3 de junho de 2018

Capítulo 8


A gente explode umas coisas
Mas não acabou:
Tem uns robôs assassinos

A MAIORIA DOS sátiros sabia fugir como ninguém.
Mas Gleeson Hedge não era como a maioria dos sátiros. Ele pegou uma escova de limpar armas no carrinho, gritou “MORRA!” e partiu para cima do gerente de cento e quarenta quilos.
Até os autômatos ficaram surpresos demais para reagir, o que provavelmente salvou a vida de Hedge. Eu segurei o sátiro pela gola da camisa e o puxei para trás, enquanto os primeiros tiros dos funcionários eram disparados para o alto, uma chuva de etiquetas laranja de desconto sobrevoando nossas cabeças.
Arrastei Hedge pelo corredor, e o treinador, com um chute impetuoso, derrubou o carrinho de compras nos pés dos nossos inimigos. Outra etiqueta de desconto roçou meu braço com a força do tapa de um titã furioso.
— Cuidado! — gritou Macro para seus homens. — Preciso de Apolo inteiro, não pela metade!
Gleeson remexeu nas prateleiras, pegou uma amostra do Coquetel Molotov com Autoacendimento (COMPRE UM, LEVE DOIS! PROMOÇÃO VÁLIDA APENAS NA REDE MACRO®) e jogou nos funcionários da loja, entoando um grito de batalha:
— Seu estoque de vida já era!
Macro berrou quando o coquetel molotov caiu em meio às caixas de munição de Hedge e, fiel à propaganda, explodiu em chamas.
— Para o alto e avante!
Hedge me pegou pela cintura, me jogou em um dos ombros como um saco de batatas e escalou as prateleiras em uma exibição épica de escalada sátira, pulando para o corredor seguinte bem na hora em que as caixas de munição começaram a explodir atrás de nós.
Caímos em uma pilha de sacos de dormir enrolados.
— Continue correndo! — ordenou Hedge, como se isso não tivesse passado pela minha cabeça.
Fui atrás dele, os ouvidos zumbindo. Do corredor de onde tínhamos acabado de sair vieram estrondos e gritos, como se Macro estivesse correndo em uma pipoqueira cheia de óleo.
Nenhum sinal de Grover.
Quando chegamos ao fim do corredor, um funcionário da loja surgiu na outra ponta, a etiquetadora apontada em nossa direção.
— Hi-YA!
Hedge deu um chute circular nele. Era um golpe famoso pela dificuldade. Não foram poucas as vezes em que Ares tentou praticar esse chute, caiu e quebrou o cóccix (procurem o vídeo ridículo que viralizou no Monte Olimpo ano passado e que com certeza não fui eu que jogou na rede).
Para minha surpresa, o treinador Hedge o executou com perfeição. Seu casco acertou e arrancou a cabeça do autômato. A criatura caiu de joelhos e depois para a frente, com fios soltando faíscas do pescoço.
— Uau. — Gleeson examinou o próprio casco. — Acho que a cera Bode de Ferro funciona mesmo!
O corpo decapitado do funcionário provocou flashbacks dos blemmyae de Indianápolis, que volta e meia perdiam as cabeças falsas, mas não tive tempo para ficar relembrando meu passado terrível tendo que lidar com um presente igualmente péssimo.
Atrás da gente, Macro gritou:
— Ah, o que vocês fizeram agora?
O gerente estava na outra ponta do corredor, com as roupas manchadas de fuligem, o colete amarelo tão esburacado quanto um pedaço fumegante de queijo suíço. Só que, de alguma forma, porque eu realmente sou um ex-deus muito sortudo, ele parecia ileso. O outro funcionário da loja parou ao lado dele, a cabeça robótica pegando fogo, mas aparentemente ele não estava nem aí.
— Apolo — repreendeu Macro —, não adianta lutar contra meus autômatos. Esta é uma loja de artigos militares. De onde vieram esses, tem mais cinquenta.
Olhei para Hedge.
— Vamos dar o fora daqui.
— Só se for agora. — Hedge pegou um taco de croqué em uma estante ali perto. — Cinquenta desses robozinhos talvez sejam demais até para mim.
Contornamos a seção de barracas de camping e ziguezagueamos pelo Paraíso do Hóquei, tentando achar a entrada da loja. Ao longe, Macro continuava vociferando ordens:
— Peguem eles! Nem morto vou ser obrigado a me suicidar de novo!
De novo? — murmurou Hedge, se abaixando para desviar do braço de um manequim de hóquei.
— Ele trabalhou para o imperador — expliquei, ofegante, tentando não ficar para trás. — Velhos amigos. Mas — ofego — o imperador não confiava nele. Ordenou sua prisão — ofego — e execução.
