3 de junho de 2018

Capítulo 7

Os momentos em família
Deviam ter pizza
Não explosivos mortais

QUÃO DIFÍCIL PODE ser encontrar um sátiro numa loja de equipamentos militares?
Muito difícil, pelo que vi.
Aquela loja não tinha fim, era um corredor atrás do outro, todos cheios de equipamentos que nenhum exército de respeito usaria. Perto da entrada, um cesto gigante sob um letreiro roxo de néon prometia: CHAPÉUS DE SAFÁRI! COMPRE 4 E PAGUE 3! Uma estante no fim do corredor exibia tanques de propano empilhados no formato de uma árvore de natal, com guirlandas de mangueiras de maçarico e uma placa com a inscrição: SEMPRE É TEMPO DE CELEBRAR! Dois corredores de quatrocentos metros de comprimento eram dedicados apenas a roupas camufladas, de todos os tons possíveis: marrom-deserto, verde-floresta, cinza-ártico e rosa-shocking, para o caso de sua equipe de operação especial precisar se infiltrar em uma festa de aniversário infantil com o tema PRINCESAS.
Havia placas informativas acima de cada corredor: PARAÍSO DO HÓQUEI NO GELO, PINOS DE GRANADA, SACOS DE DORMIR, SACOS PARA CORPOS, LAMPIÕES DE QUEROSENE, BARRACAS DE CAMPING, VARAS GRANDES E PONTUDAS. No fim da loja, a cerca de meio dia de caminhada, uma enorme faixa amarela anunciava: ARMAS DE FOGO!!!
Olhei para Grover, que parecia ainda mais pálido sob as luzes fluorescentes.
— Que tal começar com o equipamento de camping?
Grover pareceu confuso ao observar uma estante cheia de estacas com as cores do arco-íris.
— Conhecendo o treinador Hedge, ele está na seção de armas.
Com isso, começamos a caminhada na direção da distante terra prometida das ARMAS DE FOGO!!!
Não gostei da iluminação da loja, que era forte demais. Não gostei da música, que era alegre demais, nem do ar-condicionado, que era frio demais e deixava o ambiente gelado como um necrotério.
Os poucos atendentes nos ignoraram. Um jovem colava adesivos indicando 50% DE DESCONTO em banheiros químicos Cocomóvel®. Outro funcionário estava parado diante da máquina registradora do caixa rápido, como se tivesse alcançado um nirvana induzido pelo tédio. Todos usavam colete amarelo com a logomarca do Macro atrás: um centurião romano sorridente fazendo o sinal de joinha. Também não gostei da logo.
Na parte da frente da loja ficava uma cabine elevada com vitrines de acrílico, como o posto de diretor em uma prisão. Lá ficava a mesa do supervisor, e um homem grande como um touro estava sentado diante dela, a careca reluzente, veias saltando do pescoço. A camisa e o colete amarelo mal continham os músculos volumosos dos braços, e as sobrancelhas brancas e peludas lhe davam uma aparência assustada. Quando ele nos viu passar, abriu um sorriso que me deixou arrepiado.
— Acho que não devíamos estar aqui — murmurei para Grover.
Ele olhou para o supervisor.
— Tenho quase certeza de que não tem nenhum monstro aqui, senão eu teria sentido o cheiro. Aquele cara é humano.
Isso não me tranquilizou; algumas das criaturas de que eu menos gostava eram humanas. Mas mesmo assim segui Grover pela loja.
Como ele previra, Gleeson Hedge estava na seção de armas de fogo, assobiando enquanto enchia o carrinho de compras com miras de fuzil e escovas de limpar cano.
Deu para entender por que Grover o chamava de treinador. Hedge usava um short de poliéster azul vibrante que deixava as pernas peludas de bode expostas, um boné vermelho aninhado entre os pequenos chifres, uma camisa polo branca e um apito pendurado no pescoço, como se a qualquer momento pudesse ser chamado para arbitrar um jogo de futebol.
Ele parecia mais velho do que Grover, a julgar pelas rugas no rosto, mas era difícil ter certeza quando se tratava de sátiros, já que eles demoravam mais para amadurecer do que os humanos. Eu sabia que Grover tinha uns trinta e poucos anos, por exemplo, mas isso corresponde a apenas dezesseis em idade de sátiro. O treinador podia ter qualquer coisa entre quarenta e cem anos em tempo humano.
— Gleeson! — gritou Grover.
