20 de junho de 2018

Capítulo 8

Quando Blue saiu lentamente para a rua, o cansaço havia extinguido sua ansiedade. Ela encheu os pulmões com o ar frio da noite. Não parecia possível que fosse a mesma substância que filtrava pelas ventilações de ar-condicionado do Nino’s.
Ela inclinou a cabeça para trás para observar as estrelas. Ali, no limite do centro da cidade, não havia muitos postes de luz para obliterar completamente as estrelas. Ursa Maior, Leão, Cefeu. Sua respiração se tornava mais fácil e calma a cada constelação familiar que encontrava.
A corrente estava fria quando ela destrancou a bicicleta. Do outro lado do estacionamento, conversas abafadas chegavam aos seus ouvidos e desapareciam. Atrás dela, passos se arrastavam sobre o asfalto em algum lugar próximo. Mesmo quando silenciosas, as pessoas eram realmente os animais mais barulhentos.
Um dia ela viveria em algum lugar onde poderia sair de casa e ver apenas estrelas, e não postes de luz, e então poderia se sentir mais próxima do que jamais estivera de compartilhar o dom de sua mãe. Quando Blue olhava para as estrelas, algo a atraía, algo que a incitava a ver mais do que estrelas, a decifrar o firmamento caótico, para obter uma imagem dele. Mas isso nunca fazia sentido. Blue sempre via somente Leão e Cefeu, Escorpião e Dragão. Talvez ela simplesmente precisasse de mais horizonte e menos cidade. Acontece que ela não queria mesmo ver o futuro. O que ela queria era ver algo que ninguém mais pudesse ver, e talvez isso fosse pedir por mais magia do que havia no mundo.
— Com licença, hum... senhorita. Olá.
A voz era suave, masculina e local; as vogais tinham todas as beiradas polidas.
Blue se virou com uma expressão desinteressada.
Para sua surpresa, era o Garoto Elegante, o rosto mais magro e velho à luz distante da rua. Ele estava sozinho. Nenhum sinal do Presidente Celular, do Garoto Sujo ou de seu amigo hostil. Uma mão firmava a bicicleta. A outra estava enfiada no bolso. A postura insegura não acompanhava muito bem o blusão com o corvo no peito, e ela viu de relance uma parte gasta na costura do ombro antes que ele a escondesse sob as orelhas, encolhendo os ombros como se estivesse com frio.
— Oi — disse Blue, em um tom mais suave do que teria usado se não tivesse notado o puído no blusão. Ela não sabia que tipo de garoto de Aglionby usava blusões de segunda mão. — Adam, não é?
Ele anuiu, brusco e envergonhado, e Blue olhou para a bicicleta. Ela também não sabia que tipo de garoto de Aglionby dirigia uma bicicleta em vez de um carro.
— Eu estava indo para casa — disse Adam — e achei que tinha reconhecido você aqui. Eu queria pedir desculpa. Pelo que aconteceu antes. Eu não pedi para ele fazer aquilo e queria que você soubesse.
Não escapou a Blue que sua voz com um ligeiro sotaque era tão bonita quanto sua aparência. Era como o pôr do sol de Henrietta: balanços quentes em varandas e copos de chá gelado, cigarras mais altas que os pensamentos. Ele olhou por sobre o ombro, então, ao som de um carro em uma rua lateral. Quando olhou de volta para ela, ainda trazia uma expressão cansada, e Blue viu que aquela feição — o cenho franzido, a boca tensa — era sua expressão normal. Combinava com seus traços, acompanhando cada linha em torno da boca e dos olhos. Esse garoto de Aglionby muitas vezes não se sente feliz, ela pensou.
— Que legal de sua parte — disse ela. — Mas não é você que precisa se desculpar.
Adam disse:
— Não posso deixar que ele fique com toda a culpa. Quer dizer, ele estava certo. Eu queria falar com você. Mas não queria simplesmente... tentar ficar com você.
Aquele era o momento em que ela deveria ter se livrado dele. Mas ela estava imobilizada pelo instante em que ele corara na mesa — sua expressão honesta, seu sorriso incerto, recém-cunhado. Seu rosto era simplesmente estranho o bastante para que ela quisesse continuar olhando.
O fato era que Blue nunca havia sido paquerada por alguém que ela desejasse que tivesse sucesso em sua iniciativa.
Não faça isso!, avisou a voz dentro dela.
Mas ela perguntou:
— E o que você queria fazer?
