20 de junho de 2018

Capítulo 7

— Me fala de novo — Gansey pediu a Adam — por que você acha que uma médium é uma boa ideia.
As pizzas haviam sido devoradas (sem nenhuma ajuda de Noah), o que fez Gansey se sentir melhor e Ronan pior. Ao fim da refeição, Ronan havia tirado todas as cascas de ferida provocadas pelo carrinho e teria tirado as de Adam também se ele deixasse. Gansey mandou que ele saísse lá fora para se acalmar e que Noah o acompanhasse para cuidar dele.
Gansey e Adam estavam parados na fila, enquanto uma mulher discutia com a moça do caixa a respeito da cobertura de cogumelo.
— Elas lidam com energia — disse Adam, alto o suficiente para ser ouvido, apesar da música alta. Ele estudou o braço em que havia se livrado das próprias cascas. A pele por baixo parecia irritada. Erguendo o olhar, espiou sobre o ombro, provavelmente procurando a garçonete má, não-uma-prostituta. Um lado de Gansey se sentia culpado por estragar as chances de Adam com ela, mas o outro lado sentia que ele possivelmente havia salvado o amigo de ter a medula arrancada e devorada.
Era possível, pensou Gansey, que ele mais uma vez tivesse sido sem noção a respeito de dinheiro. Ele não quisera ser ofensivo, mas, analisando melhor, talvez tivesse sido. Isso o incomodaria a noite inteira. Ele jurou, como havia feito uma centena de vezes antes, considerar melhor suas palavras.
Adam continuou:
— As linhas ley são energia. Energia pura.
— Pode dar certo — respondeu Gansey. — Se a médium não for uma charlatã.
Adam retrucou:
— A cavalo dado não se olham os dentes.
Gansey olhou para a comanda da pizza escrita à mão que ele segurava. De acordo com a caligrafia redonda, o nome da garçonete era Cialina. Ela havia incluído seu número de telefone, mas era difícil dizer qual dos garotos ela estava tentando atrair. Algumas partes na mesa eram menos perigosas de se associar do que outras. Ela claramente não o tinha achado arrogante.
Provavelmente porque não o ouvira falar.
A noite toda. Isso iria incomodá-lo a noite toda. Ele disse:
— Eu queria ter uma ideia da largura das linhas. Não sei se estamos procurando por um fio ou uma avenida, mesmo depois de todo esse tempo. A gente pode estar a meio metro delas e nem perceber.
O pescoço de Adam poderia ter quebrado de tanto que ele olhava em volta. Não havia nem sinal da garçonete. Ele parecia cansado de tantas noites mal-dormidas, pelo acúmulo de trabalho e estudo. Gansey odiava vê-lo assim, mas nada que ele pensou soava como algo que pudesse realmente lhe dizer. Adam não toleraria pena.
— Nós sabemos que elas podem ser encontradas através de radiestesia, então não devem ser tão estreitas — disse Adam, esfregando o dorso da mão contra a têmpora.
Fora isso que trouxera Gansey para Henrietta em primeiro lugar: meses de radiestesia e pesquisa. Mais tarde, ele tentara encontrar a linha de maneira mais precisa com Adam. Eles tinham dado a volta na cidade com uma varinha de radiestesia e um leitor de frequência eletromagnética, trocando os instrumentos entre os dois. A máquina havia indicado picos estranhos algumas vezes, e Gansey achou que sentira a varinha vibrar em sua mão em sincronia com os picos, mas podia ter sido apenas ilusão.
Eu poderia dizer que as notas dele vão cair se ele não diminuir o ritmo, pensou Gansey, observando as olheiras de Adam. Se Gansey soasse preocupado consigo mesmo, Adam não interpretaria aquilo como pena. Então considerou colocar a questão de modo egoísta: Você não vai ser útil para mim se pegar mononucleose ou algo parecido. Mas Adam perceberia em um segundo que estava sendo enganado.
