2 de junho de 2018

Capítulo cinco


Mare

O JATO PARECE LENTO NO AR, mais pesado que o normal. Balanço contra o equipamento de segurança, de olhos fechados. A movimentação da aeronave e o zumbido reconfortante da eletricidade me deixam sonolenta. O motor trabalha com tranquilidade, apesar do peso extra. Mais carga. O jato está lotado dos espólios de Corvium. Munição, pistolas, explosivos, armas de todo tipo. Uniformes militares, rações, combustível, baterias. Até cadarços. Metade vai para Piedmont agora, e o resto está em outro jato, que segue para as montanhas de Davidson. Montfort e a Guarda Escarlate não são de desperdiçar. Fizeram a mesma coisa depois do ataque a Whitefire, pegando tudo o que podiam do palácio apesar do tempo tão limitado. Principalmente dinheiro, retirado do tesouro depois que ficou claro que Maven estava longe do nosso alcance. Aconteceu em Piedmont também. É por isso que a base ao sul parece vazia, tanto os alojamentos quanto os prédios administrativos que antes deviam reunir grandes conselhos de guerra. Nada de quadros, nada de estátuas, nada de louças ou talheres refinados. Nenhuma das convenções que os prateados tanto prezam. Nada além do necessário. O resto é desmantelado, vendido, reutilizado. Guerras não são baratas. Só podemos manter o que tem utilidade.
Por isso Corvium desmorona atrás de nós. Porque não é mais útil.
Davidson argumentou que deixar uma tropa seria tolice, um desperdício. A cidade-fortaleza foi construída para conduzir ao Gargalo soldados que lutariam contra Lakeland. Com a guerra terminada, perdeu seu propósito. Não há rio para proteger, nem recursos estratégicos. É só mais uma das muitas estradas que levam a Lakeland. Corvium se tornou pouco mais que uma distração. E, embora a cidade fosse nossa, ficava nas profundezas do território de Maven, perto demais da fronteira. O Exército de Lakeland poderia invadi-la sem aviso, ou o próprio rei poderia retornar com força total. Talvez ganhássemos de novo, mas à custa de outras mortes. Em troca de pouco mais que alguns muros no meio do nada.
Os prateados se opuseram. Claro. Acho que devem fazer um juramento de sangue de que vão discordar de tudo o que os vermelhos dizem. Anabel deixou seu ponto de vista claro.
— Todos aqueles mortos, todo o sangue derramado nesses muros, e vocês querem desistir da cidade? Pareceríamos tolos! — ela zombou, olhando feio do outro lado da câmara do conselho. A velha mulher encarava Davidson como se ele tivesse duas cabeças. — Cal teve sua primeira vitória, sua bandeira foi hasteada…
— Não vejo nenhuma bandeira — Farley interrompeu, seca como um osso.
Anabel a ignorou. Ela seguiu em frente, parecendo capaz de destruir a mesa sob seus dedos. Cal se manteve em silêncio ao seu lado, com os olhos em chamas enquanto encarava as próprias mãos.
— Vamos parecer fracos se abandonarmos a cidade — a velha rainha disse.
— Me importo muito pouco com as aparências, majestade. Prefiro me concentrar no estado real das coisas — Davidson respondeu. — Fique à vontade para deixar uma tropa aqui para manter o controle de Corvium, mas nenhum soldado de Montfort ou da Guarda Escarlate vai ficar.
Aquilo a fez retorcer os lábios, mas qualquer resposta que tivesse morreu em sua garganta. Anabel não tinha nenhuma intenção de desperdiçar soldados próprios daquela maneira. Ela voltou a se acomodar no assento e tirou os olhos de Davidson, voltando-os para Volo Samos. Mas ele tampouco cederia seus soldados, e manteve-se em silêncio.
— Se é para deixar a cidade, vamos deixá-la em ruínas. — Tiberias cerrou os punhos sobre a mesa. Lembro disso claramente, dos nós de seus dedos brancos de tão apertados. Ainda havia sujeira sob suas unhas, e provavelmente sangue também. Foquei nas suas mãos para não ter que encarar seu rosto. Era fácil demais ler suas emoções, e eu ainda não queria nenhum contato com elas. — Contingentes especiais de cada exército — ele continuou. — Oblívios de Lerolan, gravitrons e bombardeiros sanguenovos. Qualquer um que possa causar destruição. Despojar a cidade de seus recursos, depois transformá-la em cinzas e inundar o que tiver sobrado. Não podemos deixar nada que Maven ou Lakeland possam usar.
Ele não levantou os olhos enquanto falava, incapaz de encarar quem quer que fosse. Deve ter sido difícil ordenar a destruição de uma de suas cidades. Um lugar que Cal conhecia, que seu pai havia protegido, e seu avô antes dele. Tiberias valoriza o dever e a tradição, e os dois ideais estão gravados em seus ossos. Mas não tive pena dele, e tenho ainda menos agora, enquanto avançamos na direção de Piedmont.
Corvium não era nada além do portão para um cemitério de vermelhos. Fico feliz que tenha sido destruída.
Mesmo assim, sinto um desconforto na boca do estômago. De olhos fechados, ainda vejo Corvium queimando, as paredes desmoronando, dilaceradas por rajadas de explosivos, os prédios indo ao chão pela manipulação da gravidade, os portões de metal retorcidos. A fumaça corre pelas ruas. Ella, uma eletricon como eu, criou uma tempestade para derrubar a torre principal, seus trovões azuis furiosos quebrando a pedra. Ninfoides de Montfort, sanguenovos muito poderosos, usaram os córregos mais próximos e até um rio para varrer os destroços até um lago distante. Nada de Corvium escapou. Uma parte até afundou, com o colapso dos túneis sob a cidade. O resto foi deixado em alerta, como antigos monólitos que sofreram a ação de milhares de anos, e não poucas horas.
Quantas cidades vão ter esse mesmo destino?
Primeiro, penso em Palafitas.
Faz quase um ano que não vejo o lugar onde cresci. Desde que meu nome era Mareena e me vi no deque de um navio real, observando as margens do rio Capital com um fantasma ao meu lado. Elara estava viva naquela época, e o rei também. Eles me forçaram a olhar quando passamos pelo meu vilarejo, onde o povo estava reunido à beira d’água por causa da ameaça declarada do açoite e da prisão. Minha família também estava lá. Me concentrei em seus rostos, não no lugar. Palafitas nunca foi meu lar. Minha família é.
Eu ligaria se o vilarejo desaparecesse agora? Se ninguém se machucasse, mas as casas, o mercado, a escola, a arena, se tudo fosse destruído? Alvo do fogo, de enchentes, ou simplesmente sumisse?
Não sei dizer.
Mas certamente há lugares que deveriam se juntar às ruínas de Corvium.
Nomeio aqueles que quero destruir, amaldiçoando-os.
Cidade Cinzenta, Cidade Alegre, Cidade Nova. E todas as outras como elas.
As favelas dos técnicos me lembram de Cameron. Ela dorme na minha frente, restrita pelos cintos de contenção. Sua cabeça pende, seu ronco é quase indistinguível do barulho do motor. Sua tatuagem se insinua por baixo da gola. Tinta preta contra a pele marrom-escura. Sua profissão — ou melhor, sua prisão — foi marcada nela, há muito tempo. Só vi uma cidade de técnicos à distância, e a lembrança ainda me traz náuseas. Nem posso imaginar como é crescer em uma, condenada a uma vida em meio à fumaça.
As favelas vermelhas precisam acabar.
Seus muros têm que queimar também.


