20 de junho de 2018

Capítulo 6

Blue não se descreveria realmente como uma garçonete. Afinal, ela também ensinava caligrafia para crianças do terceiro ano, fazia coroas para as Filhas de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, levava os cães dos moradores do condomínio mais chique de Henrietta para passear e plantava flores de canteiro para as senhoras idosas do bairro. Realmente, ser garçonete no Nino’s era a menor de suas atividades. Mas os horários eram flexíveis, era o registro mais legítimo em seu já bizarro currículo e certamente era o serviço que melhor pagava.
Só havia um problema com o Nino’s: para todos os fins práticos, ele pertencia à Aglionby. O restaurante ficava a seis quadras do portão de ferro do campus da escola, no limite do centro histórico.
Não era o lugar mais chique de Henrietta. Havia outros com televisões maiores e música mais alta, mas nenhum deles conseguiu dominar o imaginário da escola como o Nino’s. Apenas saber que o Nino’s era o lugar para estar já era um rito de passagem; se você fosse seduzido pelo Morton’s Sports Bar, na Rua Três, não merecia estar na turma.
Então, no Nino’s, os garotos de Aglionby não eram apenas alunos da escola, eram o que havia de mais Aglionby por ali. Barulhentos, arrogantes, filhinhos de papai.
Blue tinha visto uma infinidade de garotos corvos, para uma vida inteira.
A música naquela noite já estava alta o suficiente para paralisar as partes mais sutis de sua personalidade. Ela amarrou o avental, fez o melhor que pôde para se desligar dos Beastie Boys e armou seu sorriso ganhador de gorjetas.
Próximo do início de seu turno, quatro garotos entraram pela porta da frente, deixando um silvo frio de ar fresco no aposento que cheirava a orégano e cerveja. Na janela ao lado dos garotos, uma luz neon que dizia “Desde 1976” iluminava o rosto deles de verde-limão. O garoto da frente falava ao celular enquanto mostrava quatro dedos para Cialina para indicar o tamanho do grupo. Os garotos corvos eram bons em desempenhar múltiplas tarefas ao mesmo tempo, desde que todas elas beneficiassem exclusivamente a eles mesmos.
Enquanto Cialina passava apressada com o bolso do avental cheio de comandas para entregar, Blue lhe deu quatro cardápios engordurados. O cabelo de Cialina flutuava acima da cabeça com eletricidade estática e estresse servil.
Blue perguntou displicentemente:
— Você quer que eu atenda aquela mesa?
— Está brincando? — respondeu Cialina, olhando os quatro garotos. Tendo finalmente terminado sua ligação, o primeiro escorregou em um dos bancos de vinil laranja. O mais alto deles bateu a cabeça na luminária de cristal lapidado pendurada sobre a mesa, e os outros riram generosamente dele, que xingou:
— Merda.
Uma tatuagem serpenteou para fora do colarinho quando ele se virou para sentar. Todos os garotos tinham algo de faminto.
De qualquer forma, Blue não queria saber deles.
O que ela queria era um trabalho que não sugasse todos os pensamentos de sua cabeça e os substituísse pelo chamado sedutor de um sintetizador. Às vezes, ela saía furtivamente para a rua para um intervalo infinitesimal e, enquanto recostava a cabeça contra a parede de tijolos do beco atrás do restaurante, sonhava preguiçosamente que estudava anéis de árvores, que nadava com raias-jamanta e explorava a Costa Rica para descobrir mais sobre o passarinho conhecido como pigmeu tirano.
Blue não sabia se realmente queria descobrir mais sobre o pigmeu tirano. Ela simplesmente gostava do nome, afinal de contas, para uma garota de um metro e cinquenta e dois, pigmeu tirano soava como uma carreira.
Todas essas vidas imaginadas pareciam bem distantes do Nino’s.
Alguns minutos após o turno de Blue ter começado, o gerente sinalizou para ela da cozinha. Aquela noite era Donny. O Nino’s tinha em torno de quinze gerentes, todos eles parentes do dono e nenhum formado no ensino médio.
Donny conseguiu se espreguiçar e oferecer o telefone ao mesmo tempo.
— Seus pais. Hum, sua mãe.
Mas não havia necessidade de esclarecer, pois Blue não sabia quem era seu pai. Na realidade, ela havia tentado importunar Maura sobre o pai antes, mas a mãe havia elegantemente se desviado dessa linha de questionamento.