Paramos ao final de um corredor. Gleeson deu uma espiada para checar se nossos inimigos hostis tinham nos seguido.
— Então Macro se suicidou, é isso? — perguntou Hedge. — Que coisa. Por que ele está trabalhando para esse imperador louco de novo, se o cara queria matá-lo?
Eu limpei o suor dos olhos. Sinceramente, por que os corpos mortais tinham que suar tanto?
— Imagino que o imperador tenha trazido o súdito de volta à vida, dado uma nova chance a ele. Os romanos são meio estranhos com essa coisa de lealdade.
Hedge grunhiu.
— Por falar nisso, cadê o Grover? — perguntou ele.
— Quase chegando à Cisterna, se ele for esperto.
Hedge franziu a testa.
— Não. Acho meio difícil ele ter feito isso. Bom…
Ele apontou para as portas de vidro automáticas, que davam para o estacionamento. O Chevette amarelo do treinador estava tão perto, tão atraente… E essa foi a primeira vez que Chevette, amarelo e atraente foram usados juntos em uma frase.
— Pronto?
Corremos até a entrada da loja.
As portas não colaboraram. Eu bati de cara em uma e cambaleei para trás. Gleeson atacou a outra com o taco de croqué, depois tentou alguns chutes à la Chuck Norris, mas seus cascos encerados com Bode de Ferro não fizeram nem um arranhãozinho na porta.
Mais atrás, Macro disse:
— Ai, caramba.
Eu me virei, tentando conter um choramingo. O gerente estava a seis metros de distância, bem embaixo de um bote para rafting suspenso do teto com uma placa na proa: UM RIO DE ECONOMIAS! Eu estava começando a entender por que o imperador ordenou que Macro fosse preso e executado. Para um homem daquele tamanho, ele era bom demais em se aproximar sorrateiramente das pessoas.
— Essas portas de vidro são à prova de bombas — anunciou Macro. — Nós até temos algumas em promoção esta semana, no departamento de melhorias para abrigos nucleares, mas acho que não faria muita diferença para vocês.
De vários corredores, mais funcionários de coletes amarelos surgiram; doze autômatos idênticos, alguns ainda cobertos de plástico-bolha, como se tivessem acabado de sair do depósito. Eles se aglomeraram atrás de Macro.
Eu puxei meu arco. Disparei uma flecha no brutamontes, mas minhas mãos tremiam tanto que a flecha passou longe e se fincou na testa enrolada em plástico-bolha de um autômato com um pop! seco. O robô mal se deu conta.
— Humm. — Macro fez uma careta. — Você realmente é um mortal agora, né? Acho que é verdade o que dizem: “Nunca conheça seus deuses. Eles vão decepcionar você.” Só espero que tenha sobrado alguma parte de você aí para o ritual macabro do imperador.
— Parte de m-mim? — perguntei, gaguejando. — Ritual m-macabro?
Torci para que Gleeson Hedge tomasse alguma atitude inteligente e heroica.
Não era possível que ele não tivesse uma bazuca portátil no bolso do short de tactel. Ou talvez o apito do treinador fosse mágico. Mas Hedge parecia tão desolado e desesperado quanto eu, o que não era justo. Desolado e desesperado eram os meus adjetivos.
Macro estalou os dedos.
— Poxa, é uma pena. Eu sou muito mais leal do que ela, mas não vou reclamar. Quando eu levar você até o imperador, vou ser recompensado! Meus autômatos vão receber uma segunda chance e vão voltar a integrar a guarda pessoal do imperador! Depois disso, que diferença faz para mim? A feiticeira pode levar você para o Labirinto e fazer a magia dela, tô nem aí.
— Magia d-dela?
Hedge ergueu o taco de croqué.
— Vou tentar derrubar o máximo que conseguir — murmurou ele para mim. — Encontre outra saída.
Foi uma ótima sugestão. Infelizmente, não achava que o sátiro fosse conseguir ganhar muito tempo. Também não me parecia a melhor ideia do mundo ter que explicar para aquela ninfa das nuvens gentil e sonolenta, Mellie, que o marido foi morto por um esquadrão de robôs embrulhado em plástico-bolha. Ah, minha empatia mortal estava mesmo falando mais alto!
— Quem é essa feiticeira? — perguntei. — O que… O que ela planeja fazer comigo?
Macro abriu um sorriso frio e nada sincero. Eu fizera o mesmo em muitas ocasiões no passado, sempre que alguma cidade grega rezava para que eu a salvasse de uma praga e eu tinha que dar a notícia: Caramba, sinto muito, mas eu provoquei a praga porque não gosto de vocês. Tenham um bom dia!
