26 de junho de 2018

Capítulo 5

Mais tarde aquela noite, de volta à Indústria Monmouth, Ronan acordou. Ele acordou como um marinheiro que devesse afundar o navio, arremetendo contra as rochas, sem nenhuma cautela, tão rápido quanto podia, preparado para o impacto.
Ronan sonhara que dirigia de volta para casa. O caminho de volta para a Barns era sinuoso como o filamento de uma lâmpada, repleto de elevações íngremes e curvas fechadas através do terreno irregular. Aquelas não eram as montanhas e os contrafortes cultivados de Gansey. Aquelas colinas a leste de Singer’s Falls eram bolsões de mata fechada, elevações súbitas e precipícios rasgando as florestas rochosas. A cerração subia delas e as nuvens caíam sobre elas. Quando chegava, a noite na Barns era bem mais escura que a noite em Henrietta.
Ronan tinha sonhado esse trajeto repetidamente, mais vezes do que já o dirigira na vida real. As estradas na escuridão absoluta, a velha fazenda subitamente aparecendo, a única luz, eterna, no quarto com sua mãe calada. Mas, em seu sonho, ele nunca chegava em casa.
Ele não havia chegado dessa vez, também. Mas havia sonhado algo que queria trazer de volta.
Na cama, ele lutou para se mexer. Logo depois de acordar, após sonhar, seu corpo não pertencia a ninguém. Ele o olhava de cima, como uma pessoa em um funeral. O exterior dessa versão matutina de Ronan não parecia nem um pouco como ele se sentia por dentro. Qualquer coisa que não se empalasse na linha afiada da boca cruel desse garoto adormecido ficaria emaranhada nas garras impiedosas de sua tatuagem e seria arrastada para baixo da pele, para ali se afogar.
Às vezes, Ronan achava que ficaria preso desse jeito, flutuando do lado de fora do corpo.
Quando ele estava desperto, Ronan não podia ir à Barns. Quando Niall Lynch morrera — fora morto, não morrera, espancado até a morte com uma chave de roda que ainda estava largada ao seu lado quando Ronan o encontrou, ainda coberta com seu sangue e cérebro e boa parte de seu rosto, um rosto que estivera vivo talvez apenas uma hora antes, duas horas antes, enquanto Ronan sonhava a metros dali, uma noite inteira de sono, um feito nunca mais repetido —, um advogado havia explicado os detalhes do testamento de seu pai para eles. Os irmãos Lynch eram ricos, príncipes da Virgínia, mas eram exilados. Todo o dinheiro era deles, mas com uma condição: os garotos jamais poderiam colocar os pés na propriedade de novo. Eles não teriam acesso à casa nem aos bens dentro dela.
Incluindo sua mãe.
“Isso nunca será aceito por um tribunal”, havia dito Ronan. “Nós devemos contestar esse testamento.”
Declan dissera: “Não importa. A mamãe não é nada sem ele. Melhor irmos embora”.
“Nós precisamos lutar”, insistira Ronan.
Declan já havia se virado para ir embora. “Ela não vai lutar.”
Ronan podia mexer os dedos. Seu corpo era seu novamente. Ele sentiu a superfície de madeira fria da caixa em suas mãos, as pulseiras de couro sempre presentes deslizando na direção das palmas. Sentiu as arestas e os vales das letras entalhadas na caixa. As reentrâncias das gavetas e das peças móveis. O pulso ficou acelerado, a emoção da criação. O espanto censurado de fazer algo do nada. Não era das tarefas mais fáceis tirar algo de um sonho. Não era das tarefas mais fáceis tirar apenas uma coisa de um sonho.
Até trazer um lápis de volta era um pequeno milagre. Trazer qualquer coisa dos seus pesadelos — ninguém, a não ser Ronan sabia dos terrores que habitavam sua mente. Pragas e demônios, conquistadores e feras.
Ronan não tinha segredo mais perigoso do que esse.
A noite se agitava dentro dele. Ele se abraçou na caixa, recuperando o domínio de seus pensamentos de novo. Agora ele estava começando a tremer um pouco. Então se lembrou do que Gansey havia dito: Que criatura incrível você é.
Criatura era uma boa palavra para ele, pensou Ronan. Que diabos eu sou?
Talvez Gansey estivesse acordado.
