26 de junho de 2018

Capítulo 63

O Homem Cinzento não conseguia pensar em uma maneira de se livrar dos outros caçadores de tesouros sem ter de confrontar seu irmão.
Mas isso era impensável.
Ele pensou na carta que Maura havia tirado para ele. O dez de espadas.
Absolutamente a pior que ele poderia tirar. Ele havia pensado que isso significava deixar Henrietta para trás, mas agora sabia que, embora isso fosse terrível, não era realmente a pior coisa que poderia lhe acontecer.
A pior coisa sempre fora seu irmão.
Você vai ter que ser corajoso, Maura dissera.
Eu sempre sou corajoso.
Mais corajoso que isso.
Durante muito tempo, seu irmão o tinha assombrado. Implicado com ele e o ridicularizado a centenas de quilômetros de distância, mesmo na época em que o Homem Cinzento estudava, treinava e ficava cada dia mais perigoso. O Homem Cinzento o havia deixado tomar tudo dele.
E o que, realmente, o impedia de enfrentar o irmão agora? Medo? Ele poderia ser mais mortal que o Homem Cinzento? Ele poderia realmente tirar qualquer coisa mais dele?
O Homem Cinzento pensou no sorriso de Maura de novo. E pensou na confusão e no barulho na Rua Fox, 300, na brincadeira brilhante de Blue, no sanduíche de atum no balcão da lanchonete, nas montanhas azuis assombradas o chamando para voltar para casa.
Ele queria ficar.
Persephone havia dado um tapinha no joelho dele. Eu sei que você vai fazer a coisa certa, sr. Cinzento.
Enquanto dirigia, o Homem Cinzento estendeu uma mão para o banco de trás e arrastou a mala sobre os medidores de Greenmantle. Dirigindo com uma mão e olhando de relance da estrada lisa de chuva para a mala de tempos em tempos, ele primeiro encontrou seu disco favorito dos Kinks.
Ele colocou o disco no CD player.
Então o Homem Cinzento tirou a arma que havia escondido no armário da cozinha da Pousada Vale Aprazível. Ele conferiu para ter certeza de que Calla não havia tirado inteligentemente todas as balas. Ela não havia.
Ele saiu da pista.
Ele ia ficar. Ou morreria tentando.
No espelho retrovisor, viu dois carros deixando a pista atrás dele. Mais adiante havia duas paradas para caminhoneiros sonolentos — nada representava melhor a exaustão do que as luzes bem acordadas de uma dessas paradas. Ele escolheu a maior.
Ele já conseguia reconhecer a silhueta de seu irmão atrás da direção do carro mais distante. A idade não havia mudado o traço de seu queixo nem o formato de suas orelhas. A idade, conjeturou o Homem Cinzento, não havia mudado muito o seu irmão. O medo fez cócegas em seu estômago.
Através dos alto-falantes, os Kinks confessavam que não queriam mais perambular por aí.
O Homem Cinzento parou ao lado de uma bomba de gasolina.
Eis o que o Homem Cinzento sabia sobre postos de gasolina depois de escurecer: eles eram o melhor e o pior lugar no mundo para matar alguém. Porque ali, entre as bombas, naquele show de luzes da insônia, o Homem Cinzento era quase invencível. Mesmo se houvesse outros carros abastecendo, ele tinha duas câmeras diferentes apontando para ele. E o caixa que monitorava essas câmeras estava a apenas um pânico de distância de um botão de emergência. Somente o mais casual dos matadores atacaria entre aquelas bombas de gasolina. Matar alguém ali era ser pego.
O irmão do Homem Cinzento não seria pego. Ele era perigoso não por ser imprudente, mas pelo oposto.
E os caçadores de tesouros — eles provavelmente nem eram matadores. Apenas bandidos especializados com uma habilidade para arrombar, invadir, e com tato suficiente para não quebrar algo valioso, uma vez que o encontrassem.
Como esperado, o irmão do Homem Cinzento não parou nem perto das bombas. Em vez disso, parou o carro na escuridão, ao lado da lata de lixo, para esperar.