— Você vai descobrir logo, logo — prometeu Macro. — Não acreditei quando ela disse que você cairia na nossa armadilha, mas aqui está você. Ela previu que você não conseguiria resistir ao Labirinto de Fogo. Bom, vamos lá. Milimaníacos, matem o sátiro e capturem o antigo deus!
Os autômatos se aproximaram.
Na mesma hora, um borrão verde, vermelho e marrom chamou minha atenção, um borrão que lembrava muito um sátiro pulando do alto do corredor mais próximo, se pendurando em um lustre fluorescente e se lançando no bote de rafting acima da cabeça de Macro.
Antes que eu pudesse gritar Grover Underwood!, o bote caiu em cima de Macro e seus asseclas, soterrando-os em um rio de economias. Com um remo na mão, Grover pulou do barco e gritou:
— Venham!
A confusão nos permitiu alguns minutos para fugir, mas, com as portas trancadas, só nos restava correr para dentro da loja.
— Boa! — Hedge deu um tapinha nas costas de Grover enquanto corríamos pelo departamento de camuflados. — Eu sabia que você não nos abandonaria!
— Pois é, mas não tem nenhuma natureza aqui — reclamou Grover. — Não tem plantas. Não tem terra. Não tem luz natural. Como vamos lutar nessas condições?
— Armas! — sugeriu Hedge.
— Aquela parte toda da loja está pegando fogo — disse Grover —, graças a um coquetel molotov e algumas caixas de munição.
— Maldição! — disse o treinador.
Passamos por um display de armas de artes marciais, e os olhos de Hedge se iluminaram. Na mesma hora ele deixou o taco de croqué de lado e pegou um nunchaku.
— Agora sim! Vocês querem um shuriken ou um kusarigama?
— Eu quero fugir — disse Grover, balançando o remo. — Treinador, você tem que parar de bater de frente com esses loucos! Você tem família!
— Você acha que eu não sei disso? — rosnou o treinador. — Nós tentamos sossegar com os McLean em Los Angeles. E olha como deu certo.
Percebi que havia alguns detalhes ali a serem explorados: a saída deles de Los Angeles e a amargura de Hedge em relação a isso. Mas talvez fosse melhor deixar aquela conversa para depois, já que no momento estávamos em uma loja de artigos militares e precisávamos fugir de nossos inimigos.
— Sugiro que encontremos outra saída — anunciei. — Podemos fugir e discutir sobre armas ninja ao mesmo tempo, vejam só.
Essa proposta pareceu agradar aos dois.
Passamos pela seção de piscinas infláveis (como aquilo contava como equipamento militar, gente?), dobramos uma esquina e nos deparamos, em uma das laterais do prédio, com portas duplas e uma placa de SOMENTE FUNCIONÁRIOS.
Grover e Hedge dispararam e eu fiquei para trás, sem ar. De algum lugar ali perto, a voz de Macro ressoou:
— Você não tem como escapar, Apolo! Eu já liguei para o Cavalo. Ele vai chegar a qualquer momento!
Cavalo?
Por que aquela palavra gerava um acorde aterrorizador em si maior vibrando nos meus ossos? Procurei em minhas memórias embaralhadas uma resposta clara, mas não encontrei nada. Meu primeiro pensamento: talvez “Cavalo” fosse um nome de guerra. Talvez o imperador tivesse contratado um lutador maligno que usava capa preta de cetim, short brilhante de lycra e um elmo com formato de cabeça de cavalo.
Meu segundo pensamento: por que Macro podia pedir ajuda, e eu não? As comunicações dos semideuses estavam sendo sabotadas havia meses. Telefones com curto-circuito. Computadores derretidos. Mensagens de Íris e pergaminhos mágicos que não funcionavam. Enquanto isso, nossos inimigos pareciam não ter nenhum problema para se comunicar com deuses e o mundo dizendo Apolo aqui em casa. Cadê vc? Me ajuda a matar ele!
Não era justo.
Justo seria eu recuperar meus poderes imortais e transformar nossos inimigos em pó. Cruzamos as portas que SOMENTE FUNCIONÁRIOS podiam acessar e encontramos uma área de depósito/carga e descarga com mais autômatos embrulhados em plástico-bolha, todos inertes e sem vida, como todo mundo nas festas de Héstia. (Ela até pode ser a deusa do lar, mas não sabe mesmo dar uma festa, coitada.) Gleeson e Grover correram e começaram a puxar o portão de metal que dava para o lado de fora.
— Trancado.
Hedge bateu na porta com o nunchaku.
