3 de junho de 2018

Capítulo 6

Labaredas nos atacam
Eu amo o deserto
Mas vou torrar nesse sol

MESMO DEPOIS DE quatro mil anos, eu ainda tinha muitas lições de vida a aprender. Por exemplo: nunca faça compras com um sátiro.
Encontrar a loja a que Hedge fora demorou uma eternidade, porque Grover toda hora se distraía. Ele parou para conversar com uma mandioca, deu instruções para uma família de esquilos e farejou fumaça, o que nos levou em uma busca deserto adentro atrás de uma bituca de cigarro que tinha sido descartada na estrada.
— É assim que começam os incêndios — explicou, comendo a bituca (um descarte responsável). Eu não via nada que pudesse pegar fogo num raio de um quilômetro e meio, e tinha certeza quase absoluta de que pedras e terra não eram inflamáveis, mas não ia discutir com gente que come cigarro.
Continuamos a busca pela loja de equipamento militar. A noite caiu. O horizonte cintilava, mas não com a luz laranja habitual da poluição dos mortais, e sim com o vermelho ameaçador de um inferno distante. Fumaça bloqueava as estrelas, e a temperatura não baixou muito. O ar ainda tinha um cheiro amargo e errado.
Eu me lembrei de quando quase fomos incinerados por aquela labareda, ainda no Labirinto. Era um calor que parecia ter vontade própria, como uma malevolência ressentida. Dava para imaginar essas ondas de fogo se espalhando sob a superfície, tomando o Labirinto e transformando o terreno mortal acima em um deserto ainda mais inabitável.
Lembrei-me do sonho com a mulher presa por correntes incandescentes em uma plataforma sobre um lago de lava. Apesar das memórias confusas, eu tinha certeza de que a mulher era Sibila Eritreia, o próximo oráculo que precisávamos libertar dos imperadores. Algo me dizia que ela estava aprisionada bem no centro de… do que quer que estivesse gerando aqueles fogos subterrâneos. Eu não gostava da ideia de procurá-la.
— Grover, lá na estufa você falou alguma coisa sobre grupos de busca.
Ele me encarou e engoliu em seco com uma careta de sofrimento, como se a guimba de cigarro ainda estivesse presa na garganta.
— Já faz meses que os sátiros e dríades mais bem-dispostos e resistentes começaram a percorrer a região. — Seus olhos estavam fixos na estrada. — Não temos muitas equipes de busca. Com o calor e os incêndios, os cactos são os únicos espíritos da natureza que ainda conseguem se manifestar. Foram poucos os que voltaram com vida, pelo menos até agora. Nós não... não sabemos muito dos outros.
— E estão procurando o quê, afinal? A fonte dos incêndios? O imperador? O oráculo?
Os sapatos adaptados para cobrir os cascos de Grover deslizaram, escorregando no acostamento de cascalho.
— Está tudo interligado; tem que estar. Só fiquei sabendo do oráculo porque você me contou. Mas, se o imperador quer tanto escondê-lo, deve ser no Labirinto. E o Labirinto é a fonte dos nossos problemas com o fogo.
— Esse labirinto que você está falando é O Labirinto?
— Mais ou menos. — O lábio inferior de Grover tremia. — A rede de túneis sob o sul da Califórnia… A gente acha que ela faz parte do Labirinto, mas tem alguma coisa acontecendo com esta área em especial. É como se este pedaço do Labirinto estivesse… infectado. Como se estivesse com febre. Os fogos estão se juntando, se fortalecendo. E, às vezes, eles se juntam e cospem… Ali!
Ele apontou para o sul. Uns quatrocentos metros acima, na colina mais próxima, uma enorme labareda amarela se projetou para o céu; parecia a ponta ardente de um maçarico. O fogo sumiu de repente, deixando um rastro de rocha derretida. Considerei o que teria acontecido se eu estivesse bem ali quando o fogo jorrou do buraco.
— Isso não é normal — comentei, sentindo os tornozelos meio bambos, como se fosse eu quem tivesse pés falsos.
Grover assentiu.
— Já tínhamos problemas suficientes na Califórnia: secas, mudanças climáticas, poluição, o de sempre. Mas essas chamas… — Ele ficou sério. — É alguma magia que não entendemos. Passei quase um ano inteiro andando pela região, tentando encontrar a fonte de calor e acabar com ela. Perdi tantos amigos...
A voz dele falhou. Eu entendia bem a sensação. Ao longo dos séculos, perdi muitos mortais queridos para mim, mas me lembrei de um em particular naquele momento: o grifo Heloísa, que morreu na Estação Intermediária tentando defender o ninho e nos proteger do ataque do imperador Cômodo. Ainda via seu corpo frágil, as penas se desintegrando naquele canteiro de erva-de-gato, no jardim do telhado de Emmie…
Grover se ajoelhou e pegou um punhado de mato. As folhas quebraram e se desfizeram.
— É tarde demais — murmurou. — Quando eu estava procurando por Pã, pelo menos tinha alguma esperança. Achava que podia encontrar meu deus, e que ele salvaria a todos nós. Mas agora… Bem, o deus da natureza está morto.
