados sobre as habilidades dos sanguenovos. Arezzo — ele acrescenta, por cima do ombro.
Uma mulher abre caminho até ele. Seu uniforme é do verde-escuro de Montfort, e tem uma insígnia exótica.
— Senhor — ela diz, abaixando o queixo.
— Deixe seus teleportadores a postos — Cal comanda. Ele parece quase se divertir ao me ver fervendo de raiva. Dele e de mim mesma, por esquecer com qual tipo de exército estamos trabalhando. Os poderes peculiares desses sanguenovos não têm fim? — Preparem-se para saltar naqueles navios.
— Sim, senhor — ela responde. Com um aceno, traz à frente outros soldados de Montfort. Mais teleportadores, presumo.
Olho para meu irmão ao meu lado, para medir sua reação. Tolly parece mais preocupado com a general vermelha. Mantém os olhos fixos nela, como se pudesse matá-lo caso baixasse a guarda. Não é um medo totalmente irracional.
— O que fazemos, então? — Dou um passo à frente, ficando lado a lado com meu noivo. — Você vai precisar de mais do que dois magnetrons para destruir um navio de guerra. E de mais do que alguns minutos. Somos bons, mas nem tanto.
Com um impulso repentino, Cal recua, escapando de uma onda mais forte e se mantendo seco. Ele pisca rápido.
— Não precisa desmontá-los. Quero aqueles navios. Preciso deles. Principalmente porque Iris está aqui. — Ele lambe os lábios, e um toque de terror reluz nos olhos dele. — A mãe dela não vai deixar que morra na praia.
Argh. Ele tentou mesmo fazer esse trocadilho péssimo?
— Se a frota de Lakeland chegar aqui antes de termos uma artilharia de verdade protegendo o porto, estaremos perdidos — Cal acrescenta, olhando para a água atrás de mim.
Levanto a mão, apontando para além do forte inundado, para o oceano obscurecido pela fumaça, onde as silhuetas dos jatos ainda dançam.
— Acha que quatro navios podem segurar a Marinha de Lakeland?
— Terão que bastar.
— Bom, não vão. Você sabe disso.
Um único músculo no queixo dele salta quando aperta a mandíbula. Vai ter que sujar as mãos, Calore. Deixá-las mais imundas do que já estão.
Me mexo de novo, me colocando na linha de visão dele.
— Você mesmo disse que a rainha de Lakeland não vai abandonar a filha. Então faremos uma troca.
Cal fica tão pálido quanto fiquei antes, toda a cor do seu rosto drenada pelo choque.
— Pela cidade — insisto. Ele tem que compreender. — Ptolemus e eu podemos travar a mira das armas, fazê-las atirar nela. Vamos mantê-la presa. Acuada. Não deve ser difícil para um rei de fogo subjugá-la, não?
De novo, nada. Cal nem pisca, sua expressão paralisada. Covarde, zombo. Ele não quer encará-laA Chama do Norte com medinho de um pouco de chuva.
— Quando estivermos com Iris, negociamos. A vida dela por Harbor Bay.
A proposta acaba com a paralisia dele na hora.
— Não faço esse tipo de coisa — Cal grita, sua voz áspera. Apesar de quem sou, dou um passo para trás, quase acovardada pela fúria repentina. — Não sou como ele, Evangeline.
Disso eu tive que zombar.
— Bem, ele está vencendo.
— Não vou fazer isso — Cal diz mais uma vez, as palavras trêmulas de raiva. Príncipes não estão acostumados a se repetir. — Não vou fazer reféns.
Não vou dar um motivo para Maven, você quer dizer, penso comigo mesma, e a frase ecoa com amargura na minha cabeça. Um motivo para tê-la de volta. Para voltar todos os seus recursos para uma única pessoa.
Cal tem a ousadia impensável de colocar um dedo no meu rosto.
— Pegue os navios, pegue as armas e tire Iris de Harbor Bay. É uma ordem.
— Não sou seu soldado e não sou sua esposa ainda, Calore. Não pode mandar em mim — bufo, sentindo como se pudesse arrancar um pedaço dele. — A mãe dela vai afundar a cidade e nos afogar juntos se tiver a chance.
Ele me encara, furioso, com a mão tremendo. Está com tanta raiva que não percebe quando a onda acerta seus tornozelos. Então pula, xingando, e quero rir da sua expressão ridícula.