Ronan e Gansey sofriam de insônia, embora tivessem soluções muito diferentes para ela. Quando Ronan não conseguia — ou não queria — dormir, ele ouvia música ou bebia ou ia para a rua procurar confusão com carros. Ou as três coisas juntas. Quando Gansey não conseguia dormir, ele estudava o diário abarrotado em que compilara todas as coisas relativas a Glendower ou, quando estava cansado demais para ler, usava uma caixa de cereal e uma lata de tinta para acrescentar outro prédio à maquete de meio metro de altura de Henrietta que ele havia construído. Nenhum dos dois poderia realmente ajudar o outro a conciliar o sono. Mas às vezes era melhor simplesmente saber que você não era o único acordado.
Ronan saiu do quarto, caminhando em silêncio com Motosserra no braço. Como era de esperar, Gansey estava sentado de pernas cruzadas na Rua Principal, lentamente acenando um pedaço de papelão recém-pintado na direção do ar-condicionado.
À noite, ele parecia particularmente pequeno ou o armazém parecia particularmente grande.
Iluminado apenas pela luminária pequena que ele havia colocado no chão ao lado do diário, o quarto se abria acima, uma caverna de feiticeiro cheia de livros, mapas e equipamentos de observação montados em tripés. A noite batia negra contra as centenas de vidraças, tornando-as apenas mais uma parede.
Ronan colocou a caixa de madeira que ele sonhara havia pouco ao lado de Gansey e recuou para a outra extremidade da minúscula rua.
Gansey parecia antiquado e erudito com os óculos de aro fino para noite equilibrados na ponta do nariz. Ele olhou de Ronan para a caixa e da caixa para Ronan e não disse nada. Mas tirou um de seus tampões de ouvido enquanto continuava a correr uma linha de cola ao longo de uma junção miniatura.
Estalando um osso no pescoço, Ronan deixou Motosserra solta para se divertir. Ela conseguiu virar a cesta de lixo e vasculhar o conteúdo. Era um processo barulhento, farfalhando como uma secretária no trabalho.
O cenário parecia familiar e desgastado pelo tempo. Os dois estavam morando em Monmouth praticamente desde que Gansey chegara a Henrietta — quase dois anos. É claro, o prédio não parecera assim no início. Ele fora apenas uma das muitas fábricas e armazéns abandonados no vale. Eles nunca chegaram a ser demolidos. Foram apenas esquecidos. A Indústria Monmouth não era diferente.
Mas então Gansey tinha chegado à cidade com aquele sonho maluco e seu Camaro ridículo, e havia comprado o prédio com dinheiro vivo. Ninguém mais reparou na compra, embora passassem dirigindo por ali todos os dias. O prédio estava coberto de azevém e trepadeiras, e Gansey o salvou.
No outono após Ronan e Gansey terem se tornado amigos, naquele verão antes de Adam, eles tinham passado metade do tempo livre caçando Glendower e a outra metade carregando lixo para fora do segundo andar. O chão estava forrado de rolos lascados de pintura. Fios pendiam do teto como cipós de uma floresta. Tábuas lascadas formavam telheiros sobre mesas irreconhecíveis de uma era nuclear. Os garotos queimaram o lixo no estacionamento tomado pela grama alta até os policiais pedirem para eles pararem, e então Gansey explicara a situação e os policiais saíram de seus carros para ajudar a terminar o trabalho. Na época, isso havia surpreendido Ronan; ele não havia percebido ainda que Gansey era capaz de persuadir até o sol a parar e lhe dizer as horas.
Eles trabalharam em Glendower e na Indústria Monmouth durante meses. Na primeira semana de junho, Gansey encontrou uma estátua sem cabeça de um pássaro com rei entalhado na barriga, em galês. Na segunda semana, eles ligaram um refrigerador no banheiro do andar de cima, bem ao lado da privada. Na terceira semana, alguém matou Niall Lynch. Na quarta semana, Ronan se mudou para lá.
Ajeitando uma varanda feita de caixa de cereal, Gansey perguntou:
— Qual foi a primeira coisa que você trouxe de um sonho? Você sempre teve consciência disso?
Ronan se sentiu lisonjeado com o interesse.
— Não. Foi um monte de flores. A primeira vez.
Ele se lembrou daquele sonho — uma mata antiga e assombrada. Flores azuis e mosqueadas pendiam das árvores que sussurravam enquanto ele caminhava com uma companhia frequente em seus sonhos. Então um espectro enorme abrira caminho através do dossel, súbito como uma nuvem de tempestade. Tomado pelo terror e pela certeza de que aquela força estranha queria a ele, somente a ele, Ronan pegara qualquer coisa que estivesse ao seu alcance antes de ser ceifado.