Dei uma olhada pelas janelinhas da porta de funcionários. Macro e seus asseclas estavam cada vez mais perto.
— Correr ou ficar? — perguntei. — Vamos ser encurralados de novo.
— Apolo, o que você tem? — perguntou Hedge.
— Como assim?
— Qual é sua carta na manga? Eu usei o coquetel molotov. Grover derrubou o barco. Agora é a sua vez. Fogo divino, talvez? Fogo divino seria útil.
— Eu tenho zero fogo divino na minha manga!
— Vamos ficar — decidiu Grover. Ele jogou o remo para mim. — Apolo, bloqueie as portas.
— Mas…
— Só não deixe Macro entrar!
Grover deve ter tido aulas de assertividade com Meg. Eu obedeci.
— Treinador — continuou Grover —, você pode tocar uma música para abrir a porta de carga e descarga?
Hedge grunhiu.
— Não faço isso há anos, mas vou tentar. O que você vai fazer?
Grover deu uma olhada nos autômatos adormecidos.
— Uma coisinha que minha amiga Annabeth me ensinou. Andem logo!
Eu enfiei o remo pelos puxadores das portas que davam para a loja e empurrei um poste de espirobol e o apoiei na porta. Hedge começou a apitar a melodia de “The Entertainer”, de Scott Joplin. Nunca tinha passado pela minha cabeça que um apito poderia ser um instrumento musical. O desempenho do treinador Hedge não contribuiu muito para mudar esse pensamento.
Enquanto isso, Grover arrancava o plástico do autômato mais próximo. Ele bateu com o nó dos dedos na testa dele, produzindo um barulho metálico e oco.
— Bronze celestial de verdade — concluiu Grover. — Pode dar certo!
— O que você vai fazer? — perguntei. — Derretê-los para fazer armas?
— Não, ativar essas geringonças e fazer com que elas trabalhem para a gente.
— Eles não vão nos ajudar! Eles pertencem a Macro!
Por falar no pretor: Macro forçou as portas, sacudindo o remo e o suporte de poste de espirobol.
— Ah, pare com isso, Apolo! Pare de se fazer de difícil! — gritou ele.
Grover desembrulhou outro autômato.
— Durante a Batalha de Manhattan — disse ele —, quando estávamos lutando contra Cronos, Annabeth nos contou sobre um comando de anulação escrito no firmware dos autômatos.
— Isso só serve para estátuas públicas de Manhattan! Todo deus que vale alguma coisa sabe disso! Não dá para querer que essas coisas respondam a “sequência de comando: Dédalo vinte e três”!
Na mesma hora, como em um episódio apavorante de Doctor Who, os autômatos embrulhados em plástico despertaram e se viraram para me encarar.
— Isso aí! — gritou Grover, exultante.
Eu, por outro lado, não fiquei tão empolgado assim. Tinha acabado de ativar uma penca de trabalhadores temporários robóticos que tinham mais chances de me matar do que de me obedecer. Eu não fazia ideia de como Annabeth Chase tinha descoberto que o comando de Dédalo podia ser usado em qualquer autômato. Se bem que, parando para pensar, ela reformou meu palácio no Monte Olimpo e instalou isolamento acústico perfeito e altofalantes com som surround no banheiro, então a inteligência dela não deveria me surpreender.
O treinador Hedge continuou seu solo de Scott Joplin. A porta da área de carga e descarga não se mexeu.
Macro e seus homens esmurraram minha barricada improvisada, quase me fazendo soltar o poste de espirobol.
— Apolo, fale com os autômatos! — disse Grover. — Eles estão esperando as suas ordens agora. Mande que eles iniciem o Plano Termópilas!
Termópilas não era uma lembrança que me agradava muito. Tantos espartanos corajosos e atraentes morreram naquela batalha defendendo a Grécia dos persas... Mas eu fiz o que me mandaram.
— Iniciem o Plano Termópilas!
Naquele momento, Macro e seus doze minions escancararam as portas, quebrando o remo, derrubando o poste de espirobol e me jogando no meio dos meus novos colegas de metal.
Macro parou de repente, seis robôs indo para cada lado.
— O que é isso? Apolo, você não pode ativar meus autômatos! Você não pagou por eles! Integrantes da equipe Milimaníacos, capturem Apolo! Destruam os sátiros! Façam esse apito infernal parar!
Duas coisas nos salvaram da morte instantânea. Para começo de conversa, Macro cometeu o erro de dar muitas ordens de uma vez. Como qualquer maestro pode atestar, um condutor não deve ordenar simultaneamente que os violinos acelerem, que os tímpanos se suavizem e que os metais iniciem um crescendo.
