26 de junho de 2018

Capítulo 61

Ronan se lançou para dentro do sonho. Quando pousou, cotovelos sangrando arranhados no chão de terra, Kavinsky já estava lá, afundado nas urzes, cobrindo o rosto.
As árvores que Ronan conhecia tão bem o estavam atacando, garras de galhos. Algo a respeito de Kavinsky tinha a cor errada, ou outra coisa, em comparação à mata à sua volta. Era como se o sonho o pintasse um usurpador.
— Acho que o nosso lugar secreto é o mesmo — disse Kavinsky. E abriu um largo sorriso. Seu rosto estava estriado, com arranhões finos de espinhos.
— Você não parece um grande ladrão hoje — disse Ronan.
— Algumas noites — disse Kavinsky, todo dentes — você simplesmente pega o que quer. Essa coisa de consentimento é exagerada.
Os galhos sacudiram sobre os dois. Raios ribombaram e caíram, próximos e reais, reais, reais.
— Você não precisa fazer isso — disse Ronan.
— Não tem alternativa, cara.
— Tem a realidade.
Kavinsky riu da palavra.
— Realidade! A realidade é o que as pessoas sonham para você.
— A realidade é onde as pessoas estão — respondeu Ronan, estendendo os braços. — O que tem aqui, K? Nada! Ninguém!
— Só a gente.
Havia uma compreensão pesada naquela declaração, amplificada pelo sonho. Eu sei o que você é, Kavinsky dissera.
— Isso não basta — respondeu Ronan.
— Não diga Dick Gansey, cara. Não diga. Ele nunca vai ficar com você. E não me diz que você não corta pra esse lado, cara. Eu estou na sua cabeça.
— Não é isso que o Gansey significa pra mim — disse Ronan.
— Você não disse que não corta pra esse lado.
Ronan ficou em silêncio. Um trovão ribombou sob seus pés.
— Não, eu não disse.
— Isso piora as coisas, cara. Você é realmente só o cachorrinho de estimação dele.
Não havia uma única parte de Ronan que estivesse incomodada com essa declaração.
Quando ele pensava em Gansey, pensava na mudança para a Indústria Monmouth, nas noites insones fazendo companhia um ao outro, num verão à procura de um rei, em Gansey pedindo ao Homem Cinzento que poupasse a vida dele. Irmãos.
— A vida não é apenas sexo, drogas e carros — disse Ronan.
Kavinsky se pôs de pé. Os espinhos chicotearam suas pernas, afundando em sua calça cargo. Ele encarou Ronan com as pálpebras pesadas, e Ronan pensou em todas as vezes em que olhara através de seu BMW e vira Kavinsky olhando de volta. A emoção ilícita daquilo. A certeza de que Kavinsky não deixava que ninguém lhe dissesse quem ele era.
— A minha é — disse Kavinsky.
Ele olhou para a mata. Então levantou a mão e estalou os dedos, como havia feito para chamar o primeiro fogo de artifício.
A floresta gritou.
Ou o que quer que Kavinsky tivesse manifestado gritou. O som rasgou Ronan até a espinha. Houve um ruído como se alguém batesse palma ao lado de seu ouvido. Uma batida de ar. O que quer que estivesse vindo era enorme.
As árvores tremeluziram e choraram, curvaram-se e piscaram. A já combalida linha ley se esvaiu e escureceu. Não sobrara nada. Kavinsky estava consumindo tudo para criar sua besta de sonhos.
— Você não precisa fazer isso — disse Ronan de novo.
Era uma bola de fogo. Uma explosão em fuga. Um dragão e uma fogueira e um inferno e dentes. A destruição do Mitsubishi transformada numa criatura viva.
Quando a criatura surgiu, abriu a bocarra e gritou para Ronan. Não era um ruído que ele tivesse ouvido antes. Era como o sibilar rugido do fogo apagado com água. Faíscas choveram sobre os ombros de Ronan.
Ele podia sentir como a coisa o odiava. Como odiava Kavinsky, também. Como odiava o mundo.
E estava absolutamente faminta.
Kavinsky olhou para Ronan, seus olhos mortos.
— Tente aguentar, Lynch.
Então tanto ele quanto o dragão desapareceram.
Ele havia acordado e o levado consigo.


