26 de junho de 2018

Capítulo 9

Quando Adam ligou, Ronan, Noah e Gansey estavam na Dollar City em Henrietta, matando tempo. Teoricamente, eles estavam ali atrás de baterias. Na prática, estavam ali porque tanto Blue quanto Adam tinham de trabalhar, a ira informe de Ronan sempre ficava pior à noite e a Dollar City era uma das poucas lojas em Henrietta que permitiam animais de estimação.
Gansey atendeu o telefone enquanto Ronan examinava um pacote de apagadores no formato de jacarés. Os animais fosforescentes tinham um sortimento de seis expressões de perplexidade. Noah tentou inclinar a boca para combinar com elas, enquanto Motosserra, enfiada na dobra do braço de Ronan, o olhava desconfiada. No fim do corredor, a atendente olhava para Motosserra com igual desconfiança. Quando a Dollar City dissera “Bichos de estimação são bem-vindos”, ela não tinha certeza se isso incluía pássaros carniceiros.
Ronan estava aproveitando e muito o olhar petulante da atendente.
— Alô? Ah, oi — disse Gansey ao telefone, tocando um caderno com uma arma impressa na capa. O Ah, oi fora acompanhado por uma mudança definitiva no timbre de voz. Isso significava que era Adam, o que de certa maneira insuflou a raiva de Ronan. Tudo ficava pior à noite. — Achei que você ainda estava no trabalho. O quê? Ah, nós estamos no Playground da Burguesia.
Ronan mostrou a Gansey um relógio de parede de plástico inteligentemente moldado na forma de um peru. A papada da ave, pendendo abaixo do rosto do relógio, marcava os segundos.
— Mon Dieu! — Gansey exclamou. Ao telefone, ele disse: — Se você não tem certeza, provavelmente não era. É difícil confundir uma mulher com qualquer outra coisa.
Ronan não tinha muita certeza do motivo pelo qual ele estava com raiva. Embora Gansey não tivesse feito nada para invocar sua ira, ele era definitivamente parte do problema. No momento, ele tinha o celular ajeitado entre a orelha e o ombro enquanto olhava para um par de pratos de plástico com desenhos de tomates sorridentes. O colarinho desabotoado revelava boa parte da clavícula. Ninguém podia negar que Gansey era um retrato glorioso da juventude, o produto bem cuidado de um casal de sorte e abastado. Geralmente, no entanto, ele era tão educado que beirava o suportável, pois claramente Gansey não pertencia à mesma espécie que a família tosca de Ronan. Mas naquela noite, sob as luzes fluorescentes da Dollar City, o cabelo de Gansey estava desgrenhado e sua bermuda cáqui estava uma ruína engraxada por ter mexido no Pig. Ele estava de pernas de fora e sem meias em seus mocassins. De um jeito bastante óbvio um ser humano real, um ser humano acessível, e isso, de certa forma, fazia com que Ronan quisesse atravessar uma parede com o punho.
Segurando o telefone longe da boca, Gansey disse para eles:
— O Adam acha que viu uma aparição no quarto dele.
Noah fez um gesto rude, um ato hilariamente pouco ameaçador vindo dele, como o rosnado de um gatinho. A atendente deu uma risada alta, quase um cacarejo.
Motosserra tomou o riso dela como uma afronta pessoal. Ela puxou irritadamente as pulseiras de couro no pulso de Ronan, fazendo-o se lembrar do presente estranho que Kavinsky lhe dera mais cedo. Não era um sentimento inteiramente confortável pensar no outro garoto o analisando tão de perto. Kavinsky conseguira as cinco pulseiras precisamente certas, até o tom do couro. Ronan se perguntou o que ele estava esperando obter com aquilo.
— Por quanto tempo? — perguntou Gansey ao telefone.
Ronan repousou a testa na prateleira mais alta. A borda do metal fez uma marca em seu crânio, mas ele não se mexeu. À noite, as saudades de casa eram incessantes e oniscientes, um contágio por via aérea. Ele as viu nas luvas de forno baratas da Dollar City — isso era a sua mãe na hora do jantar. Ele as ouviu no bater da gaveta da caixa registradora — isso era o seu pai voltando para casa à meia-noite. Ele as cheirou no sopro súbito do desodorizador de ambiente — isso eram as viagens em família para Nova York.
