2 de junho de 2018

Capítulo catorze

Mare

— ELE SABE QUE É VOCÊ.
Parece que todos tomamos fôlego ao mesmo tempo, e minha respiração sai entrecortada. De repente, a pequena sala escondida no palácio Samos parece apertada demais. Por instinto, meus olhos saltam para Farley. Ela retribui o olhar. Sua garganta se move, engolindo em seco. Ela enrijece diante dos meus olhos, determinada.
Mordo o lábio, desejando que pudesse fazer isso sozinha. Mas ela não vai a lugar nenhum, parada ao lado de Ibarem. Perto o bastante para interromper tudo se as coisas escaparem ao controle. Os olhos dele queimam nos meus, acesos e intensos enquanto sua mente supera o espaço entre a mansão Ridge e Piedmont. Ibarem já forneceu toda informação que podia sobre a prisão na base de Piedmont, sobre o bunker com janelas para o leste. Que prisioneiros seu irmão pode ver, quem foi capturado com ele, quem viu morrer ou escapar. Para meu alívio, Ella e Rafe estão entre os sobreviventes que chegaram até os pântanos. Só essa informação já foi vital, mas isso — Maven, bem na nossa frente… Tão perto que tenho a sensação de poder tocá-lo se esticar o braço.
Quero ver o que Ibarem vê. Quero me jogar para a frente, mergulhar nas profundezas avermelhadas de seus olhos, e emergir do outro lado, numa cela a centenas de quilômetros. Decifrar Maven, como sei que posso. Cada tique e cada contração de músculo sob sua pele. Os menores lampejos nos seus olhos azuis gelados, que falam de segredos e fraquezas que ele tenta enterrar.
A conexão de Ibarem com o irmão terá que servir. A ligação deles é forte apesar da distância, quase imediata. Ibarem descreve tudo o que sente através de Rash no ato.
— Maven está se aproximando das barras. Se inclina para a frente, a uma distância de centímetros. Seu pescoço está suado. Faz calor em Piedmont. Acabou de chover. — Ibarem fica tenso diante de mim, levando as mãos às coxas. Ele recua um pouco, e imagino Maven ali, na sala conosco, bem à nossa frente. Os lábios de Ibarem se retorcem de desgosto. — Ele nos examina. Os nossos olhos.
Estremeço e sinto o fantasma frio da respiração familiar na minha pele.
Apesar da luz do sol que jorra pela única janela, sinto a escuridão se empoçar nessa salinha esquecida na mansão Ridge. Gostaria de nunca ter pensado nisso, de nunca ter convocado Ibarem. Era para ele ser nossa ligação com Tahir e Davidson, uma conexão fácil com Montfort. Não com seu outro irmão, capturado em Piedmont. Não com Maven.
Me obrigo a ficar quieta, travando meus músculos e minha expressão. Meu coração dispara no peito, as batidas secas e constantes.
Farley tenta não andar de um lado para o outro, e sua estranha falta de atividade me deixa ainda mais nervosa do que já estou. Esse lugar não condiz conosco. A mansão Ridge mais parece uma armadilha esperando para ser acionada. Cada cômodo tem alguma forma de metal, nas vigas, colunas ou mesmo enfiado no assoalho. A casa é uma arma que poucos podem empunhar. E esses poucos nos cercam o tempo todo.
Até a cadeira sob mim é de aço frio. Sinto calafrios onde toca minha pele nua. A batida na porta causa um sobressalto em nós duas, de tão assustadas que estamos. Giro na cadeira, os dentes cerrados, para ver a maçaneta baixar e a porta abrir. Farley avança até lá em duas passadas largas, pronta para dispensar qualquer criado ou nobre bisbilhoteiro do outro lado.
Para minha decepção, ela recua, permitindo que uma silhueta grande e familiar adentre a sala.
Quase dou uma bronca nela. Meus punhos se fecham sobre meus joelhos.
— O que você está fazendo? — pergunto por entre os dentes em voz baixa e firme.
Tiberias olha para Farley e para mim, como se medisse ambas para ver quem o assusta mais.
— Fui convidado — ele diz com a voz carregada. — E vamos chegar extremamente atrasados na reunião do conselho.
— Então vai! — dispenso-o com um gesto para em seguida me virar para Farley. — O que você está fazendo? — pergunto com esforço por entre os dentes cerrados.
Ela bate a porta com força.
— Você conhece Maven, e ele também — diz com uma eficiência fria. — Deixe que Cal escute.
À minha frente, Ibarem pisca.
— Srta. Barrow — ele diz, indicando para a gente continuar.
