26 de junho de 2018

Capítulo 7

O Homem Cinzento odiava o carro que havia alugado. Ele tinha a clara impressão de que o carro não fora usado tempo suficiente por seres humanos quando jovem, e agora a convivência com ele jamais seria agradável. Desde que o pegara, o carro já tentara mordê-lo várias vezes e passara uma quantidade de tempo considerável resistindo a seus esforços para chegar ao limite de velocidade.
Além disso, era champanhe. Uma cor ridícula para um carro.
Ele o teria trocado por outro, mas o Homem Cinzento fazia questão de não chamar atenção, se pudesse. O carro alugado anterior havia adquirido uma mancha lamentável e possivelmente incriminadora no banco de trás. Melhor colocar alguma distância entre eles.
Após carregar zelosamente o carro com as máquinas e os indicadores de Greenmantle, o Homem Cinzento partiu para procurar uma agulha em um palheiro elétrico. Ele não se importava muito que as luzes piscando, os alarmes zunindo e as agulhas apontando para todo lado não estivessem pintando um mapa coerente para o Greywaren. Henrietta tinha charmes consideráveis. O centro era povoado por lanchonetes deliciosamente gordurosas e lojas de quinquilharias explicitamente caseiras, varandas abauladas e colunas quadradas, todos os prédios desgastados, mas arrumados como bibliotecas. Ele espiou pela janela do carro enquanto dirigia. Moradores locais sentados em cadeiras nas varandas espiaram de volta.
As leituras continuaram a não fazer sentido, então ele estacionou a Monstruosidade Champanhe na loja de conveniência da esquina, que alardeava ter o MELHOR SANDUÍCHE DE ATUM DA CIDADE! Ele pediu um sanduíche e um milk shake para uma senhora de lábios vermelhos, e, quando se apoiou no balcão de aço inoxidável, a luz caiu.
A senhora de lábios vermelhos usou um punho carnudo para bater na máquina de milk shake agora parada e praguejou com um sotaque delicado que fez o xingamento soar carinhoso. Ela assegurou:
— Vai voltar logo.
Todas as prateleiras e cartazes de boas-vindas e produtos farmacêuticos pareciam sinistros e apocalípticos na luz indireta das janelas da frente.
— Isso acontece sempre?
— Desde essa primavera, sim, senhor. A luz cai. Às vezes temos picos de energia também, estoura os transformadores e tudo pega fogo. As luzes do estádio ligam também, lá na Aglionby, quando não tem ninguém jogando. Com certeza aqueles garotos terríveis se foram para o verão. Bem, a maioria deles. Mas o senhor não veio para ficar, não é?
— Algumas semanas.
— Então estará aqui para o Quatro de Julho.
O Homem Cinzento teve de puxar um calendário mental. Ele não celebrava muitos feriados.
— Venha para a festa na cidade — ela disse, dando no milk shake aguado uma mexida sem muita vontade. — Tem uma vista boa dos fogos de artifício do prédio do tribunal. Não se deixe enganar pelos outros lugares.
— Os fogos que as pessoas lançam de casa?
— Os fogos da Aglionby — ela disse. — Alguns daqueles garotos estouram um monte de coisas com que não deveriam estar mexendo. Aterrorizam as senhoras mais idosas. Não sei por que o chefe de polícia não impede ele.
— Ele?
O Homem Cinzento estava interessado em como o plural os fogos da Aglionby subitamente havia se tornado um ele.
Ela parecia perdida em um devaneio, observando os carros passarem lentamente pelas grandes janelas de vidro. Então continuou:
— Provavelmente é culpa da CEEH. Eles sabem que a fiação está velha, mas trocam os fios? Não.
Ele piscou com a súbita mudança na conversa.
— CEEH?
— Como? Ah, Companhia de Energia Elétrica de Henrietta. — Só que, com o sotaque dela, o nome soava mais como Companhia de Energiiia Lééétrica de Henretta. Como se invocada por sua voz, a eletricidade voltou. — Ah, aí está ela de novo. Eu disse que não precisava se preocupar.
— Ah — disse o Homem Cinzento, com um olhar de relance para as luzes fluorescentes que crepitavam acima. — Eu não estava preocupado.
Ela deu uma risadinha. Um riso absolutamente satisfeito e deliberado.
— Imagino que não.
O sanduíche de atum estava bom. Era o único que ele comera desde que chegara, então ele não podia dizer se era o melhor da cidade.
Ele seguiu dirigindo. Casas em estilo vitoriano deram lugar a campos quando ele entrou na autoestrada, passando por celeiros com torres e fazendas brancas, cabras ativas e picapes abandonadas. Tudo estava pintado na mesma paleta de cores: verdes avermelhados e vermelhos esverdeados; até o lixo parecia ter saído das colinas íngremes. Apenas as montanhas pareciam fora de lugar, fantasmas azuis em cada horizonte.
