26 de junho de 2018

Capítulo 60

Gansey chegou como um raio na Rua Fox, 300, bem antes da tempestade. Ele não bateu. Simplesmente surgiu do nada enquanto Blue desamarrava os tênis, voltando do bico que fazia como passeadora de cães.
— Jane? — ele chamou. O estômago dela se revirou. — Blue!
E assim Blue sabia que algo estava realmente errado.
Ronan surgiu como um foguete atrás dele, e, se ela não tivesse percebido por intermédio de Gansey, teria percebido por intermédio de Ronan. Ele tinha os olhos arregalados como um animal numa armadilha. Quando parou, Ronan pousou a mão no batente da porta e correu os dedos nele.
— O que aconteceu? — ela perguntou.
Eles lhe contaram.
Imediatamente, ela os acompanhou até o desfile do Quatro de Julho, onde eles procuraram sem sucesso por Maura ou Calla. Passaram de carro pela casa de Kavinsky e a encontraram vazia. Então, com o cair da tarde, Blue os levou até a pista de corrida de Henrietta — o local da festa anual de Quatro de Julho de Kavinsky. Parecia impossível que nem Gansey nem Ronan jamais tivessem participado dela. Impossível que Blue, aluna da velha e ordinária Escola Mountain View, tivesse uma informação a respeito de Kavinsky que eles não tinham. Mas talvez essa parte de Joseph Kavinsky não fosse nem um pouco Aglionby.
A festa de Quatro de Julho de Kavinsky era infame.
Dois anos antes, ele supostamente levara um tanque de verdade para o encerramento com fogos de artifício. Estamos falando de um tanque verde-oliva em tamanho natural com caracteres russos pintados nas laterais. Era um rumor, é claro, e seguiu sendo um rumor, porque o fim da história foi que ele explodiu o tanque. Blue conhecia um aluno do terceiro ano que alegava ter um pedaço de metal que caíra dele.
Três anos antes, um aluno do segundo ano de uma escola a três condados dali havia sofrido uma overdose de algo que o hospital nunca tinha visto antes. Não foi a overdose que impressionou as pessoas, no entanto. Foi que o Kavinsky de quinze anos já era capaz de atrair garotos que moravam a quarenta e cinco minutos dali. Estatisticamente, você provavelmente não morreria na festa de Kavinsky.
Todos os anos, havia dúzias de carros esperando para ser fustigados na pista de corrida. Ninguém sabia quem os fornecia ou para onde eram levados depois. Não importava se você tinha carteira de motorista. Tudo que você precisava saber era pisar em um acelerador.
No ano passado, Kavinsky supostamente lançara um fogo de artifício tão alto no ar que a CIA fora até a casa dele para interrogá-lo. Blue achava essa história um tanto suspeita. Certamente teria sido o Departamento de Segurança Interna, não a CIA.
Este ano, duas ambulâncias e quatro policiais estacionaram a meio quilômetro da pista de corrida. Próximos o suficiente para estarem lá a tempo. Não próximos o suficiente para assistirem às disputas.
Kavinsky era intocável.
A pista de corrida — um campo longo e empoeirado aberto nas colinas que a cercavam — já estava cheia quando eles chegaram. Churrasqueiras enchiam o ar com cheiro de carvão e de salsichas esquecidas. Não havia sinal de álcool. Tampouco dos carros infames que supostamente encheriam a pista mais tarde.
Havia um velho Mustang e um Pontiac se enfrentando, lançando borracha e poeira para cima enquanto os espectadores os estimulavam, mas as disputas pareciam demasiadamente tranquilas e de brincadeira. Havia adultos ali, e garotos menores. Ronan encarou uma garota que segurava um balão como se ela fosse uma criatura desconcertante. Aquilo não era realmente o que eles esperavam.
Gansey estava parado na terra, olhando ao redor, em dúvida.
— Você tem certeza que isso é do Kavinsky?
— É cedo — disse Blue. Ela mesma olhou ao redor. Estava dividida entre querer ser reconhecida por alguém da escola e não querer ser vista andando por aí com garotos da Aglionby.
— Ele não pode estar aqui — disse Ronan. — Você deve estar errada.
— Eu não sei se ele está ainda — disparou Blue —, mas este é o lugar. Este é sempre o lugar.
Ronan olhou feio para um dos alto-falantes. Estava tocando algo que Blue achava que se chamava yacht rock. Ele estava mais tenso pelo momento. As pessoas arrastavam seus filhos pequenos para longe de seu caminho.
— A Jane diz que este é o lugar — insistiu Gansey. — Então este é o lugar. Vamos fazer um estudo.
Eles fizeram um estudo. Enquanto as sombras da tarde se alongavam, eles abriam caminho pela multidão e perguntavam por Kavinsky, sem deixar de olhar atrás dos prédios na extremidade da pista. Eles não o encontraram, mas, quando a tarde evoluiu para a noite, o caráter da festa subitamente mudou. Os garotos mais novos foram os primeiros a desaparecer. Então os adultos começaram a ir, substituídos por alunos do terceiro ano ou caras da faculdade. Copos de plástico vermelhos começaram a aparecer.
yacht rock ficou mais sombrio, profundo, sujo.