Como se isso não fosse estressante o suficiente.
— Ótimo — murmuro por entre os dentes, voltando a encarar o sanguenovo de Montfort. Faço o possível para ignorar o outro Calore, que agora está encostado na parede para ficar o mais longe possível de mim. Pelo canto do olho, vejo seu pé bater no chão, dissipando o nervosismo.
— Maven está dizendo algo — Ibarem balbucia com sua voz natural saindo suave e pausada. Então muda rápido para a melhor imitação de Maven possível. — Como estamos conversando agora? — ele diz, as palavras repentinamente cruéis e afiadas. Ibarem até força uma risada fria. A semelhança é clara. — Ou você só está tentando brincar com um rei, vermelho? Não seria uma boa decisão.
Ibarem se move de novo, os olhos agitados, enxergando através dos quilômetros.
— Ele está com guardas. Sentinelas. Seis. O príncipe Bracken e seus filhos acabaram de passar, com quatro guardas.
Tiberias cochicha algo e Farley concorda com a cabeça. Comentam o acréscimo no número de inimigos, provavelmente.
— … aliança firme com Bracken — ouço Tiberias sussurrar. — Vão atacar de novo, e logo.
— A rainha está com ele — Ibarem continua. — A princesa de Lakeland. Não fala, está parada. Observando. — Ibarem aperta os olhos. — Seu rosto está sem expressão. Parece paralisada.
— Diga a Iris… — hesito, tamborilando os dedos. Eles têm que se convencer. Precisam ter a certeza irrevogável de que sou eu falando pela ligação dos irmãos. — Diga a ela que todos os cães mordem.
— Todos os cães mordem, Iris — Ibarem repete. Ele inclina a cabeça como eu inclino a minha. Está me imitando agora. Uma garota comum com uma vida incomum. A verdade abala Maven mais do que tudo, e eu preciso abalá-lo se quero ganhar alguma coisa com essa conversa.
— A rainha sorri. Acena com a cabeça — Ibarem diz. Ele muda o rosto para imitar Iris, a voz subindo uma oitava. — Todos os cães mordem, mas alguns esperam, Mare Barrow.
— E o que isso quer dizer? — Farley cochicha.
Mas eu sei.
Sou apenas uma cadelinha bem-vestida e amarrada, eu disse a Iris certa vez, durante meu cativeiro. Ela também sorriu na época. Sei bem que até as cadelinhas mordem, ela retrucou. Você morde?
Finalmente estou livre para responder. E ela também.
Iris Cygnet espera sua própria chance de atacar. Me pergunto se Lakeland está por trás dela, ou se só tem sua própria raiva.
Lanço um olhar por cima do ombro para Farley.
— É uma coisa que ela me disse em Archeon. Antes de eu voltar.
— Com certeza é ela, mas não sei dizer como — Ibarem continua, transmitindo a voz de Iris o melhor que consegue. — Deve ser algum poder sanguenovo que não conhecemos ainda.
— Dava para encher um oceano com o que você não sabe — respondo. — Sobre Montfort, sobre a Guarda Escarlate. — Sinto vergonha, me sinto até suja, de atacar desse jeito, mas é fácil. — Sobre seu irmão. Ele está bem aqui do meu lado, sabia?
Ibarem faz cara de desdém, imitando Maven.
— E isso quer dizer alguma coisa? — Acho que há um tremor de medo nas palavras ecoadas. Ibarem continua: — Pouco me importa quem você escolhe para ficar ao seu lado — ele acrescenta, a careta de desdém curvando-se num sorriso macabro. — Mas sei que já não andam tão juntinhos.
Forço um sorriso, usando-o para disfarçar o estremecimento.
— Bom saber que você tem espiões dentro da nossa coalizão — digo com determinação. — Embora os nossos sejam bem mais numerosos.
Uma gargalhada explode de Ibarem, como pregos contra vidro.
— Acha que uso meus espiões para saber como vão seus sentimentos, Mare? Não, minha querida, só conheço você melhor do que ninguém. — Ibarem gargalha de novo, mostrando seus caninos brancos. Me concentro na cicatriz no queixo dele para afastar da cabeça a imagem do rosto bonito, assombrado e sibilante de Maven. — Eu sabia que você não ia aguentar quando Cal mostrasse quem ele é de verdade.
No canto do meu campo de visão, Tiberias não se mexe. Nem mesmo respira. Mantém os olhos baixos, focados em abrir um buraco no chão.