Depressa.
Se Adam e Persephone já não tivessem estado no ponto de escape de energia final, não o teriam encontrado. Porque ao pararem ali no escuro, olhando para o lago grande e liso feito pelo homem, a linha ley morreu dentro de Adam.
Kavinsky, pensou Adam imediatamente. Ele sabia, do mesmo jeito que um corpo largado sabia que estava caindo. Tanto intelectual quanto fisicamente. Da mesma maneira que estivera tão certo, anteriormente, de que Ronan era a razão para a sua urgência.
E lá estava ela.
Ronan precisava da linha ley. Ele precisava dela agora. Não havia mais tempo.
Mas a linha ley estava morta e Cabeswater não tinha voz dentro de Adam. Tudo que ele tinha era aquele espelho negro liso de um lago e um carro cheio de pedras e uma bolsa cheia de cartas que não significavam mais nada para ele.
— O que vamos fazer? — ele perguntou a Persephone. Fogos de artifício gemiam ao longe, tão ameaçadores quanto bombas.
— Bem, eu não sei.
Ele lançou uma mão na direção das cartas.
— Você é médium! Não pode olhar nas cartas? Elas não querem dizer nada para mim sem a linha ley!
Trovões ribombaram no céu; raios dardejaram de uma nuvem para outra. A linha ley não chegou nem a vibrar debaixo de Adam. Kavinsky tinha acabado de sonhar algo enorme, e Ronan não tinha nada com que trabalhar.
Persephone disse:
— Você é o Mago ou não é?
— Não sou! — respondeu Adam imediatamente. Não havia nada dentro dele. A linha estava morta, da mesma maneira que tudo que era outro dentro dele. — Cabeswater me deixa assim.
Os olhos de Persephone espelhavam a água imóvel ao lado deles.
— O seu poder, Adam, não diz respeito a outras pessoas. Não diz respeito a outras coisas.
Adam nunca fora poderoso na vida.
— Ser o Mago não tem a ver com ser poderoso quando você tem coisas e inútil quando não tem — disse Persephone. — O Mago vê o que tem por aí e encontra conexões. Ele pode tornar qualquer coisa mágica.
Ele torceu fervorosamente para que a linha crepitasse para a vida debaixo dele. Se ele pudesse pegar nem que fosse um rabicho dela, poderia reunir pistas para saber como consertar essa última parte. Mas não havia nada na linha ley. Nada.
— Agora — disse Persephone, e sua voz soava bem pequena e suave. — Você é o Mago? Ou não é?
Adam fechou os olhos.
Conexões.
Sua mente voou até as pedras, o lago, as nuvens de tempestade. Raios.
Ele se lembrou, bizarramente, do Camaro. Precisando da bateria apenas para levá-los até em casa.
In indiget homo bateria.
Sim.
Ele abriu os olhos.
— Eu preciso da pedra do carro — ele disse. — Aquela do jardim.
Depressa.


