26 de junho de 2018

Capítulo 8

Adam Parrish tinha problemas maiores que os sonhos de Ronan. Para começo de conversa, sua casa nova. Ultimamente, ele vivia em um quarto minúsculo acima da reitoria da Igreja de Santa Inês. Todo o lugar havia sido construído no fim do século XVIII e isso era visível. Adam constantemente batia a cabeça contra o teto inclinado e cravava lascas de madeira letais nos pés com meias. Todo o aposento tinha aquele cheiro de casas muito antigas — mofo no estuque, pó na madeira e flores esquecidas. Ele havia mobiliado o espaço: um colchão fino da Ikea sobre o chão descoberto, caixas plásticas e de papelão como mesas de cabeceira e escrivaninha, um tapete encontrado à venda por três dólares.
Não era nada, mas era o nada de Adam Parrish. Como ele o amava e o odiava. Como tinha orgulho dele, quão lamentável ele era.
O nada de Adam Parrish não tinha ar-condicionado. Não havia como escapar do calor de um verão na Virgínia. Ele estava suficientemente familiarizado com a sensação do suor escorrendo por dentro da calça.
E então havia os três empregos temporários que pagavam a sua anuidade na Aglionby. Ele estava acumulando horas de trabalho agora para poder ter um outono mais tranquilo quando a escola começasse. Ele passou só duas horas no emprego mais fácil — Boyd’s Body & Paint Ltda., substituindo pastilhas de freio, trocando óleo e encontrando o que estava fazendo aquele ruído estridente ali, não, ali — e agora, embora estivesse de folga, estava imprestável para qualquer outra atividade. Grudento e dolorido e, acima de tudo, cansado, sempre cansado.
Luzinhas dançavam no canto da visão enquanto ele acorrentava a bicicleta à escada do lado de fora de seu quarto. Passando o dorso da mão na testa suada, subiu a escada e percebeu que Blue estava esperando lá em cima.
Blue Sargent era bonita de um jeito fisicamente doloroso para ele. Ele era maluco por ela. Ela estava sentada com as costas apoiadas na porta, de legging de renda e uma túnica feita de uma camiseta rasgada dos Beatles tamanho extragrande. Estava conferindo preguiçosamente as ofertas da semana do supermercado no celular, mas colocou o aparelho no chão quando o viu.
O único problema é que Blue era outra coisa que o incomodava. Ela era como Gansey, no sentido de que queria que ele se explicasse. O que você quer, Adam? Do que você precisa, Adam? Quer e precisa eram palavras que se haviam desgastado mais e mais: liberdade, autonomia, um saldo bancário perene, um apartamento de aço inoxidável em uma cidade sem pó, um carro negro sedoso, dar uns amassos na Blue, oito horas de sono, um telefone celular, uma cama, beijar Blue apenas uma vez, um calcanhar sem bolhas, bacon para o café da manhã, segurar a mão de Blue, uma hora de sono, papel higiênico, desodorante, um refrigerante, um minuto para fechar os olhos.
O que você quer, Adam?
Me sentir desperto quando meus olhos estão abertos.
— Oi — ela disse. — Tem carta para você.
Ele sabia. Já tinha visto o envelope ignorado e fechado, adornado com a crista de um corvo da Academia Aglionby. Por dois dias estivera passando por ele, como se o envelope pudesse desaparecer se ele o ignorasse. Ele já tinha recebido as notas, e o envelope não era gordo o suficiente para conter informações sobre o baile de gala trimestral para levantar fundos. Poderia ser apenas um jantar de ex-alunos ou a propaganda de um álbum de fotografia. A escola estava sempre mandando avisos sobre oportunidades para incrementar a experiência da Aglionby. Acampamentos de verão e aulas de voo, anuários de luxo e artigos personalizados com o brasão do corvo. Estes, Adam jogava fora. Eles eram dirigidos aos olhos dos pais ricos, em casas com a foto emoldurada de seus filhos.
Mas, dessa vez, ele não achou que fosse uma notificação para um baile de arrecadação de fundos.
Ele se inclinou para pegá-lo, então hesitou, os dedos na maçaneta.
— Você vai entrar? Preciso de um banho.
Houve um instante de silêncio. Era mais fácil antes, pensou Adam subitamente, quando a gente não se conhecia.
Blue disse:
— Pode ir tomar o seu banho. Não me importo. Só pensei em dar uma passada para dizer oi antes do trabalho.
Ele enfiou a chave na fechadura e abriu a porta para os dois. Eles pararam no meio do quarto, o único lugar em que podiam ficar de pé sem abaixar a cabeça.
