3 de junho de 2018

Capítulo 9

Opa! Chamada a cobrar
Se quiser morrer
É só você atender

AH, VIDA CRUEL!
Alguém pode, por favor, me explicar por que eu sempre acabo caindo em caçambas de lixo?
Mas tenho que admitir que aquela caçamba salvou minha vida. Diversas explosões abalaram a loja de artigos militares, sacudindo até o deserto, balançando a tampa da caixa de metal fedorenta que nos abrigava. Suando e tremendo, sem nem conseguir respirar direito, eu e os dois sátiros ficamos encolhidos em meio aos sacos de lixo, ouvindo a chuva de detritos que caía do céu; uma tempestade inesperada de madeira, gesso, vidro e artigos esportivos.
Depois do que pareceram anos, decidi me arriscar a dizer alguma coisa. Seria algo como me tirem daqui senão vou vomitar!, mas Grover tapou minha boca. Mal dava para ver os sátiros naquela penumbra, mas ele balançou a cabeça, enfático, os olhos arregalados. O treinador Hedge também parecia tenso, e seu nariz tremia como se estivesse sentindo um fedor ainda pior do que o do lixo.
Ouvi o clop, clop, clop de cascos no asfalto — alguém se aproximava do nosso esconderijo.
Ouvi uma voz grave:
— Ah, mas isso é tão perfeito.
Um focinho farejou a beirada da caçamba de lixo, talvez à procura de sobreviventes — nós. Tentei não chorar e não molhar a calça, mas só fui bem-sucedido em uma dessas empreitadas. Deixo vocês decidirem qual.
A tampa da caçamba de lixo permaneceu fechada. Talvez o lixo e o incêndio na loja gigantesca escondessem nosso odor.
— Ei, Cezão! — disse a mesma voz grave. — É, sou eu.
Pela falta de resposta audível, concluí que o recém-chegado estava falando ao telefone.
— Não, o lugar já era. Não sei. Macro deve ter…
Ele fez uma pausa, como se a pessoa do outro lado o tivesse interrompido.
— Eu sei. Pode ter sido alarme falso, mas… Ah, droga. A polícia humana está chegando.
Um momento depois, ouvi sirenes ao longe.
— Posso procurar aqui pela área. Talvez nas ruínas colina acima.
Hedge e Grover trocaram olhares preocupados. Essas ruínas só podiam ser nosso esconderijo, que naquele momento abrigava Mellie, Meg e o bebê.
— Sei que você acha que já resolveu o problema lá — argumentava o recém-chegado. — Mas, olha, aquele lugar ainda é perigoso. Estou dizendo…
Daquela vez consegui ouvir uma voz baixa e metálica tagarelando sem parar do outro lado da linha.
— Tudo bem, Cezão. Sim. Pelas jardineiras de Júpiter, homem, calma! Eu só… Tudo bem. Tudo bem. Estou voltando.
Ele soltou um suspiro exasperado, o que devia significar que a ligação tinha chegado ao fim.
— Esse garoto vai me matar de cólicas.
Ouvi uma pancada na lateral da caçamba, bem perto do meu rosto, e os cascos se afastaram a galope.
Precisei de vários minutos para me sentir seguro o bastante para sequer olhar para os sátiros. Concordamos, ainda em silêncio, que o melhor era sair dali antes de morrermos sufocados, de insolação ou com o cheiro que saía da minha calça.
Do lado de fora, demos de cara com um beco cheio de restos de metal retorcido e plástico fumegantes. O armazém em si era uma casca preta, as chamas ainda ardendo, acrescentando mais colunas de fumaça ao céu noturno cheio de cinzas.
— Q-quem era aquele? — perguntou Grover. — Cheirava como um humano montado num cavalo, mas…
O treinador Hedge estalou o nunchaku.
— Será que era um centauro?
— Não. — Toquei a lateral da caçamba no ponto em que havia um amassado com a marca inconfundível de um casco com ferradura. — Era um cavalo. Um cavalo falante.
Os sátiros me encararam.
— Todos os cavalos falam — corrigiu Grover. — Mas em cavalês.
— Espera aí... — Hedge franziu a testa. — Quer dizer que você entendeu o cavalo?
— Entendi. Aquele cavalo fala a nossa língua.
Eles pareceram esperar alguma explicação, mas não consegui dizer mais nada.
Já fora de perigo, com a adrenalina passando, eu me vi tomado por um desespero frio e pesado. Se eu tivesse alguma esperança de estar errado sobre o inimigo que teríamos que enfrentar, teria sido destruída depois daquilo.
Caio Júlio César Augusto Germânico… Estranhamente, um nome usado por vários romanos antigos famosos. Mas o mestre de Névio Sutório Macro? O Cezão? Neos Helios? O único imperador romano que tinha um cavalo falante em seu séquito? Só podia ser uma pessoa. E era uma pessoa horrível.
O topo das palmeiras mais próximas estava iluminado pelas luzes piscantes dos veículos de emergência que sobrevoavam a área.
— Temos que sair daqui — anunciei.
Gleeson olhou para a loja de equipamentos militares arruinada.
— É. Vamos pela frente, para ver se meu carro ainda existe. Queria tanto ter conseguido alguns suprimentos...
— Conseguimos coisa bem pior. — Eu respirei fundo, trêmulo. — A identidade do terceiro imperador.

