26 de junho de 2018

Capítulo 62

Exceto por arruinar a vida do Homem Cinzento, o plano dele de levar os outros para fora de Henrietta estava indo excepcionalmente bem. Greenmantle nunca chegara a confiar realmente nele, pois havia imediatamente aceitado a confissão de roubo do Homem Cinzento. Greenmantle havia xingado e ameaçado, mas, na verdade, ele já havia feito a pior coisa que poderia fazer, então suas palavras não tinham força. E a notícia havia se espalhado rápido, aparentemente. Aqueles faróis lá atrás eram os dois homens que haviam revirado a Pousada Vale Aprazível, ele descobrira. E aqueles faróis atrás deles, calculados e inexoráveis, eram do seu irmão.
Sigam-me, sigam-me.
Por um quilômetro, dois quilômetros, três quilômetros, quinze quilômetros, o Homem Cinzento brincou de pega com os outros dois carros. O carro contendo os outros caçadores de tesouro tentava ser discreto, mas o carro atrás, não. Era por isso que ele sabia que era o seu irmão. Seu irmão sempre queria que Dean soubesse. Fazia parte do jogo.
Meu irmão. Meu irmão. Meu irmão.
Ele se sentira paralisado, em um primeiro momento, sabendo que seu irmão estava tão próximo. Em um primeiro momento, a única maneira que o Homem Cinzento teve para se concentrar na direção era pensar em tudo que ele havia se tornado como Homem Cinzento, em vez de tudo que ele havia sido como Dean Allen. Porque Dean Allen seguia dizendo para ele simplesmente parar o carro e terminar de uma vez com aquilo. Só vai piorar, sussurrou Dean Allen em uma voz pequena, se você o fizer vir atrás de você.
O Homem Cinzento, por outro lado, disse: Ele é um gerente de investimentos de trinta e nove anos e, em prol da eficiência, provavelmente deve levar apenas dois tiros na cabeça e ser devolvido para o escritório com um bilhete ambíguo.
E havia uma terceira parte dele, agora, que não era nem o Homem Cinzento nem Dean Allen, que não estava pensando nem um pouco em seu irmão. Essa parte — talvez fosse o sr. Cinzento — não conseguia deixar de pensar em tudo que ele estava deixando para trás. Os recantos belos e decadentes da cidadezinha, o sorriso largo e desafiador de Maura, a nova trovoada de seu coração que subitamente funcionava. Essa parte dele sentia falta até do Estraga-Prazeres Champanhe.
Os olhos do Homem Cinzento derivaram até o bilhete ainda preso à direção: “Esse é para você. Do jeito que você gosta: rápido e anônimo”.
Era um planinho tão brilhante, hábil e simples. Tudo que ele teve de fazer foi abrir mão de tudo. E estava funcionando muito bem, mesmo.
Mas então algo aconteceu.
Não havia nada à volta deles, a não ser árvores, a rodovia e a escuridão, mas subitamente as luzes nas máquinas inativas no banco do passageiro explodiram. Nem um piscar de luzes. Nem um indício.
Então ele ouviu um estouro na noite. Os faróis atrás dele baixaram enquanto os carros enfiavam os pés nos freios, seus medidores sem dúvida berrando o mesmo que os dele.
Não, pensou o Homem Cinzento. Um daqueles garotos idiotas havia sonhado lá em Henrietta e estragado tudo.
Mas não era isso.
Porque as leituras estavam sólidas e gritando. Normalmente, a energia tinha um pico no momento da criação do objeto de sonho, e então caía abruptamente. Mas os medidores ainda estavam lá em cima. E seguiram assim, apesar de o Homem Cinzento se dirigir para fora de Henrietta a cento e dez quilômetros por hora.
Atrás do Homem Cinzento, o primeiro carro vacilou. Eles duvidavam da história do Homem Cinzento, talvez. Presumindo, como o Homem Cinzento, que outra pessoa estivesse usando o Greywaren.
Mas, quanto mais as luzes piscavam e os alertas sonoros continuavam, mais óbvio ficava que aquilo não era coisa do Greywaren. Não apenas as leituras eram constantes, como vinham de toda parte. E tinha de ser a linha que Maura havia falado a respeito.