— Então — ela disse.
— Então — ele disse.
— Alguma novidade no trabalho?
Adam se esforçou para pensar em uma história engraçada. Sua mente era uma caixa que ele esvaziava ao cabo de seus turnos no trabalho.
— Ontem, o Boyd me perguntou se eu queria ser o técnico dele para a próxima temporada. De rally.
— O que isso quer dizer?
— Que eu teria um emprego depois que eu me formar. Eu ficaria na estrada seis ou sete semanas por ano. — Na realidade, fora uma oferta lisonjeira. A maioria dos mecânicos que viajava com Boyd trabalhava para ele há muito mais tempo que Adam.
— Você não aceitou — Blue tentou adivinhar.
Ele olhou de relance para ela. Adam não conseguia fazer uma leitura de Blue tão facilmente como fazia com Gansey. Ele não sabia dizer se ela estava satisfeita ou desapontada.
— Eu vou fazer faculdade. — Ele não acrescentou que não estava se matando na Aglionby para acabar como um mecânico de luxo. Isso poderia ter sido o bastante um dia, se ele não tivesse tomado conhecimento de todas as oportunidades que existiam por aí. Se ele não tivesse crescido ao lado da Academia Aglionby. Se você nunca tivesse visto as estrelas, velas eram o suficiente.
Ela cutucou com o dedo do pé uma bomba de combustível que estava sendo reformada e que repousava sobre jornais.
— Ãhã.
Havia algo ali, escondendo-se atrás da sua resposta, alguma tensão particular. Ele tocou o rosto dela.
— Tem algo errado?
Não era muito justo. Ele sabia que o toque dele distrairia a ambos da questão. Como esperado, Blue fechou os olhos. Ele pressionou a palma sobre a face fria dela, então, após uma pausa, desceu pelo pescoço. Sua mão estava hiperconsciente do que sentia: os cabelos soltos na base do pescoço de Blue, a ligeira aderência da pele dela, uma memória do sol, o caroço da garganta dela se movendo enquanto ela engolia.
Ele a capturou com a outra mão, puxando-a para perto. Cuidadosamente. Agora ela estava pressionada contra ele, próxima o suficiente para ele se sentir envergonhado da camisa suada. O queixo de Adam repousava sobre o topo da cabeça dela. Os braços de Blue soltos em torno dele; ele sentiu a respiração dela aquecer o tecido de sua camisa.
Ele não podia esquecer que o osso de seu quadril estava pressionado contra ela. Não era suficiente. Ele doía por dentro. Mas havia uma linha que ele não podia ultrapassar, e ele nunca tinha certeza de onde ela começava. Certamente estava próximo dela. Ele se sentiu perigoso e agitado.
Então os dedos de Blue pressionaram cautelosamente as costas dele, sentindo a sua espinha. Ele não tinha ido longe demais, então.
Ele se inclinou para beijá-la.
Blue se desvencilhou dos braços dele. Na realidade, ela tropeçou na pressa de se afastar e bateu a cabeça no teto inclinado.
— Eu disse não — ela arfou, a mão segurando a parte de trás do crânio.
Algo o machucou.
— Tipo, seis semanas atrás.
— Ainda é não!
Eles se encararam, ambos magoados.
— Só... — ela disse — Só sem beijar.
Ele ainda estava machucado. Sua pele era uma constelação de terminações nervosas.
— Eu não entendo.
Blue tocou os lábios como se eles tivessem sido beijados.
— Eu te disse.
Ele só queria uma resposta. Queria saber se era ele ou se era ela. Ele não sabia como perguntar, mas o fez de qualquer jeito.
— Aconteceu... alguma coisa com você?
O rosto dela ficou sem expressão por um momento.
— O quê? Ah. Não. Precisa ter uma razão? A resposta é simplesmente não! Isso não basta?
A resposta correta era sim. Ele sabia disso. Mas a resposta real era que ele queria saber se tinha bafo, ou se ela só estava fazendo aquilo por ele ter sido o primeiro a lhe pedir, ou se tinha outro impedimento que ele não estava considerando.
— Vou tomar uma ducha — ele disse. Adam tentou não soar como se ainda estivesse magoado, mas estava e deixou transparecer. — Você vai estar aqui quando eu voltar? A que horas começa o seu turno?
— Vou te esperar. — Blue tentou não soar como se estivesse magoada, mas estava e deixou transparecer.