Em vez disso, Gansey disse:
— Precisamos de um ponto A sólido antes de começar a pensar em um ponto B.
Mas eles tinham o ponto A. Tinham até o ponto B. O problema era que os pontos eram grandes demais. Gansey tinha um mapa arrancado de um livro que mostrava a Virgínia com a linha ley passando por cima. Assim como os entusiastas da linha ley no Reino Unido, os caçadores de linha ley americanos determinaram lugares-chave espirituais e traçaram linhas entre eles até que o arco da linha ley se tornou óbvio. Parecia que todo o trabalho já tinha sido feito para eles.
Mas os criadores desses mapas nunca pensaram que eles fossem ser usados como mapas rodoviários; eles eram aproximados demais. Um dos mapas listava somente Nova York, Washington, D.C. e Pilot Mountain, na Carolina do Norte, como possíveis pontos de referência. Cada um desses pontos tinha quilômetros de largura, e mesmo a mais fina linha traçada a lápis sobre o mapa não correspondia a menos que dez metros — mesmo eliminando as possibilidades, isso os deixava com milhares de hectares onde a linha ley poderia estar. Milhares de hectares onde Glendower poderia estar, se estivesse realmente ao longo da linha ley.
— Eu me pergunto — refletiu Adam em voz alta — se daria para eletrificar as varinhas ou a linha. Ligar uma bateria de carro a elas ou algo do gênero.
Se você conseguisse um financiamento, poderia parar de trabalhar até terminar a faculdade. Não, isso começaria imediatamente uma discussão. Gansey balançou a cabeça um pouco, mais por causa dos próprios pensamentos do que do comentário de Adam. E disse:
— Parece o início de uma sessão de tortura ou um videoclipe.
O rosto onde-está-a-garçonete-má de Adam havia dado lugar ao seu rosto ideia-brilhante. A fadiga havia se dissolvido.
— Bem, amplificação. Era só isso que eu estava pensando. Algo para tornar a linha mais ruidosa e mais fácil de seguir.
Não era uma ideia ruim. No ano passado, em Montana, Gansey havia entrevistado uma vítima de raio. O garoto estava sentado em seu quadriciclo na entrada de um estábulo quando foi atingido, e o incidente havia lhe deixado com um temor inexplicável de recintos fechados e com uma capacidade extraordinária de seguir uma das linhas ley usando apenas uma ponta curvada de antena de rádio. Por dois dias eles avançaram juntos através de campos entalhados por geleiras e marcados por fardos de feno redondos e altos, encontrando fontes ocultas de água, pequenas cavernas, cepos queimados por raios e pedras estranhamente marcadas. Gansey havia tentado convencer o garoto a voltar para a Costa Leste para realizar o mesmo milagre na linha ley de lá, mas seu medo patológico de lugares fechados recentemente adquirido excluía qualquer viagem de avião ou carro. E era uma longa caminhada.
Mesmo assim, não foi um exercício inteiramente inútil. Foi uma prova a mais da teoria amorfa que Adam descrevera havia pouco: linhas ley e eletricidade podiam andar juntas. Energia e energia. Tudo combinando.
Enquanto ia até o balcão, Gansey percebeu que Noah o seguia, tentando lhe chamar a atenção e parecendo tenso e urgente. Ambos os traços eram típicos de Noah, de maneira que Gansey não se sentiu imediatamente incomodado. Passou um maço de notas dobradas para a moça do caixa, enquanto Noah continuava a pairar do lado dele.
— O que foi, Noah? — perguntou Gansey.
Noah parecia prestes a colocar as mãos nos bolsos, mas não o fez. As mãos dele pareciam pertencer a menos lugares do que as de outras pessoas.
Simplesmente as deixou ao longo do corpo enquanto olhava para Gansey, depois disse:
— O Declan está aqui.
Um exame imediato do restaurante não ofereceu nada. Gansey perguntou:
— Onde?
— No estacionamento — disse Noah. — Ele e o Ronan...