— Ele é uma criação tanto quanto eu. Foi feito pelo nosso pai, moldado e partido até se tornar esse muro de tijolos ambulante e falante que você pensava amar. — Maven continua falando através de Ibarem. — Cal se esconde por trás desse escudo que chama de dever, mas a verdade é menos nobre. Ele é feito de desejo, igual a todos nós. Mas deseja a coroa. O trono. E não há preço que não pague, por mais alto que seja. Não há sangue que não derrame, ainda que valioso.
Um estalido rasga o ar quando Tiberias estala um único dedo com o polegar.
— Sempre voltamos à mesma conversa, Maven — resmungo, me reclinando na cadeira com uma indiferença exagerada. Ibarem espelha minhas emoções. — Iris, ele também choraminga assim sobre Tiberias com você, ou sou a única que tem que aturar essa baboseira?
Ibarem vira o rosto, como se olhasse para Iris, então relata:
— Ela contorce os lábios. Talvez num sorriso. Maven se mexe, apoia um braço nas barras. A temperatura está subindo.
— Acertei um nervo, Maven? — pergunto. — Ah, esqueci, você nem sabe quais são seus nervos. E quais são dela.
Com uma careta, Ibarem espalma as mãos nas coxas.
— Maven golpeia as barras. A temperatura continua a subir. Os outros prisioneiros estão fazendo o máximo para assistir. — O sanguenovo pisca, alargando as narinas, forçando inspirações profundas. — Ele está tentando se acalmar.
— Não é prudente provocar alguém com tantos reféns à disposição. Eu podia fazer todos queimarem se quisesse — Maven diz por entre os dentes. Consigo farejar sua raiva trêmula a centenas de quilômetros de distância. — Seria mais fácil pôr no relatório que não houve sobreviventes na gloriosa reconquista de Bracken.
É verdade. Nada impede Maven de assassinar cada prisioneiro à vista. A vida deles está à sua mercê.
O que me força a tecer uma trama bem intrincada.
— Ou você poderia soltar todos.
Ibarem solta uma gargalhada surpresa.
— Acho que você precisa dormir mais, Mare.
— Depois de um acordo, claro. — Levanto os olhos para Farley, analisando sua expressão. Ela franze a testa, unindo as sobrancelhas.
Vejo Tiberias ficar pálido também. Na última vez em que barganhamos com Maven, acabei presa por meses a fio.
— Funcionou tão bem para nós da última vez. — Ibarem ecoa a risada de Maven. — Mas, se você quer voltar e precisa fingir que é para salvar uns soldados sem nome, ficarei feliz em lhe dar as boas-vindas.
— Pensei que Elara tinha matado sua capacidade de sonhar — disparo. — Não, Maven, estou falando do que a Guarda Escarlate deixou aí na base de Bracken.
A expressão de Ibarem muda, imitando a de Maven.
— O quê?
Farley sorri e se agacha ao meu lado. Ela se dirige a Maven por meio de Ibarem.
— A Guarda Escarlate tem dificuldade para confiar nos prateados. Especialmente os que estavam sob vigilância, como Bracken. Era apenas uma questão de tempo até algo acontecer caso ele decidisse parar de receber ordens das pessoas que estavam com seus filhos.
— Com quem estou falando agora?
— Ah, fico magoada que não se lembre de mim. Aqui é a general Farley, por isso a voz talvez soe diferente.
— Ah, sim — Ibarem estala a língua. — Que tolice a minha esquecer a mulher que deixou um lobo como eu entrar no seu rebanho de ovelhas especialmente burras.
Farley sorri como se acabasse de receber uma refeição saborosa.
— Ovelhas burras que plantaram explosivos na sua base.
Por um segundo, um silêncio mortal recai sobre a sala. Tiberias levanta os olhos, o rosto contorcido num alerta.
— Faz ideia do perigo?
— Com certeza — ela dispara para Tiberias, sem desviar os olhos de Ibarem. — Não repita isso.
Ele mal consegue concordar com a cabeça.
— Bom, Maven — digo, com um sorriso doce. — Você pode chamar de volta quem mandou para os pântanos atrás da nossa gente, e tentar revistar a base antes de a destruirmos. Ou pode soltar os prisioneiros, então diremos exatamente quão perto de uma bomba está.
— Não tenho medo de explosivos.
— Deveria ter, caso se importasse com os soldados que juraram lealdade à sua coroa — Tiberias vocifera, vindo para perto do meu ombro. Seu antebraço roça em mim, fazendo uma onda de calor descer pela minha coluna.
Uma sombra parece passar por Ibarem quando menciona a presença do príncipe e transmite suas palavras.
— Que bom que se manifestou, meu irmão — Maven sussurra. — Pensei que nunca ia reunir forças para falar comigo.