O treinador se virou e sorriu. O carrinho estava cheio de aljavas, caixas de munição e fileiras de granadas seladas em plástico que prometiam DIVERSÃO PARA TODA A FAMÍLIA!!!
— Oi, Underwood! Chegou na hora certa! Me ajude a pegar umas minas terrestres.
Grover fez careta.
— Minas terrestres?
— Bom, são só os revestimentos vazios — explicou Gleeson, apontando para uma fileira de latas de metal que pareciam cantis —, mas acho que dá para encher com explosivos e deixar as minas funcionais outra vez! Você prefere os modelos da Segunda Guerra Mundial ou da Guerra do Vietnã?
— Hã… — Grover me segurou e me empurrou para a frente. — Gleeson, este é Apolo.
Gleeson franziu a testa.
— Apolo… Apolo? — Ele me olhou de cima a baixo. — Você é ainda pior do que eu pensava. Garoto, você precisa fazer mais exercícios.
— Nossa, muito obrigado. — Soltei um suspiro. — Nunca ninguém me deu esse conselho.
— Ah, eu conseguiria botar você em forma — refletiu Hedge. — Mas, primeiro, me ajudem. Minas? Espadas? O que vocês acham?
— Achei que você tivesse vindo comprar equipamento de camping.
Gleeson franziu a testa.
— Isto aqui é equipamento de camping. Se preciso ficar entocado naquela cisterna com minha esposa e meu filho, exposto a tudo que é perigo, vou me sentir bem melhor sabendo que estou armado até os dentes e cercado de explosivos! Tenho uma família para proteger!
— Mas… — Olhei para Grover, que balançou a cabeça como quem diz “melhor nem tentar”.
A essa altura, queridos leitores, vocês devem estar se perguntando: Apolo, por que você protestaria? Gleeson Hedge está certo! Por que usar espadas e arcos se dá para lutar contra monstros usando minas e metralhadoras?
Ora, quando se está lutando contra forças antigas, as armas modernas não são confiáveis, para dizer o mínimo. Os mecanismos-padrão de armas e bombas feitas por mortais tendem a emperrar em situações sobrenaturais. Explosões podem ou não dar conta do serviço, e a munição normal só irrita a maioria dos monstros. Alguns heróis até usam armas de fogo, mas a munição tem que ser feita de metais mágicos: bronze celestial, ouro imperial, ferro estígio, assim por diante.
Infelizmente, esses materiais são raros. Balas elaboradas com magia são trabalhosas de produzir e só podem ser usadas uma vez antes de se desintegrarem, enquanto uma espada de metal mágico dura milênios. Não é prático atirar a esmo quando se está lutando contra uma górgona ou uma hidra.
— Acho que você já tem uma boa variedade de suprimentos — comentei. — Além do mais, Mellie está preocupada. Você passou o dia todo fora.
— Não passei, não! — protestou Hedge. — Espere aí... Que horas são?
— Já está escuro — respondeu Grover.
O treinador piscou, confuso.
— Sério? Ah, droga! Acho que passei tempo demais na seção de granadas. Tudo bem, acho que…
— Com licença — soou uma voz atrás de mim.
O gritinho agudo que veio logo depois pode ter sido de Grover. Ou meu, quem pode saber? Eu me virei e vi que o homem careca e enorme da cabine do supervisor tinha se aproximado sorrateiramente e parado atrás da gente. Foi um truque e tanto, já que ele tinha mais de dois metros e devia pesar cento e quarenta quilos. O sujeito estava acompanhado de dois funcionários, que olhavam para o nada, impassíveis, munidos de etiquetadoras.
O gerente sorriu, erguendo bem as sobrancelhas brancas cabeludas, os dentes de vários tons de mármore de cemitério.
— Lamento muito ter que interromper. Não recebemos muitas celebridades, e eu… eu queria ter certeza. Você é Apolo? Quer dizer… Apolo?
Ele parecia muito feliz em me conhecer. Olhei para meus companheiros sátiros. Gleeson assentiu, e Grover balançou a cabeça vigorosamente.
— E se eu fosse? — perguntei.
— Ah, suas compras sairiam de graça! — gritou o gerente. — E íamos estender um tapete vermelho para você passar!
Foi um truque sujo. Sempre adorei tapetes vermelhos.
— Bom, então, sim, eu sou Apolo.
O gerente deu um gritinho — um som que lembrava bastante o javali de Erimanto quando atirei no traseiro dele.
— Eu sabia! Sou seu maior fã. Meu nome é Macro. Bem-vindo à minha loja!
Ele olhou para os dois funcionários.
