2 de junho de 2018

Capítulo dez

Iris

AS MONTANHAS SÃO ÍNGREMES E perigosas, e protegem as cidades nos vales de um cerco ou de um massacre. Os pinheiros espessos formam obstáculos arriscados para qualquer veículo que ouse sair das estradas bem guardadas. A elevação por si só é capaz de deter qualquer um com a esperança de escalar rumo às entranhas da cidade. Eles pensam que estão seguros em sua fortaleza entre o céu e o abismo.
Não veem perigo, pois nenhum exército alimentaria a esperança de marchar até sua porta. Mas muitas vezes nossa maior força pode se tornar uma fraqueza. Montfort não é exceção.
Aterrissamos perto da fronteira leste, dentro dos limites de Prairie. Nosso jato não tem nenhuma marca, recém-pintado do dourado de Prairie para manter as aparências. Confunde-se com o mato alto que se agita sob a luz da manhã. Voamos com cautela, primeiro pelas florestas de Lakeland, depois atravessando a paisagem aberta e vazia. Os senhores de Prairie estão dispersos; suas terras são vastas e estão espalhadas demais para serem patrulhadas direito. E eles se ocupam com seus próprios afazeres. Não sabem que atravessamos suas terras. Ninguém sabe que estamos aqui.
Exceto os saqueadores, claro.
O envolvimento deles é necessário para atrair o maior número possível de gente para fora de Ascendant. Com sorte, Tiberias Calore também. Segundo Maven, seu irmão jamais deixaria passar uma oportunidade de lutar. “Para se exibir”, Maven acrescentou, torcendo o nariz enquanto conversávamos. Não conheço o príncipe exilado. Jamais vi Tiberias Calore. Mas Lakeland não é um reino que vive às cegas. Coletamos dados sobre ele e toda a família. Foram nossos inimigos por mais de um século, afinal. Os relatórios revelaram um príncipe bem previsível. Criado para ser um líder militar como o pai. Carregado de deveres e expectativas. Formado para valorizar a coroa acima de tudo. Os irmãos têm isso em comum, acho, além de uma vermelha muito peculiar.
Sou obrigada a concordar com a avaliação de Maven. Se Tiberias está mesmo aqui para negociar com Montfort, para fortalecer sua aliança, vai tentar provar seu valor e conquistar a lealdade deles. E não há maneira melhor de fazer isso do que lutar por eles.
Os saqueadores nos encontram no local combinado, uma elevação que oferece vista completa da paisagem ao redor. Com suas máscaras e véus, sentam-se nas motos antiquadas que cospem fumaça, seus olhos escondidos atrás dos óculos de proteção. Prateados, todos eles. Exilados quando os reinos montanhosos caíram. Espoliados de seu direito de nascença de ocupar a posição de senhores e governantes. Estão em maior número, mas sinto pouco medo. Sou uma guerreira, criada pelos ninfoides mais fortes do meu reino. E meus cinco acompanhantes também são fortes, nobres e muito úteis.
Jidansa ainda está comigo, ansiosa para servir e proteger. Ela tem o cuidado de se posicionar entre mim e qualquer saqueador que chegue perto demais. Mantenho a cabeça baixa e o rosto coberto pelas sombras. Os saqueadores são um grupo isolado, então provavelmente não reconheceriam uma princesa de Lakeland ou a rainha de Norta, mas é melhor não arriscar. Os outros falam por mim, repassando os preparativos.
É fácil transportar nossa equipe; cada um vai na garupa de um saqueador para atravessar a planície. Eles conhecem a região melhor do que qualquer um de nós, e nem precisamos usar nosso sombrio da Casa Haven para nos esconder. Ainda não.
As montanhas ao longe ficam mais próximas a cada segundo que passa. Parecem mais uma muralha. O medo tenta corroer minha determinação, mas não permito. Forço a vista e aguço o foco na tarefa, deixando pouco espaço para qualquer outra coisa.