— Adam? — demandou Ronan. — É realmente você?
Porque, subitamente, a paisagem havia mudado. As árvores haviam se movido e tremiam ao lado, e agora havia aquele lago feio feito pelo homem que eles tinham descoberto com Gansey. Adam se agachou ao lado da margem, dispondo as pedras em um padrão complicado. Era o Adam de verdade? Ou era o Adam dos sonhos?
Esse Adam ergueu o olhar bruscamente. Era ele mesmo, e era algo mais.
— Lynch. O que foi que o Kavinsky sonhou?
— Um maldito dragão — disse Ronan. Ele devia acordar. Ele não tinha a menor chance caído no chão lá na festa.
Adam olhou atrás dele e gesticulou freneticamente para alguém.
— O que você está sonhando para derrubá-lo?
Ronan testou o sonho, cuidadosamente. Parecia estendido, fino como um fio de caramelo. Ele não seria capaz de tirar nada dele.
— Nada. Não tem nada aqui.
Persephone correu até Adam, com uma pedra grande e lisa nos braços.
— O que você está fazendo? — perguntou Ronan.
— Consertando a linha — disse Adam. — Comece a fazer alguma coisa. Vou tentar restabelecê-la antes de você terminar.
Ronan ouviu um grito distante. Era de fora de seu sonho. O sono entrava em colapso à sua volta.
— Depressa — aconselhou Persephone.
Adam ergueu o olhar para Ronan.
— Eu sei que foi você — ele disse. — Eu juntei as peças. O aluguel.
Ele sustentou o olhar de Ronan apenas por mais um momento, até que algo dentro de Ronan se soltou e ele quase disse algo. E então Adam deu um salto, pegou a pedra de Persephone e correu para o lado oposto da margem.
— Agora — disse Persephone.
Ronan se virou para as árvores fraquejantes.
— Cabeswater — ele disse —, eu preciso da sua ajuda. Você precisa da minha ajuda.
Ave de rapina, sibilaram as árvores.
Saqueador.
Não havia tempo para isso.
— Não estou aqui para roubar! Você quer se salvar?
Nada.
Maldito Kavinsky.
Ronan gritou:
— Eu não sou ele, tá bom? Não sou como ele. Droga, vocês me conhecem. Não conheceram sempre? Não conheciam meu pai? Nós dois somos Greywarens.
Lá estava a Garota Órfã, finalmente. Sim. Ela espiou por detrás de um dos troncos. Se ela pudesse ajudá-lo, ele poderia trazer algo para fora, qualquer coisa. Ele estendeu a mão para ela, mas ela balançou a cabeça.
— Vos estis unum tantum.
(Você é o único.)
Em inglês, ela acrescentou:
— Muitos ladrões. Um Greywaren.
À maneira de um sonho, o conhecimento o invadiu. Muitos conseguiam tornar seus sonhos reais, mas poucos conseguiam falar com o sonho. Ele estava destinado a ser o braço direito de Cabeswater. Ele não sabia?, perguntou Cabeswater — mas não com palavras. Ele não soubera disso sempre?
— Escute, sinto muito — ele disse. — Eu não sabia. Eu não sabia de nada. Tive que descobrir tudo sozinho, e levei um tempo terrivelmente longo, tá bom? Por favor. Não vou conseguir sem você.
Em suas mãos, subitamente, estava a caixa quebra-cabeça. Não parecia um sonho.
Ela parecia pesada, fria e real. Ele virou os botões e as rodas até que se pôde ler por favor do lado inglês. Depois a virou para o lado com a língua misteriosa. Aquela, ele sabia agora, não era uma língua dos homens. Era uma língua das árvores. Ele leu:
— T’implora?
O efeito foi instantâneo. Ele pôde ouvir as folhas se movendo e deslocando em um vento que ele não sentia, e apenas agora ele percebia quantas árvores haviam permanecido caladas antes. Murmurando, sussurrando e sibilando em três línguas diferentes, todas elas concordaram: elas o ajudariam.
Ele fechou os olhos, aliviado.
Ficaria tudo bem. Elas lhe dariam uma arma, e ele despertaria e destruiria aquele dragão do Kavinsky antes que qualquer outra coisa acontecesse.
Na escuridão de suas pálpebras fechadas, ele ouviu: tck-tck-tck-tck.
Não, pensou Ronan. Não os horrores noturnos.
Mas havia o estrépito de suas garras. O tagarelar de seu bico.
De sonho para pesadelo, simples assim.
Não havia medo de verdade, apenas apreensão. Expectativa. Levara tanto tempo para matá-lo em um sonho.
— Isso não vai ajudar — ele disse às árvores. Ele se ajoelhou, enfiando os dedos na terra solta. Embora Ronan soubesse que não podia se salvar, ele jamais parecia capaz de se convencer a parar de lutar. — Isso não vai salvar ninguém.
As árvores sussurraram:
— Quemadmodum gladius neminem occidit; occidentis telum est.
(Uma espada nunca mata ninguém; ela é uma ferramenta na mão do assassino.)
Mas os horrores noturnos não eram uma arma que Ronan podia brandir.
— Eu não posso controlá-los! — ele gritou. — Eles só querem me machucar!
Um horror noturno apareceu. Surgiu repentinamente sobre as árvores, bloqueando o céu. Era diferente de qualquer coisa que Ronan tivesse sonhado antes. Três vezes o tamanho dos outros. Cheirando fortemente a amônia. Glacialmente branco. As garras eram amareladas e translúcidas, escurecendo até as pontas vermelhas. Veias róseas sobressaíam nas asas esfarrapadas. Os olhos albinos vermelhos eram minúsculos e furiosos na cabeça enrugada. E, em vez de um bico feroz, havia dois, lado a lado, gritando em uníssono.
No outro extremo do lago, Adam levantou as mãos, apontando para o céu. Ele era uma versão alienígena de si mesmo. Uma versão em sonho de si mesmo.
Um raio atingiu a pedra ao lado dele.
Como um coração, a linha ley retornou à vida em meio a tremores e espasmos.
Cabeswater estava viva.
— Agora! — gritou Adam. — Ronan, agora!
O horror noturno sibilou um grito.
— É só você — sussurrou a Garota Órfã. Ela estava segurando a mão dele, agachada ao seu lado. — Por que você se odeia?
Ronan pensou a respeito.
O horror noturno albino se aproximou, as garras se abrindo.
Ronan se pôs de pé, estendendo o braço, como fazia com Motosserra.
— Eu não me odeio — ele disse.
E acordou.

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