— Podem pegar o tapete vermelho para enrolar o Apolo? Mas primeiro vamos fazer com que as mortes dos sátiros sejam rápidas e indolores. É uma honra imensa!
Os funcionários ergueram as etiquetadoras, prontos para nos marcarem como itens de liquidação.
— Esperem! — gritei.
Os funcionários hesitaram. De perto, notei como eram parecidos: o mesmo cabelo escuro oleoso, os mesmos olhares vidrados, as mesmas posturas rígidas. Podiam ser gêmeos ou… um pensamento horrível surgiu no meu cérebro: podiam ser produtos de uma linha de montagem.
— Eu, hum, é… — comecei, poético até o fim. — E se eu não for realmente Apolo?
O sorriso de Macro perdeu um pouco do vigor.
— Bom, então eu teria que matar você por me decepcionar.
— Tudo bem, eu sou Apolo. Mas vocês não podem matar seus clientes. Não é assim que se gerencia uma loja de equipamentos militares!
Atrás de mim, Grover tentava conter o treinador Hedge, que, por sua vez, tentava desesperadamente abrir um pacote tamanho família de granadas enquanto xingava a embalagem à prova de crianças.
Macro juntou as mãos imensas.
— Sei que é muita grosseria de minha parte. Peço desculpas, lorde Apolo.
— Então… você não vai nos matar?
— Bom, como falei, não vou matar você. O imperador tem planos, precisa de você vivo!
— Planos — repeti.
Odeio planos. Eles me lembram coisas irritantes, como as reuniões de Zeus uma vez por século para estabelecer metas, ou ataques perigosamente complicados. Ou Atena.
— M-mas meus amigos... — gaguejei. — Vocês não podem matar os sátiros. Um deus da minha estatura não pode ser enrolado em um tapete vermelho sem seu séquito!
Macro olhou para os sátiros, que ainda brigavam com o embrulho fechado de granadas.
— Hum... Me desculpe, lorde Apolo, mas, sabe, é minha única chance de voltar a ficar de bem com o imperador. Tenho quase certeza de que ele não vai querer os sátiros.
— Quer dizer que vocês estão de mal?
Macro soltou um suspiro e começou a enrolar as mangas, como se esperasse um assassinato difícil e horrendo de sátiros pela frente.
— Infelizmente. Eu não pedi para ser exilado em Palm Springs! Ora, o princeps é muito seletivo com suas forças de segurança, e minhas tropas cometeram erros demais, então ele nos mandou para cá. Colocou aquele bando horrível de estriges, mercenários e orelhudos no nosso lugar. Dá para acreditar?
Eu não consegui acreditar nem entender. Orelhudos?
Observei os dois funcionários, ainda paralisados, as armas a postos, os olhos desfocados, e os rostos, inexpressivos.
— Seus funcionários são autômatos — enfim concluí. — Essas são as antigas tropas do imperador?
— Ora, sim. Mas eles são totalmente capazes. Quando eu entregar você, o imperador vai ter que admitir isso e me perdoar.
Macro tinha enrolado as mangas acima dos cotovelos, revelando cicatrizes brancas antigas, como se seus antebraços tivessem sido arranhados por uma vítima desesperada muitos anos atrás… Eu me lembrei do sonho no palácio imperial, do pretor ajoelhado diante do novo imperador.
Tarde demais, eu me lembrei do nome daquele pretor.
— Névio Sutório Macro.
Macro abriu um sorriso para os funcionários robóticos.
— Não acredito que Apolo se lembra de mim. É uma honra tão grande!
Os funcionários robóticos não se impressionaram.
— Você matou o imperador Tibério — acusei. — Você o sufocou com um travesseiro.
Macro pareceu envergonhado.
— Bom, ele já estava noventa por cento morto. Eu só dei uma ajudinha.
— E você fez isso pelo imperador seguinte. — Um burrito de medo gelado afundou no meu estômago. — Neos Helios. É ele.
Macro assentiu, ansioso.
— Isso mesmo! O primeiro, o único, Caio Júlio César Augusto Germânico!
Ele abriu os braços, como se esperasse aplausos.
Os sátiros pararam de brigar. Hedge continuou mastigando o pacote de granadas, embora até seus dentes de sátiro estivessem tendo dificuldade com o plástico grosso.
Grover recuou, deixando o carrinho de compras entre ele e os funcionários da loja.
— C-caio quem? — Ele olhou para mim. — Apolo, o que isso quer dizer?
Eu engoli em seco.
— Quer dizer que a gente tem que correr. Agora!