Sem esperar o fim da frase, Gansey saiu apressadamente em direção ao estacionamento, bem a tempo de ver Ronan desferir um soco no irmão.
O golpe foi infinito.
Pelo jeito, era só o primeiro ato. Sob a luminosidade fraca e o zunido do poste de luz, Ronan mantinha uma postura firme e uma expressão dura como granito. Não houve hesitação no golpe; ele tinha aceitado as consequências de onde quer que acertasse a pancada muito antes de disparar o soco.
Do pai, Gansey recebera a mente lógica, o gosto pela pesquisa e uma herança do tamanho da maioria das loterias estaduais.
Do pai, os irmãos Lynch haviam herdado o ego incansável, uma década de aulas de instrumentos musicais irlandeses desconhecidos e a capacidade de lutar boxe de verdade. Niall Lynch não estivera por perto por muito tempo, mas, enquanto estivera, fora um excelente professor.
— Ronan! — gritou Gansey, tarde demais.
Declan foi ao chão, mas, antes mesmo que Gansey tivesse tempo de traçar um plano de ação, já estava de pé de novo, acertando o punho no rosto do irmão.
Ronan soltou uma série de impropérios tão variados e afiados que Gansey ficou impressionado que somente aquelas palavras não tivessem acabado com Declan. Braços giravam como moinhos. Joelhos encontravam peitos. Cotovelos socavam rostos. Então Ronan agarrou o casaco de Declan e o usou para jogá-lo contra o capô lustroso de seu Volvo.
— O carro não! — rosnou Declan, com o lábio sangrando.
A história da família Lynch era a seguinte: era uma vez um homem chamado Niall Lynch. Ele teve três filhos, um dos quais amava o pai mais do que os outros. Niall Lynch era um sujeito bonito, carismático, rico e misterioso, e um dia ele foi arrastado de seu BMW cinza-carvão e espancado até a morte com uma chave de roda. Isso foi numa quarta-feira. Na quinta-feira, seu filho Ronan achou o corpo na entrada da garagem. Na sexta-feira, a mãe deles parou de falar e nunca mais proferiu uma palavra.
No sábado, os irmãos Lynch descobriram que a morte do pai os deixara ricos, mas sem ter onde morar. O testamento os proibia de tocar em qualquer coisa na casa — roupas, móveis. A mãe continuava muda. O testamento fez com que eles se mudassem imediatamente para o dormitório em Aglionby. Declan, o mais velho, deveria gerir as finanças e a vida dos irmãos até que eles completassem dezoito anos.
No domingo, Ronan roubou o carro do pai.
Na segunda-feira, os irmãos Lynch deixaram de ser amigos.
Arrancando Ronan do Volvo, Declan acertou o irmão tão duro que até Gansey sentiu o golpe. Ashley, com o cabelo claro mais visível que o resto, cruzou o olhar com o dele de dentro do carro.
Gansey avançou vários passos no estacionamento.
— Ronan!
Ronan nem virou a cabeça. Um sorriso sinistro, mais de esqueleto que de gente, estava gravado em sua boca enquanto os irmãos rodopiavam em volta um do outro. Aquela era uma luta de verdade, e não um espetáculo, e se desenrolava rapidamente. Alguém estaria inconsciente antes que Gansey pudesse interceder, e ele simplesmente não tinha tempo para levar ninguém ao pronto-socorro naquela noite.
Gansey deu um salto e segurou o braço de Ronan em meio a um golpe. Mas Ronan ainda tinha os dedos enfiados como um gancho dentro da boca de Declan, e este já tinha um punho voando por trás, como um abraço violento. Então foi Gansey quem recebeu o golpe de Declan. Algo molhado lhe cobriu o braço. Ele pensou que fosse saliva, mas era sangue. Gansey gritou uma palavra que aprendera com sua irmã, Helen.