Enquanto Blue folheava alguns mapas que ele tinha sobre a mesa de cabeceira de plástico, Adam ficou debaixo do chuveiro frio até seu coração baixar a fervura. O que você quer, Adam? Nem ele sabia. De dentro do velho boxe inclinado, ele captou uma meia-imagem de si mesmo no espelho e se sobressaltou. Por um momento, algo a respeito de seu próprio reflexo lhe pareceu errado. Os olhos grandes e o rosto magro o espiaram de volta, perturbados, mas nada extraordinários.
E, de uma hora para outra, ele estava pensando em Cabeswater de novo. Alguns dias ele sentia que não pensava em mais nada. Ele não tivera muitas coisas na vida que lhe pertencessem de verdade, só a ele e a ninguém mais, mas agora tinha: essa barganha.
Havia se passado pouco mais de um mês desde que Adam oferecera seu sacrifício a Cabeswater a fim de despertar a linha ley. Todo o ritual parecera vertiginoso e surreal em sua mente, como se ele observasse a si mesmo atuar em uma tela de televisão.
Adam havia ido absolutamente preparado para fazer um sacrifício. Mas ele não estava muito certo a respeito de como esse sacrifício específico que eventualmente faria havia chegado até ele: Eu serei suas mãos. Eu serei seus olhos.
Até aquele momento, nada havia acontecido, não realmente. O que era quase pior.
Ele era um paciente com um diagnóstico que não conseguia compreender.
No chuveiro, coçou a pele morena de verão com a unha do polegar. A linha da sua unha foi do branco para o vermelho inflamado em um instante, e, enquanto ele a estudava, ocorreu-lhe que havia algo esquisito a respeito do fluxo de água sobre a sua pele. Como se estivesse em câmera lenta. Ele seguiu a queda de água até a saída do chuveiro e passou um minuto inteiro observando-a jorrar do metal.
Seus pensamentos eram uma confusão de gotas translúcidas se segurando ao metal e chuva se soltando de folhas verdes.
Ele piscou.
Não havia nada esquisito a respeito da água. Não havia folhas. Ele precisava dormir um pouco antes que fizesse algo estúpido no trabalho.
Saindo do chuveiro, com dor nas costas, nos ombros e na alma, Adam se secou e se vestiu lentamente. No fim das contas, ele temia — esperava? — que Blue tivesse ido embora, mas, quando abriu o banheiro, secando o cabelo, descobriu que ela estava parada na porta, conversando animadamente com alguém.
Pois a visitante era a senhora da secretaria da Santa Inês, o cabelo preto crespo pela umidade. Ela provavelmente tinha um título oficial que Ronan sabia — secretária do convento ou algo assim —, mas Adam a conhecia apenas como sra. Ramirez. Ela parecia fazer tudo o que uma igreja precisava para continuar funcionando, fora rezar a missa.
Incluindo a coleta do cheque de aluguel mensal de Adam.
Quando a viu, Adam sentiu um aperto no estômago. Ele não tinha dúvida de que seu último cheque voltara. Ela lhe diria que os fundos eram insuficientes, e Adam lutaria para colocar dinheiro no buraco que se abria em sua conta, e então teria de pagar uma taxa por cheque devolvido para o banco e outra para a sra. Ramirez, ficando ainda mais desfalcado para o aluguel do mês seguinte, num círculo vicioso patético e interminável.
Com a voz fina, ele perguntou:
— O que eu posso fazer pela senhora?
A expressão dela mudou. Ela não tinha certeza de como dizer o que precisava ser dito.
Os dedos de Adam se fecharam no batente da porta.
— Ah, querido — ela disse. — Só vim avisar você sobre o aluguel do seu quartinho aqui.
Não aguento mais, ele pensou. Chega. Por favor, não aguento mais.
— Bem, foi feita uma nova... auditoria fiscal — ela começou. — Nesse prédio. E você sabe que cobramos de você como uma organização sem fins lucrativos. Então nós... o seu aluguel vai mudar. Ele tem que continuar a mesma porcentagem dos... hum... custos do prédio. E vai ficar duzentos dólares mais barato.
Adam ouviu duzentos e definhou. Então ouviu o resto e achou que não havia compreendido direito.
— Mais barato? Por ano?
— Por mês.
Blue parecia encantada, mas Adam não conseguia aceitar bem que seu aluguel tivesse simplesmente caído em dois terços. Dois mil e quatrocentos dólares por ano, subitamente liberados. Seu sotaque hesitante de Henrietta escapou antes que ele pudesse impedir.
— Qual a razão mesmo para a mudança?
— Auditoria fiscal. — Ela riu da suspeita dele. — Em geral, quando se fala em impostos, não são boas notícias, não é?