À medida que as horas se esvaem, repasso o plano na cabeça. Cada obstáculo a superar.
Atravessar a fronteira.
Isso é fácil. Os saqueadores conhecem bem as trilhas e os pontos cegos de Montfort. Seguem um riacho através de uma floresta fechada de pinheiros, e só quando começamos a subir o sopé das montanhas é que me dou conta de que estamos do outro lado da linha invisível que divide Prairie e Montfort.
Pagar a passagem.
O colar de joias é meu. Safira, prata e diamante. Entrego-o sob a mira das armas. Nosso sombrio Haven, um sentinela jovem e parrudo que meu nobre marido me emprestou, cede a parte mais valiosa da barganha. Sua própria Casa está dividida, partida ao meio pela guerra civil irrompendo por toda Norta. O chefe Haven luta por Tiberias, mas a maioria da família permanece ao lado de Maven. É admirável colocar a lealdade ao país e ao rei acima da família. Mesmo que o rei seja Maven Calore.
Ele não usa a máscara de sentinela, deixando as joias negras para trás. Sem ela, parece humano, com olhos azuis e cabelo ruivo reluzindo ao sol. Passa aos saqueadores a localização dos suprimentos que descarregamos alguns quilômetros ao norte. Caixas de comida, dinheiro, baterias, armas e munição para alimentar suas aventuras. Eles não perdem tempo e partem, deixando-nos na face leste da montanha, no ponto mais alto que se pode chegar de moto. Não vi nenhum rosto.
Sei que pelo menos um é loiro, porque alguns de seus fios escapavam por baixo dos panos que envolviam sua cabeça.
Escalar.
As cachoeiras não são problema. Funcionam como escadas em movimento. Uso a água para nos içar, passando por cima de incontáveis penhascos. Seguimos rio acima, contra a corrente, com pouca dificuldade. Com meu poder e o de outro ninfoide, Laeron da Casa Osanos, de Norta, conseguimos chegar ao vale bem na hora que as estrelas começam a ganhar vida no céu. Ainda assim, o caminho é duro. O ar fica rarefeito e minha respiração é rasa, dificultando meus passos a cada centímetro de subida. Mas a exaustão não me é desconhecida. Treinei desde criança na Cidadela dos Lagos.
O sombrio Haven mantém as mãos livres, movendo os dedos de vez em quando. Deixa-nos invisíveis e nos permite passar por entre as árvores sem ser vistos. É estranho olhar para os próprios pés e não ver nada além de vegetação rasteira. Pelo menos não preciso ver Rydal, o forçador da Casa Rhambos. Subindo com dois corpos presos aos seus ombros, como uma mochila. Outra parte do meu plano. Uma parte sangrenta.
De novo, afasto um calafrio.
Começamos a escalada mais ao norte da cidade, o que nos força a rumar para o sul a fim de alcançar o rio. Há uma represa lá embaixo, no vale onde se situa Ascendant, criando um lago irregular. Sinto um peso deixar meus ombros quando chegamos à água, às margens tranquilas e vazias. Juntos, submergimos, sem deixar para trás qualquer vestígio da nossa passagem.
Concentro a atenção na correnteza, criando um canal de água que flui ao longo do leito do rio. Laeron faz conforme planejado. Bolhas de ar se formam ao redor das nossas cabeças, oferecendo a cada um de nós um escudo de ar respirável. É um velho truque ninfoide, algo que até uma criança seria capaz de fazer. Avançamos em segredo pelo canal, levados pela correnteza entre as curvas do vale. Está escuro como breu, mas confio na água. Os últimos quilômetros passam em um silêncio forçado, preenchido apenas pelo som da minha própria respiração e das batidas do meu coração.