Tirando o telefone da mão de Donny, Blue se enfiou de volta no canto da cozinha, próxima de uma frigideira terminalmente gordurosa e uma pia de cuba grande. Apesar do cuidado, ela ainda era acotovelada de tempos em tempos.
— Mãe, eu estou trabalhando.
— Não entre em pânico. Você está sentada? Você provavelmente não precisa se sentar. Bem, acho que não. Pelo menos se apoie em algo. Ele ligou. Para marcar uma leitura.
— Quem, mãe? Fale mais alto. Está barulhento aqui.
— Gansey.
Por um instante, Blue não entendeu nada. Aí se deu conta e sentiu todo o peso da realidade sobre si. Sua voz ficou um pouco fraca.
— Para quando... você marcou a leitura?
— Amanhã à tarde. Foi o mais cedo que consegui. Eu tentei marcar mais cedo, mas ele disse que tinha escola. Você trabalha amanhã?
— Vou mudar meu turno — respondeu Blue imediatamente. Mas era outra pessoa dizendo aquelas palavras. A Blue de verdade estava de volta ao adro da igreja, ouvindo a voz dizer Gansey.
— Está bem. Vá trabalhar agora.
Quando desligou, Blue conseguia sentir o coração palpitando. Era real. Ele era real.
Era tudo verdade e terrivelmente específico.
Parecia uma bobagem estar ali, naquele momento, atendendo mesas, servindo drinques e sorrindo para estranhos. Ela queria estar em casa, recostada na casca fria da faia que crescia no quintal dos fundos, tentando decidir o que isso mudara em sua vida. Neeve havia dito que aquele era o ano em que ela se apaixonaria. Maura havia dito que ela mataria seu verdadeiro amor se o beijasse. Gansey deveria morrer naquele ano. Quais eram as chances? Gansey tinha de ser seu verdadeiro amor. Ele tinha de ser. Porque não havia a possibilidade de ela matar alguém.
Então é assim que a vida deve ser? Talvez seja melhor não saber.
Algo tocou seu ombro.
Tocá-la era estritamente contra a política de Blue. Ninguém deveria tocá-la enquanto ela estivesse no Nino’s, e especialmente ninguém deveria tocá-la naquele momento, quando ela estava tendo uma crise. Ela deu um rodopio.
— Posso. Ajudar?
Diante dela estava o garoto de Aglionby, o polivalente do celular, parecendo arrumado e presidencial. Seu relógio parecia ser mais caro que o carro da mãe dela, e ele tinha um tom de pele bronzeado encantador. Blue nunca descobrira como os garotos de Aglionby conseguiam se bronzear antes que os locais. Provavelmente tinha algo a ver com férias de primavera e lugares como a Costa Rica e a costa espanhola. O Presidente Celular provavelmente já estivera mais próximo de um pigmeu tirano do que ela jamais estaria.
— Espero que sim — disse ele, de maneira que indicava menos esperança e mais certeza. Ele tinha de falar alto para ser ouvido e inclinar a cabeça para mirar seus olhos. Havia algo irritantemente impressionante nele, uma impressão de que ele era muito alto, apesar de não ser mais alto que a maioria dos garotos. — Meu amigo Adam é socialmente inibido e achou você bonita, mas não quer tomar uma atitude. Ali. Não o sujo. Não o mal-humorado.
A contragosto, Blue olhou para a mesa que ele tinha apontado. Três garotos estavam sentados: um era sujo, como ele havia dito, com uma aparência amarfanhada e puída, como se seu corpo tivesse sido lavado vezes demais. O que tinha batido na luminária era bonito e tinha o cabelo raspado, um soldado em uma guerra em que o inimigo eram todas as outras pessoas. E o terceiro era... elegante. Não era a palavra certa para ele, mas era próxima. Ele tinha uma constituição delicada e uma aparência um tanto frágil, com olhos azuis belos o bastante para uma garota.
Apesar de seus instintos, Blue sentiu uma vibração de interesse.
— E? — ela perguntou.
— E você me faria um favor e iria falar com ele?
Blue usou um milésimo de segundo de seu tempo para imaginar como seria se jogar em uma mesa de garotos corvos e se arrastar por uma conversa incômoda e vagamente machista. Apesar da boa aparência do garoto na mesa, não foi um milésimo de segundo agradável.