— A mãe dela vai deixar a cidade em paz se a filha conseguir escapar — uma voz se eleva atrás dele.
Vovó veio resgatá-lo, Calore?
O príncipe franze o rosto, a testa enrugada sinalizando sua confusão.
— Ela tem razão — o tio de Cal diz, sua voz bem mais suave.
As sobrancelhas de Cal quase desaparecem sob seu cabelo.
— Julian? — ele pergunta, quase inaudível.
Jacos só se encolhe, cruzando as mãos sobre o peito magro.
— Tenho pouco talento para o campo de batalha, mas isso não quer dizer que não tenha nenhum. É um bom plano, Cal. Obrigar Iris a recuar para o mar. — O olhar dele recai sobre mim. — Vá para o navio, Evangeline — ele diz lentamente, sem colocar sua habilidade na voz.
Percebo a ameaça mesmo assim. Não tenho escolha, não com a arma carregada de um cantor apontada para mim. Farei isso por vontade própria ou pela vontade dele.
— Está bem.
Por mais defeitos que Cal tenha, ele é nobre até o fim. Normalmente isso faria com que o odiasse ainda mais, mas não agora. Como jurou lealdade a Montfort, não deixará ninguém lutar a menos que esteja lutando junto. Ele não obrigaria outras pessoas a fazerem o que ele mesmo não está disposto a fazer. Assim, quando os teleportadores se reúnem, com as mãos estendidas, ele está ao meu lado, armado e pronto para atacar um navio de guerra.
— A primeira vez não é agradável — meu teleportador diz, seu rosto sorridente marcado pela idade. Um veterano de muitas batalhas.
Só consigo cerrar os dentes e segurar sua mão.
A sensação é como ser espremido até a medula. Todos os meus órgãos se reviram, meu equilíbrio desaparece, minha percepção se volta contra si mesma. Tento respirar e descubro que não consigo, não posso ver, pensar, existir… até que a sensação evapora, tão rápido quanto começou. Respiro, os joelhos no piso de metal do convés do navio de guerra, o teleportador de pé à minha frente. Ele estica a mão para cobrir minha boca, mas eu o afasto com um golpe, lançando um olhar assassino.
Estamos atrás da torre frontal de artilharia, agachados junto aos cilindros de metal gelado e liso dos canos dos canhões. Estão quentes e ainda fumegantes do bombardeio anterior contra o forte, e agora apontam para a cidade. Meu poder corre por eles, sentindo os rebites e parafusos, saltando de um cano para outro, por dentro dos cartuchos de pólvora quase cheios, os projéteis — mais de uma dezena — esperandoPresumo que o mesmo valha para as outras duas torres na popa e na proa.
— Tem munição suficiente para reduzir Harbor Bay a pó — murmuro, como se estivesse sozinha.
O teleportador responde apenas com um olhar furioso. Ele lembra meu pai, com seus olhos duros, focados.
Faço o que devo fazer. Com um sorriso, ponho as mãos na estrutura e puxo. Ela reluta, já travada e mirando em outro lugar. Faço as engrenagens se moverem dentro do mecanismo e ela se move com facilidade, guiada pelo meu toque. Apontando para outro alvo.
O navio de Iris.
Ela caminha pelo convés do barco mais distante, uma silhueta azul-escura. Soldados de Lakeland a rodeiam, seus uniformes fáceis de reconhecer. Mais adiante no navio, na proa, uma figura vermelha surge do nada — outro teleportador acompanhado de seus soldados.
— Quase lá — sibilo, deslizando a torre de artilharia para o lugar, seus canos agora apontados para a lateral do navio de Iris. Com o punho cerrado, fundo as placas de ferro e aço, travando a torre na posição. Agora só um magnetron ou alguém com um maçarico potente vai poder alterar a mira de novo. — Próxima.
Com outro salto que revira meu estômago, pousamos ao lado da segunda torre. Repito o processo. Dessa vez, uma dupla de vermelhos recrutados nos encontra. Eles correm na minha direção, mas o teleportador agarra os dois e desaparece. Então ressurge no limite do meu campo de visão, em mar aberto. Os dois são largados na baía. O teleportador volta antes que eu possa ouvi-los cair na água.