Ronan agarrou Declan pela gravata cor de vinho, e Declan prendeu firmemente a parte de trás da cabeça do irmão. Não faria diferença se Gansey não estivesse ali. Com um giro de punho ligeiro, Ronan bateu a cabeça de Declan contra a porta do motorista do Volvo. A batida fez um ruído horrível, e a mão de Declan se soltou.
Gansey aproveitou a oportunidade para lançar Ronan a um metro e meio de distância, mas ele se pôs de pé com um movimento súbito. Ele era incrivelmente forte.
— Pare — disse Gansey, ofegante. — Você está destruindo o seu rosto.
Ronan girou, todo músculos e adrenalina. Declan, com o terno mais sujo do que qualquer terno deveria parecer, partiu de volta na direção deles. Ele tinha um machucado terrível na têmpora, mas parecia pronto para começar tudo de novo.
Não havia como dizer o que provocara a briga dessa vez — uma nova enfermeira em casa para a mãe deles, uma nota ruim na escola, uma conta de cartão de crédito não explicada. Talvez apenas Ashley.
Do outro lado do estacionamento, o gerente do Nino’s surgiu na entrada do restaurante. Não levaria muito tempo até chamarem a polícia. Onde está o Adam?
— Declan — disse Gansey, com a voz cheia de aviso —, se você vier até aqui, eu juro...
Com um movimento brusco do queixo, Declan cuspiu sangue no chão. Seu lábio estava sangrando, mas seus dentes ainda estavam inteiros.
— Tudo bem. Ele é o seu cachorro, Gansey. Ponha uma coleira nele. E tome conta para que ele não seja expulso de Aglionby. Eu lavo minhas mãos.
— Bem que eu gostaria — rosnou Ronan, com o corpo inteiro rígido por baixo da mão de Gansey. Ele vestia o ódio como uma cruel segunda pele.
Declan retrucou:
— Você é um merda, Ronan. Se o nosso pai te visse... — e isso fez Ronan se lançar para frente novamente. Gansey apertou os braços em torno do peito do amigo e o arrastou de volta.
— E o que você está fazendo aqui? — Gansey perguntou a Declan.
— A Ashley precisava usar o banheiro — respondeu Declan secamente. — Eu devia ter o direito de parar onde eu quiser, você não acha?
A última vez que Gansey estivera no banheiro do Nino’s, ele cheirava a vômito e cerveja. Em uma das paredes, uma caneta vermelha havia rabiscado a palavra “BELZEBU” e o número de Ronan embaixo. Era difícil imaginar Declan escolhendo as instalações do Nino’s para a namorada. A voz de Gansey soou ríspida.
— O que eu acho é que você devia ir embora. Isso não vai se resolver hoje.
Declan riu, só uma vez. Uma grande risada descuidada, cheia de vogais redondas. Ele claramente não achava graça nenhuma em nada que dizia respeito a Ronan.
— Pergunte ao Ronan se ele vai passar com um B esse ano — ele disse a Gansey. — Você chega a ir às aulas, Ronan?
Atrás de Declan, Ashley espiava pela janela do motorista. Ela havia baixado o vidro para ouvir, e não parecia tão idiota quando acreditava que ninguém estava lhe dando atenção. Parecia justo que, talvez dessa vez, Declan fosse o manipulado.
— Não estou dizendo que você está errado, Declan — disse Gansey. A orelha latejava onde ele havia sido acertado, e ele podia sentir a pulsação de Ronan batendo em seu braço. A promessa que ele havia feito de considerar suas palavras com mais cuidado lhe voltou à lembrança, então ele estruturou o resto da frase na cabeça antes de dizer em voz alta: — Mas você não é Niall Lynch e nunca será. E você cresceria muito mais rápido na vida se parasse de tentar ser.
Gansey soltou Ronan.
Ronan não se moveu, nem Declan, como se, ao dizer o nome do pai deles, Gansey tivesse lançado um feitiço. Eles traziam a mesma expressão dura no rosto. Ferimentos diferentes infligidos pela mesma arma.
— Só estou tentando ajudar — disse Declan finalmente, soando derrotado.
