9 de junho de 2018

Capítulo 7

A VIAGEM DE volta para a Virgínia leva seis horas, e durmo durante boa parte dela. Está escuro quando chegamos ao estacionamento da escola, e vejo o carro do papai parado na frente. Já faz muito tempo que nós temos nossos próprios carros e ninguém mais nos leva ou busca, mas entrar no estacionamento da escola e ver todos os pais ali nos esperando dá uma sensação de estar de novo no ensino fundamental, quando a gente volta de um passeio. É uma sensação boa. No caminho de volta, compramos uma pizza, e a sra. Rothschild vai para a nossa casa. Ela, papai, Kitty e eu comemos na frente da tevê.
Depois disso, desfaço a mala, faço o pouco de dever que falta, converso com Peter pelo telefone e me preparo para ir dormir. Mas acabo rolando de um lado para outro pelo que parece uma eternidade. Talvez seja porque dormi bastante no ônibus, ou talvez seja o fato de que a qualquer momento posso receber notícias da UVA. Seja como for, não consigo dormir, então eu desço sem fazer barulho e começo a abrir gavetas.
O que eu poderia fazer a essa hora da noite que não envolvesse esperar a manteiga amolecer? Essa é uma pergunta constante na minha vida. A sra. Rothschild diz que devíamos deixá-la em uma manteigueira fora da geladeira, como ela faz, mas nós não somos uma família que deixa a manteiga fora da geladeira, somos uma família que a guarda na geladeira. Além do mais, manteiga mole demais pode estragar a química do bolo, e na Virgínia, na primavera e no verão, a manteiga derrete rápido.
Acho que eu podia finalmente tentar fazer a mistura de brownie e pãozinho de canela que ando bolando: a receita de brownie de Katharine Hepburn com um toque de canela e cream cheese com canela salpicada por cima.
Estou derretendo chocolate em banho-maria e já arrependida de ter começado essa receita tão tarde quando papai entra na cozinha com o roupão xadrez que Margot deu para ele no Natal passado.
— Não está conseguindo dormir também, é? — diz ele.
— Estou experimentando uma receita nova. Acho que vou chamar de brownela. Ou brownierela.
— Boa sorte na hora de acordar amanhã — diz papai, massageando a nuca.
Eu dou um bocejo.
— Sabe, eu estava pensando que você poderia ligar para a escola por mim, assim eu dormiria até um pouco mais tarde, e depois nós dois poderíamos tomar um café da manhã gostoso e relaxante juntos, um programa de pai e filha. Eu posso fazer omelete de cogumelo.
Ele ri.
— Boa tentativa. — Ele me empurra para a escada. — Eu termino o brownierela, ou sei lá qual é o nome. Vá para cama.
Dou outro bocejo.
— Posso confiar em você para fazer a cobertura de cream cheese? — Papai faz uma expressão alarmada, e eu digo: — Esqueça. Posso terminar de fazer a massa e assar amanhã.
— Eu ajudo.
— Estou quase acabando.
— Eu não me importo.
— Tudo bem. Você pode medir um quarto de xícara de farinha?
Papai assente e pega o medidor.
— Esse é o medidor dos líquidos. Precisamos do medidor de ingredientes secos, para você poder tirar o excesso de farinha. — Ele volta ao armário e os troca. Fico observando papai colocar farinha e passar uma faca para nivelar o topo. — Muito bom.
— Eu aprendi com a melhor.
Inclino a cabeça para ele.
— Por que você ainda está acordado, papai?
— Ah. Acho que tem muita coisa na minha cabeça. — Ele fecha o pote de farinha e para, hesitando antes de perguntar: — O que você acha da Trina? Gosta dela, não é?
Eu tiro a panela de chocolate do fogo.
— Eu gosto muito dela. Acho que talvez até a ame. Você a ama?
Desta vez, papai não hesita.
— Amo.
— Ah, que bom. Eu fico feliz.
Ele parece aliviado.
— Que bom — responde ele. E, mais uma vez: — Que bom.
As coisas devem estar bem sérias se ele está me perguntando isso. Será que ele está pensando em convidá-la para vir morar conosco? Antes que eu possa perguntar qualquer coisa, ele diz:
— Ninguém vai substituir a sua mãe. Você sabe disso, não sabe?
— Claro que sei. — Lambo a colher de chocolate com a ponta da língua. Está quente, muito quente. É bom ele amar de novo, ele ter alguém, uma companheira de verdade. Ele estava sozinho havia tanto tempo que parecia normal, mas agora tudo está melhor. E ele está feliz, qualquer um consegue ver. Agora que a sra. Rothschild está aqui, não consigo imaginá-la em outro lugar. — Fico feliz por você, papai.

9 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!