Aterrissamos na base de Piedmont em meio a um aguaceiro no fim da manhã. Fico ensopada depois de dar três passos na pista, em direção à fila de veículos que nos aguarda. Farley é muito mais rápida que eu, desesperada para voltar para Clara. Ela mal consegue pensar em outra coisa, e ignora o coronel e o resto dos soldados que vêm nos cumprimentar. Me esforço para me manter em seu encalço, num ritmo que não me é fácil. Tento não olhar para o outro jato, dos prateados. Eu os ouço acima da chuva, marchando pelo campo pavimentado com toda a sua pompa. A chuva escurece suas cores, enlameando o laranja dos Lerolan, o amarelo dos Jacos, o vermelho dos Calore e o prata dos Samos. Evangeline tomou o cuidado de abandonar a armadura. Roupas de metal não são exatamente seguras numa tempestade.
Pelo menos o rei Volo e o resto dos lordes prateados não nos seguiram até aqui. Eles estão a caminho do reino de Rift, se é que ainda não chegaram. Só os prateados que vão a Montfort amanhã fizeram a viagem para Piedmont. Anabel, Julian, seus vários guardas e conselheiros, Evangeline e, é claro, Tiberias.
Quando entro no interior seco de um veículo, vejo-o de relance, ensimesmado como uma nuvem carregada. Tiberias, o único deles que está familiarizado com a base de Piedmont, fica separado dos outros. Anabel deve ter trazido mais roupas apropriadas à corte para ele. É a única explicação para sua capa comprida e suas botas reluzentes, além dos trajes refinados que usa por baixo. A essa distância, não sei se está de coroa. Apesar das roupas nobres, ninguém poderia confundi-lo com Maven. As cores de Tiberias são inversas. A capa é vermelho-sangue, assim como as vestes, decoradas com preto e o prata real. Ele cintila na chuva, brilhando como uma chama. E observa, com as sobrancelhas escuras franzidas, sem se mover sob a chuva que se abre sobre nós.
Sinto o primeiro relâmpago antes que apareça no céu. Ella os estava impedindo para que pudéssemos aterrissar. Agora precisa libertá-los.
Desvio o olhar da janela do veículo e me apoio contra o vidro. Conforme aceleramos, tento me libertar de algumas coisas também.
A casa cedida à minha família parece exatamente igual a quando fui embora alguns dias atrás, ainda que mais molhada. A chuva castiga as janelas, afogando as flores nas jardineiras. Tramy não vai gostar disso. Ele ama essas flores.
Vai poder plantar tantas quanto quiser em Montfort. Vai poder plantar um jardim inteiro, e passar a vida vendo as flores desabrocharem.
Farley pula do veículo antes mesmo que pare, espirrando água ao pisar em uma poça. Hesito, por uma série de razões.
É claro que tenho que falar com minha família sobre Montfort. Só posso esperar que concordem em ficar lá, mesmo depois que eu for embora de novo. Já deveríamos ter nos acostumado com isso, mas dar as costas nunca fica mais fácil. Eles não podem me impedir fazê-lo, e eu tampouco posso impedi-los caso se recusem a ir. Estremeço diante dessa ideia. Saber que estão a salvo é o único santuário que me resta.
Mas a discussão inevitável é um sonho se comparada ao que tenho que admitir. Cal escolheu a coroa. Não eu. Não nós dois.
Dizer isso torna tudo real.
A poça do lado de fora é mais funda do que eu pensava, molhando acima das botas curtas e fazendo um arrepio de frio disparar pelas minhas pernas. A distração é bem-vinda, e eu sigo Farley na subida dos degraus que levam até a porta que se abre.
Um borrão de Barrows me puxa para dentro. Minha mãe, Gisa, Tramy e Bree orbitam à minha volta. Meu velho amigo Kilorn está com eles, e avança um passo para dar um aperto breve e firme no meu ombro. Sinto uma onda de alívio ao vê-lo. Não estava pronto para lutar em Corvium, e ainda estou feliz por ter concordado em ficar para trás.
Meu pai fica mais para trás, esperando que eu o abrace direito, sem ninguém para atrapalhar. Talvez isso leve um bom tempo, considerando que minha mãe não parece disposta a me largar. Ela joga o braço sobre meus ombros e me puxa para perto. Suas roupas cheiram a limpeza e frescor, orvalho da manhã e sabão. Nem um pouco como era em Palafitas. Meu status no Exército, seja qual for, permite que minha família tenha luxos com que não estava acostumada. A própria casa, antes os aposentos de algum oficial, é ostensiva se comparada àquela em que morávamos. Embora a decoração seja esparsa, o essencial é muito bem-feito e bem cuidado.
Farley só tem olhos para Clara. Enquanto mal consigo passar da porta da frente, ela já segura a filha no colo, deixando-a descansar a cabeça em seu ombro. Clara boceja e esfrega o rosto na mãe, tentando retornar à soneca interrompida. Quando pensa que ninguém está olhando, Farley abaixa o rosto e enfia o nariz na cabecinha cheia de fios castanhos da filha. Ela fecha os olhos para sentir seu cheiro.
Enquanto isso, minha mãe dá mais uma dezena de beijos na minha têmpora, sorrindo.
— De volta ao lar — ela murmura.
— Então eles conseguiram — meu pai diz. — Corvium se foi.