A sua casa ficava tão próxima à noite. Ele poderia estar lá em vinte minutos. Ele queria quebrar tudo naquelas prateleiras.
Noah tinha saído a perambular pelo corredor, mas agora voltava alegremente com um globo de neve. Ele parou atrás de Ronan até que este se afastou da prateleira para admirar a atrocidade. Uma palmeira decorada com motivos natalinos e dois banhistas com feições indistintas presos lá dentro, com uma declaração equivocada pintada: “É SEMPRE NATAL EM ALGUM LUGAR”.
— Glitter — sussurrou Noah reverentemente, sacudindo-o. Com certeza, não era neve falsa, mas glitter que caía sobre as areias em feriado eterno. Tanto Ronan quanto Motosserra observaram, transfixados, enquanto os flocos coloridos caíam sobre a palmeira.
Mais adiante no corredor, Gansey sugeriu ao telefone:
— Você pode ficar em Monmouth. De noite.
Ronan riu bruscamente, alto o suficiente para Gansey ouvir. Adam fazia questão de ficar no canto dele, mesmo que fosse horrível. Mesmo se o quarto fosse uma acomodação cinco estrelas, ele acharia detestável. Porque não era da casa caindo aos pedaços que Adam sentia falta, desesperada e envergonhadamente, tampouco da Indústria Monmouth, a casa nova que o orgulho de Adam não o deixaria desfrutar. Às vezes Ronan achava que Adam estava tão acostumado com o fato de o jeito certo ter de ser doloroso que ele duvidava de qualquer caminho que não viesse acompanhado de sofrimento.
As costas de Gansey estavam voltadas para eles.
— Escute, não sei do que você está falando. Ramirez? Eu não falei com ninguém na igreja. Sim, dois mil e quatrocentos dólares, eu sei dessa parte. Eu...
Isso significava que eles estavam falando a respeito da carta da Aglionby; tanto Ronan quanto Gansey haviam recebido a mesma carta.
Agora a voz de Gansey estava baixa e furiosa.
— De certo ponto de vista, isso não é engan... Não, você está certo. Você está certo, eu realmente não entendo. Não sei e nunca vou saber.
Adam provavelmente tinha feito a conexão entre a mudança do seu aluguel e o aumento da matrícula. Não era uma suposição complicada, e ele era inteligente. Era fácil, também, colocar isso na conta de Gansey. Se Adam estivesse pensando direito, no entanto, teria considerado que era Ronan quem tinha conexões infinitas com a Santa Inês. E que quem quer que estivesse por trás da mudança do aluguel precisaria ter ido à secretaria da igreja com um monte de dinheiro e a vontade irredutível de persuadir uma senhora a mentir sobre uma auditoria fiscal falsa. Desse ponto de vista, a história parecia ter a assinatura de Ronan por toda parte.
Mas uma das coisas maravilhosas de ser Ronan Lynch era que ninguém jamais esperava um gesto legal dele.
— Não fui eu — disse Gansey —, mas fico feliz que tenha acontecido. Tudo bem. Pense o que você quiser.
A questão era que Ronan sabia como um rosto se parecia logo antes de entrar em crise. Ele o vira no espelho muitas vezes. Adam tinha linhas profundas por toda parte. Ao lado de Ronan, Noah disse “Ah!”, de maneira bastante surpresa. Então ele desapareceu.
O globo de neve bateu no chão onde os pés de Noah estavam. E deixou uma elipse viscosa e cambaleante enquanto rolava para longe. Assustada, Motosserra bicou Ronan.
Ele a tinha apertado quando deu um salto para trás com o ruído.
— Por favor — disse a atendente.
Ela não vira nada. Mas era óbvio que sabia que algo tinha acontecido.
— Não precisa se exaltar — disse Ronan em voz alta. — Vou pagar por isso.
Ele jamais admitiria como seu coração batia forte no peito.
Gansey se virou bruscamente, o rosto perplexo. A cena — Noah ausente, o globo de neve horroroso rolando debaixo de uma prateleira — não oferecia uma explicação imediata. Para Adam, ele disse:
— Espere um minuto.
Abruptamente, o corpo inteiro de Ronan ficou frio. Não um pouco frio, mas absolutamente gelado. O tipo de frio que seca a boca e deixa a circulação sanguínea mais lenta. Motosserra soltou um guincho, aterrorizada.