Você vai acabar com um desastre sinfônico. Os pobres soldados de Macro tiveram que decidir sozinhos se deveriam primeiro me pegar, destruir os sátiros ou fazer o apito parar. (Pessoalmente, eu teria ido atrás do cara com o apito, sem dó nem piedade.) A outra coisa que nos salvou? Em vez de ouvir Macro, nossos novos amigos robóticos começaram a executar o Plano Termópilas. Eles uniram os braços e fizeram um círculo em torno de Macro e seus companheiros, que tentaram sem muito sucesso contornar os colegas autômatos, e todos se chocaram uns contra os outros. Foi uma confusão só. (Aquilo estava cada vez mais parecido com uma festa de Héstia.)
— Parem com isso! — berrou Macro. — Eu ordeno que parem!
Isso só aumentou a confusão. Os funcionários do brutamontes pararam na mesma hora, permitindo que os sujeitos operados por Dédalo cercassem o grupo de Macro.
— Não, não vocês! — gritou Macro para seus funcionários. — Vocês não param! Continuem lutando!
Mais confusão.
Os robôs de Dédalo envolveram os colegas, espremendo-os em um abraço coletivo. Apesar do tamanho e da força de Macro, ele estava preso no centro, se contorcendo e tentando escapar.
— Não! Eu não posso…! — gritou Macro, cuspindo plástico-bolha. — Socorro! O Cavalo não pode me ver assim!
Os camaradas de Dédalo começaram a emitir um zumbido, como motores engatados na marcha errada, vapor subindo das juntas no pescoço.
Eu recuei, como se faz quando um grupo de robôs começa a soltar fumaça.
— Grover, o que exatamente é o Plano Termópilas?
O sátiro engoliu em seco.
— Hã... Eles têm que se manter firmes para podermos recuar.
— Então por que eles estão soltando fumaça? — perguntei. — Além disso, por que estão começando a emitir esse brilho vermelho?
— Ai, não. — Grover mordeu o lábio inferior. — Eles podem ter confundido o Plano Termópilas com o Plano Petersburgo.
— Como assim?
— Eles podem estar prestes a se sacrificar e explodir.
— Treinador! — gritei. — Apite melhor!
Eu corri até a porta da área de carga e descarga e usei toda a minha força mortal patética para tentar erguê-la. Até assobiei junto com a melodia frenética de Hedge e sapateei um pouco, uma forma clássica de acelerar feitiços musicais.
— Quente! Quente! — gritou Macro logo atrás.
Minhas roupas estavam desconfortavelmente sufocantes, como se eu estivesse sentado coladinho a uma fogueira. Depois de nossa experiência com as chamas do Labirinto, eu não queria me arriscar em um abraço/explosão em grupo naquele espaço fechado.
— Mais alto! — gritei. — Apite!
Grover se juntou à nossa performance desesperada de Joplin. Finalmente, a porta começou a se mover, chiando em protesto quando a erguemos alguns centímetros do chão.
Os gritos de Macro ficaram ininteligíveis. O zumbido e o calor me lembraram o momento logo antes de minha carruagem decolar, explodindo no céu em um arroubo de energia solar.
— Vão! — gritei para os sátiros. — Vocês dois, passem por baixo!
Achei meu gesto muito heroico, embora, para ser sincero, eu meio que esperasse que eles fossem insistir: Não, por favor! Deuses primeiro!
No entanto, tal cortesia não aconteceu. Os sátiros se arrastaram por baixo da porta e a seguraram pelo outro lado enquanto eu tentava passar pela abertura.
Mas, vejam, eu me vi travado pelos meus próprios pneuzinhos. Resumindo: fiquei entalado.
— Apolo, vem logo! — gritou Grover.
— Estou tentando!
— Encolhe a barriga, garoto! — gritou o treinador.
Sabe, eu nunca contratei os serviços de um personal trainer. Deuses não gostam de ter gente gritando com eles, humilhando-os, ordenando que deem tudo de si. E, sinceramente, quem seria louco para aceitar esse trabalho, sabendo que poderia ser fritado por um raio assim que exigisse que o cliente fizesse mais cinco flexões?
Mas daquela vez fiquei feliz por terem berrado comigo. A repreensão do treinador me deu uma motivação extra para espremer meu corpo mortal flácido pela abertura.
Assim que me levantei, Grover gritou:
— Pulem!
Nós saltamos da beirada da rampa de carga e descarga no exato segundo em que a porta de aço, que aparentemente não era à prova de bombas, explodiu atrás da gente.