— Dê o dia e a hora e veremos quem tem mais força — Tiberias dispara, num rugido selvagem e descontrolado.
Em resposta, Ibarem apenas sacode o dedo.
— Vamos deixar a pose para sua inevitável rendição, Cal. Quando tiver que se ajoelhar perante Norta, Lakeland e Piedmont. — Ele solta o nome de cada país com um sorriso crescente. Sinto o peso se acumular contra nós, a muralha ficar cada vez mais alta.
Farley põe a mão no meu ombro, me puxando para trás na cadeira. Pedindo que eu espere.
Por fim, Ibarem se mexe, cruzando os braços e inclinando o corpo. A linguagem corporal é toda de Maven. Dedicada ao espetáculo. Ele não veste agora o manto falso do jovem chamado pelo dever. Está com a máscara do filho impiedoso e impenetrável de Elara Merandus. Alguém que só se importa com o poder.
É um teatro, tanto quanto Mareena era para mim.
— Quantas bombas você disse, general?
Ele usa a patente para desestabilizar Farley, mas ela não se abala fácil.
— Eu não disse.
— Humm — Maven rumina. — Bom, Bracken não vai ficar feliz com qualquer dano adicional à sua instalação. Mas o resgate de seus filhos nos rendeu muita boa vontade junto a ele. Talvez não se importe.
Não sei exatamente onde os explosivos podem estar, só que a Guarda os plantou um tempo atrás. Sob as estradas, as pistas de decolagem e a maioria dos prédios administrativos. Onde pudessem causar mais dano, não apenas aos soldados inimigos, mas à própria base. Estão todos sintonizados numa frequência específica, armados e prontos para explodir. Uma precaução perfeita e mortal.
— A decisão é sua, Maven — replico. — Os prisioneiros em troca da sua base.
Ibarem imita o sorriso de Maven.
— E desse sanguenovo, claro — ele diz. — Mas eu gostaria de ficar com ele, se não se importa. É muito mais fácil do que mandar cartas para você.
— Não faz parte do acordo.
Fazendo bico, Ibarem bufa como Maven.
— Você gosta de dificultar as coisas.
— É a minha especialidade.
Ao meu lado, Tiberias ri discretamente. Tenho certeza de que concorda.
Esperamos num silêncio escaldante, acompanhando cada respiração de Ibarem. Ele se vira no assento, olhando de um lado para o outro. Imitando Maven e seus passos de lá para cá.
Farley se ergue atrás de mim, carregada feito uma nuvem de tempestade, tanto quanto eu.
— Onde você quer que eu os solte? — ouvimos afinal.
Sem produzir ruído, Farley soca o ar com alguns golpes brutais e triunfantes. Então lembro como ela é jovem. É apenas um pouco mais velha do que eu, com vinte e dois anos.
— Portão leste — Farley responde, e eu tento manter meu triunfalismo sob controle. — Nos pântanos. Ao entardecer.
Ouço a confusão de Maven.
— É isso?
Tiberias está tão intrigado quanto ele, e lança um olhar para Farley.
— Isso não é o suficiente para um resgate — ele murmura, gesticulando para Ibarem não transmitir suas palavras. — General, precisamos dos jatos em posição. De uma trilha bem aberta. De um cessar-fogo enquanto evacuamos os prisioneiros e aqueles que conseguiram escapar.
Ela corta o ar com a mão.
— Não precisamos, Calore. Você sempre esquece que a Guarda Escarlate não é o tipo de exército com que está acostumado.
Orgulhosa, ela coloca as mãos na cintura antes de continuar:
— Já temos infraestrutura pronta e um contingente nos pântanos. Deslocar vermelhos pelo território inimigo é meio que nossa especialidade.
— Bom saber — Tiberias solta por entre os dentes. — Mas não gosto de ser deixado de fora. Trabalhamos melhor quando estão todos no mesmo patamar.
— Chama isto de mesmo patamar? — Farley diz, gesticulando entre ele e nós. O sangue dele, o nosso sangue. A posição dele, a nossa posição. O abismo entre um prateado nascido para ser rei e vermelhas nascidas para não ser nada.
Os olhos dele se agitam, passando dela para mim. A sombra de Tiberias cobre o meu assento, sua altura exagerada pela pouca distância. Tanto espaço entre nós e, na verdade, nenhum espaço. Embora lhe doa, Tiberias morde a língua. Um músculo do seu rosto salta no momento que arranca os olhos dos meus. Vejo seu conflito interno, fico à espera de que insista. De que discuta. Para minha surpresa, Tiberias se afasta e gesticula para que continuemos.
