20 de junho de 2018

Capítulo 5

Barrington Whelk se sentia menos animado à medida que se arrastava pelo corredor da Whitman House, o prédio administrativo da Aglionby. Eram cinco horas da tarde, o dia na escola havia terminado fazia tempo, e ele deixara sua residência na cidade somente para pegar algumas tarefas que precisavam ser corrigidas até o dia seguinte. À esquerda, a luz da tarde se derramava nas janelas altas de várias vidraças; à direita havia o murmúrio das vozes dos funcionários da escola. Os prédios antigos lembravam museus àquela hora do dia.
— Barrington, achei que você estivesse de folga hoje. Você está com uma aparência péssima. Está doente?
Whelk não formulou imediatamente uma resposta. Para todos os fins e propósitos, ele ainda estava de folga. Quem fez a pergunta foi Jonah Milo, o professor de inglês almofadinha do segundo e terceiro anos do ensino médio. Apesar do gosto por calças de veludo cotelê xadrez afuniladas, Milo não era insuportável, mas Whelk não fazia questão de discutir com ele sua ausência da aula naquela manhã. A véspera do Dia de São Marcos estava começando a ter um brilho de tradição para ele, uma tradição que envolvia passar a maior parte da noite enchendo a cara antes de cair no sono no chão de sua quitinete um pouco antes do amanhecer. Naquele ano ele havia tomado a precaução de pedir folga no Dia de São Marcos. Ensinar latim para os garotos da Aglionby já era uma dura punição, mas ensiná-los de ressaca era torturante.
Por fim, Whelk ergueu a pilha amarfanhada de lições de casa escritas à mão como resposta. Milo arregalou os olhos ao ver o nome escrito no papel de cima.
— Ronan Lynch! Essa lição é dele?
Virando a pilha para ler o nome na frente, Whelk concordou. Assim que o fez, alguns garotos a caminho do treino de remo esbarraram nele, empurrando-o em cima de Milo. Os estudantes provavelmente nem se deram conta de que estavam sendo desrespeitosos; Whelk era só um pouco mais velho que eles, e suas feições dramaticamente grandes o faziam parecer mais jovem. Ainda era fácil confundi-lo com um dos estudantes.
Milo se livrou de Whelk.
— Como você faz para ele ir à aula?
A mera menção do nome de Ronan Lynch mexia em algum ponto sensível dentro de Whelk. Porque nunca era ele sozinho, era ele como parte do inseparável trio: Ronan Lynch, Richard Gansey e Adam Parrish. Todos os garotos na classe eram ricos, confiantes, arrogantes, mas esses três, mais do que ninguém, o faziam lembrar o que ele perdera.
Whelk fez um esforço para lembrar se Ronan já faltara a alguma aula sua. Os dias de escola começavam com Whelk estacionando sua porcaria de carro ao lado dos belos carros de Aglionby, abrindo caminho por entre garotos sorridentes e de cabeça oca e então se apresentando diante de uma sala cheia de estudantes de olhar vazio, na melhor das hipóteses, ou sarcástico, na pior. E ao fim do dia Whelk, sozinho e assombrado, nunca, jamais capaz de esquecer que já fora um deles.
Quando isso se tornou a minha vida?
Whelk deu de ombros.
— Não me lembro de ele ter faltado.
— Mas você dá aula para ele e o Gansey, não é? — perguntou Milo. — Isso explica. Os dois andam grudados como carrapatos.
Era uma expressão estranha e antiga, uma expressão que Whelk não ouvia desde seus dias em Aglionby, quando ele também andava grudado como um carrapato com seu companheiro de quarto, Czerny. Ele sentiu um vazio dentro de si, como se estivesse com fome, como se devesse ter ficado em casa e bebido mais para comemorar aquele dia miserável.
Whelk derivou de volta para o presente, olhando para a lista de chamada que o professor substituto havia deixado.
— O Ronan estava na aula hoje, mas o Gansey não. Não na minha, pelo menos.
— Ah, deve ser por causa daquele papo de Dia de São Marcos que ele estava falando — disse Milo.
Isso chamou a atenção de Whelk. Ninguém sabia que aquele era o Dia de São Marcos. Ninguém celebrava aquele dia, nem mesmo a mãe de são Marcos. Apenas Whelk e Czerny, caçadores de tesouros e encrenqueiros, se importavam com a sua existência.
Whelk disse:
— Como?