Algo havia acontecido a ela, e agora ela estava viva, jogando essas leituras de energia para o espaço.
O carro atrás dele ainda o seguia, mas lentamente. Eles tinham acesso às mesmas leituras que o Homem Cinzento — e estavam confusos.
Aos poucos, o Homem Cinzento se deu conta de uma coisa. Enquanto a linha ley estivesse criando leituras tão dramáticas, o Greywaren estaria invisível. Um pico de energia não seria notado naquela confusão.
O que significava que Henrietta não precisava se preocupar com mais caçadores vindo atrás do Greywaren. Ninguém podia usar aquelas leituras para apontar a localização exata de coisa alguma, a não ser a linha. Isso significava que, se o Homem Cinzento pudesse se livrar de alguma maneira daquele bando de caçadores de tesouros, havia apenas uma razão para ele fugir de Henrietta. Seu irmão.


Ronan havia criado aquele horror noturno para lutar contra o dragão de Kavinsky, e eles realmente lutaram.
As criaturas ganharam altura céu negro adentro, rosnando uma para a outra. Fogos de artifício passavam por elas, iluminando suas escamas. A multidão, bêbada, chapada, impressionável e desejosa de ver um espetáculo, gritou seu apoio.
No chão, Ronan e Kavinsky recostaram a cabeça, observando o que tinham feito.
As criaturas eram belas e terríveis. Fagulhas caíam delas em cascata à medida que as garras e o fogo se encontravam. Um grito oscilante como um fogo de artifício escapou do horror noturno.
Para cima, para cima, para cima, noite adentro. Os olhos de Ronan dardejaram através da multidão. Gansey e Blue haviam tomado caminhos diferentes, e ele os viu agora escancarando as portas de Mitsubishis, procurando por Matthew. Os carros estavam todos parados enquanto todos olhavam os dragões. Não havia muitos carros.
Gansey e Blue o encontrariam. Tudo ficaria bem.
Mas então o dragão de fogo de Kavinsky se afastou do horror noturno. Ele encolheu os antebraços gasosos e mergulhou. Com um estrondo sibilante, colidiu com um dos holofotes. O impacto não teve efeito sobre o dragão, mas a estrutura veio abaixo. Gritos chocados pontuavam o ar; a estrutura caiu como uma árvore.
O rosto de Kavinsky estava iluminado. Ele ficou de pé num salto enquanto o dragão de fogo se lançava contra mais um dos holofotes. Chamas queimavam e se dissipavam. A lâmpada explodiu.
O horror noturno de Ronan mergulhou do céu, agarrando-se ao dragão de fogo. Por um momento, os dois atingiram o chão, rolando pela terra, e então estavam no ar de novo.
Ninguém estava realmente com medo. Por que eles não estavam com medo?
Era magia, mas ninguém acreditava que era.
A música ainda tocava alto. Os carros ainda estavam rodando. Havia dragões lutando acima deles, e isso era apenas mais uma festa.
O dragão de fogo deu um grito, o mesmo grito horrível de antes. Ele acelerou na direção de onde estavam Ronan e Kavinsky, perto do carro.
— Pare ele — disse Ronan.
Os olhos de Kavinsky ainda estavam grudados no dragão.
— Não tem como parar ele agora, Lynch.
O seu dragão furioso girou, as asas estendidas. Rasgando a pista de corrida de fora a fora, ele arrastou consigo uma extensão de chamas na terra, saltando do teto de um dos Mitsubishis no final. Quando suas garras guincharam no metal, o carro explodiu em chamas. O dragão se lançou ao ar. O movimento virou o carro atrás dele, fácil como um brinquedo.
Matthew?
Do outro lado da pista, Gansey acenou os braços acima da cabeça, balançando-a, chamando a atenção de Ronan. Não naquele.
— Me diz em qual carro está o meu irmão — disse Ronan.
— Num carro branco.
O dragão preparou uma investida. Ele estava se preparando para dar mais um mergulho. Era curioso, realmente, como Ronan conseguia ver claramente seus olhos daquela altura tão grande. Ele tinha olhos terríveis. Não que fossem vazios, mas, ao olhar através de todas as chamas e a fumaça e mais chamas, você podia ver que bem no fundo deles havia realmente apenas mais fumaça e chamas.