Diante de mim, Ibarem respira fundo. Ele toca a cicatriz no queixo, a pele morena retorcida até ficar branca entre os cachos da barba preta. Então esfrega a pele embaixo de cada olho. Onde ficam as cicatrizes dos irmãos.
— O rei hesita, pensativo. Srta. Barrow, diga a ele que não poderá nos usar mais desse jeito — Ibarem suplica. — Ou esse desgraçado manterá meu irmão prisioneiro. Para manter um canal de comunicação com você e sua majestade.
— Claro — respondo, meneando a cabeça, ansiosa para salvar Rash de se tornar mais um sanguenovo de estimação.
— Vamos ficar sabendo se você não libertar o sanguenovo, Maven. E então o acordo estará suspenso.
A voz que responde sai amarga, mas sem surpresa:
— Mas sinto falta das nossas conversas. Você me mantém são, Mare.
Sua tentativa de humor negro fracassa.
— Nós dois sabemos que não é verdade. E você nunca mais vai se comunicar comigo através dele.
Ibarem fecha a cara.
— Então vamos ter que encontrar novos meios.
De pé atrás de mim, Tiberias levanta um dedo para atrair a atenção de Ibarem.
— Se quiser conversar, ninguém vai impedir, Maven — ele diz. — As guerras são travadas tanto com diplomacia quanto com armamentos. Podemos nos encontrar num campo neutro, cara a cara.
— Quanta ansiedade para negociar a rendição, Cal — Maven provoca, desprezando a proposta. — Agora, general… e os explosivos?
Farley acena com a cabeça.
— Você terá a localização de cada um depois que confirmarmos que nosso pessoal está no pântano e fora de perigo.
— Não me responsabilizo pelo que os jacarés fizerem.
Ao ouvir isso, ela ri de verdade.
— É uma pena você não ter alma, Maven Calore. Poderia ser alguém que valesse a pena salvar.
Seu irmão se agita, abalado. Se alguém pode… consertar ele, não vale a pena tentar?, Tiberias me perguntou umas semanas atrás, pele a pele. Parece outra vida. Não é um assunto que me importe. Não há como consertar Maven. Não há redenção para ele, para a pessoa falsa que eu e Cal amávamos. Não podemos salvá-lo de si mesmo.
Mas não acho que um dia terei coragem de dizer isso a seu irmão.
Se a capacidade de Maven para o amor foi corrompida, em Tiberias talvez seja até demasiadamente forte. Faz com que ele se apegue demais.
— Primeiro você incendeia Corvium; agora ameaça a base de Piedmont? — Maven sibila através de Ibarem. — A Guarda Escarlate tem muito talento para a destruição. Mas é sempre mais fácil derrubar o que já foi construído.
— Especialmente quando o que se constrói já está podre por dentro — Farley rebate.
— Portão leste. Nos pântanos. Entardecer — repito. — Ou a base queima sob seus pés.
Encolho meus próprios pés. Quantos estão na base agora? Soldados de Maven, de Bracken, de Iris. Prateados, provavelmente. E vermelhos também. Os inocentes cumpridores de ordem que os três usam de escudo.
Digo a mim mesma para não pensar nisso. A guerra é difícil o bastante sem considerar as vidas que pendem na balança. Mas fechar os olhos também não é a resposta. Não importa quão difícil seja, eu preciso encarar a realidade. Ainda que tenha que tomar uma decisão difícil, preciso tomá-la de olhos abertos. Chega de abafar a dor ou a culpa. Preciso senti-las se quiser superá-las.
— Muito bem — Maven vocifera por Ibarem. De novo, imagino-o de pé do lado de fora da cela. O rosto branco na penumbra, os olhos delineados com as sombras de dúvidas e exaustão de sempre. — Sou um homem de palavra.
A frase de efeito arde como sua marca, trazendo à tona uma dezena de lembranças amargas das suas cartas e da sua promessa.
Devagar, assinto.
— Você é.
Deixamos Ibarem com instruções de nos contatar caso seu irmão não seja libertado com os outros, então nos apressamos pelos corredores da mansão Ridge, tentando descobrir o caminho até a sala do trono de Samos. Tiberias ajuda menos do que deveria; sua cabeça está claramente em outro lugar. Com o irmão em Piedmont, suspeito.
Faço o máximo para acompanhar as passadas dele e de Farley, mas não paro de esbarrar em Tiberias, que de tempos em tempos diminui o ritmo, perdido em pensamentos.
— Já estamos atrasados — resmungo, pondo a mão na parte inferior das costas dele por instinto, para empurrá-lo adiante.