O lago da cidade de Ascendant é profundo e cheio de peixes. Uma ou duas vezes, dou um pulo ao sentir o roçar de escamas no escuro, conforme seguimos para a beira da água. Chacoalho os ombros para afastar a sensação e me concentro no próximo passo do plano. Várias propriedades de luxo têm um cais no lago, e os usamos como cobertura. Sou a primeira a emergir, deixando os olhos só um pouco acima da linha d’água. Depois de horas na floresta e dentro do lago, mesmo as luzes suaves da cidade ofuscam. Não pisco nem estremeço. Forço a vista a se ajustar o mais rápido possível. Temos um cronograma a cumprir.
Nenhum alarme ainda. Nenhum sinal de alerta. Bom.
O sentinela Haven volta a nos cobrir quando saímos da água, mas nem mesmo ele é capaz de esconder o rastro de pegadas molhadas que deixamos pelas vielas. Isso é com Laeron e comigo. Nos secamos em poucos movimentos, usando nosso poder para torcer cada gota. Condenso as poças que se formam no processo e as despejo em forma de esferas brilhantes de água nas plantas e sarjetas mais próximas. Não deixamos vestígios.
Passei o voo até Prairie decorando a planta de Ascendant através do mapa de Bracken. Me perturba um pouco saber que tanto do meu plano foi baseado no trabalho de outra pessoa. Tenho que confiar na informação que me deram, ainda que qualquer falha possa significar fracasso. Embora a capital de Montfort seja confusa, uma rede entrecortada de ruas e escadarias, consegui traçar a rota mais rápida desde o lago represado até onde os filhos de Bracken estão presos. Não no palácio, segundo os espiões de Piedmont, mas num observatório.
Da segurança de uma viela escura e silenciosa, levanto os olhos para as encostas íngremes até o edifício com cúpula no alto da lateral da montanha. Minhas pernas tremem perante a ideia de escalar alguns milhares de metros mais. Avanço sem fazer barulho, controlando minha respiração para que saia baixa e compassada. Inspirando pelo nariz e expirando pela boca, ao ritmo dos meus passos.
As escadas não são um problema para o forçador, apesar do peso extra da carga.
O sentinela Haven é mais bem treinado do que qualquer um de nós; criado para defender o rei e sua família, está no ápice da forma física. O mesmo pode ser dito de Laeron. Sou avessa a confiar em alguém de Norta, ainda mais a ter três ao meu lado, mas não tive como evitar. Uma representação igualitária era necessária em nome da política.
Jidansa é a única em quem confio plenamente. Mantenho-me em alerta quanto a meus outros companheiros de Lakeland. Não gosto de Niro, da linhagem Eskariol, mas precisamos dele e de seus dons. É um curandeiro, mas um curandeiro estranho. Uma pessoa dotada do poder de salvar vidas não deveria gostar tanto de tirá-las.
Consigo ouvir sua respiração rápida à medida que subimos. Embora eu fique feliz por ter um curandeiro tão talentoso como ele na retaguarda, gostaria que não fosse necessário. Niro sente prazer demais no que terá que fazer antes que a noite acabe.
— Com sorte não vão perceber nada até o meio-dia — ele sussurra. — Meu trabalho será perfeito — a voz sai suave, sedosa. Niro vem de uma longa linhagem de diplomatas, tão perita em remendar alianças políticas quanto ossos quebrados.
— Continue em silêncio — murmuro de volta para ele. O fantasma de sua presença parece mais frio do que o ar da montanha.
Ascendant não está desprotegida. Postos de guarda e patrulhas pontilham o caminho, embora em menor número do que em Lakeland ou na capital de Norta. O povo de Montfort é burro se acha que as montanhas e seus segredos bastam para garantir sua segurança.