Houve uma época, alguns meses atrás, em que Gansey teria acreditado nele.
Ao lado de Gansey, as mãos de Ronan pendiam abertas ao longo do corpo. Às vezes, quando alguém batia em Adam, havia algo remoto e ausente em seus olhos, como se seu corpo pertencesse a outra pessoa. Mas, quando Ronan apanhava, acontecia o contrário; ele se tornava tão presente que era como se estivesse dormindo antes.
Ronan disse para o irmão:
— Eu nunca vou te perdoar.
A janela do Volvo sibilou ao fechar, como se Ashley tivesse se dado conta naquele momento de que aquela era uma conversa que ela não deveria ouvir.
Sugando o lábio que sangrava, Declan olhou para o chão por um momento. Então se endireitou e ajustou a gravata.
— Não significa muito vindo de você — ele disse e escancarou a porta do Volvo. Enquanto escorregava para o banco do motorista, Declan disse a Ashley: — Não quero falar sobre isso — e bateu a porta.
Os pneus do Volvo guincharam no pavimento, e então Gansey e Ronan se viram parados um ao lado do outro na estranha luz difusa do estacionamento. A uma quadra de distância, um cão latiu funestamente três vezes. Ronan tocou a sobrancelha com o dedo mindinho para verificar se havia sangue, mas só havia um grande calombo.
— Conserte isso — disse Gansey. Ele não estava inteiramente certo de que qualquer coisa que Ronan tivesse feito, ou deixado de fazer, pudesse ser corrigida com facilidade, mas tinha certeza de que precisava ser corrigida. A única exigência para que Ronan pudesse ficar na Indústria Monmouth era que suas notas fossem aceitáveis. — O que quer que seja. Não deixe que ele tenha razão.
Ronan disse baixo, apenas para Gansey ouvir:
— Eu quero largar tudo.
— Falta só um ano.
— Não quero seguir com isso por mais um ano. — Ele chutou uma pedra de cascalho para baixo do Camaro. Então sua voz se elevou, mas apenas em ferocidade, não em volume. — Mais um ano e aí eu acabo estrangulado numa gravata como o Declan? Não sou um maldito político, Gansey. Nem um banqueiro.
Gansey também não era, mas isso não significava que quisesse abandonar a escola. Ele percebeu, pela dor na voz de Ronan, que sua própria voz não deveria demonstrar nenhuma tristeza quando disse:
— Apenas se forme e depois faça o que quiser.
A herança de seus pais havia assegurado aos dois que nenhum deles tivesse de trabalhar para ganhar a vida, se escolhessem não fazê-lo. Eles eram peças soltas na máquina da sociedade, um fato que recaía de maneira diferente sobre os ombros de Ronan e os de Gansey.
Ronan parecia irado, mas ele estava com um humor em que sempre pareceria irado, não importava o que estivesse acontecendo.
— Eu não sei o que eu quero. Eu não sei nem que merda eu sou.
E entrou no Camaro.
— Você me prometeu — disse Gansey pela porta aberta do carro.
Ronan não olhou para ele.
— Eu sei o que eu fiz, Gansey.
— Não esqueça.
Quando Ronan bateu a porta, ela ecoou pelo estacionamento como ecoam os sons na escuridão. Gansey se juntou a Adam em seu posto de observação favorável, seguramente distante. Comparado a Ronan, Adam parecia limpo, comedido e absolutamente controlado. Em algum lugar, ele havia conseguido uma bola de borracha com o logotipo do Bob Esponja impresso e a quicava com uma expressão pensativa.
— Eu convenci o pessoal do restaurante a não chamar a polícia — disse Adam. Ele era bom em conter as coisas.
Gansey suspirou. Naquela noite ele não teria energia para falar com a polícia em favor de Ronan.
Diga que estou fazendo a coisa certa com o Ronan. Diga que é assim que vamos reencontrar o velho Ronan. Diga que eu não estou arruinando a vida dele ao mantê-lo longe do Declan.
