26 de junho de 2018

Capítulo 6

— Você é uma vagabunda inacreditável ao telefone — disse Blue.
Sem se ofender, Orla respondeu:
— Você só está com inveja porque esse não é o seu trabalho.
— Não estou.
Sentada no chão da cozinha de sua mãe, Blue encarou a prima mais velha enquanto ela amarrava o sapato. Orla pairava acima dela com uma camisa espantosa tanto pelo aperto quanto pela estampa viva. A abertura da calça boca de sino era larga o suficiente para esconder pequenos animais. Ela desenhou um hipnótico oito com o telefone acima de Blue.
O telefone em questão era a linha de atendimento mediúnico que operava do segundo andar da Rua Fox, 300. Por um dólar o minuto, os clientes tinham direito a um exame bondoso de seus arquétipos — um exame ligeiramente mais bondoso se Orla atendesse — e uma série de sugestões cuidadosas sobre como melhorar o seu destino. Todas na casa se revezavam atendendo o telefone. Todas, como Orla estava destacando, menos Blue.
O trabalho de verão de Blue não exigia absolutamente nenhuma percepção extrassensorial. Na realidade, trabalhar no Nino’s seria provavelmente insuportável se ela possuísse algo mais do que cinco sentidos. Geralmente, Blue tinha uma política de não fazer coisas que desprezava, mas ela desprezava trabalhar no Nino’s e mesmo assim não deixava o emprego. Nem tinha sido despedida, aliás. Atender mesas exigia paciência, um sorriso permanente e convincente e a capacidade de sempre oferecer a outra face enquanto mantinha os copos de refrigerante zero cheios. Blue possuía apenas um desses atributos em qualquer dado momento, e nunca era o que ela precisava. Não ajudava que a clientela do Nino’s fosse na maior parte de garotos da Aglionby, que muitas vezes achavam que a grossura era um tipo mais intenso de flerte.
O problema é que o emprego pagava bem.
— Ah, por favor — disse Orla. — Todo mundo sabe por que você está tão irritada.
Blue se levantou para encarar a prima. Tirando o nariz grande, Orla era bonita. Tinha um cabelo castanho longo coroado com uma faixa bordada, um rosto longo com um piercing no nariz e um corpo longo tornado mais longo ainda por sapatos plataforma.
Mesmo de pé, Blue — que passava só um pouco de um metro e meio — alcançava apenas o pescoço moreno de Orla.
— Eu não me importo em ser ou não médium. — O que era parcialmente verdade. Blue não invejava a mediunidade de Orla. Ela invejava sua capacidade de ser diferente sem nem fazer esforço. Blue tinha de se esforçar. Muito.
Acenando o telefone mais uma vez, ela disse: — Não minta para mim, Blue. Eu consigo ler a sua mente.
— Não consegue — respondeu Blue seriamente, pegando a carteira coberta de botões do balcão. Só porque ela não era médium não significava que não fizesse ideia do processo. Ela olhou de relance para o relógio no fogão. Quase tarde. Praticamente tarde. Em cima da hora. — Diferentemente de algumas pessoas, minha autoestima não está ligada à minha ocupação.
— Ooooooh — folgou Orla, andando pelo corredor a passos largos, imitando uma cegonha. Ela trocou o sotaque de Henrietta por uma versão gloriosamente aborrecida do Velho Sul. — Alguém tem saído demais com Richard Campbell Gansey, o terceiro. Minha autoestima não está ligada à minha ocupação. — Essa última parte foi dita com a interpretação mais exagerada possível do sotaque de Gansey. Ela soava como um Robert E. Lee bêbado.
Blue passou por Orla em direção à porta.
— Isso foi porque eu falei que você parecia uma vagabunda ao telefone? Não retiro o que eu disse. Ninguém precisa ouvir o futuro naquela voz que você faz. Mãe, fala pra Orla me deixar em paz. Eu preciso ir.
Do seu canto na sala de leitura, Maura ergueu o olhar. Ela era uma versão ligeiramente mais alta que a filha, seus traços divertidos onde os de Blue pareciam ansiosos.
— Você está indo para o Nino’s? Venha, pegue uma carta.
Apesar de estar atrasada, Blue não conseguia resistir. Só vai levar um instante.
Desde pequena, ela adorava o ritual da leitura de uma única carta. Diferentemente do elaborado método da cruz celta de abrir as cartas de tarô que sua mãe usava normalmente com os clientes, a leitura da carta única que ela fazia para Blue era divertida, afetuosa e breve. Não era tanto uma experiência mediúnica quanto uma história para ninar de trinta segundos em que Blue sempre era a heroína.
Blue se juntou à mãe, seu reflexo pontiagudo obscuramente visível no brilho fosco da mesa. Sem tirar os olhos das cartas de tarô, Maura segurou carinhosamente a mão de Blue e abriu uma carta aleatoriamente.
— Ah, aí está.
Era o pajem de copas, a carta que Maura sempre dizia que a fazia lembrar de Blue.
Nesse baralho, o desenho era de um rapaz com um rosto jovial segurando uma taça coberta de pedras preciosas. O naipe de copas representava relações — amor e amizade —, e o pajem representava possibilidades novas que renderiam frutos. Essa história de ninar em particular era uma que Blue tinha ouvido inúmeras vezes antes. Ela podia antecipar exatamente o que sua mãe diria em seguida: Veja todo o potencial que ela tem dentro de si!
Blue a interrompeu.
— Quando o potencial passa a ser realidade?
— Ah, Blue.
— Não me venha com “Ah, Blue” — disse a garota, soltando a mão da mãe. — Só quero saber quando isso vai deixar de ser um potencial e começar a ser algo mais.
Maura recolocou rapidamente a carta no baralho.
— Você quer a resposta que vai gostar ou a real?
Blue pigarreou. Havia apenas uma resposta que ela sempre quis.
— Talvez você já seja algo mais. Você torna os outros médiuns tão poderosos apenas estando perto. Talvez o potencial que você consiga tirar das outras pessoas seja o seu algo mais.
Blue soubera a vida inteira que ela era uma raridade. E era muito bacana ser útil, mas não era o suficiente. Não era algo mais, sua alma pensou.
— Não vou ser uma coadjuvante — disse ela, muito friamente.
No corredor, Orla a imitou, com o néctar sulista de Gansey:
— Não vou ser uma coadjuvante. Você devia parar de andar com milionários, então.
Maura fez um tsss mal-humorado entre os dentes.
— Orla, você não tem uma ligação para fazer?
— Não importa. Vou trabalhar — disse Blue, tentando evitar que as palavras de Orla a afetassem. Mas era verdade que ela parecia muito mais descolada na escola do que cercada por médiuns e garotos ricos.
Não, ela pensou. A questão não é essa. A questão diz respeito ao que eu faço, não ao que eu sou.
No entanto, aquela era uma situação um pouco delicada. Fora muito mais fácil com Adam, o mais pobre da turma, que se parecia mais com ela. Agora ela sentia como se tivesse algo para provar. Os outros eram o Time Poder, e esperava-se que ela fosse o Time Criatividade ou algo assim.
Sua mãe acenou uma carta em despedida.
— Tchau. Você vai vir para o jantar? Vou preparar crise da meia-idade.
— Ah — disse Blue —, acho que vou querer um pouco. Se você já estiver cozinhando.