Olho por cima do ombro para o outro lado do vale. Sinto minha trança preta sacudir, mas não a vejo. O palácio que deve ser do primeiro-ministro se ergue na mesma altura em que estamos, com outras propriedades e prédios do governo ao lado. Resplandece branco sob as estrelas, com muitas luzes brilhando dos terraços, sacadas e janelas.
Mare Barrow está lá dentro. A garota elétrica com instinto de sobrevivência aguçado.
Achei-a muito curiosa em Archeon. A vermelha na coleira do rei prateado, que parecia igualmente preso por ela. Não quero fingir que compreendo por que Maven se deixou enfeitiçar desse jeito, mas deve ser culpa da mãe dele. Ninguém nutre tamanha obsessão. E não pode ser amor. Ninguém que é capaz de amar age como Maven.
Nunca achei que ia me casar por amor. Não sou ingênua o bastante para devaneios do tipo. Meus pais aprenderam a se amar e respeitar ao longo do casamento arranjado, e isso pelo menos eu esperava. Maven torna essa esperança impossível. Só tive pequenos vislumbres do seu coração, mas suficientes para saber que está morto.
Se os filhos de Bracken não fossem nosso objetivo, se eu tivesse mesmo esperanças de manter minha coroa de Norta, talvez pudesse alimentar a ideia de matar Mare Barrow. Não por mal, mas na esperança de dar alguma clareza a Maven. Ela agora é uma motivação, a isca que o faz seguir em frente, mas também é uma fraqueza. E eu preciso dele fraco. Preciso dele distraído.
Como minha mãe disse, Maven Calore terá que enfrentar a enchente.
Todos terão.
O contingente militar saiu há dez minutos, seus veículos rangendo montanha acima. Ainda dá para escutar os ecos pela encosta, reverberando através das ruas e dos becos da capital de Montfort. Sirenes e alarmes estrilam pelo resto da cidade. Exatamente como planejado. Pisco, ainda envolta na sombra impenetrável do sentinela Haven.
Os guardas do observatório abandonaram seus postos para auxiliar a cidade, deixando para trás o exíguo destacamento de dois soldados. À noite, seus uniformes verdes parecem negros. Ambos se destacam contra as colunas de pedra lunar polida que sustentam os vitrais da cúpula cintilante.
Sem um cantor ou um murmurador para apagar a memória dos dois guardas, não temos escolha senão passar por eles às escondidas. Não é difícil, mas prendo a respiração enquanto nos esgueiramos por entre as colunas do observatório.
Eles ladeiam a entrada, firmes e preparados, acostumados ao som dos alarmes. Ataques de saqueadores são comuns, disseram-me, e representam pouca ameaça à capital.
— Na planície? — um diz, virando o rosto.
A outra balança a cabeça.
— Na encosta. Atacaram a planície duas vezes mês passado.
O primeiro guarda abre um sorriso e enfia a mão no bolso.
— Planície. Aposto dez cobres com você.
— Não cansa de perder para mim, não? — ela responde.
Enquanto os dois riem, encosto na fechadura da porta. Com a outra mão, abro o cantil preso ao cinto. Sob o poder do sentinela Haven, não consigo enxergar o que estou fazendo, me guiando pelo tato. Complica um pouco as coisas, deixando-me mais lenta.
A água dá voltas no meu punho, beijando minha pele e passando pelos meus dedos para entrar pelo buraco da fechadura. Ela se adapta ao mecanismo e preenche os espaços enquanto solto um suspiro. Através da água, pressiono os pinos da tranca, tocando cada um deles, criando minha própria chave.
Movimento o pé para tentar alertar Jidansa. Ela devolve o cutucão.
A alguns metros de distância, um galho de árvore estala sob seu poder e despenca sobre o chão de pedra. Isso abafa perfeitamente o som do giro da fechadura.
— Saqueadores na cidade? — a guarda diz, a gargalhada substituída pelo pânico.
— Nada de apostas — o homem responde.