O outro carro hesitou também, mas o Homem Cinzento bancou a janela, acenou para eles e os chamou. Após uma pausa, eles pararam ao seu lado na outra direção, janela do motorista com janela do motorista.
Eles eram apenas um par de jovens durões, ambos parecendo cansados e frustrados.
O que estava no banco do passageiro segurava uma série de equipamentos no colo. O Homem Cinzento viu de relance um mar de embalagens de doces e garrafas de refrigerantes, um cobertor enrolado como uma bola no banco de trás. Então eles andavam morando naquele carro ultimamente. O Homem Cinzento não tinha antipatia alguma por eles, por terem revirado seus aposentos lá na pousada. Provavelmente ele teria feito o mesmo, antes de aprender algumas coisas. Bem, provavelmente não. Mesmo assim, eles não eram tão ruins quanto os dois que ele deixara na mata.
É por isso que você é o melhor, havia dito Greenmantle.
Era verdade. O Homem Cinzento realmente era o melhor.
Estava bastante claro que eles não esperavam que o Homem Cinzento parasse, e, se tivessem esperado, não esperavam vê-lo encostado tranquilamente na janela com os Kinks gritando: Silly boy, you self-destroyer!
— Boa noite — disse o Homem Cinzento, cordialmente. O posto cheirava a fritura muito antiga.
— Ei, cara — disse o motorista, um tom apreensivo na voz.
— Vejo que você está me seguindo — disse o Homem Cinzento.
— Ei, cara... — protestou o motorista.
O Homem Cinzento ergueu uma mão delicadamente.
— Não vamos desperdiçar nosso tempo. Eu não tenho o que vocês estão procurando. Eu menti para o meu chefe. Fingi que as leituras estranhas aconteciam por causa do objeto, para que ele continuasse pagando a minha estadia enquanto eu procurava. E então disse para ele que eu tinha encontrado o tal objeto para tentar tirar mais dinheiro dele. O que não funcionou, como vocês podem ver.
Eles o encararam, confusos demais em um primeiro momento para responder imediatamente.
— Ei, cara — disse o motorista uma terceira vez. O passageiro esfregou a mão no rosto e passou o polegar pensativamente sobre os medidores que ainda brilhavam em seu colo. — Como vamos saber que você não está mentindo pra gente?
— Por que eu faria isso? — perguntou o Homem Cinzento. E gesticulou na direção do Mitsubishi. — Sejamos honestos. Eu podia ter despistado vocês facilmente com esse carro.
Ele achava, de qualquer forma. Provavelmente. Ele parecia rápido.
Os dois também achavam isso, pelo visto, pois ambos franziram o cenho.
— Escute, só estou parando por uma questão de cortesia profissional — acrescentou o Homem Cinzento. — Posso ver que vocês não estão nesse negócio há tanto tempo quanto eu, mas eu esperaria que vocês fizessem o mesmo para outra pessoa se estivessem no meu lugar. — Ele queria lhes dizer que eles podiam procurar no carro dele, mas isso soaria insistente demais. Culpado demais. Eles achariam que ele o largara em algum lugar.
Mais cenhos franzidos. O sujeito no banco do passageiro disse:
— E as leituras?
— Eu já disse. Menti sobre as leituras porque eu sabia que podia levar essa mentira adiante por um tempo. Elas são apenas da falha sísmica. Você pode subir e descer as montanhas de carro se quiser conferir por si mesmo. Ela as segue direitinho.
Eles queriam muito acreditar nele. O Homem Cinzento podia ver em seus olhos injetados, em seus lábios comprimidos. Eles haviam sido mandados à procura de um fantasma, e não havia muitas pessoas além do Homem Cinzento com paciência para isso.
Eles queriam terminar com aquela história, ir atrás de espólios mais concretos.
— Mas o que vamos dizer para o nosso homem?
— Ei, eu é que vou saber? — perguntou o Homem Cinzento. — Sou eu que estou fugindo porque o meu não acreditou em mim.
— Verdade — comentou o sujeito no assento do passageiro. Houve uma pausa, então ele acrescentou: — Preciso mijar.
O Homem Cinzento havia vencido.