12 comentários:

  1. Laíres de Deus câmara campos4 de junho de 2018 13:57

    UHU! Apolo bota QUENTE ! (foi um trocadilho horroroso. sim. eu sei.)

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  2. Damon Herondale, filho de Zeus5 de junho de 2018 23:48

    As portas de vidro são à prova de bombas mas as portas de aço não
    Vai entender

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    1. Vocês de jupiter são sempre assim. Tem ideia de como é difícil fazer aço magico? Não da pra usar Ferro Éstigio, ele é duro demais, e fazer aço de osso? Já viu alguém vendendo os ossos do avô veterano de guerra no ebay?

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  3. Mas, vejam, eu me vi travado pelos meus próprios pneuzinhos. Resumindo: fiquei entalado. rsrsrsrsrs

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    1. Eu me senti bem Apolo nesse momento:')

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  4. Não, por favor! Deuses primeiro!
    Achei Q tivese melhorado,Apolo! Se tornado mais humano.🙈🙈🙈

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    1. Ele ofereceu e deixou eles passarem primeiro não foi? E se eu tivesse no lugar dele também iria querer ser o primeiro a sair rápido dali. E também nem o treinador ou o Grover foram altruistas e se ofereceram pra ficar não é ? Balancear entre Ser egoísta e altruísta é uma característica humana.

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  5. Ahhh, que saudade que eu tava dessas aventuras.

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  6. que saudades da Annabeth!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!