Os dois correm para averiguar, permitindo que entremos no observatório sem ser notados.
Preocupado com câmeras de segurança, o sentinela Haven nos mantém cobertos mesmo lá dentro.
— Laeron passou — o ninfoide de Norta sussurra. Cada um se anuncia, incapaz de ver os outros.
— Jidansa.
— Rydal.
— Niro.
— Iris.
— Delos — diz o sentinela Haven.
Sorrindo, fecho a porta atrás de nós devagar.
Infiltrar-se na prisão do observatório: feito.
Não me permito nem um suspiro aliviado. Ele não sairá até eu estar em casa com os filhos de Bracken sãos e salvos. E mesmo então seria prematuro. Como minha mãe diria, não se pode dormir enquanto há guerras a vencer. E temos uma guerra explodindo à nossa volta.
Os passos de Jidansa ecoam de leve enquanto ela circula pela sala. Sua busca dura vários e longos minutos, o bastante para nos deixar à flor da pele. A tensão só vai aumentando até ela voltar. Noto um sorriso em sua voz.
— São mesmo uns tolos — ela diz. — Nada de câmeras. Nenhuma.
— Como pode ser? — ouço Laeron murmurar.
Cerro os dentes.
— Talvez não queiram registros das crianças aqui — respondo, dando a única explicação em que sou capaz de pensar. Isso não devia me abalar. Coisas horríveis são feitas na guerra, mesmo com prateados. Sei disso muito bem. — Ou do que fizeram com elas.
A consciência disso recai sobre todos nós, como uma cortina de dor. Ergo o queixo e ajeito meu cabelo invisível, colocando as mechas atrás das orelhas.
— Sentinela Haven, pode parar.
— Sim, majestade.
Posso ouvi-lo se curvar, e comprovo isso quando ele aparece em seguida.
Estamos todos visíveis, como se uma janela de repente tivesse se escancarado. A maioria olha para os próprios membros, examinando a si próprios, mas Niro me encara. Parece mais pálido sob a luz baça que entra pela cúpula de vidro, salpicando seu rosto com um verde doentio. Ele me olha em desafio, ou talvez seja divertimento. Nenhuma das opções me agrada.
— Por aqui — digo a eles, me concentrando na tarefa a cumprir. Todos formam uma fila, até Niro, e fico feliz por Jidansa estar logo atrás de mim. O sentinela Haven também. Sou rainha de Norta, e ele jurou proteger não só Maven, mas também a mim.
Circulamos um telescópio enorme feito de tubos de bronze e conjuntos de lentes, apontado para o teto abobadado. Um desperdício, penso. As estrelas estão muito além do alcance de qualquer um, mesmo dos prateados. São o domínio dos deuses. Não cabe a nós perscrutá-las. Qualquer tentativa é perder tempo, recursos e energia.
Várias câmaras são acessíveis a partir da sala central redonda, mas as ignoramos. Atravesso o espaço inspecionando o mármore sob meus pés à procura de fendas. Não espero encontrar nenhuma, e abro de novo o cantil. Com um aceno de cabeça, ponho Laeron para fazer a mesma coisa.
A água se espalha ao redor dos nossos pés, expandindo-se até se tornar a mais fina das camadas. Ela força a pedra, formando poças e entrando pelos sulcos e emendas entre os blocos.
— Aqui — Laeron diz, indo em direção à parede. A água dele se condensa numa espécie de gota gigante. Forçando a vista e me aproximando, consigo ver pequenas bolhas de ar subindo.
Há um espaço aberto lá embaixo.
Jidansa cuida rapidamente do bloco, erguendo-o com um mover dos dedos. Lá embaixo, uma escuridão nos espera, mas não absoluta. Há luzes na câmara sob o observatório, em algum lugar bem mais fundo. O suficiente para permitir enxergar, mas não para vazar pelas fendas em volta do bloco falso.
Uma escadaria desce, convidativa.
