26 de junho de 2018

Capítulo 59

A primeira coisa que Ronan notou na igreja no Quatro de Julho foi que o padre tinha um olho roxo. A segunda coisa foi que Matthew não estava lá. A terceira coisa foi que havia espaço para duas pessoas ao lado de Declan no banco. Todo mundo na Santa Inês sabia que os irmãos Lynch não iam sozinhos à igreja.
Era uma imagem estranhamente desconcertante. Nas primeiras semanas após a morte de Niall, os garotos sempre deixavam espaço para a mãe, como se ela fosse chegar magicamente no meio da celebração.
Estou trabalhando nisso, pensou Ronan, e então expulsou a ideia da cabeça.
Ele estava bastante atrasado para a missa especial; parecia insolência. Quando deslizou no banco ao lado de Declan, uma mulher enrugada e pequena já havia começado a entoar a primeira leitura. Era uma passagem que Ronan costumava adorar quando criança — dessa eu tenho orgulho. O atraso de Ronan ocorrera porque ele tinha ido com Gansey pegar o Homem Cinzento na locadora de veículos. Os garotos haviam dado a ele o Mitsubishi e, em troca, Ronan recebera a caixa quebra-cabeça de volta.
Parecia uma troca justa. Uma coisa de sonho por uma coisa de sonho.
Declan olhou bruscamente para Ronan e sibilou:
— Cadê o Matthew?
— Eu é que pergunto.
Os fiéis no banco atrás sussurraram sugestivamente.
— Você não veio no domingo. — A voz de Declan tinha o peso de uma acusação. — E o Matthew disse que você nem explicou.
Ronan teve de admitir culposamente que aquilo era verdade. Ele estivera deitado no capô de um Camaro inventado e nem lhe ocorrera que dia era. Então ele percebeu o que Declan estava insinuando — que, possivelmente, Matthew estava se vingando de Ronan com seu próprio desaparecimento não anunciado. Embora fosse verdade que induzir Ronan a uma visita sozinho à igreja com Declan teria sido uma punição excelente, isso não tinha a assinatura de Matthew.
— Ah, por favor — sussurrou Ronan. — Ele não é tão esperto.
Declan pareceu chocado e venenoso. Ele ficava sempre muito alarmado com a verdade.
— Você ligou para ele? — perguntou Ronan.
— Não está atendendo. — Declan semicerrou os olhos, como se o fato de Matthew deixar de atender o telefone fosse uma doença que o irmão mais novo pegara de Ronan.
— Você o viu hoje de manhã?
— Vi.
Ronan deu de ombros.
— Ele não é de faltar — disse Declan.
A declaração inversa estava implícita: Diferentemente de você.
— Até que ele falta.
— Tudo isso é culpa sua — disse Declan contendo a voz. Seus olhos dardejaram para o banco vazio ao lado de Ronan e então para o padre. — Eu disse para você ficar de boca fechada. Eu disse para você ficar de cabeça baixa. Por que você não pode simplesmente fazer o que lhe mandam uma vez na vida?
Alguém chutou o banco deles por trás. Pareceu a Ronan um ato extremamente não católico. Ele olhou sobre o ombro, elegante e perigoso, e ergueu uma sobrancelha para o homem de meia-idade sentado atrás dele. E esperou. O homem baixou os olhos.
Declan cutucou o braço do irmão.
— Ronan.
— Pare de agir como se você soubesse de tudo.
— Ah, eu sei o suficiente. Eu sei exatamente o que você é.
Houve uma época que essa declaração teria gotejado através de Ronan como veneno.
Agora, ele não tinha tempo para isso. No plano relativo das coisas, a opinião de seu irmão era minimamente importante. Na realidade, Ronan só estava ali por causa de Matthew e, sem ele ali, não havia razão para ficar. Ele escorregou para fora do banco.
— Ronan — sussurrou Declan ferozmente. — Aonde você vai?
Ronan levou um dedo aos lábios. Um sorriso se abriu de cada lado da boca.
Declan apenas balançou a cabeça, fazendo um gesto como se tivesse simplesmente largado mão de Ronan. E isso, é claro, era outra mentira, porque ele nunca largava mão de Ronan. Mas, naquele momento, os dezoito anos e a liberdade pareciam muito mais próximos que antes, e aquilo não tinha importância.
Enquanto Ronan empurrava as portas grandes e pesadas da igreja — as mesmas pelas quais ele passara com a recém-sonhada Motosserra —, pegou o celular e ligou para Matthew.
A ligação caiu no correio de voz.
Ronan não acreditou naquilo. Ele entrou no BMW para voltar para a Monmouth e ligou de novo.
Correio de voz.
Ele não conseguia deixar para lá. Não sabia por quê. A questão não era que Matthew nunca abandonava o celular. E não era bem que Matthew nunca abandonava a igreja, especialmente numa missa de feriado.
Era o rosto do Homem Cinzento e o padre machucado e o mundo virado de cabeça para baixo.
Ele arrancou e partiu para o centro escaldante da cidade, dirigindo com o joelho. Ligou de novo. Correio de voz.
Isso não parecia certo.
Quando ele entrou no estacionamento da Monmouth, chegou uma mensagem, vinda do número de Matthew.
Finalmente.
Ronan puxou o freio de mão, desligou o carro e olhou para a tela.
qual é fdp
Aquilo não era típico de seu irmão mais novo. Antes que ele tivesse tempo de considerar a resposta, chegou uma mensagem do número de Kavinsky também.
qual é fdp
Algo doentio revirou dentro de Ronan.
Um momento mais tarde, Kavinsky enviou outra mensagem.
traga algo divertido para o 4 de julho ou vamos ver qual pílula funciona melhor no seu irmão
Sem esperar, Ronan pegou o celular e ligou para ele.
Kavinsky atendeu imediatamente:
— Lynch, que prazer.
Ronan demandou:
— Onde ele está?
— Quer saber, eu fui legal das primeiras vezes. Você vem para o Quatro de Julho?
Você vem? Você vem? Aqui, fique com a porra desse carro. Você vem? Você estragou tudo. Traga algo que valha a pena hoje à noite.
— Não vou fazer isso — disse Ronan.
Mil pesadelos de Matthew morto. Sangue em seus cabelos cacheados, sangue em seus dentes, moscas em seus olhos, moscas em suas tripas.
— Ah — disse Kavinsky, com aquela risada lenta e desprezível na voz. — Acho que vai sim. Ou eu vou tentar coisas diferentes nele. Ele pode ser meu encerramento hoje. Bum!
Você quer ver algo explodir...
Ronan virou a chave e soltou o freio de mão. A porta da Monmouth se abriu e Gansey estava parado ali, uma mão erguida, fazendo uma pergunta.
— Você não vai se safar dessa.
— Eu me safei com o querido papai — observou Kavinsky. — E com o Prokopenko. E, sem querer ofender o seu irmão, eles eram muito mais complicados.
— Jogada errada. Eu vou acabar com você.
— Não me decepcione, Lynch.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!