— Cráá!
Ele colocou uma mão congelada sobre a cabeça dela e a confortou, embora ele não se sentisse confortado.
Então Noah reapareceu com um estalo violento, como a energia elétrica crepitando de volta. Seus dedos agarraram o braço de Ronan. O frio exsudava do ponto de contato, à medida que Noah consumia o calor para se tornar visível. Um sopro absolutamente perfeito do ar de verão de Henrietta se dissipou em torno deles, a fragrância da floresta na ocasião da morte de Noah.
Todos sabiam que Noah podia baixar a temperatura no ambiente em um primeiro momento, quando se manifestava, mas essa escala era algo novo.
— Ei! Valeu por pedir antes, imbecil! — disse Ronan, mas não o afastou. — O que foi isso?
Noah estava com os olhos arregalados.
— Eu ligo de volta para você — Gansey disse a Adam.
— Vocês já terminaram? — disse a atendente.
— Quase! — Gansey gritou de volta, em sua voz serenamente doce, enfiando o telefone no bolso. — Vou pegar umas toalhas de papel, só um minuto! O que está acontecendo aqui? — Essa última parte foi sussurrada para Ronan e Noah.
— O Noah teve um dia de folga.
— Eu perdi... — Noah lutou para encontrar as palavras. — Não tinha ar. Ela sumiu. A... a linha!
— A linha ley? — perguntou Gansey.
Noah anuiu uma vez, um gesto desleixado que era uma espécie de dar de ombros ao mesmo tempo.
— Não sobrou... nada para mim.
Soltando Ronan, ele relaxou as mãos.
— De nada, cara — rosnou Ronan. Ele ainda não conseguia sentir os dedos dos pés.
— Obrigado. Eu não queria... Você estava aqui. Ah, o glitter.
— Sim — respondeu Ronan irritadamente. — O glitter.
Gansey recolheu rapidamente o globo de neve vazando e desapareceu em direção ao balcão. Então voltou com um recibo e um rolo de toalhas de papel.
— O que está acontecendo com o Parrish? — perguntou Ronan.
— Ele viu uma mulher no apartamento dele. Disse que ela estava tentando falar com ele. Ele parecia um pouco nervoso. Acho que a linha ley está vindo com tudo.
Ele não disse: “Ou talvez algo terrível tenha acontecido com o Adam aquele dia que ele se sacrificou em Cabeswater. Talvez ele tenha bagunçado com tudo em Henrietta ao despertar a linha ley”. Porque eles não podiam falar a respeito disso. Da mesma maneira que não podiam falar sobre Adam ter roubado o Camaro aquela noite. Ou sobre ele ter feito basicamente tudo que Gansey havia lhe pedido para não fazer. Se Adam não pensava direito quando se tratava de seu orgulho, Gansey não pensava direito quando se tratava de Adam.
— A linha ley vindo com tudo. Certo. Ãhã, aposto que é isso.
Toda a fantasia do momento na Dollar City estava arruinada. Enquanto Gansey deixava a loja na frente deles, Noah disse para Ronan:
— Eu sei por que você está bravo.
Ronan zombou dele, mas seu pulso se acelerou.
— Me diz então, profeta.
— Não é minha responsabilidade contar os segredos dos outros.

4 comentários:

  1. "Se Adam estivesse pensando direito, no entanto, teria considerado que era Ronan quem tinha conexões infinitas com a Santa Inês. E que quem quer que estivesse por trás da mudança do aluguel precisaria ter ido à secretaria da igreja com um monte de dinheiro e a vontade irredutível de persuadir uma senhora a mentir sobre uma auditoria fiscal falsa. Desse ponto de vista, a história parecia ter a assinatura de Ronan por toda parte.
    Mas uma das coisas maravilhosas de ser Ronan Lynch era que ninguém jamais esperava um gesto legal dele."

    É um amor esse bebezinho, né nom?

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    Respostas
    1. Cara, o Adam é muito idiota!! Nunca vou shippar ele e a Blue, aliás o Gansey também é bem idiota as vezes.

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    2. Todos os meninos são problemáticos, só o Noah é de boas (tirando o detalhe de estar morto).

      j.

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  2. No fundo o Ronan é um amorzíneo

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Boa leitura, E SEM SPOILER!