Rydal vai primeiro, conforme o plano. Niro segue atrás, com a mão na arma na cintura, caso haja oposição. O sentinela Haven vai em seguida. Noto que suas mãos parecem escurecer, acumulando sombra como se fosse fumaça. Mantenho-me bem perto dele, com Jidansa ao lado e Laeron na retaguarda.
É a parte fácil, digo a mim mesma. E tenho razão.
A passagem faz uma curva, passando por baixo do observatório e para além dos seus limites. Nada de guardas, nada de câmeras. Nada além da luz baça e do eco dos nossos pés.
Pergunto-me se o lugar foi construído especialmente para os filhos do príncipe Bracken. Por algum motivo, duvido. A pedra é antiga, embora a pintura das paredes num tom quente e amarelado pareça recente. A cor tem um efeito estranho, tranquilizante. Não esperava algo assim para prisioneiros inimigos. Montfort é mesmo estranho.
Uns cem metros à frente, o corredor se abre numa espécie de antessala cercada de janelas. Hesito diante delas, com sua vista para o cintilar da cidade. O vidro deve ser grosso, porque não escuto os alarmes, embora ainda veja suas luzes acendendo e apagando por toda Ascendant.
Troco um olhar com Jidansa, que parece tão perplexa quanto eu. Ela dá de ombros e aponta com o queixo para nossa direita, onde a câmara termina numa única porta.
Não há nada de notável nela — nem mesmo é reforçada, pelo que posso ver. Quando ponho a mão na fechadura na tentativa de abri-la, percebo o motivo.
— Pedra Silenciosa — sibilo, recuando como se tivesse me queimado. Um leve toque já faz minha pele arrepiar. — Torturadores desgraçados.
Jidansa emite um ruído de nojo no fundo da garganta.
— Coitadas das crianças. Já faz meses.
Os outros ecoam o sentimento.
Com exceção de Niro.
— Pode ser ruim para elas, mas é bom para a gente — ele diz, sem qualquer compaixão. Me aproximo dele, de cara fechada.
— O que isso quer dizer? — resmungo.
— A Pedra Silenciosa deve ter deixado as crianças letárgicas, sonolentas. Ninguém vai notar quando as duas não se mexerem amanhã — ele diz enquanto cutuca os corpos nas costas de Rydal. Seus dedos tamborilam contra a carne humana sem qualquer consideração.
Continuo carrancuda, ainda que esteja certo.
— Vamos tirá-las daqui — digo, estalando os dedos. — Sentinela Haven, por favor. Niro, esteja pronto para curá-los. Vão precisar disso.
Sei o que uma prisão de Pedra Silenciosa pode fazer a uma pessoa. Vi em Barrow. As bochechas chupadas, os olhos baços, os ossos saltados, a pele fria marcada pelas veias. E ela ainda era teimosa, alimentando-se de sua própria fúria para manter a sanidade. Tinha uma causa a que se agarrar, não importava quão tola e malfadada fosse. Os filhos do príncipe Bracken não passam de crianças com dez e oito anos de idade. São prateados, dependentes de seu poder, não têm lembranças de uma vida sem ele. Não quero saber o que a Pedra Silenciosa fez com ambos, mas não tenho escolha.
Preciso encarar os horrores da guerra nos olhos sem jamais piscar. Meu pai não piscava. Minha mãe e minha irmã não piscam. Preciso manter os olhos abertos se quero ter alguma esperança de vencer.
De vencer e voltar para casa.
Laeron destranca a porta usando o próprio cantil para formar uma chave de água. Leva um pouco mais de tempo, por conta da Pedra Silenciosa. Por fim, ele abre a porta e se afasta, deixando que eu entre primeiro. Dou um passo trêmulo, e meu corpo se enrijece perante a sensação nada natural. É mais uniforme do que aquela de lutar com um silenciador. O poder deles pulsa com seu coração e sua concentração. Mas o poder da Pedra aqui é constante. Incessante.
Engulo em seco.
Apesar de ter minha equipe na retaguarda, esperando por mim na feliz segurança do corredor, me sinto mais vulnerável do que nunca, como uma recém-nascida à beira de um penhasco.