Quando acordou, ele segurava um polpudo punhado de flores azuis de um tipo que ninguém vira antes. Ronan tentou, agora, explicá-las a Gansey, o estame equivocado, o aveludado das pétalas. A impossibilidade delas.
Mesmo para Gansey, ele não conseguia admitir a alegria e o terror do momento.
O pensamento angustiante: Eu sou que nem o meu pai.
Enquanto Ronan falava, os olhos de Gansey estavam semicerrados, virados para a noite. Sua expressão desatenta era de assombro ou dor; com Gansey, muitas vezes eram a mesma coisa.
— Aquilo foi um acidente — argumentou Gansey, fechando a cola. — Agora você consegue fazer de propósito?
Ronan não conseguia decidir se deveria exagerar sua maestria ou enfatizar a dificuldade da tarefa.
— Às vezes eu consigo controlar o que trago, mas não consigo escolher sobre o que eu sonho.
— Me conte como funciona. — Gansey se endireitou para pegar uma folha de hortelã do bolso, então a colocou na língua e falou em torno dela. — Vamos lá, passo a passo. O que acontece?
Dos arredores do cesto de lixo, veio o ruído expiatório de um corvo pequeno rasgando um envelope grande de lado a lado.
— Primeiro — respondeu Ronan — vou pegar uma cerveja.
Gansey lhe lançou um olhar fulminante.
A verdade era que nem Ronan compreendia o processo muito bem. Ele sabia que tinha algo a ver com como ele dormia. Os sonhos eram mais dóceis quando ele bebia. Eram menos ansiosamente tensos e mais doces, suscetíveis a uma manipulação cuidadosa até que, de uma hora para outra, terminavam.
Ele estava quase dizendo isso, mas o que saiu de sua boca foi:
— Na maioria das vezes eles são em latim.
— Como?
— Sempre foram. Eu simplesmente não sabia que era latim até ficar mais velho.
— Ronan, não há razão para isso — disse Gansey severamente, como se Ronan tivesse jogado um brinquedo no chão.
— Descobriu a América, Sherlock. Mas é assim.
— Os seus... os seus pensamentos são em latim? Ou os diálogos? As outras pessoas falam em latim? Tipo, eu apareço nos seus sonhos?
— Ah, sim, baby.
Ronan se divertiu ao dizer isso, e muito. Ele riu tanto que Motosserra abandonou a destruição de papéis para ver se ele não estava morrendo. Ronan sonhava às vezes com Adam também, taciturno, elegante e fluentemente desdenhoso das tentativas de Ronan de se comunicar em sonho.
Gansey insistiu.
— E eu falo latim?
— Cara, você fala latim na vida real. Essa não é uma boa comparação. Tá bom, sim, você fala se estiver no sonho. Mas normalmente são estranhos. Ou os sinais... os sinais são em latim. E as árvores falam latim também.
— Como em Cabeswater.
Sim, como em Cabeswater. Na velha conhecida Cabeswater, embora Ronan decerto não tenha estado lá antes daquela primavera. Ainda assim, chegar lá pela primeira vez parecera um sonho que ele esquecera.
— Coincidência — disse Gansey, porque não era, e porque tinha de ser dito. — E quando você quer algo?
— Se eu quiser algo, eu tenho que estar, tipo, consciente o bastante para saber que eu quero aquilo. Quase desperto. E eu tenho que realmente querer. E então eu tenho que segurar o objeto. — Ronan estava prestes a usar o exemplo das chaves do Camaro, mas pensou melhor. — Eu tenho que segurar não como em um sonho, mas como se fosse real.
— Não entendi.
— Não posso fingir que estou segurando. Eu tenho que realmente segurar o objeto.
— Eu ainda não estou entendendo.
Nem Ronan entendia, mas não sabia como dizer melhor. Por um momento ficou em silêncio, pensando. Nenhum som era ouvido, a não ser Motosserra voltando para o chão para bicar o envelope.
— Olha, é como um aperto de mãos — ele disse por fim. — Sabe quando um cara estende a mão para te cumprimentar e você nunca o encontrou antes, e ele deixa a mão ali, e você simplesmente sabe, naquele momento um pouco antes do cumprimento, se a mão dele vai estar suada ou não? É tipo assim.