A terceira torre briga mais do que as outras, resistindo à minha habilidade, recusando-se a se mover suave como as outras.
— Nos descobriram — urro, suando. — O armeiro está tentando manter o canhão posicionado.
— Você é uma magnetron ou não? — o teleportador provoca.
Espero que Ptolemus pegue alguém menos abusado, penso, fazendo uma careta. Com uma explosão de força, faço a estrutura girar e a travo na posição com mais fervor do que o necessário. A base se enverga para dentro, travada no lugar.
— Está feito. Dê o sinal.
Foi mais fácil acionar o mecanismo dos canhões do que pensei que seria. Como puxar um gatilho gigante.
A explosão do tiro de um único projétil me joga de lado, e cubro as orelhas. Tudo zumbe e é abafado em seguida. Me esforço para ficar de pé, observando enquanto o disparo acerta o alvo, explodindo o convés do navio de Iris.
O fogo se espalha por toda a lateral, como uma cobra venenosa serpenteando com uma fúria sibilante. Maior do que a explosão de um único projétil. Alguns soldados saltam na água para escapar de sua ira.
Da ira de Cal.
Os soldados de Lakeland não se intimidam tão fácil, arrastando uma onda e a jogando no navio. Deixando-a despencar e apagar o fogo. Só que outro disparo os atinge em seguida, dessa vez vindo do navio de Ptolemus, do outro lado. Não consigo conter o sorriso, e quase grito torcendo por ele.
De novo Cal espalha as chamas pelo navio. Mais fogem, mais saltam. Outra onda. Outro projétil. Mais chamas. A sequência continua.
Meu teleportador nos leva de uma torre de artilharia a outra. A cada vez, nos deparamos com mais soldados para enfrentar. Vermelhos, em sua maioria. Poucos prateados trabalham em navios, e apenas como oficiais. São fáceis de derrotar, somando minha habilidade à do soldado de Montfort.
Se pudesse, faria com que me levasse até Cal. Ele não tem coragem de matar Iris, mas eu com certeza tenho. O povo de Lakeland já está furioso conosco depois da morte de seu rei. Não faz muita diferença se ela morrer também. Na verdade, pode até fazer com que corram de volta para seus lagos e fazendas, e pensem duas vezes antes de desafiar as poderosas Casas Samos e Calore.
Mas meu trabalho é manejar as armas. Manter o navio sob controle. Com Cal lutando contra Iris, a atenção dela vai se desviar de Harbor Bay e nossos soldados poderão passar. Em nosso terceiro ataque contra o navio, mais teleportadores saltam no convés, levando consigo seis soldados cada um. E mais soldados chegam de barco, em uma aproximação rápida.
Estreito os olhos na direção do navio de guerra ao longe, observando enquanto mando outro disparo. Esse atinge com força, abrindo um buraco fumegante no casco, alguns metros acima da água. No convés, a visão é aterrorizante. As nuvens acima escureceram, carregadas de raios. Água e fogo colidem sobre o navio, inferno e maremoto. Ele se inclina com a força da batalha entre um rei e uma rainha prateados. Guerreiros com poderes à altura um do outro, em um cenário desigual.
Pela primeira vez na vida, me pergunto de verdade o que aconteceria se Tiberias Calore morresse.
Porque acho que Iris vai matá-lo.

4 comentários:

  1. Espero que Mare chegue logo nesta batalha. Aí sim as coisas vão ficar mais interessantes.

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  2. Esse capitulo foi... Acho que foi um dos melhores. Afinal o que a vovó Vacabel e o Julian pediram pra Iris? Algo me diz que está justamente relacionado a essa batalha. E gente vcs também acham Tolly brochante? Pra mim é como chamar um cara alto, fortão de bebe.

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    1. Sim, muito! Mas fazer o quê, são irmãos, e superunidos

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  3. Um raio da mare perto dessa desgraça e ela morre eletrocutada com a água q ela tanto gosta de controlar. AAAAAAA GUERRA

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Boa leitura, E SEM SPOILER!