— Conversar — ele disse. Em seu sotaque local, era uma palavra longa e parecia menos um sinônimo para falar e mais para confessar. Blue não podia deixar de olhar para a linha fina e agradável de sua boca. Ele acrescentou: — Acho que eu podia ter evitado um belo incômodo se tivesse simplesmente ido falar com você. As ideias de outras pessoas sempre parecem me causar mais problemas.
Blue estava quase contando a ele como as ideias de Orla causavam problemas para todos em sua casa também, mas então se deu conta de que ele diria algo mais, e daí ela responderia, e isso poderia seguir noite adentro. Algo a respeito de Adam lhe dizia que aquele era um cara com quem ela podia ter uma conversa. Do nada, a voz de Maura surgiu em sua mente: Não preciso dizer para você não beijar ninguém, não é?
E, simples assim, Blue pôs um ponto-final naquilo. Ela era, como Neeve havia dito, uma garota sensata. Na melhor das hipóteses, aquilo só poderia terminar em tormento. Ela expirou forte.
— De qualquer maneira, a questão não era o que ele estava dizendo sobre você. Foi que ele me ofereceu dinheiro — disse ela, colocando o pé no pedal da bicicleta. O segredo era não imaginar como teria sido ficar e conversar. Quando Blue não tinha dinheiro suficiente para algo, a pior coisa no mundo era imaginar como seria ter esse algo.
Adam suspirou, como se reconhecesse o recuo dela.
— Ele não tem noção. É um idiota com dinheiro.
— E você não é?
Ele apenas a encarou com um olhar muito firme. Não era uma expressão que deixasse espaço para brincadeiras.
Blue inclinou a cabeça para trás, mirando as estrelas. Era estranho imaginar quão rapidamente elas giravam no céu: um vasto movimento distante demais para detectar. Leão, Leão Menor, Cinturão de Órion. Se ela fosse sua mãe ou suas tias e lesse o destino nos céus, veria o que deveria dizer a Adam?
Então perguntou:
— Você vai voltar ao Nino’s?
— Isso é um convite?
Ela sorriu em resposta. Parecia algo muito perigoso, aquele sorriso, algo com que Maura não ficaria satisfeita.
Blue tinha duas regras: ficar longe dos garotos, porque eles trazem problemas, e ficar longe de garotos corvos, porque eles são uns canalhas.
Mas essas regras não pareciam se aplicar a Adam. Atrapalhada, ela tirou do bolso um lenço de papel e escreveu nele seu nome e seu número de telefone. Com o coração aos pulos, ela o dobrou e o passou para ele.
Adam se limitou a dizer:
— Que bom que eu voltei.
Então sua figura esbelta deu meia-volta, e ele começou a empurrar a bicicleta, que guinchava pesarosa, de volta pelo caminho de onde viera.
Blue pressionou os dedos contra o rosto.
Eu dei meu telefone para um garoto.
Eu dei meu telefone para um garoto corvo.
Abraçando o corpo com os braços, ela imaginou uma discussão com sua mãe.
Dar o telefone para alguém não quer dizer que você vai beijá-lo.
Blue deu um salto quando a porta de trás do restaurante se abriu. Mas era apenas Donny, sua expressão desanuviando quando a viu. Ele segurava o tentador livro volumoso encadernado em couro que Blue reconheceu de imediato. Ela o vira nas mãos do Presidente Celular.
Donny perguntou:
— Você sabe quem esqueceu isso aqui? É seu?
Ela foi ao seu encontro e, a meio caminho do estacionamento, pegou o diário e o abriu. Ele não escolheu uma página para abrir; estava tão usado e tão cheio que todas as páginas reivindicavam precedência. Ele finalmente se abriu ao meio, obedecendo à gravidade em vez de ao uso.
A página era uma confusão de recortes amarelados de livros e jornais. Uma caneta vermelha sublinhava algumas frases, acrescentava comentários nas margens (“Cavernas Luray contam como lugar espiritual? gralhas = corvos?”) e marcava quadradinhos cuidadosamente dispostos diante de cada item de uma lista intitulada: “Nomes de lugares influenciados pelo galês próximos de Henrietta”. Blue reconheceu a maioria das cidades listadas. Welsh Hills, Glen Bower, Harlech, Machinleth.
— Não cheguei realmente a ler — disse Donny. — Eu só queria ver se tinha um nome nele para devolver. Mas então vi que era... bem, o tipo de coisa que você costuma ler.
Com isso, ele queria dizer que o diário era o que ele esperava da filha de uma médium.
— Acho que eu sei de quem é — disse Blue. Ela não tinha outro pensamento imediato que o desejo de passar mais tempo virando as páginas. — Eu fico com ele.