Quando Blue chegou ao Nino’s, descobriu que Gansey, Adam, Noah e Ronan já tinham tomado conta de uma das mesas grandes nos fundos. Como ela não pudera ir aos garotos, eles haviam trazido a discussão sobre Glendower até ela.
Ha!, ela pensou. Engole essa, Orla!
Adam e Gansey estavam sentados em um banco rachado e cor de laranja junto à parede. Noah e Ronan estavam sentados nas cadeiras de frente para eles. Uma caixa de madeira repousava sob a luz da luminária verde que pendia do teto. Um batalhão de dicionários de língua estrangeira a cercava.
Com esforço, Blue comparou sua imagem atual dos garotos com a primeira vez que os tinha visto. Eles não eram apenas estranhos então, eram o inimigo. Era difícil lembrar vê-los daquele jeito. Qualquer que fosse a sua crise de identidade, ela parecia vir de casa, não dos garotos.
Blue não tinha previsto isso.
Ela trouxe uma jarra de chá gelado para a mesa.
— O que é isso?
— Jane! — disse Gansey alegremente.
— É um feiticeiro em uma caixa — disse Adam.
— Ele faz a sua lição de casa — acrescentou Noah.
— E está saindo com a sua namorada — terminou Ronan.
— Vocês estão bêbados? — ralhou Blue.
Eles desconsideraram a pergunta e, em vez disso, demonstraram animadamente os princípios da caixa de madeira. Ela ficou menos surpresa do que a maioria das pessoas ficaria ao descobrir que se tratava de uma caixa de tradução mágica. E mais surpresa ao descobrir que os garotos haviam tido a precaução de trazer os dicionários.
— A gente queria saber se ela estava sempre certa — disse Gansey. — E pelo visto está.
— Esperem um pouco — respondeu Blue, deixando os garotos para pegar o pedido de bebidas de um casal na mesa catorze.
Ambos queriam chá gelado. O Nino’s era injustamente famoso pelo chá gelado — havia até um cartaz na janela proclamando que ali se servia o melhor em Henrietta —, apesar de Blue poder atestar o fato de que o processo de preparação do chá era absolutamente comum. Garotos corvos devem ser presas fáceis para a propaganda, ela pensou.
Quando voltou, ela se inclinou sobre a mesa ao lado de Adam, que tocou o seu pulso.
Ela não sabia o que fazer em resposta. Tocá-lo de volta? O momento tinha passado. Ela se ressentia de seu corpo por não lhe dar a resposta correta. Então perguntou:
— Aliás, que língua é aquela?
— Não sabemos — disse Gansey, sem tirar o canudo da boca. — Por que o chá é tão bom aqui?
— Eu cuspo nele. Me deixe ver essa coisa.
Blue pegou a caixa. Ela tinha um certo peso, como se você fosse encontrar os mecanismos para todos aqueles discos dentro dela. Na realidade, parecia bastante com o diário de Gansey sobre Glendower. Ela havia sido prodigamente sonhada — não o que ela esperaria de Ronan.
Com dedos cuidadosos sobre os discos lisos e frios, Blue moveu as rodas do lado inglês da caixa de maneira que eles formassem blue. Botões baixaram e rodas giraram dos outros lados da caixa, fluidos e silenciosos.
Blue a virou lentamente para ler de cada lado: Um lado estava em branco.
Gansey apontou cada lado para ela.
— Latim, copta, sânscrito, algo que não sabemos e... isso deveria ser grego. Não é esquisito que esse lado esteja em branco?
— Não. Os gregos antigos não tinham uma palavra para azul — disse Ronan.
Todos na mesa olharam para ele.
— Que diabos, Ronan? — disse Adam.
— É difícil imaginar — refletiu Gansey — como essa educação clássica evidentemente bem-sucedida nunca parece dar as caras nos seus trabalhos de escola.
— Eles nunca fazem as perguntas certas — respondeu Ronan.
Na frente do restaurante, a porta se abriu. Era responsabilidade de Blue sentar o grupo novo, mas ela se deixou ficar na mesa, franzindo o cenho para a caixa.
— Eu tenho uma pergunta pertinente. Qual é a língua desse lado? — ela disse.
A expressão de Ronan era petulante. Gansey inclinou a cabeça para o lado.
— Não sabemos.
Blue apontou para Ronan, que curvou o lábio.
— Ele sabe. Em algum lugar ali. Tenho certeza.
— Você não sabe de merda nenhuma — disse Ronan.
Houve a mais breve das pausas. Era verdade que esse tipo de veneno não era extraordinário partindo de Ronan. Mas fazia um bom tempo que ele não era usado de maneira tão vigorosa em relação a Blue. Ela se empertigou, o corpo todo formigando.
Então Gansey disse, muito lentamente:
— Ronan, essa foi a última vez que você falou com a Jane desse jeito.
Tanto Adam quanto Blue encararam Gansey, que concentrava o olhar no guardanapo.