— Aqui. Grave o meu número no seu telefone — disse o Homem Cinzento. — Podemos manter contato.
Eles trocaram números. O Passageiro entrou no posto para mijar. O Motorista disse:
— Bom, que diabos... Você tem um cigarro?
O Homem Cinzento balançou a cabeça melancolicamente.
— Larguei faz um ano. — Ele nunca fumara.
O Motorista acenou com o queixo na direção de onde o irmão do Homem Cinzento esperava nas sombras. A chuva riscava o raio fraco dos faróis.
— E ele?
— O Metido a Esperto, você quer dizer? Não sei. Acho que vou ter que conversar com ele longe das câmeras.
O Motorista ergueu o olhar rapidamente para onde o Homem Cinzento apontava.
— Ah, cara. Eu nunca nem pensei nelas.
O Homem Cinzento tocou de leve a ponta do nariz. Ele disse:
— É uma dica. Tudo bem, vamos manter contato.
— Certo — disse o Motorista. — Ah, ei...
O Homem Cinzento parou de levantar a janela. Ele tentou não prender a respiração.
— Sim?
O Motorista abriu um largo sorriso.
— Gostei da placa.
O Homem Cinzento levou um momento para lembrar qual era.
— Obrigado — ele disse. — Gosto de dizer a verdade quando posso.
Ele fechou a janela e arrancou. Quando fez isso, seu irmão partiu lentamente, também. Era um cupê pequeno, sinuoso, algo que provavelmente pareceria elegante lá em Boston. As luzes formaram listas sobre o teto do carro enquanto ele arrancava para seguir o Homem Cinzento.
Uma parada de caminhões era o melhor e o pior lugar para matar alguém.
Porque, fora as bombas de gasolina cheias de câmeras, havia muitas vezes um estacionamento para motoristas de caminhão cansados dormirem um pouco. Às vezes, havia espaço para somente dez ou quinze caminhões. Às vezes, para vinte ou quarenta. Raramente eles eram iluminados, jamais filmados. Eram apenas jamantas e motoristas exaustos.
Aquela parada tinha uma área de estacionamento enorme, e o Homem Cinzento levou o carro do irmão para o canto mais distante. Ele parou atrás do caminhão mais encardido.
Era chegada a hora.
Era chegada a hora mesmo.
O Homem Cinzento sentiu cada ponta daquelas dez espadas o espetarem.
Cada dia cinzento o queria. Seria mais fácil simplesmente ceder.
Os Kinks cantavam: Night is as dark as you feel it ought to be.
O cupê parou ao lado do Mitsubishi branco, lado do motorista para o lado do motorista. E lá estava ele, despretensioso e com uma aparência serena. Ele havia deixado crescer uma barba aparada que de certa maneira enfatizava a curva simpática de suas sobrancelhas grossas. As pessoas sempre achavam que ele tinha um rosto amigável. Havia muita conversa a respeito de os sociopatas terem olhos assustadores, mas não o irmão do Homem Cinzento. Quando precisava passar despercebido, ele era tão afetuoso e tão companheiro quanto você poderia querer. Mesmo agora, sentado ali no cupê com aquele sorriso curvo, ele parecia um herói.
Dean, vamos só experimentar esse lance.
— Bem, irmãozinho — disse o irmão do Homem Cinzento. Ele sabia de longa experiência que apenas sua voz paralisaria o Homem Cinzento. Como uma cobra, isso daria tempo suficiente para ele digerir a sua vítima. — Parece que somos eu e você de novo.
E a voz teve o efeito de sempre: um veneno virulento de memórias. Uma década passou pela cabeça do Homem Cinzento em um instante.
lâmina
corte
incisão
queimadura
perfuração
raspagem
grito
O Homem Cinzento pegou a arma do banco do motorista e atirou no irmão. Duas vezes.
— Na verdade — ele disse — sou só eu.
Ele pegou uma luva da mala e transferiu o bilhete adesivo da sua direção para o interior do carro de seu irmão.
Então aumentou o volume da música, subiu a janela e voltou para a pista.
Ele estava indo para casa.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!