Me solto da minha mãe por tempo suficiente para conseguir dar um abraço direito nele. Ainda não nos acostumamos a esse tipo de contato sem que meu pai esteja preso a uma cadeira de rodas. Apesar dos longos meses de recuperação com a ajuda de Sara Skonos, assim como dos curandeiros e enfermeiros do Exército de Montfort, nada pode apagar todos aqueles anos da nossa memória. A dor continua ali, impressa no cérebro dele. E imagino que deva ser assim. Esquecer não parece certo.
Ele se apoia em mim, mas não com todo o peso, como costumava acontecer, e eu o conduzo até a sala de estar. Trocamos um sorriso amargo, um costume só nosso. Meu pai também foi um soldado, por mais tempo que qualquer um de nós. Ele entende como é encarar a morte e retornar. Tento imaginar quem ele foi, por baixo das rugas e do bigode áspero ficando grisalho, por trás dos olhos. Tínhamos poucas fotos em casa. Não sei quantas sobreviveram ao refúgio na Ilha de Tuck, então à base em Lakeland, e chegaram aqui. Uma delas se destaca na minha memória. É uma imagem antiga, desgastada nas bordas, um pouco distorcida e desbotando. Meus pais posaram para ela há muito tempo, antes de Bree nascer. Eram adolescentes, crianças de Palafitas, como eu fui. Meu pai não devia ter dezoito anos. Ainda não tinha se alistado, e minha mãe era só uma aprendiz. Ele era tão parecido com Bree, meu irmão mais velho. O mesmo sorriso, a boca quase larga demais, emoldurada por covinhas. As sobrancelhas retas e grossas abaixo da testa alta. Orelhas um pouco grandes demais. Tento não pensar nos meus irmãos envelhecendo igual ao meu pai, sujeitos às mesmas dores e preocupações. Quero me certificar de que não tenham o mesmo destino dele — ou de Shade.
Bree se joga numa poltrona perto de mim, cruzando os pés descalços sobre o tapete simples. Franzo o nariz. Pés masculinos não são muito agradáveis.
— Já foi tarde — Bree diz, referindo-se a Corvium.
Tramy assente em concordância. Sua barba castanho-escura continua se enchendo.
— Não vou sentir falta — ele completa. Os dois são soldados, como meu pai. Ambos conhecem a fortaleza bem o bastante para odiar sua memória. Eles trocam um sorriso, como se tivessem vencido um jogo.
Meu pai é mais contido. Ele senta em outra cadeira, esticando a perna nova.
— Os prateados vão construir outra igual. É o que fazem. Eles não mudam. — Ele procura meu olhar. Sinto um buraco no estômago quando me dou conta do que está tentando dizer. Minhas bochechas queimam com a sugestão. — Não é verdade?
Envergonhada, volto-me para Gisa, procurando-a depressa. Seus ombros murcham e ela suspira, assentindo de leve. Minha irmã fica cutucando a própria manga para evitar meus olhos.
— Então vocês já sabem — digo, com a voz vazia e sem emoção.
— Não tudo — ela diz. Seus olhos se voltam para Kilorn, e eu posso apostar que foi ele quem deu a notícia, deixando de fora as partes mais dolorosas da minha mensagem de ontem à noite. Nervosa, Gisa enrola uma mecha de cabelo no dedo. O vermelho-escuro dos fios brilha. — Mas o bastante para concluir o resto. Algo sobre outra rainha, um novo rei e Montfort, claro. Sempre Montfort.
Kilorn retorce os lábios apertados. Passa a mão pelo cabelo loiro desgrenhado, espelhando o desconforto de Gisa. Também sente raiva. Ela vem à tona, acendendo seus olhos verdes.
— Não consigo acreditar que ele disse sim.
Só consigo assentir.
— Covarde — Kilorn solta, cerrando os punhos. — Covarde e idiota. Inútil. Bastardo mimado. Eu devia quebrar a cara dele.
— Eu ajudo — Gisa murmura.
Ninguém os repreende. Nem mesmo eu, embora Kilorn certamente espere isso. Ele olha para mim, surpreso com meu silêncio. Sustento seu olhar, tentando falar sem dizer o nome do meu irmão. Shade deu a vida pela causa, e Tiberias não consegue nem abrir mão da coroa.
Fico pensando se Kilorn sabe que meu coração está partido. Provavelmente sim.
Foi essa a sensação de quando afastei Kilorn? Quando disse que não sentia o mesmo? Que não estava disposta a dar o que ele queria?
Seu olhar abranda, sentindo pena. Espero que Kilorn não conheça essa sensação. Espero que eu não tenha lhe causado tanta dor assim. Você simplesmente não consegue me amar, ele disse uma vez. Agora eu queria que não fosse verdade. Queria poder salvar nós dois dessa agonia.
Fico feliz quando minha mãe coloca a mão em meu braço. É um toque leve, mas suficiente para me guiar até o sofá. Ela não diz nada sobre o príncipe Calore, e o olhar que lança para a sala toda passa o recado. Já chega.
— Recebemos sua mensagem — ela diz, um pouco alto e claro demais para forçar a mudança de assunto. — Daquele outro sanguenovo, de barba…
— Tahir — Gisa ajuda enquanto senta ao meu lado. Kilorn se coloca atrás de nós. — Você decidiu nos realocar. — Ainda que queira a mudança, não deixo de notar seu tom cortante. Minha irmã pisca para mim, com uma sobrancelha erguida.
Suspiro alto.
— Bom, não posso tomar essa decisão por vocês. Mas, se quiserem ir, tem lugar para todos. O primeiro-ministro disse que seriam recebidos de braços abertos.