21 comentários:

  1. De todos os imperadores romanos, esse aí é o pior

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    1. Laíres de Deus câmara campos4 de junho de 2018 13:14

      não exatamente. se você soubesse o que Tibério fez com um exército inimigo uma vez... quer que eu conte?

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    2. Damon Herondale, filho de Zeus5 de junho de 2018 23:15

      Concordo absolutamente

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    3. É sério Júlio César?! 😥😒...

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    4. Júlio César não era imperador. Ele foi um DITADOR!

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    5. JULIO CÉSAR NÃO É IMPERADOR!

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    6. o cara e tao louco que colocou um cavalo para ser senador em roma kkkkkk, e tinha comida com ouro para esse cavalo.kkkkkk adoro a roam antiga............

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    7. Devia ser parente do Arion pra comer ouro, isso sim 😂😂😂😂😂 Mas até que não seria má ideia por o Arion de senador... O cara/cavalo é doido e dá medo, ainda fazer parte do trio equino mais vidaloka do Olimpo...

      ~Filha de Poseidon

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  2. Macro assentiu, ansioso.
    — Isso mesmo! O primeiro, o único, Caio Júlio César Augusto Germânico!


    Mas para os íntimos Calígulazinho....kkkk

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  3. "- [...] Você é Apolo? Quer dizer… O Apolo?

    Ele parecia muito feliz em me conhecer. Olhei para meus companheiros sátiros. Gleeson assentiu, e Grover balançou a cabeça vigorosamente.

    — E se eu fosse? — perguntei.

    — Ah, suas compras sairiam de graça! — gritou o gerente. — E íamos estender um tapete vermelho para você passar!

    Foi um truque sujo. Sempre adorei tapetes vermelhos."

    Caramba, Apolo! NUNCA escute o treinador Hedge. ������

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  4. ouvi dizer (eu disse ) que ele e travesso , amo , amo e amo caras travessos
    love cesar (Percy)

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  5. Ele foi meu primeiro chute, Caligula era o pior, mas com o início do livro cheguei a pensar em outros, no fim meu primeiro chute estava certo... É que entre um dos maiores psicopatas da história humana...

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  6. "Eu sabia que Grover tinha uns trinta e poucos anos" nossa eu não sabia ou esqueci 😐😐

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  7. O Q VC QUER DIZER QUE GROVER TEM A MINHA IDADE EM ANOS HUMANOS??? TIRA ELE DAÍ BOTA ELE DE VOLTA NA ESCOLA ELE É JOVEM DEMAIS PRA ISSO

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  8. Eu já imaginava que fosse César, teria que ser alguém "famoso" na mitologia, como Nero estava nos meus livros de história quando eu tava (não sei se é 6 ou 7 ano mas é um dos dois) no fundamental 1 eu pensei: "Ah! Deve ser aquele f*lh* d* p*t* do César". Nunca gostei desse cara, nem quando estava estudando sobre ele. Aposto que não tirei 100 numa prova por culpa de uma questão que tinha ele. Agora que ele é um dos vilões desse livro eu sei que vou odia-lo mais ainda.

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    1. César é um título, não um nome. Esse César q vc fala so ficou famoso assim porq se não me engano foi o primeiro a usar ess titulo acho...

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  9. Aaah, pronto. Meu irmão tem o nome de um imperador psicopata.

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  10. Serio, só eu achei que nesse capítulo pela primeira vez alguém acha algo de útil e de seu interesse numa loja de monstros. Uma armadilha que até britomartis aprovaria e possivelmente conhece. Pena que nao da palestras e distribui bilhetes de como evita-las ou de como lidar com elas. Quer dizer, útil ou nao, estamos nas mãos quando compramos
    ficamos à mercê dos vendedores, e os personagens tem de lutar contra isso, pra alcançarem o primeiro malvado a sofrer apoteose espontânea.

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  11. Obivium 🙄🙄🖒...
    Ass Letty do CdG.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!