Não era o que ele havia dito, mas a maneira como não olhara para ninguém quando o dissera, que tomava o momento estranho.
Sentindo as bochechas esquisitamente quentes, Blue disse a Gansey:
— Não preciso que você me defenda. Não pense — e isso era dirigido a Ronan — que vou deixar você falar comigo desse jeito. Especialmente quando você estiver irado porque eu estou certa.
Enquanto se virava para ir até a entrada do restaurante, Blue ouviu Adam dizer “Você é um babaca” e Noah rir. Ela se deprimiu quando viu quem estava no balcão da recepção: Joseph Kavinsky. Ele era inconfundível, o tipo de garoto corvo claramente importado de outro lugar. Tudo a respeito de sua estrutura facial — o nariz comprido, os olhos fundos com pálpebras pesadas, o arco escuro das sobrancelhas — era completamente diferente dos rostos do Vale aos quais ela tinha se acostumado. Assim como muitos outros garotos corvos, ele usava óculos escuros enormes, cabelo espetado, um brinco pequeno, uma corrente em torno do pescoço e uma camiseta regata branca.
Mas, diferentemente dos outros garotos corvos, ele aterrorizava Blue.
— Oi, boneca — ele a cumprimentou. E já estava parado próximo demais, mexendo-se ansiosamente. Ele estava sempre se mexendo. Havia algo errático e vulgar a respeito da linha cheia de seus lábios, como se ele fosse engoli-la se chegasse perto o suficiente. Ela odiava o cheiro dele.
Ele era infame, mesmo na escola dela. Se você quisesse algo para passar nos exames, ele tinha. Se quisesse um atestado falso, ele podia conseguir. Se quisesse algo para prejudicar a si mesmo, ele era isso.
— Eu não sou uma boneca — disse Blue friamente, pegando um cardápio laminado. Seu rosto estava queimando de novo. — Mesa para um?
Mas ele não estava ouvindo. Ele girou sobre os calcanhares, empinando o queixo para ver quem mais estava no restaurante. Sem olhar para ela de novo, disse:
— Minha turma já está aqui.
E se afastou, como se ela nunca tivesse estado ali.
Ela não sabia direito se não conseguia perdoar Kavinsky porque ele sempre a fazia se sentir tão insignificante, ou a si mesma por saber o que iria acontecer e mesmo assim não ser capaz de se proteger.
Blue colocou o cardápio de volta no balcão da recepção e ficou parada ali por um segundo, odiando a todos, odiando o seu trabalho, sentindo-se estranhamente humilhada.
Então respirou fundo e completou o chá da mesa catorze.
Kavinsky foi direto até a mesa grande nos fundos, e todos os outros garotos mudaram de posição drasticamente. Adam olhava para a mesa com desinteresse estudado. Noah, manchado, afundou a cabeça nos ombros, mas não conseguia tirar os olhos do recém-chegado. Gansey ficou de pé, apoiado na mesa, e havia algo ameaçador em vez de respeitoso quanto a isso. Ronan, no entanto, foi quem passou pela maior transformação.
Embora sua posição casual — braços cruzados — continuasse a mesma, seus ombros estavam fechados com uma tensão visível. Algo em seus olhos era feroz e vivo, do mesmo jeito que estavam quando ele lançara o avião no campo.
— Eu vi o seu carro na frente — disse Kavinsky para Gansey. — E lembrei que tinha algo para o Lynch.
Rindo, largou um montinho mirrado e emaranhado diante de Ronan.
Ronan olhou o presente, uma sobrancelha erguida em um gesto de magnífico desdém. Recostando-se, ele puxou um dos fios para revelar uma coleção de pulseiras idênticas às que ele sempre usava.
— Que legal, cara. — Ronan ergueu uma, como um espaguete. — Vai com qualquer coisa.
— Que nem a sua mãe — concordou Kavinsky, bem-humorado.
— O que eu faço com elas?
— Eu é que sei? Só pensei em você. Passe adiante — respondeu Kavinsky. Ele colocou a palma da mão na cabeça raspada de Ronan e a esfregou. Ronan parecia pronto para mordê-lo. — Bom, vou cair fora. Coisas pra fazer. Aproveitem o seu dubinho do livro, senhoras.
Ele nem olhou para Blue quando saiu. Ele não dar em cima de você é uma coisa boa, ela disse para si mesma, sentindo-se invisível, impossível de ser vista. Será que é assim que o Noah se sente?
Gansey disse:
— A única coisa que me dá alguma alegria é imaginar a loja de carros usados onde ele vai trabalhar quando tiver trinta anos.
De cabeça baixa, Ronan seguiu estudando as tiras de couro. Uma das mãos era um punho. Blue se perguntou qual seria o significado real do presente de Kavinsky. E se perguntou se Ronan o sabia.
— Como eu disse — murmurou Gansey. — Confusão.