— Então o que você está dizendo é que não consegue explicar como acontece.
— Eu expliquei.
— Não, você usou substantivos e verbos juntos de um jeito agradável, mas sem sentido.
— Eu expliquei — insistiu Ronan, tão ferozmente que Motosserra bateu as asas, certa de que estava se metendo em confusão. — É um pesadelo, cara... É que nem quando você sonha que foi mordido e, ao acordar, seu braço dói. É assim.
— Ah — disse Gansey. — Ele dói?
Às vezes, quando ele tirava algo de um sonho, era uma adrenalina tão sem sentido que deixava o mundo real sem brilho e chato por horas. Às vezes, ele não conseguia mover as mãos. Às vezes, Gansey o encontrava e achava que ele estava bêbado. Às vezes, ele realmente estava.
— Isso quer dizer sim? Falando nisso, o que você tem aí?
Gansey tinha pegado a caixa de madeira. Quando virou uma das rodas, um dos botões do outro lado afundou.
— Uma caixa quebra-cabeça.
— O que isso significa?
— E eu vou saber? Era assim que ela chamava no sonho.
Gansey olhou para Ronan por cima dos óculos.
— Não use esse tom de voz comigo. Você não faz a menor ideia?
— Acho que serve para traduzir coisas. Era isso que ela fazia no sonho.
De perto, os entalhes eram letras e palavras. Os botões eram tão pequenos e as letras tão precisas que era impossível ver como ela teria sido feita. Também era impossível saber como as rodas de caracteres poderiam ter sido fixadas na caixa sem emendas, no grão raiado e multicolorido da madeira.
— Latim daquele lado — observou Gansey, virando a caixa. — Grego aqui. O que é isso? Sânscrito, eu acho. Ou será copta?
— E quem vai saber como é o copta? — disse Ronan.
— Você, pelo visto. Tenho quase certeza que é isso. E esse lado com as rodas somos nós. Bom, nosso alfabeto, quero dizer, e ele está configurado para palavras em inglês. Mas o que é esse lado? O resto são línguas mortas, mas não reconheço esta.
— Olha — disse Ronan, colocando-se de pé. — Você está complicando demais. — E, caminhando lentamente até Gansey, pegou a caixa, girou algumas das rodas do lado inglês, e imediatamente os botões dos outros lados começaram a se mover e a trocar de posição. Alguma coisa a respeito do seu progresso não fazia sentido.
— Isso me dá dor de cabeça — disse Gansey.
Ronan mostrou o lado em inglês para ele. As letras formavam árvore. Ele a virou para o lado do latim. As letras tinham trocado e formavam bratus. Então, virando para o lado grego, ôévôpov.
— Então, ela traduziu o inglês para todas essas outras línguas. Isso é “árvore” em todas elas. Ainda não sei que língua é essa. Vire? Isso soa como... — Exausto, Gansey parou por aí, com o conhecimento de esquisitices linguísticas esgotado. — Meu Deus, estou cansado.
— Então vá dormir.
Gansey o olhou espantado. Era um olhar que perguntava como Ronan, de todas as pessoas no mundo, poderia ser tão estúpido a ponto de pensar que o sono era uma coisa que podia ser alcançada de maneira tão simples.
— Então vamos dar uma volta até a Barns — disse Ronan.
Gansey o olhou novamente espantado. Era um olhar que perguntava como Ronan, de todas as pessoas no mundo, poderia ser tão estúpido a ponto de pensar que Gansey concordaria com algo tão ilegal com tão pouco sono.
— Então vamos buscar um suco de laranja — disse Ronan.
Gansey considerou. Olhou para onde estavam as chaves na mesa ao lado de seu vaso de hortelã. O relógio ao lado dele, um modelo antigo repelentemente feio que Gansey havia encontrado largado ao lado de uma lata no depósito de lixo, dizia 3:32.
— Tudo bem — disse Gansey.
E foram buscar o suco.

Um comentário:

  1. "Ronan se divertiu ao dizer isso, e muito. Ele riu tanto que Motosserra abandonou a destruição de papéis para ver se ele não estava morrendo. Ronan sonhava às vezes com Adam também, taciturno, elegante e fluentemente desdenhoso das tentativas de Ronan de se comunicar em sonho."

    AAAAAAAAAAAAAAAAAAA mais um pouco AAAAAAAAAAAAAAAAAA

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Boa leitura, E SEM SPOILER!