As crianças dormem profundamente, cada uma delas aninhada numa cama bem-feita. Olho ao redor, esperando um guarda nas sombras. Não há nada além dos contornos tênues de um quarto bem mobiliado e das janelas com cortinas, que dão para os pinheiros e para o vale da cidade lá embaixo. Outra tortura. Ver o mundo além do seu alcance.
— Me ajudem a carregá-las para fora — murmuro, ansiosa para sair daqui.
Chego perto da menina de cabelo escuro deitada na cama mais perto de mim e ponho a mão no seu rosto. Pronta para tampar sua boca caso grite. A filha de Bracken se move ao meu toque, mas não acorda. À luz escassa, sua pele tem cor de âmbar preto polido.
— Acorde, Charlotta — murmuro. Meu coração bate duas vezes mais rápido.
Precisamos ir embora.
O sentinela Haven não é tão cuidadoso com o príncipe Michael. Passa um braço por trás dos ombros dele, outro por baixo dos joelhos e o levanta. Como a irmã, ele acorda lentamente. Zonzo, moroso. A Pedra Silenciosa fez seu estrago.
— Quem…? — o garoto balbucia, piscando.
Do meu lado, a irmã dele se mexe, desperta depois de eu ter chacoalhado seus ombros de leve. Ela pisca para mim, e suas sobrancelhas se juntam, confusas.
— É hora da caminhada? — ela pergunta com a voz aguda e arfante. — Não vamos fazer bagunça, prometo.
— É — digo, aproveitando a chance. — Vamos dar uma caminhada para longe da Pedra. Mas vocês dois precisam ficar bem quietinhos e fazer exatamente o que dissermos.
Não é mentira, e deixa os dois bastante animados. Charlotta chega até a passar os braços ao redor do meu pescoço para me deixar pegá-la no colo. É mais leve do que eu esperava, mais um passarinho do que uma menina. Sua pele parece fresca e limpa. Se não fosse a Pedra Silenciosa, diria que estavam sendo bem tratados.
Michael se aninha no colo do sentinela Haven.
— Você é novo — ele diz, levantando os olhos para o sombrio.
Tomo um fôlego restaurador quando voltamos ao corredor, deixando a opressão do quarto. As crianças suspiram. Charlotta relaxa nos meus braços.
— Lembrem: façam o que dissermos — murmuro, desviando os olhos daquilo que Rydal e Niro prepararam.
O garoto faz que sim, mas ela levanta os olhos para mim com uma expressão intensa que eu não esperava encontrar numa criança.
— Está nos resgatando? — Charlotta sussurra.
Não vejo motivo para mentir, mas as palavras entalam mesmo assim. Porque posso falhar. Posso acabar deixando os dois morrerem. Eu mesma posso morrer na tentativa.
— Estou — digo com esforço.
— Deixe-me ver os dois. — Niro não perde tempo, acendendo uma lanterna no rosto de ambos que ofusca até a mim.
— Shhh — murmuro quando Michael geme. Lanço um olhar fulminante para Niro por cima da cabeça da garota, mas ele me ignora, focado nas crianças. Os olhos dele vão de um lado para o outro enquanto memoriza seus traços. Quando se volta para o pacote no chão, não consigo desviar os olhos rápido o bastante. Acabo vendo de relance os pequenos corpos de dois vermelhos. Ainda respiram. Sob o efeito de drogas pesadas, alheios demais para acordar sem ajuda. Mas ainda respiram.
Niro precisa de carne viva para trabalhar.
O sentinela Haven se vira como eu, dando as costas para o curandeiro e os vermelhos. Não podemos deixar que as crianças vejam o que estão fazendo. E não queremos assistir ao processo.
Fraca, algo dentro de mim sussurra quando estremeço ao som da lâmina sendo desembainhada. Mantenha os olhos abertos, Iris Cygnet.
— Que talento! — ouço Niro dizer a si mesmo com uma voz lupina e cheia de alegria.
O trabalho dele é na maior parte silencioso.
Mas só na maior parte.