— Eu não sei de tudo — respondeu Milo.
Outro professor disse “olá” para ele a caminho da sala dos professores, e Milo olhou sobre o ombro para responder. Whelk imaginou agarrar o braço de Milo, forçando sua atenção de volta para si. Foi preciso se esforçar para esperar em vez disso. Voltando-se, Milo pareceu perceber o interesse de Whelk, pois acrescentou:
— Ele não tocou no assunto com você? Ele não parava de falar nisso ontem. É aquela história da linha ley que ele está sempre remexendo.
Linha ley.
Se ninguém sabia sobre o Dia de São Marcos, verdadeiramente ninguém sabia sobre linhas ley. Certamente ninguém em Henrietta, Virgínia. Certamente não um dos pupilos mais ricos de Aglionby. Definitivamente, não em conjunção com o Dia de São Marcos. Essa era a busca de Whelk, o tesouro de Whelk, os anos adolescentes de Whelk. Do que Richard Gansey III estava falando?
Com as palavras linha ley pronunciadas em voz alta, uma memória foi evocada: Whelk em uma mata densa, com o suor acumulado no lábio superior. Ele tinha dezessete anos e tremia. Toda vez que seu coração batia, linhas vermelhas raiavam nos cantos de sua visão, as árvores escurecendo com sua pulsação. Parecia que as folhas estavam todas se movendo, mesmo sem vento. Czerny estava no chão. Não estava morto, mas estava morrendo. Suas pernas ainda pedalavam sobre a superfície irregular ao lado de seu carro vermelho, formando montes de folhas caídas atrás de si. Seu rosto estava simplesmente... entregue. Na cabeça de Whelk, vozes espectrais sibilavam e sussurravam palavras indistintas e encadeadas.
— Uma espécie de fonte de energia ou algo assim — disse Milo.
Whelk ficou subitamente com medo de que Milo pudesse ver a memória dele, pudesse ouvir as vozes inexplicáveis em sua cabeça, incompreensíveis, mas presentes desde aquele dia fatídico.
Whelk compôs suas feições, apesar de estar pensando: Se alguém mais está procurando aqui, eu devia estar certo. Ela deve estar aqui.
— O que ele disse que estava fazendo com a linha ley? — ele perguntou com uma calma estudada.
— Não sei. Pergunte a ele. Tenho certeza de que ele adoraria encher os seus ouvidos com essa história. — Milo olhou sobre o ombro enquanto a secretária se juntava a eles no corredor, com a bolsa no braço e a jaqueta na mão. O delineador estava borrado após um longo dia no escritório.
— Estamos falando sobre Gansey, o terceiro, e sua obsessão com a Nova Era? — perguntou a secretária. Ela tinha um lápis enfiado no cabelo para segurá-lo e Whelk olhou fixamente os fios soltos que se enrolavam em torno do lápis. Estava claro para ele, pela postura da secretária, que ela secretamente achava Milo atraente, apesar do veludo cotelê xadrez e da barba. Ela perguntou: — Você sabe o tamanho da fortuna do velho Gansey? Eu me pergunto se ele tem ideia de como o filho dele passa o tempo. Olha, às vezes esses filhinhos de papai me dão vontade de cortar os pulsos. Jonah, me acompanha em um intervalo para o cigarro?
— Eu parei de fumar — disse Milo. E lançou um olhar rápido e apreensivo da secretária para Whelk, e Whelk sabia que ele estava pensando sobre o tamanho que fora a fortuna do pai de Whelk um dia, em outra época, e como ela era pequena agora, muito tempo depois de os julgamentos terem deixado as capas dos jornais. Todos os professores mais novos e o pessoal da administração odiavam os garotos de Aglionby, odiavam-nos pelo que tinham e pelo que representavam, e Whelk sabia que, em segredo, lhes agradava que ele tivesse sido rebaixado.
— E você, Barry? — perguntou a secretária. Então ela respondeu à sua própria pergunta: — Não, você não fuma, você é bonitinho demais para isso. Bem, vou sozinha.
Milo se virou para ir embora também.
— Melhoras — disse gentilmente, embora Whelk nunca tivesse dito que estava doente.
As vozes na cabeça de Whelk eram um rugido, mas dessa vez os próprios pensamentos as abafaram.
— Acho que já estou melhor — disse Whelk.
Talvez a morte de Czerny não tivesse sido à toa no fim das contas.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!