Ele pula com o toque, como se o contato queimasse. Sua mão enorme cobre a minha quando se recompõe, afastando meus dedos. Em seguida, ele os solta rápido e se volta para mim.
Farley continua em frente e nos ultrapassa com um resmungo exasperado.
— Briguem quando tivermos tempo — ela ordena.
Ele ignora, me encarando furioso.
— Você ia falar com ele sem mim.
— Preciso da sua permissão para falar com Maven?
— Ele é meu irmão, Mare. Você sabe o que ainda significa para mim — Tiberias sussurra, quase suplicando. Tento não esmorecer perante sua dor. Quase dá certo.
— Você tem que esquecer a pessoa que achava que ele era.
Minhas palavras acendem algo dentro dele, uma raiva mais profunda. Um desespero.
— Não me diga o que sentir. Não me diga para dar as costas a ele. — Tiberias endireita tanto o corpo que tenho que esticar o pescoço para olhá-lo nos olhos.
— Além disso, vocês duas iam encarar Maven sozinhas? — Ele olha para Farley por cima do ombro. — Não é prudente.
— Por isso mandei chamar você — Farley dispara com aspereza. — Temos que ir. A conversa foi longa. A reunião do conselho começou há vinte minutos. Quero estar lá, caso Samos e sua avó estejam tramando algo.
— E Iris? — Tiberias diz, recompondo-se. Ele apoia as mãos na cintura, alargando o corpo para impedir qualquer tentativa minha de escapar pelas laterais. Conhece meus truques bem demais. — Que história é essa de todos os cachorros morderem?
Hesito, ponderando as opções. Sempre posso mentir. Talvez seja melhor.
— Uma coisa que Iris disse antes, quando eu ainda estava em Whitefire — confesso. — Ela sabia que eu era um bichinho de estimação para Maven. Uma cadelinha. E me disse que cadelinhas também mordem. Foi sua maneira de dar a entender que sabia que eu ia me virar contra ele se pudesse. — As palavras vacilam, não sei dizer por quê, mas as faço sair. — E ela também.
Em vez de me agradecer, Tiberias assume um ar mais sombrio.
— E acha que Maven não entendeu isso?
Dou de ombros. É só o que posso fazer.
— Acho que agora ele nem liga. Precisa dela, precisa de sua aliança. Só existem o hoje e o amanhã aos olhos dele.
— Consigo entender — ele murmura, bem baixo, para que só eu ouça.
— Com certeza.
Tiberias solta outro suspiro, passando a mão pelo cabelo curto. Gostaria que ele o deixasse crescer para que ondulasse de novo. Ficaria mais bonito, menos rígido.
Ele pareceria menos um rei.
— Contamos a eles o que acabou de acontecer? — Tiberias pergunta, apontando para a sala com o polegar.
Fecho a cara, pensativa. Acharia melhor não relatar nossa conversa a um público grande, sobretudo se inclui a família Samos.
— Se contarmos, colocamos Rash e Ibarem em risco. Volo adoraria usar essa vantagem peculiar se pudesse.
— Concordo. Mas é uma vantagem. Conseguir falar com ele, observá-lo. — Tiberias baixa a voz, confere minha reação. Deixa a decisão para mim.
— Esqueça Maven. Podemos transmitir mensagens com a Guarda Escarlate em terra. Vamos recuperar nosso pessoal.
Ele assente.
— Claro.
— Nenhuma novidade sobre Cameron — acrescento, estremecendo ao pronunciar o nome dela. A garota voltou para Piedmont para ficar com o irmão quando fomos para Montfort. Em busca de paz, não de guerra. E a guerra a encontrou de novo.
Tiberias fica pensativo — empático, até. Não só por fora, mas de verdade. Tento não reparar no seu belo rosto parado diante de mim.
— Ela deve estar bem — ele diz, só para mim. — Não consigo imaginar ninguém capaz de derrubar aquela garota.
Ibarem não a mencionou entre os prisioneiros, mas tampouco achava que estivesse entre os mortos. Minha esperança é de que esteja entre os que escaparam, escondendo-se nos pântanos, percorrendo devagar o caminho de volta para nós.
Cameron é capaz de matar um homem com a mesma facilidade que eu. Mais até. Qualquer caçador prateado ia julgá-la uma presa perigosa, com sua capacidade de sufocar até os poderes mais fortes. Deve ter escapado. Não vou pensar em outra possibilidade. Simplesmente não consigo.
Sobretudo por precisar dela para o que planejei.
— Pode ser que algum vaso sanguíneo de Farley se rompa se a gente a fizer esperar mais.
— Prefiro não ver isso acontecer — Tiberias resmunga, seguindo no meu encalço.