15 comentários:

  1. Eu tava quase achando que as crianças estariam com síndrome de Estocolmo e não iriam se deixar serem resgatadas. Mas aí ela pegou na maçaneta de perda silenciosa... e eu vi que eles tinham que sair dali mesmo.

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  2. Ele vai desfigurar as crianças vermelhas?
    ~Diane

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    1. Não diane ele vai deixar elas iguais a as que estão resgatadas e depois matar elas para dizer que elas morreram só que elas fugir assim ninguém desconfia
      Bem é o que eu acho
      ~karla

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  3. "Ninguém nutre tamanha obsessão. E não pode ser amor. Ninguém que é capaz de amar age como Maven."
    Disse tudo... Eu torci pra ela conseguir sem me importar se era bom ou não, mas quando chegou no final fiquei: "O quê???" E lembrei que nada é bom em uma guerra.

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  4. Incrível, crianças prateadas mantidas em um quarto com porta de pedra silenciosa, porém sendo bem cuidadas, na medida do possível para prisioneiros é torturante e cruel, pegar crianças vermelhas e retalhar os rostos delas e certamente depois a matarem, ai tudo bem né ?
    Eu de fato não consigo gostar dela.

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  5. Que maldade! Tudo bem que é guerra declarada, e que alem do fato dos prateados e os vermelhos se odiarem, ha um grande preconceito por parte dos prateadosprateados cachaçados de nascença sempre se acharem superiores, ainda não consigo deixar de me sentir revoltada com aa hipocrisia da situação. Da raiva. Sacrificar duas crianças de sangue vermelho pode, fazer indiferença quanto o que maré barrow sofreu na prisão dela OK, mas em se tratando de duas crianças prateafdas, nem pensar? AhAh kirida, vai soltar peido na agua por favor.




    Amando o talento de victoria, agradecendo de verdade a Karina pelo seu esforco com o blog. Vicios da vida em que me vejo perdida...

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  6. Essa parte me incomodou por ser tão óbvio, desde o momento em q foi acionado o alarme deu para desconfiar, quando ficaram presos foi a tampa do caixão. Espero que a autora de uma reviravolta genial, pq fiquei decepcionada.

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  7. Concordo, é uma monstruosidade o que vão fazer com as crianças vermelhas, as coitadas são tão inocentes quanto as prateadas.. A Iris é realmente um poço de preconceito e ignorância prateada :/

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  8. Mudando de assunto, vocês não acharam muito fácil esse resgate? Eu achei, fiquei esperando alguma armadilha o tempo todo..Tipo, o príncipe Braeken disse que tentou várias vezes e ninguém conseguiu resgatar as crianças, mas gente, qualquer grupo de prateados teria condições de fazer esse resgate, até porque, tirando o fato de que eles estão numa câmara secreta, a segurança ali é precária.. Como assim ninguém conseguiu? Ele tinha as informações..

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    1. Vamos dizer apenas que ao aviatarem as majestosas e petroficadas montanhaa de montfort eles fugiram em disparada devolta para casacasa com medo e fingiram que falharam. Algo que de fato aconteceu

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  9. Confesso que com toda aquela batalha na floresta, cheguei pensar que pudesse ser a Iris, mas quando só apareceu saqueadores pensei que estava com a imaginação muito fértil...rsrsrs, e acabou que estava certa tudo plano da Iris. Sim ela é basante esperta e inteligente, mas esse resgate vai prejudicar bastante o Cal a Guarda Escarlate! Mas me deu pena pelas crianças por estarem refém de pedras silenciosa a Mare sofreu tanto por causa delas! DM

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Boa leitura, E SEM SPOILER!