Ela esperou que Adam respondesse, mas ele não sabia o que dizer. Por fim, disse:
— Obrigado, senhora.
Enquanto Blue fechava a porta, ele derivou de volta para o centro do quarto. Ainda não conseguia acreditar no que havia acontecido. Não, ele não acreditaria. Simplesmente não fazia sentido. Ele pegou a carta da Aglionby. Deixando-se cair no colchão fino, finalmente a abriu.
O conteúdo era realmente bastante fino, apenas uma carta com espaçamento simples na letra da Aglionby. Não foi preciso muito para transmitir a mensagem. A matrícula do ano seguinte iria subir para cobrir custos adicionais, mas sua bolsa não. Eles sabiam que o aumento na matrícula representaria uma dificuldade para ele, e que ele era um aluno excepcional, mas precisavam lembrá-lo, com a maior generosidade possível, que a lista de espera para a Aglionby era bastante longa, repleta de garotos excepcionais com condições de pagar toda a matrícula.
Concluindo, eles lembraram ao sr. Parrish que cinquenta por cento da matrícula do próximo ano precisava ser paga até o fim do mês para que ele garantisse a vaga.
A diferença na matrícula daquele ano para o próximo era de dois mil e quatrocentos dólares.
Esse número de novo. Não podia ser coincidência.
— Você quer falar sobre isso? — perguntou Blue, sentando-se ao lado dele.
Ele não queria falar sobre isso.
Gansey devia estar por trás de tudo aquilo. Ele sabia que Adam jamais aceitaria dinheiro dele, então bolou tudo isso. Persuadiu a sra. Ramirez a aceitar um cheque e criar uma auditoria fiscal para cobrir seus rastros. Gansey devia ter recebido uma notificação de matrícula igual dois dias atrás. O aumento não significaria nada para ele.
Por um breve momento, ele imaginou a vida que Gansey levava. As chaves do carro no bolso. Os sapatos novinhos nos pés. O olhar descuidado para as contas mensais. Elas não poderiam prejudicar Gansey. Nada poderia prejudicá-lo; pessoas que diziam que o dinheiro não podia comprar tudo não tinham visto ninguém tão rico quanto os garotos da Aglionby. Eles eram intocáveis, imunes aos problemas da vida. Apenas a morte não podia ser resolvida com um cartão de crédito.
Um dia, pensou Adam miseravelmente, um dia isso serei eu.
Mas essa artimanha não estava certa. Ele jamais teria pedido a ajuda de Gansey. Adam não tinha certeza de como ele teria coberto o aumento da matrícula, mas não era assim, não com o dinheiro de Gansey. Ele imaginou a cena: um cheque dobrado, colocado apressadamente no bolso, olhares que não se cruzavam.
Gansey aliviado porque Adam finalmente usara a cabeça. Adam incapaz de dizer obrigado.
Ele percebeu o olhar de Blue o observando, os lábios apertados, o cenho franzido.
— Não olhe para mim desse jeito — ele disse.
— De que jeito? Não posso me preocupar com você?
A irritação transparecia na voz dele.
— Não quero a sua pena.
Se ele não permitia que Gansey tivesse pena dele, certamente o mesmo se aplicava a Blue. Ela e Adam estavam no mesmo barco, afinal de contas. E ela não estava a caminho do trabalho, o mesmo lugar de onde ele acabara de chegar?
— Então não seja digno de pena.
A raiva cresceu dentro dele e o tomou por completo no mesmo instante. Era uma emoção binária nos Parrish. Não existia ficar um pouco irado. Era nada ou então isso: a fúria absoluta.
— O que é digno de pena a meu respeito, Blue? Me conte o que é digno de pena. — Ele se pôs de pé em um salto. — Será que é porque eu trabalho para conseguir tudo o que tenho? É isso que me torna digno de pena e o Gansey não? — Ele sacudiu a carta. — É porque isso não me foi dado?
Ela não recuou, mas algo fervilhou em seus olhos.
— Não.
A voz de Adam era terrível; ele a ouviu.
— Eu não quero a sua maldita pena.
O rosto dela estava chocado.
— O que você disse?
Ela estava olhando para a caixa que servia de mesa de cabeceira para ele. De alguma maneira, a caixa foi parar longe da cama. Um lado ficou bastante amassado, as coisas que estavam ali guardadas se espalharam violentamente pelo chão. Só agora ele se lembrou do ato de chutar a caixa, mas não da decisão de chutá-la.
A raiva não tinha sido desligada ainda.
Por um longo momento, Blue o encarou e então se levantou.