Houve um silêncio na multidão.
Naquele silêncio, a risada de Kavinsky era mais alta do que qualquer coisa.
Um único grito partiu da multidão. O tipo de ruído experimental, que tentava decidir se agora, finalmente, o medo era a resposta correta.
Quando o horror noturno de Ronan voou na direção do dragão de fogo, o monstro de Kavinsky encolheu as pernas vaporosas no corpo. Uma nuvem de enxofre saiu de sua boca. Mortal como câncer. Como radiação. Ele tinha dentes, mas eram irrelevantes.
Kavinsky estalou os dedos. Outro fogo de artifício foi lançado, manchando um caminho reluzente entre as duas criaturas. Ele explodiu acima delas como uma flor tóxica.
O horror noturno se lançou contra o dragão de fogo. Os dois bateram no chão, rolando na direção da multidão. Agora havia gritos enquanto as pessoas saltavam para fora do caminho. As duas criaturas escalaram com suas garras sobre outro Mitsubishi. Para o ar. De volta ao chão.
— Ronan!
A voz de Blue chegou até ele, aguda e fina. Ela havia olhado em outro Mitsubishi — nada ainda de Matthew. A multidão ainda estava se dispersando — em algum lugar, uma sirene uivou. Havia tanto fogo. Era como se o dragão de Kavinsky estivesse lentamente refazendo o mundo em sua própria imagem. A maioria dos holofotes havia sido apagada, mas a pista de corrida estava mais iluminada do que antes. Cada carro uma lanterna.
O dragão de fogo se lançou na direção de Gansey e Blue.
Ronan não precisou gritar para o seu horror noturno. Ele sabia o que Ronan queria. Ele queria exatamente o que Ronan queria.
Salve-os.
O horror noturno se emaranhou nas asas do dragão de fogo. As duas criaturas passaram voando bem próximas de Gansey e Blue.
Gansey gritou:
— Faça alguma coisa!
Ronan podia matar Kavinsky. Se ele parasse Kavinsky, o dragão pararia. Mas uma coisa era saber essa solução. Outra, muito diferente, era olhar para Kavinsky, os braços estendidos sobre a cabeça, o fogo nos olhos, e pensar: Eu poderia matá-lo.
E, mais importante, não era verdade.
Ronan não poderia matá-lo.
— Tudo bem — ele rosnou, agarrando o braço de Kavinsky —, estamos quites. Onde está o meu irmão? Chega. Onde ele está?
Kavinsky gesticulou com a mão livre na direção do Mitsubishi ao lado deles.
— Ele é todo seu! Você não entendeu o que eu queria demonstrar, cara. Tudo que eu queria era isso...
Ele gesticulou para o dragão e para o horror noturno rolando no chão.
Soltando-o, Ronan chegou com dificuldade até o carro. Ele abriu a porta de trás. Estava vazia.
— Ele não está aqui!
— Bum! — gritou Kavinsky. Outro carro tinha ido para os ares. As chamas eram gloriosas e barulhentas, subindo do carro como nuvens de tempestade. Quando Ronan bateu a porta, Kavinsky subiu no capô do Mitsubishi. Ele tremia em êxtase. Levando uma mão ao peito côncavo, ele pegou os óculos escuros brancos do bolso de trás com a outra. Ele os colocou, escondendo os olhos. As lentes espelhavam a fornalha à volta deles.
Do lado oposto da faixa, o dragão de fogo lançou seu grito terrível novamente. Ele se desvencilhou do horror noturno.
A criatura se virou diretamente na direção deles.
E, subitamente, Ronan viu a cena. Ele viu como cada carro queimava, com exceção daquele. Como o dragão havia destruído cada um dos objetos de sonho de Kavinsky ali na pista. Como agora ele se lançava sobre eles, um frenesi de destruição. O horror noturno voou atrás dele, menos gracioso, uma poeira de cinzas jogada em um vento nuclear.
Ele ouviu batidas surdas. Mal dava para ouvi-las sobre o caos.
Matthew estava no porta-malas.