* * *

As explosões não tinham atingido o Chevette amarelo de 1979. Claro que não. Um carro horrível daqueles não seria destruído por nada menos que o apocalipse mundial. Eu me sentei no banco de trás, usando uma calça camuflada rosa que encontramos entre os destroços. Meu estupor era tanto que mal me lembro de passarmos pelo drive-thru do Enchiladas del Rey, onde compramos comida suficiente para alimentar dezenas de espíritos da natureza.
De volta às ruínas na colina, organizamos um conselho de cactos.
A Cisterna estava lotada de dríades das plantas do deserto: Josué, Figo-da-índia, Aloe Vera e muitas outras, todas com roupas cheias de espinhos, todas fazendo o possível para não espetarem umas às outras.
Mellie correu até Gleeson, primeiro enchendo-o de beijos e dizendo o quanto ele era corajoso, e logo em seguida dando socos em seus braços e o acusando de querer que ela criasse o bebê Hedge sozinha, viúva. O bebê, que descobri se chamar Chuck, estava acordado e bem pouco feliz, chutando a barriga do pai com os casquinhos enquanto Gleeson tentava impedi-lo de puxar seu cavanhaque com as mãos gordinhas.
— Pelo menos trouxemos enchiladas, e eu consegui um nunchaku incrível! — argumentou Hedge para Mellie.
A dríade olhou para o céu, talvez desejando poder voltar à vida simples de nuvem solteira.
Meg McCaffrey tinha recuperado a consciência e parecia tão bem quanto sempre, só mais gosmenta que o normal, graças aos atendimentos de primeiros-socorros de Aloe Vera. Ela estava sentada na beira da piscina, os pés descalços mergulhados na água, lançando olhares para Josué, que estava ali perto, lindo e sério de roupa cáqui.
Perguntei a Meg se ela tinha melhorado — porque sou mesmo muito atencioso —, mas ela insistiu que estava bem e gesticulou para que eu parasse de perguntar. Meg só devia estar meio constrangida pela minha presença ali enquanto ela tentava olhar discretamente para Josué — o que me fez revirar os olhos.
Garota, eu já reparei qual é a sua, quis dizer. Você não é nada sutil. E precisamos ter uma conversa sobre essa sua quedinha por dríades.
Mas eu não queria que ela me mandasse estapear meu próprio rosto, então fiquei de boca fechada.
Grover distribuiu enchilada para todos. Ele próprio não comeu nada, um sinal claro do quanto estava nervoso, mas andou ao redor da piscina, tamborilando na flauta.
— Pessoal, temos problemas — anunciou.
Eu nunca tinha imaginado Grover Underwood como líder, mas era assim que os outros espíritos da natureza o enxergavam, prestando total atenção ao que ele falava. Até o bebê Chuck ficou quieto e inclinou a cabeça na direção da voz de Grover, como se ele fosse uma coisa interessante que talvez valesse a pena chutar.
O sátiro contou tudo que aconteceu desde que nos encontramos, lá em Indianápolis. Relatou nossos dias no Labirinto, falando dos poços e lagos de veneno, da onda de fogo, do bando de estriges e da rampa em espiral que nos levou às ruínas.
As dríades olharam em volta, nervosas, como se estivessem imaginando a Cisterna cheia de corujas demoníacas.
— Tem certeza de que estamos seguros? — perguntou uma garota baixa e gorducha, que tinha um sotaque cantado e flores vermelhas presas (ou talvez florescendo) no cabelo.
— Não sei, Reba. — Grover olhou para Meg e para mim. — Pessoal, essa é a Rebutia. O apelido dela é Reba. Ela foi transplantada da Argentina.
Acenei educadamente. Nunca tinha encontrado um cacto argentino, mas gostava muito de Buenos Aires. Se você acha que sabe dançar tango é porque nunca dançou com um deus grego no La Ventana.
— Acho que aquela saída do Labirinto não estava lá antes — continuou Grover. — Pelo menos está lacrada agora. Acho que o Labirinto estava nos ajudando, nos trazendo para casa.
— Ajudando? — Figo-da-índia ergueu o rosto das enchiladas de queijo. — O mesmo Labirinto que gera incêndios que estão destruindo todo o estado? O mesmo Labirinto que estamos explorando há meses para tentar encontrar a fonte do fogo, sem resultado? O mesmo Labirinto que engoliu mais de dez dos nossos grupos de busca? Se isso é ajudar, o que será de nós quando o Labirinto resolver não ajudar?
As outras dríades grunhiram, concordando. Algumas ficaram literalmente arrepiadas.
Grover ergueu as mãos, pedindo calma.
— Sei que estamos todos muito preocupados e frustrados, mas o Labirinto de Fogo não é o Labirinto todo. E pelo menos agora temos uma ideia de por que o imperador fez o que fez. É por causa do Apolo.
Dezenas de espíritos de cacto se viraram para me encarar.