16 comentários:

  1. O que diabos aconteceu nesse capítulo??? Alguém me explica pq eu não entendi nada

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    1. Rash, Tahir e Ibarem são trigemêos que se comunicam entre si em tempo real. o Rash foi capturado em piendmont e o Ibarem está com a Mare, Cal e Farley no Palacio da familia de Evangeline! enfim, Mare falou com Maven através de Ibarem que transmitia tudo para seu irmão Rash que passava o recado para Maven.. Bom não sou muito bom em explicar mas espero que tenho a ajudado a entender um pouco melhor esse capitulo..

      Ass: Jami

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    2. Sim. Eles se comunicaram com maven através dos trigêmeos quem tem a mente conectada. Um deles foi capturado quando Maven atacou a base.

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    3. Ibarem e Rash foram usados como "telefone" para Maven e Mare conversar, Ibarem descrevia como estavam as coisas no lado onde Rash estava, para auxiliar Mare a que decisão tomar

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  2. Muito f*#@!!! Esse pessoal é muito esperto!!! O medo deles de Maven é pq eles não conseguem prever o que ele vai fazer pra manipular ao seu bel prazer. Mas quando a conversa é Mare e Mave, baby... o jogo fica mais interessante e muito mais dinâmico, agora que Mare evoluiu sua compreensão das tramoias. Gente... tô chocada!!!

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  3. Não sei pq, mas amo quando os personagens usam o sarcasmo... Fica muito mais divertido.

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  4. Esse jogo vive empatando. Pensando em Maven até esquecemos o quanto o Cal sofre pelo irmão nessa situação.

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  5. Maven pode ser um enigma para todo mundo mesmos para Mare que sabe como tirar um informação do com o jeito de olhar e falar,resumindo a Mare e f***

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  6. A única pessoa que consegue decifrar o enigma que Maven e a Mare,ela consegue compreender o que ele pensa so com um olhar na forma como ela se expressa a Mare e f***pra caramba 😍😍

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    1. Bem, e a recíproca é verdadeira, né? Ele conhece a Mare muito bem

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  7. Sei que mare não vai ficar com o matem, mas tão pouco quero ela com o cal, ele irrita mas que todos além de ser um babaca

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  8. Eu acho que o próximo capítulo é da Cameron.
    Até agr não teve nenhum capitúlo dela.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!