— E os outros? — Tramy pergunta. Ele estreita os olhos enquanto se apoia no braço da poltrona de Bree. — Não somos os únicos que foram mandados para cá.
Ele leva uma cotovelada nas costelas e se dobra enquanto Bree dá risada.
— Está pensando naquela escrevente? A de cabelo cacheado, qual é o nome dela mesmo?
— Não — Tramy resmunga de volta, com as bochechas ficando vermelhas embaixo da barba. Bree faz menção de apontar para seu rosto corado, mas leva um tapa. Meus irmãos têm certa propensão a agir como crianças. Isso sempre me irritou, mas agora não mais. A normalidade deles me agrada.
— Vai levar um tempo. — Só posso dar de ombros. — Mas para nós…
Gisa resmunga alto. Ela joga a cabeça para trás, exasperada.
— Para você, Mare. Não somos tolos de pensar que o líder da República quer fazer um favor para a gente. O que vai ter em troca? — Com seus dedos ligeiros, ela pega minha mão e a aperta. — O que vai dar a ele em troca?
— Davidson não é prateado — digo. — Estou disposta a dar o que ele quer.
— E quando vai poder parar de dar o que os outros querem? — ela retruca. — Quando morrer? Quando terminar como Shade?
O nome faz todo mundo ficar em silêncio. Da porta, Farley vira o rosto, escondendo-o nas sombras.
Encaro Gisa, procurando pelo rosto bonito da minha irmã. Ela está com quinze anos, amadurecendo. Seu rosto costumava ser mais redondo e suas sardas menos numerosas. Não tinha as preocupações de agora. Só as de sempre. Antes, era na pequena Gisa em quem todos confiávamos. Em suas habilidades, em seu talento. Em sua capacidade de salvar nossa família. Agora não mais. Ela não guarda rancor da perda daquele peso que levava nas costas. Mas sua preocupação é clara. Não quer que resida sobre meus ombros agora.
Tarde demais.
— Gisa — minha mãe diz, em um alerta baixo.
Eu me recupero como posso, puxando a mão de volta. Endureço a coluna.
— Precisamos de mais tropas, e o governo do primeiro-ministro tem que aprovar o pedido antes que sejam enviadas. Vou ajudar a apresentar nossa coalizão, mostrando a eles quem somos. Só preciso fazer uma defesa convincente da guerra contra Norta e Lakeland.
Minha irmã não cede.
— Sei que você discursa bem, mas nem tanto.
— Não, mas sou o ponto em comum — digo, dançando em torno da verdade. — Entre a Guarda Escarlate, a corte prateada, os sanguenovos e os vermelhos. — Pelo menos não estou mentindo. — E adquiri bastante experiência em impressionar.
Farley coloca uma mão na cintura enquanto embala o bebê com o outro braço. Ela passa o dedo pelo coldre na lateral do corpo.
— Mare está tentando dizer que ela é uma boa distração. Cal a segue aonde quer que vá. Mesmo agora, quando está tentando recuperar o trono. Ele vai conosco para Montfort, assim como sua noiva.
Ouço Kilorn sibilar atrás de mim.
Gisa fica igualmente enojada.
— Só eles mesmo para arranjar um casamento no meio de uma guerra.
— Por outra aliança, não é? — Kilorn escarnece. — Maven fez isso. Conseguiu Lakeland. Cal precisa fazer o mesmo. E quem é ela? Alguma garota de Piedmont? Para cimentar o que está sendo feito aqui?
— Não importa quem é. — Minhas mãos se cerram enquanto me dou conta de que tenho sorte de ser Evangeline. Alguém que não quer nada com ele. Outra fenda em sua armadura flamejante.
— E você vai simplesmente deixar que aconteça? — Kilorn sai de trás do sofá com passadas constantes de suas pernas compridas. Ele olha de Farley para mim. — Não, desculpa, você vai ajudar? Ajudar Cal a lutar por uma coroa que ninguém deveria ter? Depois de tudo o que fizemos? — Ele está tão chateado que quase espero que cuspa no chão.
Mantenho a expressão inalterada, impassível, enquanto deixo que ponha tudo para fora. Não me lembro de outra ocasião em que tenha ficado tão decepcionado comigo. Com raiva, sim, mas não desse modo. Seu peito sobe e desce depressa enquanto espera uma explicação.
Farley oferece uma por mim.
— Montfort e a Guarda Escarlate não vão lutar duas guerras — ela diz, sem se alterar, enfatizando as palavras. Transmitindo a mensagem. — Temos que lidar com nossos inimigos um de cada vez. Consegue entender?
Minha família parece ficar tensa ao mesmo tempo, com olhares mais sombrios. Principalmente meu pai. Ele passa o dedão pela linha do maxilar, pensativo, enquanto seus lábios se transformam em uma linha fina. Kilorn é menos contido. Fagulhas verdes saem de seus olhos.
— Ah — ele murmura, quase sorrindo. — Entendi.
Bree pisca.
— Hum… eu não.
— Não é de surpreender — Tramy murmura.
Eu me inclino para falar, disposta a fazer com que todos me entendam.
— Não vamos dar o trono a outro rei prateado. Pelo menos não por muito tempo. Os irmãos Calore estão em guerra, gastando suas forças para lutar um contra o outro. Quando a poeira baixar…
Meu pai apoia a mão no joelho. Noto o tremor em seus dedos. Os meus estão iguais.
— Vai ser mais fácil lidar com o vencedor.
— Chega de reis — Farley diz. — Chega de reinos.
Não tenho ideia de como seria esse mundo. Mas talvez tenha em breve, se Montfort for tudo o que prometeram.
Mas não acredito mais em promessas.