Ronan deu a volta no carro como um raio — não, não, isso não estava certo, ele precisava abrir o porta-malas do lado de dentro do carro. Ele dardejou um olhar para o dragão, que voava diretamente para eles, de maneira intencional e maldosa.
Tateando a porta do motorista, ele deu o comando para abrir o porta-malas. Enquanto corria para dar a volta no carro, Ronan viu Matthew chutar o porta-malas e o abrir até o fim. Rolando para fora, seu irmão mais novo tropeçou como se estivesse bêbado, a mão apoiada no carro para se equilibrar.
Ronan podia sentir o cheiro do dragão de fogo, todo carbono e enxofre.
Ele mergulhou na direção do irmão, o arrastou para longe do carro e gritou para Kavinsky:
— Abaixe!
Mas Kavinsky não desviou o olhar das duas criaturas. Ele disse:
— O mundo é um pesadelo.
O horror abriu caminho com suas garras para dentro de Ronan. Era precisamente o sentimento que ele tivera quando percebera que Kavinsky ia explodir o Mitsubishi na festa de embalo.
A poeira subiu em um redemoinho das asas do dragão.
Furioso, Ronan gritou:
— Abaixe, seu canalha!
Kavinsky não respondeu.
Houve aquele uff que ele ouviu no sonho, aquela batida de asas no ar. Como uma explosão tomando todo o oxigênio de um aposento.
Ronan cobriu Matthew com os braços e baixou a cabeça dele.
Um segundo mais tarde, o dragão de fogo explodiu em Kavinsky. Passou direto por ele, em torno dele, chamas em torno de um objeto. Kavinsky caiu. Não como se tivesse sido atingido, no entanto. Do mesmo jeito que acontecera quando ele tomara a pílula verde. Ele desabou sobre os joelhos e caiu desajeitadamente ao lado do carro.
A poucos metros dali, o dragão de fogo tombou na terra, imóvel.
Non mortem, somni fratrem.
Do outro lado da pista, um dos Mitsubishis, ainda em chamas, bateu ruidosamente em um prédio. Ronan não precisava ver o motorista para saber que era Prokopenko.
Apagado.
O que significava que Kavinsky estava morto.
Mas ele estivera morrendo desde que Ronan o conhecera. Ambos haviam estado.
A morte é um efeito colateral chato.
Os óculos escuros brancos estavam caídos na poeira ao lado do dedo do pé de Ronan.
Ele não os pegou. Apenas segurou Matthew firme sem querer deixá-lo ir ainda.
Seu cérebro continuava a repassar a imagem de Matthew saindo do porta-malas, o fogo atingindo o carro, Kavinsky caindo...
Ele tivera tantos pesadelos de algo acontecendo com o irmão.
Acima deles, o horror noturno albino batia as asas. Matthew e Ronan o encararam.
Tck-tck-tck-tck.
Ambos os bicos chilreavam. Era uma coisa pavorosa, aquele horror noturno, impossível de compreender, mas Ronan estava cansado de ter medo. Não sobrara mais nenhum.
Com um estremecimento, Matthew pressionou o rosto no ombro do irmão, confiante como uma criança. Ele sussurrou, a voz embaralhada:
— O que é isso?
O horror noturno mal se controlou enquanto observava seu criador. Ele levantou voo batendo as asas, girando duas ou três vezes enquanto o fazia. Ele seguiria noite adentro — para onde, era impossível dizer.
— Está tudo bem — disse Ronan.
Matthew acreditou nele; por que não deveria? Ronan jamais mentia. Ele ergueu o olhar sobre a cabeça de Matthew enquanto Gansey e Blue iam na direção deles.
Sirenes uivavam próximas; luzes azuis e vermelhas giravam pela poeira como luzes em um clube.
De uma hora para a outra, Ronan se sentia insuportavelmente contente de ver Gansey e Blue se juntarem a ele. Por alguma razão, embora tivesse chegado com eles, ele tinha a sensação de que estivera sozinho por um longo tempo, e agora não estava mais.
— Aquela coisa. É um dos segredos do papai? — sussurrou Matthew.
— Você vai saber — respondeu Ronan. — Porque eu vou lhe contar todos eles.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!