— Tenha cuidado, Adam Parrish. Porque um dia você talvez consiga o que pediu. Talvez existam garotas em Henrietta que deixem você falar desse jeito, mas eu não sou uma delas. Agora eu vou me sentar naquela escada até a hora do meu turno. Se você conseguir ser... ser humano antes disso, venha me buscar. Se não, nos falamos mais tarde.
Ela se abaixou um pouco para não bater a cabeça e então fechou a porta atrás de si.
Teria sido mais fácil se ela tivesse simplesmente gritado ou chorado. Em vez disso, as palavras riscavam como uma pedra de isqueiro dentro dos pensamentos dele, de novo e de novo, mais uma fagulha e outra. Ela era tão ruim quanto Gansey. Para onde ela pensa que vai? Quando ele se formar e fugir desse lugar, e Blue ainda estiver presa aqui, ela vai se sentir idiota a respeito disso tudo. Adam queria abrir a porta e gritar isso para ela.
Mas se segurou onde estava.
Depois de um tempo, ele se acalmou e viu que a sua raiva era uma coisa separada dentro dele, um presente-surpresa sombrio de seu pai. Ele se acalmou e lembrou que, se esperasse um pouco mais e analisasse cuidadosamente como se sentia, a emoção perderia a inércia. Era assim com a dor física. Quanto mais ele tentasse decidir mentalmente o que estava por trás da dor, menos seu cérebro parecia capaz de se lembrar dela.
Então ele pôs de lado a raiva dentro de si.
Era assim que ele se sentia, perguntou-se Adam, quando agarrava a manga da minha blusa no momento em eu estava saindo pela porta ? Era isso que o fazia enfiar a minha cara na porta da geladeira? Era assim que ele se sentia quando passava pela porta do meu quarto? Era contra isso que ele lutava todas as vezes em que lembrava que eu existia?
Adam se acalmou e percebeu que não era nem com Blue que estivera bravo. Ela só tivera o azar de estar parada na zona de impacto quando ele explodiu.
Adam nunca escaparia, não de verdade. Havia sangue ruim demais nele. Ele havia deixado o covil, mas sua criação o traía. E ele sabia por que era digno de pena. Não era porque ele tinha de pagar pela escola ou porque tinha de trabalhar para se sustentar. Era porque ele estava tentando ser algo que jamais poderia ser.
O fingimento era digno de pena. Ele não precisava de um diploma. Ele precisava de Glendower.
Algumas noites ele conciliava o sono imaginando como colocaria em palavras seu pedido para Glendower. Ele precisava chegar exatamente nas palavras certas. Agora ele as rolava de um lado para o outro na boca, desesperadamente procurando por uma que o confortasse. Ordinariamente, as palavras iam e vinham em sua mente, mas dessa vez tudo que ele conseguia pensar foi: Me conserte.
Subitamente, ele capturou outra imagem.
Em seguida, pensou: O que isso quer dizer? É impossível capturar uma imagem.
E ele certamente não o fizera mais de uma vez. Mas a sensação persistiu, uma ideia que ele tinha visto de relance, ou sentido, ou lembrado algum movimento no canto do olho. Um instantâneo capturado logo atrás de seus olhos.
Adam tinha um sentimento estranho, desconcertante, de que não podia confiar em seus sentidos. Como se ele estivesse sentindo o gosto de uma imagem, ou cheirando um sentimento, ou tocando um som. Da mesma maneira que alguns minutos atrás, a ideia de que ele tinha visto um reflexo ligeiramente diferente de si mesmo.
As preocupações anteriores de Adam desapareceram, substituídas por uma preocupação mais imediata por aquele corpo maltrapilho que ele fazia andar por aí. Ele já tinha sido atingido muitas vezes. Já perdera a audição do ouvido esquerdo. Talvez algo mais tivesse sido destruído em uma daquelas noites tensas e miseráveis.
Então ele capturou outra imagem.
E se virou.

Um comentário:

  1. "Teria sido mais fácil se ela tivesse simplesmente gritado ou chorado. Em vez disso, as palavras riscavam como uma pedra de isqueiro dentro dos pensamentos dele, de novo e de novo, mais uma fagulha e outra. Ela era tão ruim quanto Gansey. Para onde ela pensa que vai? Quando ele se formar e fugir desse lugar, e Blue ainda estiver presa aqui, ela vai se sentir idiota a respeito disso tudo. Adam queria abrir a porta e gritar isso para ela."

    Bebezão
    Se preparem pq ele só piora

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Boa leitura, E SEM SPOILER!