Deixando o Homem Cinzento um tanto surpreso, os medidores de Greenmantle pareciam estar chegando a um consenso. Eles o levaram para outra estrada vicinal. Excursionistas e caixas de correio se projetavam do solo.
Seu telefone tocou.
Era seu irmão.
O estômago do Homem Cinzento se revirou.
O telefone tocou só duas vezes. Chamada perdida. Seu irmão nunca tivera a intenção que ele atendesse; ele só queria isto: que o Homem Cinzento parasse o carro e ficasse na dúvida se deveria retornar a ligação. Que ele ficasse na dúvida se o irmão ligaria de novo. Desfazendo os nós em suas entranhas.
Finalmente, um labrador retriever latindo na porta o chamou de volta à realidade. Ele fechou o telefone no porta-luvas, fora de sua vista.
De volta aos instrumentos de Greenmantle.
Eles o levaram a uma casa amarela com uma garagem aberta vazia. Com o frequencímetro em uma mão e um magnetômetro de césio na outra, ele saiu para o calor e seguiu o campo de energia.
Então baixou a cabeça para passar por um varal de roupa desolado. Havia uma casinha de cachorro, mas nenhum cachorro. O ar tinha o cheiro seco e complexo de um milharal, mas não havia nenhum milharal. Ele foi sinistramente lembrado do presságio da loja de conveniência com as luzes apagadas.
No quintal dos fundos, havia uma horta ambiciosa onde sete fileiras impecáveis floresciam — tomates, ervilhas, feijões e cenouras de primeira. As quatro fileiras seguintes não eram tão produtivas. Enquanto ele seguia a luz cada vez mais frenética do frequencímetro, as fileiras ficavam cada vez mais decaídas. As últimas três eram meramente faixas de terra não cultivada apontando para os campos distantes. Algumas vinhas ressequidas se enrolavam em paus de bambu, meros esqueletos.
Os instrumentos guiaram o Homem Cinzento para uma roseira plantada do outro lado das fileiras mortas, diretamente na frente da cobertura de concreto de um poço.
Diferentemente das vinhas secas, as rosas estavam hipervivas. Acima de um tronco verde comum, dúzias de brotos retorcidos cresciam como garras dos galhos velhos, contorcendo-se firmemente uns nos outros. Cada galho alterado estava tingido pelo vermelho berrante da vegetação nova; sinistramente, parecia correr sangue por eles. Os brotos novos se encrespavam com espinhos vermelhos malevolentes.
O resultado desse crescimento furioso era evidente nos nós enegrecidos dos ramos acima. Morta. A rosa estava crescendo para a morte.
O Homem Cinzento ficou impressionado com o profundo equívoco daquilo. Algumas ondas dos medidores confirmaram que a energia estava centrada diretamente na roseira ou no chão abaixo dela. Uma anomalia de energia poderia explicar aquele hediondo crescimento excessivo. Ele não via, no entanto, como aquilo poderia estar ligado ao Greywaren. A não ser que...
Olhando de relance para a casa, ele largou as máquinas e levantou a tampa do poço.
O frequencímetro gritou, cada luz furiosamente vermelha. A leitura do magnetômetro deu um pico extraordinário. Uma corrente de ar frio saía em espiral da abertura impenetravelmente escura.
Ele tinha uma lanterna no carro, mas o Homem Cinzento achava que ela não daria nem para começar a penetrar aquelas profundezas. Ele ponderou o que seria necessário para retirar um objeto escondido em um poço, se fosse necessário.
Tão subitamente quanto tinham começado, ambas as máquinas caíram em um silêncio absoluto.
Sobressaltado, ele experimentou agitá-las — nada. Carregou-as em tomo da roseira. Nada. Segurou-as sobre o poço. Nada. Qualquer que tenha sido a alta súbita de energia que o trouxera até ali, ela tinha ido embora.
Era possível, ele pensou, que o Greywaren fosse algo que funcionava em pulsos, e que ele simplesmente havia desligado em seu esconderijo no poço.
Mas era mais possível, ele pensou, que aquilo tivesse a ver com o probleminha da CEEH. Os mesmos picos de energia que afetavam a eletricidade do estádio podiam estar em ação ali. Escapando daquela fonte de água. De alguma maneira envenenando aquela rosa enegrecida.
O Homem Cinzento recolocou a tampa do poço, secou um brilho de suor da nuca e se endireitou.
Ele tirou uma foto da roseira com o celular. E então voltou para o carro.

Um comentário:

  1. "Olhando de relance para a casa, ele largou as máquinas e levantou a tampa do poço.
    O frequencímetro gritou, cada luz furiosamente vermelha. A leitura do magnetômetro deu um pico extraordinário. Uma corrente de ar frio saía em espiral da abertura impenetravelmente escura."

    Ele achou a linha ley, kkkkk ela corre pelo subterrâneo, afinal

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Boa leitura, E SEM SPOILER!