Quando Donny entrou no restaurante, Blue abriu o diário novamente. Agora ela tinha tempo para se maravilhar com a absoluta densidade dele. Mesmo se o conteúdo não a tivesse surpreendido imediatamente, o sentimento que tudo aquilo provocava o faria. Havia tantos recortes que o diário não mantinha a forma de livro se não estivesse bem atado com laços de couro. Páginas e mais páginas eram dedicadas a trechos rasgados e cortados, e havia um inegável prazer tátil em folheá-lo. Blue correu os dedos sobre as variadas superfícies. Papel de desenho, espesso e untuoso, com uma fonte esguia e elegante. Papel fino, amarronzado, com serifas longas e delicadas. Papel de escritório, utilitário e liso, com uma letra moderna e despojada. Recortes de jornal com bordas esfarrapadas, em um tom quebradiço de amarelo.
Então havia as anotações, feitas com uma meia dúzia de canetas e marcadores diferentes, mas todas na mesma caligrafia profissional. Elas circulavam, apontavam e sublinhavam “muito urgente”. Faziam listas e pontos de exclamação ansiosos nas margens. Contradiziam umas às outras e se referiam umas às outras na terceira pessoa. Linhas se tornavam hachuras, que se tornavam rabiscos de montanhas, que se tornavam marcas de pneus inquietas deixadas por carros velozes.
Blue levou um tempo para entender do que o diário realmente tratava. Ele era organizado em partes pouco precisas, mas estava claro que quem quer que o tivesse criado havia ficado sem espaço em algumas partes e começado de novo mais adiante. Havia uma parte sobre linhas ley, linhas de energia invisíveis que conectavam lugares espirituais; outra sobre Owain Glyndŵr, o rei Corvo; outra sobre lendas de reis adormecidos que esperavam debaixo de montanhas para ser descobertos para uma nova vida. Havia ainda uma parte de histórias estranhas sobre reis sacrificados e antigas deusas da água e todas as coisas velhas que os corvos representavam.
Mais do que qualquer coisa, o diário desejava. Desejava mais do que podia conter, mais do que palavras podiam descrever, mais do que diagramas podiam ilustrar. O anseio transbordava das páginas, em cada linha frenética, em cada desenho apaixonado, em cada definição em negrito. Havia algo de doloroso e melancólico a respeito dele.
Uma forma familiar se destacava do resto dos rabiscos. Três linhas se cruzavam: um triângulo longo, pontiagudo. Era a mesma forma que Neeve havia desenhado na terra no adro da igreja. A mesma forma que sua mãe havia desenhado no boxe do chuveiro coberto de vapor.
Blue aplanou a página para examiná-la melhor. Essa parte era sobre linhas ley: “caminhos de energia mística que conectam lugares espirituais”. Ao longo do diário, o autor havia rabiscado as três linhas repetidas vezes e, junto delas, um Stonehenge de aparência débil, estranhos cavalos alongados e um desenho descritivo de um túmulo. Não havia explicação do símbolo.
Não podia ser coincidência.
Não havia como aquele diário pertencer àquele garoto corvo presidencial. Alguém devia ter dado para ele.
Talvez tenha sido Adam, pensou.
Ele tinha passado para ela a mesma sensação que o diário: o sentimento de algo mágico, de possibilidade, de perigo ansioso. Aquele mesmo sentimento que ela experimentara quando Neeve havia dito que um espírito tocara seu cabelo.
Blue pensou: Eu gostaria que você fosse Gansey. Mas, tão logo pensou isso, ela sabia que não era verdade. Porque, quem quer que fosse Gansey, ele não tinha mais muita vida pela frente.

6 comentários:

  1. aaaaa meu Deus...
    to com um frio na barriga.

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  2. Novamente: Sabe de nada, inocente

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  3. Mas gente, achei qe ela iria se apaixonar pelo Gansey por isso qe ele apareceu aquele dia, aí chega o Adam (qe aliás, ja me conquistou) e ganha o número dela. SOCORR!

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  4. Eu não estava levando esse livro muito a serio, comecei a ler só por que não tinha nada melhor pra fazer....
    mas agora, mano do céu, o trem tá ficando bom.

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  5. No começo queria qe ela ficasse com o Gansey,mas agora quero que ela fique com o Adam <3❤❤❤❤❤❤😍😍😍

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Boa leitura, E SEM SPOILER!