— Só para esclarecer — protestei, em voz baixa —, não é culpa minha. Fala para eles, Grover. Fala para esses seus amigos muito… espinhosos que a culpa não é minha.
O treinador Hedge grunhiu.
— Bom, meio que é, né? Macro disse que o Labirinto era uma armadilha para você. Deve ser por causa daquele oráculo que você está procurando.
Mellie olhou do marido para mim.
— Macro? Oráculo?
Expliquei que Zeus me obrigou a viajar pelo país e libertar antigos oráculos como parte da minha penitência, porque esse era o tipo de pai horrível que eu tinha.
Hedge então contou sobre nosso divertido passeio de compras na Maluquice Militar do Macro. Quando ele começou a se enrolar, falando sobre os vários tipos de minas terrestres que tinha encontrado, Grover se intrometeu.
— Então explodimos o Macro — resumiu Grover —, que é um seguidor romano desse imperador. Ele mencionou uma espécie de feiticeira que quer… sei lá, fazer alguma magia do mal em Apolo, acho. E ela está ajudando o imperador. Achamos que eles colocaram o próximo oráculo…
— A Sibila Eritreia — acrescentei.
— Certo — concordou Grover. — Achamos que eles colocaram essa Sibila no meio do Labirinto como uma espécie de isca para o Apolo. Além do mais, tem um cavalo falante.
O rosto de Mellie pareceu ficar carregado — o que não era surpreendente, considerando que ela era uma nuvem.
— Todos os cavalos falam.
Grover explicou o que ouvimos na caçamba de lixo, então teve que explicar por que estávamos em uma caçamba de lixo. E depois explicou por que eu tinha molhado a calça, e que era por isso que eu estava usando aquela calça rosa camuflada.
— Ahhh. — Todas as dríades assentiram, como se aquela fosse a única questão que as afligisse naquela história toda.
— Podemos voltar ao problema da vez? — supliquei. — Temos uma causa em comum! Vocês querem que os incêndios parem, e eu tenho a missão de libertar a Sibila Eritreia. Para fazer qualquer uma dessas duas coisas, temos que achar o coração do Labirinto; é lá que vamos encontrar a fonte do fogo a Sibila. Eu sei, eu simplesmente… sei.
Meg me encarou com atenção, como se tentasse decidir que ordem constrangedora deveria dar primeiro: Pular na piscina? Abraçar Figo-da-índia? Encontrar uma camisa que combine com essa calça?
— Conte sobre o cavalo — pediu.
Ordem recebida. Eu não tinha escolha.
— O nome dele é Incitatus.
— E ele fala — completou Meg. — Tipo, de um jeito que os humanos conseguem entender.
— É, mas em geral ele só fala com o imperador. Não me pergunte como ele fala, nem de onde veio. Eu não sei. É um cavalo mágico. O imperador confia nele, provavelmente mais do que em qualquer outro aliado. Quando o imperador governava a antiga Roma, mandava vestirem Incitatus com roxo senatorial, e até tentou nomeá-lo cônsul. As pessoas achavam que o imperador estava doido, mas ele sempre foi muito são.
Meg se inclinou para a piscina, se encolhendo como se estivesse retornando ao seu casulo mental. Os imperadores eram sempre um assunto delicado para ela; criada no lar de Nero (os termos abuso gaslighting explicam melhor o que ela viveu lá), Meg me traiu (a pedido de Nero) no Acampamento Meio-Sangue, antes de voltar para o meu lado, em Indianápolis — um assunto que não discutimos por muito tempo. Eu não a culpava, coitada. De verdade. Mas fazer com que ela confiasse na minha amizade, com que confiasse em qualquer um depois do padrasto era como treinar um esquilo selvagem para comer na sua mão. Qualquer barulho alto fazia ela sair correndo, mordesse ou ambos. (Acho que não é uma comparação justa. Meg morde bem mais forte que um esquilo selvagem.)
Depois de um tempo, ela disse:
— Aquele verso da profecia: Até achar o dono do cavalo branquinho.
Assenti.
— Incitatus pertence ao imperador. Talvez pertence não seja a palavra certa. Incitatus é o braço direito do homem que agora alega dominar o oeste dos Estados Unidos ocidental, Caio Júlio César Germânico.
Essa seria a deixa para as dríades exclamarem todas juntas, assombradas, e talvez para uma música de fundo sinistra. Mas só rostos sem expressão me encararam. O único som, e muito sinistro, era o bebê Chuck mastigando a tampa de isopor do especial de jantar no 3 de seu pai.
— O tal Caio — disse Meg. — Ele é famoso?
Olhei para as águas escuras da piscina. Quase desejei que Meg mandasse que eu pulasse e me afogasse. Ou que me obrigasse a usar uma camisa combinando com a calça rosa. Qualquer uma dessas punições seria mais fácil do que responder àquela pergunta.
— O imperador é mais conhecido por seu apelido de infância — expliquei. — Que ele despreza, aliás. Mas a história se lembra dele como Calígula.