Não nos damos ao trabalho de sair discretamente. Meus pais roncam como trens, e meus irmãos não vão tentar me impedir. A chuva ainda não parou, mas Kilorn e eu não nos importamos. Descemos a rua de casas geminadas sem conversar, o único barulho vindo dos nossos pés batendo nas poças enquanto a tempestade retumba à distância. Mal posso senti-la agora que a espiral de raios e trovões se afasta para a costa. Não está muito frio, e a base é bem iluminada. Não temos um destino. Nenhuma direção além de em frente.
— Ele é um covarde — Kilorn murmura, chutando um pedregulho solto. Ele quica, produzindo ondulações na rua molhada.
— Você já disse isso — retruco. — E algumas coisas mais.
— Bom, estava falando sério.
— Ele merece cada palavra.
O silêncio recai sobre nós como uma cortina pesada. Ambos sabemos que é um território perigoso. Minha vida amorosa não é exatamente o assunto preferido dele, e eu não quero causar ainda mais dor no meu amigo mais próximo do que já causei no passado.
— Não precisamos…
Ele me interrompe, pondo a mão no meu braço. Seu toque é firme, mas amistoso. Os limites entre nós estão claramente delineados, e Kilorn valoriza minha amizade o suficiente para não os atravessar. E talvez nem sinta mais o mesmo de antes. Mudei tanto nos últimos meses. É possível que a garota que ele achava que amava tenha desaparecido. Sei como é isso também, amar alguém que não existe de verdade.
— Sinto muito — ele diz. — Sei o que ele significa para você.
Significava — rosno, tentando me soltar.
Mas ele mantém o aperto.
— Não, não falei errado. Ele ainda significa algo para você, mesmo que não queira admitir.
Não vale a pena discutir.
— Está bem. Eu admito — me forço a dizer por entre os dentes cerrados. Está escuro o bastante para que talvez não note meu rosto ficando vermelho. — Pedi ao primeiro-ministro… — começo a murmurar. Kilorn vai entender. Ele tem que entender. — Que o deixasse vivo. Quando o momento chegar, quando nos voltarmos contra ele. Acha que fui fraca?
A expressão de Kilorn se desfaz. As luzes impiedosas dos postes o iluminam por trás, produzindo uma espécie de auréola. É um garoto bonito, se é que já não pode ser considerado um homem. Gostaria que meu coração fosse dele, e não de outra pessoa.
— Acho que não — ele diz. — Acho que o amor pode ser explorado, usado para manipular. É uma vantagem. Mas nunca chamaria amar alguém de fraqueza. Acho que viver sem amor, sem nenhum tipo de amor, é uma fraqueza. E a pior escuridão de todas.
Engulo em seco. As lágrimas já não parecem tão imediatas.
— Quando você ficou tão sábio?
Ele sorri, enfiando as mãos nos bolsos.
— Agora eu leio.
— Livros com imagens?
Ele volta a andar com uma gargalhada.
— Você é tão simpática.
Acompanho seu passo.
— É o que dizem por aí — retruco, olhando para sua figura esguia. Seu cabelo está ensopado agora, o que o deixa mais escuro. Quase castanho. Kilorn talvez pareça com Shade forçando a vista. De repente sinto tanta falta do meu irmão que mal posso respirar.
Não vou perder mais ninguém como perdi Shade. É uma promessa vazia, sem garantias. Mas eu preciso de algum tipo de esperança, por menor que seja.
— Vai para Montfort comigo? — As palavras me escapam, e não posso retirá-las. É um pedido egoísta. Kilorn não precisa me seguir aonde quer que eu vá. E não tenho o direito de exigir nada dele. Mas não quero deixá-lo para trás outra vez.
Seu sorriso em resposta desfaz qualquer medo que eu pudesse ter.
— Posso ir? Achei que era algum tipo de missão.
— E é. Mas estou dizendo que pode.
— Porque é seguro — ele diz, me olhando de soslaio.
Aperto os lábios, procurando uma resposta que vá aceitar. Sim, é seguro. Ou o mais próximo de seguro possível. Não é errado querer mantê-lo longe do perigo.
Kilorn faz uma carícia no meu braço.
— Eu entendo — ele continua. — Olha, não acho que vou inundar uma cidade ou derrubar aviões do céu. Sei das minhas limitações, e quantas tenho em comparação com o restante de vocês.
— O fato de não poder matar alguém com um estalar de dedos não significa que é menos importante do que os outros — disparo de volta, quase eletrificada com a indignação repentina. Queria poder listar todas as qualidades incríveis de Kilorn. Tudo que o torna importante.
Sua expressão fica azeda.
— Não precisa me lembrar.
Pego seu braço, enfiando as unhas no tecido molhado. Ele não para de andar.
— Estou falando sério, Kilorn — insisto. — Você vai comigo?
— Tenho que ver minha agenda.
Dou uma cotovelada em suas costelas, e ele se afasta com uma careta exagerada.
— Não faz isso. Você sabe que sou mais delicado que um pêssego.
Dou mais uma cotovelada nele para que aprenda, e rimos tão alto quanto ousamos.
Seguimos em frente, caindo em um silêncio fácil. Dessa vez, não é tenso. Minhas preocupações de sempre se esvaem, ou pelo menos se retraem por um bom tempo. Kilorn também é meu lar, tanto quanto minha família. Sua presença é uma bolha no tempo, um lugar onde podemos existir sem maiores consequências. Sem nada antes, nem nada depois.
No fim da rua, uma figura se materializa na chuva, em meio à escuridão e à luz. Reconheço a silhueta antes que meu corpo tenha tempo de reagir.
Julian.
O prateado desajeitado hesita ao nos ver. Dura apenas um segundo, mas é o bastante para que eu saiba. Ele escolheu um lado, e não é o meu. O frio se espalha pelo meu corpo inteiro, dos pés à cabeça. Até Julian.
Kilorn me cutuca conforme ele se aproxima.
— Posso voltar — ele sussurra.
Olho para Kilorn brevemente, tentando tirar minhas forças dele.
— Não, por favor.
Sua testa se franze em preocupação, mas ele só assente de leve.
Meu antigo tutor usa vestes longas apesar da chuva. Ele tenta torcer as dobras do tecido amarelo desgastado. Não adianta. A chuva continua caindo forte, alisando seus leves cachos grisalhos.
— Achei que fosse encontrar você em casa — ele fala por cima do barulho do aguaceiro. — Bom, sinceramente, estava esperando que estivesse indisposta, de modo que só precisássemos fazer isto pela manhã. E não nesse inferno molhado. — Julian sacode a cabeça como um cachorro, então tira o cabelo dos olhos.