O Mustang e o Pontiac desapareceram. Uma garota ofereceu uma pílula a Blue.
— Eu tenho mais — ela disse.
Os nervos, súbitos e crestantes, queimavam ao longo da pele de Blue. Ela balançou a cabeça.
— Não, obrigada.
Quando a garota ofereceu a Gansey, ele apenas a encarou por um minuto a mais, sem perceber que estava sendo rude até ser tarde demais. Aquilo estava tão distante do cenário de Richard Gansey que ele não sabia o que dizer.
E então Ronan deu um peteleco na pílula na mão da garota e a substância voou longe. Ela cuspiu no rosto dele e caiu fora.
Ronan se virou em um círculo lento.
— Cadê você, seu canalha?
Os holofotes se acenderam.
A multidão rugiu.
De cima, os alto-falantes cuspiam em espanhol. O baixo rimbombava através das botas de Blue. Trovões de verdade resmungavam no céu. Os motores subiram a rotação lá em cima, e a multidão recuou para deixar os carros passarem. Todas as mãos estavam para cima, saltando, dançando, celebrando. Alguém gritou:
— Deus abençoe a América!
Dez Mitsubishis brancos entraram na pista de corrida. Eram idênticos: grades negras escancaradas, o desenho de uma faca rasgada entalhado nas laterais, aerofólios gigantes. Mas um deles arrancou na pista à frente dos outros, então deu um cavalo de pau para deslizar, levantando uma nuvem enorme de poeira. Ele ficou escondido na nuvem, e não se via nada a não ser os faróis atravessando o pó fino.
— É ele — disse Ronan, empurrando os adolescentes à sua frente para abrir caminho.
— Lynch — disse Gansey. — Ronan! Espera!
Mas ele já estava a vários metros de distância, caminhando direto para o carro solitário. O pó havia baixado e Kavinsky era visível, de pé sobre o capô.
— Vamos queimar alguma coisa! — gritou Kavinsky. E estalou os dedos, apontando.
Houve um silvo e um gemido, e subitamente o primeiro fogo de artifício da noite subiu em espiral na direção do céu azul e caótico bem acima dos holofotes. Ele riu, alto e fora de si.
— Fodam-se todos vocês! — Ele disse algo mais, que se perdeu na música ascendente. O baixo abafou as palavras.
— Não estou gostando disso — gritou Gansey no ouvido de Blue.
Mas não tinha outro jeito.
Eles alcançaram Ronan bem quando ele chegou em Kavinsky, que agora estava parado ao lado da porta aberta do carro. Qualquer que tenha sido o diálogo inicial, foi desagradável.
— Ah, olha só — desdenhou Kavinsky, os olhos encontrando Blue e Gansey. — É o papai. Dick, que parceira estranhamente hétero você tem aqui hoje. O Lynch anda tendo problemas de desempenho?
Ronan pegou Kavinsky pela garganta e, dessa vez, Blue não achou desagradável.
Outro fogo de artifício gritou noite adentro. Raios o cruzaram em arco.
— Onde ele está? — rosnou Ronan. Mal eram palavras.
Kavinsky parecia ligeiramente despreocupado. Ele gesticulou na direção do carro atrás dele, e então na direção de outro, e de outro. Com um tom um pouco estrangulado, disse:
— Naquele carro. Ou naquele. Ou naquele. Ou naquele. Você sabe como são essas coisas. São todos parecidos.
Ele acertou Ronan no estômago. Com a respiração entrecortada, Ronan o soltou.
— Eis a questão, Lynch — disse Kavinsky. — Quando eu disse comigo ou contra mim, não achei que você fosse escolher contra mim.
Blue deu um salto para frente enquanto um dos Mitsubishis passava voando atrás dela, o motor rugindo alto, a fumaça revoando. Ela já estava pensando o que eles teriam de fazer para revistar todos eles. Para manter um registro dos carros que eles já haviam parado e conferido. Eram todos idênticos, com a mesma placa da Virgínia: LADRÃO.
— Mas, de certa maneira — acrescentou Kavinsky —, é melhor assim. Você sabe como eu gosto de ver as coisas explodirem.
— Eu quero meu irmão — disse Ronan.
— Primeiro — disse Kavinsky, abrindo a palma e revelando uma pílula verde — salve a sua vida. Já volto, querida.
Então jogou a pílula na língua.
Ele caiu de joelhos em um segundo, curvado contra o carro. Blue e Gansey apenas encararam a forma dobrada de Kavinsky, sem compreender o que se passava. Suas veias eram estradas elevadas nos braços, o pulso na mandíbula seguia a cadência do baixo.
— Merda — disse Ronan, mergulhando no carro, escancarando o console central e revirando o conteúdo. Ele encontrou o que estava procurando: outra pílula verde. — Merda, merda.
— O que está acontecendo? — demandou Blue.
— Ele está sonhando — disse Ronan. — Vai saber o que ele vai pegar. Nada de bom. Merda, Kavinsky!
— A gente pode pará-lo? — perguntou Gansey.
— Só se você matar o cara — respondeu Ronan, enfiando a pílula na boca. — Peguem o Matthew e caiam fora daqui.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!