8 comentários:

  1. Laíres de Deus câmara campos4 de junho de 2018 14:24

    Eu sabia! sabia que esse cavalo estava interligado à profecia.
    (a Meg tá gostando do Josué ?! EI! ISSO NÃO VALE, MCFRAY!

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  2. kkkkkkkkkkkk retiro o que disse no cap 7 este nome e retardado

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  3. O filho do treinador se chama Chuck! kkkkkk

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  4. Damon Herondale, filho de Zeus6 de junho de 2018 00:17

    Se me lembro bem, fui um dos primeiros leitores a supor que um dos imperadores é Calígula.

    Sentimentos confusos: satisfeito por ter estado sempre certo, ódio por esse nome, rindo pela causa que fez o Apolo vestir uma calça rosa.

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  5. Na primeira vez que ele apareceu e matou o antigo imperador eu até achei que fosse o caligula, ai veio o nome e eu pensei que fosse O cesar, sabe, o primeiro.

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  6. Essas dríades parecem meus colegas de escola. Elas estão no meio de uma situação perigosa e a maior dúvida delas é o motivo da calça cor-de-rosa. Kkkkkkkk

    Prioridades, certo?

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  7. Quando vi o nome do capítulo só lembrei daquela musiquinha: tem pobre ligando pra mim
    Isso não tem lógica alguma, mas eu tô rolando de rir

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    1. kkkkkkk ai, agora que você falou, eu lembrei daquela gravaçãozinha. "Chamada a cobrar. Para aceitá-la, continue na linha após a identificação"

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Boa leitura, E SEM SPOILER!