— Diga o que veio dizer, Julian. — Cruzo os braços. A temperatura cai conforme a noite avança. Quase sinto um calafrio, ainda que esteja na abafada Piedmont.
Julian não responde. Seus olhos vão para Kilorn, e ele levanta uma sobrancelha em um questionamento silencioso.
— Tudo bem — digo, respondendo antes que diga qualquer coisa. — É melhor falar antes que a gente se afogue aqui.
Meu tom endurece, assim como o de Julian. Ele não é bobo. Sua expressão se desfaz ao ler a decepção estampada na minha cara.
— Sei que se sente abandonada — ele começa, escolhendo suas palavras com um cuidado enlouquecedor.
Não consigo evitar me eriçar.
— Se atenha aos fatos. Não vou ouvir um sermão sobre o que tenho ou não o direito de sentir.
Ele só pisca, aceitando minha resposta. Então faz uma pausa, longa o bastante para que uma gota de chuva role por seu nariz reto. Faz isso para me avaliar, me medir, me estudar. Pela primeira vez, seus modos tranquilos me fazem querer pegá-lo pelos ombros e sacudi-lo até arrancar palavras impulsivas.
— Muito bem — ele diz, com a voz baixa e ferida. — Então, me atendo aos fatos, ou ao que logo será história, ainda vou acompanhar meu sobrinho em sua jornada ao oeste. Gostaria de ver a República Livre com meus próprios olhos, e acho que posso ser útil a Cal lá. — Julian faz menção de dar um passo à frente, aproximando-se de mim, mas volta atrás e mantém distância.
— Tiberias tem algum interesse secreto em história que desconheço? — zombo, as palavras saindo mais duras que o normal.
Ele parece arrasado; isso está muito claro. Mal consegue me olhar nos olhos. A chuva faz seu cabelo grudar na testa, se acumula em seus cílios, cutuca-o de leve. De alguma forma o suaviza, como se levasse embora os dias. Julian parece mais novo do que quando o conheci, quase um ano atrás. Menos seguro de si. Cheio de preocupações e dúvidas.
— Não — ele admite. — Embora eu normalmente encoraje meu sobrinho a obter o máximo possível de conhecimento, há algumas coisas que eu gostaria de manter longe dele. Algumas pedras que ele não deveria perder o tempo tentando revirar.
Levanto uma sobrancelha.
— O que quer dizer com isso?
Julian franze a testa.
— Imagino que tenha mencionado suas esperanças relativas a Maven. Antes.
Antes de escolher a coroa em meu lugar.
— Sim — sussurro, me sentindo pequena.
— Ele acredita que pode haver alguma maneira de consertar o irmão. Curar as feridas abertas por Elara Merandus. — Julian balança a cabeça devagar. — Mas não se pode completar um quebra-cabeça com peças faltando. Ou remontar um painel de vidro estilhaçado.
Meu estômago se contorce com o que já sei. O que vi em primeira mão.
— É impossível.
Julian assente.
— É impossível e uma esperança vã. Uma busca fadada ao fracasso desde o princípio, e que só pode partir o coração do garoto.
— O que faz você pensar que ainda me importo com o coração dele? — desdenho, sentindo o sabor amargo daquela mentira.
Julian dá um passo cuidadoso para a frente.
— Não seja tão dura com ele — murmura.
Respondo sem nem piscar:
— Como ousa me dizer isso?
— Mare, você lembra o que encontrou naqueles livros? — ele pergunta, enrolando-se nas próprias vestes. Sua voz assume um tom de súplica. — Recorda as palavras?
Estremeço, e não por causa da chuva.
Não fomos escolhidos, mas amaldiçoados.
— Sim — ele retruca, assentindo com fervor. Me lembra de suas aulas, e me preparo para uma lição. — Não é um conceito novo, Mare. Homens e mulheres se sentem assim, em alguma medida, há milhares de anos. Escolhidos ou amaldiçoados, destinados ou condenados. Desde a alvorada da razão, suspeito, muito antes de prateados, vermelhos ou qualquer tipo de habilidade. Sabia que reis, políticos e governantes em geral costumavam acreditar que eram abençoados pelos deuses? Obrigados a ocupar seu lugar no mundo? Muitos se imaginavam escolhidos, mas alguns poucos viam esse dever como uma maldição.
Ao meu lado, Kilorn bufa baixo em escárnio. Sou mais óbvia, revirando os olhos para Julian. Quando me movo, uma gota de água rola para dentro da minha roupa, percorrendo a extensão da minha coluna. Cerro os punhos para impedir um calafrio.
— Está dizendo que seu sobrinho foi amaldiçoado com a coroa? — desdenho.
Julian endurece, e sinto uma pontada de arrependimento por ser tão insensível. Ele balança a cabeça para mim, como se eu fosse uma criança que devesse ser repreendida.
— Forçado a escolher entre a mulher que ama e o que acha que é certo? O que acha que deve fazer, considerando tudo o que sempre lhe ensinaram? Do que mais você chamaria?
— Eu chamaria de uma escolha fácil — Kilorn grunhe.
Mordo a parte interna da bochecha com força, tentando segurar uma dezena de respostas mal-educadas.
— Você realmente veio aqui para defender o que ele fez? Porque não estou no clima para isso.
— É claro que não, Mare — Julian responde. — Vim para explicar, se possível.
Meu estômago se contorce diante da ideia de Julian, entre todas as pessoas, me explicando os sentimentos de seu sobrinho. Com suas dissecações e ruminações. Poderia reduzir tudo a mera ciência? Uma equação demonstrando que a coroa e eu não somos iguais aos olhos do príncipe? Não posso suportar.
— Poupe o fôlego, Julian — solto. — Pode voltar ao seu rei. Fique ao lado dele. — Eu o encaro abertamente, para que saiba que não estou mentindo. — Mantenha-o a salvo.
Ele recebe minhas palavras pelo que são. A única coisa que posso fazer.
Julian Jacos faz uma mesura. Ele arrasta as vestes ensopadas no chão em uma tentativa de ser educado. Por um segundo, é como se estivéssemos de volta a Summerton, só nós dois em uma sala de aula repleta de livros. Naquela época, eu vivia amedrontada, forçada a me passar por outra pessoa. Julian era um dos meus únicos refúgios no palácio. Ao lado de Cal e Maven. Meus únicos santuários. Os irmãos Calore se foram. E acho que Julian também.
— Vou fazer isso, Mare — ele me diz. — Dando a minha vida, se necessário.
— Espero que não chegue a isso.
— Eu também.
Nossas palavras são um aviso um para o outro. Seu tom é de adeus.