Fiquei olhando as luzes cintilantes de Palm Springs, tentando imaginar Pã em um lugar como aquele. Os humanos tinham mudado demais o mundo natural; não era de se surpreender que Pã tivesse minguado e enfraquecido até desaparecer de vez. Tinha deixado o que restava de seu espírito para seus seguidores, os sátiros e as dríades, confiando a eles sua missão de proteger a natureza.
Eu podia ter dito a Pã que isso era uma péssima ideia. Uma vez, saí de férias e confiei o reino da música a um seguidor meu, Kenny G. Quando voltei, um tempo depois, a música pop tinha sido infectada por saxofones melosos e mullets, e o Simple Red dominava o horário nobre da televisão. Nunca mais faço isso.
— Pã ficaria orgulhoso em ver seu empenho — falei, mas nem eu botei muita fé naquilo.
Grover se levantou.
— Meu pai e meu tio se sacrificaram na busca por Pã. Eu só queria um pouco mais de ajuda para fazer o trabalho dele. Os humanos parecem não se importar, nem mesmo os semideuses. Nem mesmo…
Ele deixou a frase no ar, mas desconfiei que estava prestes a dizer “Nem mesmo os deuses” E eu tinha que admitir que ele estava certo.
Os deuses não costumam sentir a dor da perda de um grifo, de algumas dríades ou mesmo de um ecossistema inteiro. Ah, eu não tenho nada a ver com isso, pensaríamos.
Mas, quanto mais tempo eu passava naquele corpo mortal, mais me abalava com até mesmo a menor das perdas.
Eu odiava aquela vida de mortal.
Seguimos pela estrada que contornava o muro de um condomínio, avançando até os letreiros de néon das lojas mais ao longe. Eu tomava cuidado onde pisava, dando cada passo com medo de que uma labareda de fogo pudesse me transformar em churrasco grego.
— Você disse que tudo está conectado — lembrei. — Acha que foi o terceiro imperador que criou esse labirinto de fogo?
Grover olhou em volta, como se o terceiro imperador pudesse pular de trás de uma palmeira com um machado e uma máscara assustadora. Considerando minhas suspeitas sobre a identidade dele, isso talvez não fosse exagero.
— Acho. Mas não sabemos como nem por quê, não sabemos nem mesmo onde ele está. Até onde eu sei, esse imperador muda de base constantemente.
— E… — Engoli em seco, com medo de perguntar. — E a identidade dele?
— Só sabemos que ele usa o título de NH. De Neos Helios.
Senti como se um esquilo fantasma subisse pelas minhas costas, mordiscando minha coluna.
— É grego. Quer dizer Novo Sol.
— Isso mesmo. Não é um nome de imperador romano.
Não, pensei. Mas era um dos títulos favoritos dele.
Decidi não compartilhar essa informação. Não ali, no escuro, só com um sátiro medroso como companhia. Se eu confessasse o que sabia naquele momento, havia grandes chances de Grover e eu abrirmos o berreiro, chorando nos braços um do outro — o que não ajudaria em nada, além de ser muito constrangedor.
Passamos na frente do portão do condomínio PALMEIRAS DO DESERTO (sério que alguém foi pago para criar esse nome?) e seguimos até as lojas mais próximas, lanchonetes e postos de gasolina cintilando ao sol.
— Eu estava torcendo para que Mellie e Gleeson conseguissem mais informações — comentou Grover. — Eles tinham ido para Los Angeles com alguns semideuses. Achei que talvez tivessem mais sorte na busca pelo imperador, ou pelo menos que tivessem conseguido encontrar o coração do labirinto.
— Por isso a família Hedge veio aqui para Palm Springs? Para compartilhar informações?
— Também.
Pelo tom de Grover, havia um motivo mais sombrio e triste por trás da vinda de Mellie e Gleeson, mas eu não quis insistir.
Paramos em um grande cruzamento, e do outro lado do bulevar ficava uma loja enorme com uma placa vermelha e iluminada anunciando: MALUQUICE MILITAR DO MARCO! O estacionamento estava quase vazio, só havia um velho Chevette amarelo estacionado perto da estrada.
Li outra vez a placa da loja. Olhando com atenção, percebi que o nome não era MARCO, e sim MACRO. Talvez eu tivesse desenvolvido a tal dislexia de semideus depois de andar tanto tempo com eles.
A loja parecia o tipo de lugar que eu jamais gostaria de visitar. E era macro no sentido de aumentado, de informática ou… de alguma outra coisa? Por que aquela palavra fazia mais esquilos correrem pela minha espinha?
— Parece fechada — comentei, sem conseguir pensar direito. — Não deve ser essa loja.
— É, sim. — Grover apontou para o Chevette. — Aquele é o carro do Gleeson.
Claro que é, pensei. Com a minha sorte, como não seria?
Queria fugir. Eu não estava gostando de como o letreiro vermelho gigante banhava o asfalto numa luz vermelho-sangue. Mas Grover Underwood tinha nos guiado pelo Labirinto, e, depois de toda a conversa sobre os amigos que ele perdera, eu não ia permitir que mais um se fosse. Eu me virei para ele.
— Muito bem, então. Vamos atrás de Gleeson Hedge.