Mas Adam já havia dito para Gansey que achava que Ronan precisava aprender a limpar a própria sujeira. Era apenas Gansey que parecia temer que Ronan aprendesse a viver na sujeira.
Então ele simplesmente perguntou:
— Onde está o Noah?
— Está vindo. Acho que ele estava deixando uma gorjeta. — Adam deixou a bola cair e a pegou de novo. Ele tinha um jeito quase mecânico de agarrar a bola enquanto ela quicava de volta em sua direção; num momento sua mão estava aberta e vazia, no seguinte bem fechada em torno dela. Quica. Pega.
Gansey disse:
— E a Ashley, hein?
— É — disse Adam, como se estivesse esperando que ele tocasse no assunto.
— Ela tem uns olhos e tanto. — Era uma expressão que seu pai usava muito, uma frase de efeito da família para se refirir a uma pessoa enxerida.
Adam perguntou:
— Você realmente acha que ela está aqui pelo Declan?
— Por que outra razão ela estaria?
— Glendower — respondeu Adam imediatamente.
Gansey riu, mas Adam não.
— Sério, que outra razão haveria?
Em vez de responder, Adam girou a mão e lançou a bola de borracha. Ele havia escolhido a trajetória cuidadosamente: a bola quicou no asfalto sujo uma vez, acertou um dos pneus do Camaro e desenhou um arco alto no ar, desaparecendo no escuro. Ele deu um passo à frente, a tempo de ela bater na palma da sua mão.
Gansey fez um ruído de aprovação e Adam emendou:
— Acho que você não devia mais falar sobre isso com as pessoas.
— Não é segredo.
— Talvez devesse ser.
A apreensão de Adam era contagiosa, mas, logicamente, não havia nada que apoiasse a suspeita. Por quatro anos, Gansey estivera procurando por Glendower, admitindo livremente esse fato para qualquer um que demonstrasse interesse, e ele nunca vira a menor evidência de qualquer outra pessoa compartilhando precisamente sua busca. No entanto, ele tinha de admitir que essa possibilidade lhe provocava um sentimento peculiarmente desagradável.
Gansey disse:
— Não há segredos, Adam. Praticamente tudo que eu fiz é de conhecimento público. É tarde demais para ser um segredo. Já era tarde demais anos atrás.
— Fala sério, Gansey — Adam disse um pouco irritado. — Você não sente nada? Você não se sente...?
— Me sinto o quê? — Gansey detestava brigar com Adam, e aquilo parecia uma briga de certa maneira.
Adam lutou sem sucesso para colocar os pensamentos em palavras. Por fim, respondeu:
— Observado.
Do outro lado do estacionamento, Noah tinha finalmente saído do Nino’s e se arrastava na direção deles. Dentro do Camaro, era possível ver o perfil de Ronan recostado no banco, a cabeça virada como se dormisse. Perto dali, Gansey conseguia sentir cheiro de rosas e de grama cortada pela primeira vez aquele ano e, mais distante, a terra úmida retornando à vida por baixo das folhas caídas, assim como água correndo sobre pedras em curvas montanhosas onde seres humanos nunca caminharam. Talvez Adam estivesse certo. Havia algo sugestivo naquela noite, ele pensou, algo fora de vista que parecia abrir os olhos.
Dessa vez, quando Adam deixou cair a bola, foi a mão de Gansey que se estendeu e a pegou.
— Você acha que faria algum sentido para alguém nos espionar — disse Gansey — se não estivéssemos no caminho certo?

2 comentários:

  1. "Ela claramente não o tinha achado arrogante.
    Provavelmente porque não o ouvira falar.
    A noite toda. Isso iria incomodá-lo a noite toda."

    Tadin, ele fica remoendo as coisas, fofo

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  2. Eu fico mais confusa e mais intrigada a cada capítulo. Essa Ashley, não sei se enxerida é a melhor definição, astuta talvez. Concordo com o Adam, eles deveriam falar menos sobre isso.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!