Bree mantém os olhos fechados o voo inteiro. Não para dormir. Ele só odeia mesmo voar, tanto que mal consegue olhar para os próprios pés, quanto mais através da janela. Ele nem responde às leves provocações de Tramy e Gisa. Estão cada um de um lado dele, satisfazendo-se em cutucá-lo. Gisa se inclina sobre Bree para sussurrar para Tramy qualquer coisa sobre o jato estar caindo ou o motor não estar funcionando direito. Não participo. Conheço a sensação de um jato caindo, ou perto de cair. Mas tampouco quero impedir que se divirtam. Temos tão poucas oportunidades agora. Bree se mantém imóvel no assento, com os braços cruzados e as pálpebras bem apertadas. Até que sua cabeça cai para a frente, seu queixo descansa no peito e ele dorme pelo resto da viagem.
Não é pouca coisa, considerando que a rota da base de Piedmont até a República Livre de Montfort é uma das mais longas que já tive que enfrentar. Pelo menos seis horas de voo. Uma viagem longa demais para jatos comuns, então estamos em uma aeronave maior, parecida com o Abutre. Mas não ele, claro. O Abutre foi destroçado no ano passado por guerreiros Samos e pela fúria de Maven. Acompanho a fuselagem até a silhueta dos pilotos. Homens de Montfort. Não conheço nenhum dos dois. Kilorn está atrás, observando-os pilotar.
Como Bree, minha mãe não gosta do voo, mas meu pai mantém a testa colada no vidro, com os olhos na terra que se estende abaixo. O restante da escolta de Montfort — Davidson e seus conselheiros — dorme para passar o tempo. Devem estar guardando suas energias para quando chegarem em casa. Farley também dorme, com o rosto encostado no assento. Ela pegou uma poltrona longe da janela. Ainda passa mal quando voa.
Farley é a única representante da Guarda Escarlate. Mesmo dormindo, segura Clara, que é embalada pelo movimento do jato e se mantém em silêncio. O coronel ficou na base, provavelmente muito animado. Sem Farley lá, é o membro de mais alto escalão da Guarda Escarlate. Pode brincar de Comando o quanto quiser, enquanto sua filha manda informações para a organização.
Lá embaixo, o verde vívido de Piedmont, que se entrelaça com os rios lamacentos e as colinas, dá lugar ao leito do Grande Rio. As terras em disputa ficam à beira das duas margens, suas fronteiras desconhecidas e sempre se alterando. Sei pouco sobre o lugar, só o mais óbvio. Lakeland, Piedmont, Prairie e até mesmo Tiraxes, mais ao sul, lutam por esse pedaço de lama, pântano, colina e árvores. Pelo controle do rio, na verdade. Assim espero. Os prateados lutam a troco de nada na maior parte do tempo, derramando sangue vermelho por menos que lixo. Eles controlam essa terra também, mas não com tanta firmeza quanto fazem com Norta e Lakeland.
Continuamos voando para oeste, acima das planícies e das leves colinas de Prairie. Alguns campos são cultivados. O trigo brota em ondas douradas, alternando com fileiras infinitas de milho. O resto parece paisagem aberta, marcada por uma floresta ou lago ocasional. Que eu saiba, Prairie não tem reis, rainhas, príncipes ou princesas. Seus lordes governam graças ao poder, não ao sangue. Quando um pai cai, seu filho nem sempre fica no lugar. É outro país que nunca achei que veria, mas aqui estou, olhando-o de cima.
Nunca se dissipa a estranha sensação borbulhante que divide quem fui e quem sou agora. Uma garota de Palafitas, familiarizada com o lodo, presa em um lugar tão pequeno até ser condenada ao exército. Meu futuro era tão vazio na época, mas será que era mais fácil que isso? Sinto-me distanciada daquela vida, a um milhão de quilômetros, mil anos atrás.
Julian não está no jato, ou eu ficaria tentada a perguntar sobre os países que sobrevoamos. Ele está no avião com listras amarelas de Laris, com os outros representantes das casas Calore e Samos, além de seus guardas. Sem mencionar a bagagem. Aparentemente, um futuro rei e uma princesa precisam de muitas roupas. Eles seguem atrás de nós, visíveis pelas janelas da esquerda, suas asas metálicas brilhando enquanto perseguimos o sol.
Ella me contou que tinha ido de Prairie para Montfort. De Sandhills. Das terras dos saqueadores. Mais termos que não compreendo em sua totalidade. Ela não está aqui para explicar; ficou na base de Piedmont com Rafe. Tyton é o único eletricon que veio com a gente. Além de mim, claro. Ele nasceu em Montfort. Suspeito que tenha família a visitar, e amigos também. Está sentado nos fundos do jato, espalhado em dois assentos, com o nariz enfiado em um livro esfarrapado. Tyton sente meu olhar e me encara por um breve segundo. Então pisca, com seus olhos cinzentos e calculistas. Fico pensando se ele consegue sentir os leves pulsos de eletricidade no meu cérebro. Será que sabe o que cada um significa? Pode distinguir as fagulhas de medo daquelas de empolgação?
Vou conseguir fazer isso um dia?
Não conheço os limites de minhas próprias habilidades. Os sanguenovos que conheci e ajudei a treinar podem dizer o mesmo. Mas talvez não os de Montfort. Talvez eles compreendam o que somos, e o quanto podemos fazer.
A próxima coisa que noto é alguém tocando meu braço e me tirando do meu sono inquieto. Meu pai aponta para a janela circular entre nós, na parede curva atrás dos assentos.
— Nunca achei que veria algo assim — ele diz, batendo no vidro grosso.
— O quê? — pergunto, me ajeitando na poltrona. Ele solta a fivela do meu cinto, para que eu possa virar para olhar.
Já vi montanhas antes. Em Greatwoods, no Furo. Cadeias verdes que ganhavam o tom avermelhado do outono e depois perdiam as folhas no frio estéril do inverno. Em Rift, onde serras aglomeradas avançavam até se perder de vista, subindo e descendo como ondas. Em Piedmont, nas profundezas do interior, suas elevações passando a azul e roxo no horizonte, visto pelas janelas de um jato. Todas elas eram parte das Allacias, a longa cadeia de antigas montanhas que iam de Norta ao interior do Piedmont. Mas nunca vi nada como as montanhas à minha frente. Nem acho que possam ser chamadas de montanhas.
Meu queixo cai. Meus olhos ficam grudados no horizonte enquanto o jato faz a curva em direção ao norte. O terreno plano de Prairie tem um fim abrupto, quando a fronteira oeste é barrada por uma vasta parede de montanhas, maior que qualquer outra coisa que já vi. Os picos se erguem como pontas de faca, afiados demais, altos demais, fileiras atrás de fileiras de dentes gigantescos. Alguns cumes não têm vegetação, como se árvores nem pudessem crescer ali. Alguns mais ao longe estão manchados de branco. Neve. Ainda que seja verão.
Respiro fundo, trêmula. Para que tipo de país viemos? Será que prateados e rubros reinam tão absolutos, com uma força capaz de construir uma paisagem tão impressionante?
As montanhas me deixam com medo, mas também um pouco animada. Mesmo do alto, este lugar parece diferente. A República Livre de Montfort desperta algo em meu sangue e em meus ossos.
Ao meu lado, meu pai põe a mão no vidro. Seus dedos passam pelos contornos das montanhas, traçando os picos.
— É lindo — ele murmura, tão baixo que só eu ouço. — Espero que este lugar seja bom conosco.
É cruel dar esperanças quando não há nenhuma.
Meu pai disse isso uma vez, à sombra de uma casa de palafita. Ele estava sentado em uma cadeira, sem uma perna. Eu costumava pensar que ele estava despedaçado. Agora sei a verdade. Meu pai está tão inteiro quanto o restante de nós, e sempre esteve. Só queria nos proteger da dor de desejar o que não podíamos ter. De futuros que não nos seriam permitidos. Mas nossos destinos foram bem diferentes. E parece que meu pai mudou junto. Agora, pode ter esperança.
Respirando fundo, sinto o mesmo. Mesmo depois de Maven, dos longos meses de cárcere, de toda a morte e destruição que vi ou causei. Do meu coração partido, que ainda sangra dentro de mim. Do medo sem fim pelas pessoas que amo, e pelas pessoas que quero salvar. Tudo permanece, como um peso constante.
Mas não vou deixar que me afogue.
Também posso ter esperanças.