17 comentários:

  1. Nem precisa ser gênio pra ver que vai dar merda

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    1. Laíres de Deus câmara campos4 de junho de 2018 12:51

      Vai sim. kkkkkkkkk

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    2. Né kkkk só precisa ser profissional em 2 livros e meio das previsões de apolo, apenas

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    3. Depois de tanto tempo nesta industrial vital nem me surpreendo quando isso acontece

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    4. Temos que concordar que, no universo de Percy Jackson, se você respirar vai dar merda

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    5. a nao ser que vc seja uma divindade, ai passaria a eternidade reclamando, punindo, sendo um astro esnobe e infantil, etc

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  2. Com certeza.... Vai dar merda vai dar merda....vai dar merda vaaaaaiiii

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  3. Com certeza.... Vai dar merda vai dar merda....vai dar merda vaaaaaiiii

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  4. Laíres de Deus câmara campos4 de junho de 2018 12:53

    Que tipo de loja tem como nome PALMEIRAS DO DESERTO? kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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  5. É bem a cara do treinador entrar em uma loja assustadora chamada "MALUQUICE MILITAR DO MACRO". Não tinha um nome melhor??

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  6. Me lembrei da visita que o Percy,, a Annabeth e o Grover fizeram a loja do Crosta em Percy Jackson e os olimpianos.

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  7. "Novo Hércules", "Novo Sol", esses imperadores se acham demais. Mal vejo a hora em que eles serão jogados pro nada!
    Exceto o imperador desse livro, esse merece ser acorrentado numa cova no Tártaro e passar a eternidade se afogando nos cinco rios do Mundo Inferior, um de cada vez :-)

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  8. Não li o livro ainda, não é spoiler, até agora eu tinha acertado meus chutes quanto aos imperadores, mas agora... no final do livro passado chutei que o próximo seria Calígula... agora penso em Juliano, o Apóstota, pq tem um mito curioso sobre ele, Apolo e os oráculos...

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  9. Em todos esses anos nesta industria vital, não é a primeira vez que isso acontece rsrs

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  10. Talvez eu tivesse desenvolvido a tal dislexia de semideus depois de andar tanto tempo com eles.

    Acho que cada vez mais Apolo parece estar se tornando um semideus já tem dislexia

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Boa leitura, E SEM SPOILER!