7 comentários:

  1. Por que ela queria que ele desse em cima dela? UÉÉÉÉÉ, gente do céu, não, né?

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    1. Sei lá, acho que só pra dar uma moral sabe...levantar um pouco a auto estima da criatura

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    2. se você está falando do kavisky e da blue, acredito que ela não queria que ele desse em cima dela, mas que não a desprezasse ou se sentisse superior ao ponto de usá-la como artifício e depois saísse da lanchonete como se ela nem existisse ou fosse inútil.

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  2. "— Eu é que sei? Só pensei em você. Passe adiante — respondeu Kavinsky. Ele colocou a palma da mão na cabeça raspada de Ronan e a esfregou. Ronan parecia pronto para mordê-lo."

    Vou passar o livro todo só no AAAAAAAAAAAAAAAAAA
    Amo esse livro do fundo do meu coração <3

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  3. Não sei se leio ansiosa à espera do próximo capítulo ou ao comentário de Mih 😂😂

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  4. Por que não estou conseguindo fazer download, quando clico nos três pontinhos ao lado a janela não aparece a opção de download

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  5. "— Não sabemos — disse Gansey, sem tirar o canudo da boca. — Por que o chá é tão bom aqui?
    — Eu cuspo nele. Me deixe ver essa coisa."
    Amo essas tiradas hahahahaha

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Boa leitura, E SEM SPOILER!