10 comentários:

  1. Eu amei esse capitulo!!!!
    E amando a série inteira tbm!!😍😍

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  2. Não consigo ver ela é o cal separados 😢 e podem me chamar de doida mas não consigo odiar o maven msm depois de tudo o que ele fez , não estou detendendo as atitudes dele , eu sei que ele agiu como um mostro sem coração, mas eu gosto dele . Tenho raiva a Elara por ter mexido com a cabeça dele , acredito que se não fosse por ela ele seria gentil e amoroso como mostrou de primeira para a mare ( msm aquilo sendo talvez uma fachada )

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  3. A Mare joga toda a culpa no Cal mas ela tbm o abandonou, os dois deixaram o amor de lado para defender suas próprias causa, ele quer ser um rei diferente,melhor e mais justo, ela quer uma democracia e igualdade. Mar tem tanta culpa quanto ele
    ~Diane

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  4. Algumas vezes acho que a Mare reclama demais do tempo que ela ficou presa com o Maven, eu simplesmente não consigo achar tão ruim depois de ter lido Trono de Vidro =/

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    1. Ficar preso sempre é horrivel, não importa o contexto

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  5. Não consigo entender como tem pessoas que acham que a Mare está errada. O que vocês queriam? Que ela largasse toda a causa, todo o progresso que eles fizeram para transformar o país deles num lugar melhor e digno pra todos? Causa que não só o irmão dela (diga-se de passagem, o melhor personagem) MORREU defendendo, mas milhares de pessoas também. Eu no lugar dela, faria o mesmo.
    Se o regime monárquico fosse tão bom, o teríamos até hoje. Gostaria de lembrar vocês sobre a revolução francesa e tantas outras. Países que se tornaram melhores com a democracia.
    E não consigo entender quem não consegue ainda pensar em Mare ficar com Maven, ou não achar a prisão dela ruim. Tem gente que precisa entender o conceito de RELACIONAMENTO ABUSIVO. Eu tive os mesmos sentimentos de Mare desde o inicio do livro, agora só sinto aversão por ele, e decepção por Cal agir como um garotinho ingenuo querendo aprovação de defuntos e não como um homem maduro e visionário, como acha ser. Todos sabemos que até hoje nós lutamos por igualdade, que nunca vai ser totalmente conquistada.

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    1. Eu não vou te dar palmas.

      PQ TU MERECE O TOCANTINS INTEIRO!! FINALMENTE ALGUÉM QUE PENSA MEU DEUS!

      LINDÍSSIMAAAA QUER O MUNDO? EU TE DOU!

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  6. Não consigo mais imaginar Mare com Cal juntos no final disso tudo. Assim como não consigo odiar Maven, sinto raiva pelas coisas que ele fez e faz ,mais não consigo odia-lo. Ele só é o que é por conta do projeto mal sucedido de mãe que ele teve, Elara balançou de mais a mente dele, se não fosse por ela ele poderia ser alguém tão bom, alguém tão diferente... Os irmãos Calore amam Mare, mais não a amam mais do que amam a Coroa, assim como ela não os ama mais do que ama sua Causa, e sim eu acredito que ela ame Maven, ela ama o homem que ele não pode se tornar, ela sabe que ele é essa pessoa hoje por conta de Elara, e sinceramente não acho que Cal a mereça. Espero que ela fique com Kilorn ou até mesmo com algum ser vindo de Nárnia, sei lá, qualquer um que seja bom o suficiente, mais não quero que esse alguém seja Cal, acho que isso me decepcionaria no final.

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  7. Amei esse capítulo 😍

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Boa leitura, E SEM SPOILER!