— Sobre o que exatamente você acha que eu vou conversar com ele?
O Presidente Celular parecia despreocupado.
— Vamos pensar em algo. Somos pessoas interessantes.
Blue duvidou. Mas o garoto elegante era bem elegante. E parecia genuinamente horrorizado que seu amigo estivesse falando com ela, o que era ligeiramente cativante. Por um momento breve, brevíssimo, que mais tarde a envergonhou e desconcertou, Blue considerou contar ao Presidente Celular quando terminava seu turno. Mas então Donny a chamou da cozinha e ela se lembrou das regras número um e dois.
E disse:
— Está vendo que estou usando avental? Isso significa que estou trabalhando. Para pagar minhas contas.
A expressão despreocupada não desapareceu, e ele continuou:
— Eu cuido disso.
Ela ecoou:
— Cuida disso?
— É. Quanto você ganha por hora? Eu cuido disso. E falo com o seu chefe.
Por um momento, Blue ficou realmente sem saber o que dizer. Ela nunca acreditara em pessoas que se diziam sem palavras, mas era assim que ela estava.
Abriu a boca e, em um primeiro momento, tudo que saiu foi ar. Então algo como o início de uma risada. Finalmente, ela conseguiu cuspir:
— Eu não sou uma prostituta.
O garoto de Aglionby pareceu confuso por um longo momento, e então caiu a ficha.
— Ah, não foi isso que eu quis dizer. Não foi isso que eu disse.
— Foi isso que você disse! Você acha que pode simplesmente me pagar para conversar com o seu amigo? Obviamente você paga a maioria das suas companhias femininas por hora e não sabe como funciona no mundo real, mas... mas... — Blue lembrou que estava construindo um argumento, mas não sabia qual era. A indignação havia eliminado todas as funções mais elevadas e tudo que restava era o desejo de dar um tapa naquele cara. Ele abriu a boca para protestar, e o pensamento de Blue voltou de súbito. — A maioria das garotas, quando está interessada em um cara, conversa com ele de graça.
Para seu crédito, o garoto de Aglionby não respondeu em seguida. Em vez disso, pensou por um instante e então disse, sobriamente:
— Você disse que estava trabalhando para pagar suas contas. Achei que seria mal-educado não levar isso em consideração. Desculpe se ofendi você. Eu compreendo a sua posição, mas acho um pouco injusto você não fazer o mesmo por mim.
— E eu acho que você está sendo arrogante — disse Blue.
Ao fundo, ela viu de relance o Garoto Soldado fazendo um avião com a mão. Ele caía descontrolado em direção à mesa enquanto o Garoto Sujo reprimia o riso. O Garoto Elegante cobriu o rosto com a palma da mão, em horror exagerado, com os dedos abertos apenas o suficiente para que ela visse o traço de sarcasmo.
— Meu Deus — observou o garoto do celular. — Não sei mais o que dizer.
— Desculpa seria uma boa — ela recomendou.
— Eu já disse isso.
Blue considerou.
— Então tchau.
Ele fez um gesto ligeiro junto ao peito, que ela achou querer dizer que ele estava fazendo uma reverência, uma mesura ou algo sarcasticamente cavalheiresco. Calla o teria mandado para o inferno, mas Blue apenas meteu as mãos nos bolsos do avental.
Quando o Presidente Celular voltou para a mesa e pegou um diário de couro volumoso que parecia incompatível com o resto dele, o Garoto Soldado soltou uma risada zombeteira e ela o ouviu imitá-la: “... não sou uma prostituta”. Ao seu lado, o Garoto Elegante baixou a cabeça. Suas orelhas tinham um tom rosa-claro.
Nem por cem dólares, pensou Blue. Nem por duzentos.
Mas ela tinha de confessar que estava um pouco desconcertada pelas orelhas coradas. Isso não parecia muito... Aglionby. Garotos corvos ficavam envergonhados?
Ela o encarou por um momento longo demais. O Garoto Elegante ergueu o olhar, que cruzou com o dela. Ele tinha o cenho franzido, arrependido em vez de cruel, fazendo com que Blue duvidasse de si mesma.
Mas então ela corou, ouvindo novamente a voz do Presidente Celular dizendo: Eu cuido disso. Ela lhe lançou um olhar maldoso, bem de Calla, e girou de volta para a cozinha.
Neeve tinha de estar errada. Ela nunca se apaixonaria por um deles.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!