26 de junho de 2018

Capítulo 58

— Depressa.
Persephone e Adam não conversaram muito durante aquela noite, nem quando o sol agressivo subiu na manhã seguinte, e, quando o faziam, normalmente era essa palavra: depressa. Eles já tinham dirigido para uma dezena de outros locais para reparar a linha ley, alguns tão longe quanto duas horas dali, e agora faziam o caminho de volta para Henrietta.
Adam estava ajoelhado ao lado de uma rosa doente em outro jardim de fundos. Suas mãos já sujas pressionadas contra a terra, cavando para encontrar a pedra que ele sabia estar escondida em algum lugar debaixo. Persephone, parada ao lado observando, olhou de relance para a roseira trepadeira do outro lado do jardim.
— Depressa — ela disse uma vez mais. O Quatro de Julho já estava quente e impiedoso. Uma formação de nuvens se movia lentamente por detrás das montanhas, e Adam já sabia como o dia se desenrolaria: o calor aumentaria cada vez mais, até estourar na cacofonia de outra tempestade de verão. Raios.
Os dedos de Adam encontraram a pedra. Era a mesma situação em toda falha na linha: uma pedra ou um corpo d’água que confundia e desviava a direção da linha ley. Às vezes Adam tinha apenas de virar uma pedra para sentir a linha ley encaixar imediatamente de novo, simples como um interruptor de luz. Outras vezes, no entanto, ele tinha de experimentar movendo mais pedras na área, ou removendo uma pedra inteiramente, ou cavando uma trincheira para redirecionar um regato. As vezes, nem ele nem Persephone conseguiam entender o que eles precisavam fazer, e então abriam uma ou duas cartas de tarô. Persephone o ajudava a ver o que as cartas estavam tentando dizer. Três de paus: construa uma ponte sobre o regato com essas três pedras. Sete de espadas: apenas desenterre a maior pedra e a coloque no carro tricolor.
Para Adam, usar as cartas de tarô era como aprender latim, no começo. Ele dançava à beira daquele momento em que compreenderia as frases sem precisar traduzir cada palavra.
Ele se sentia exausto e desperto, eufórico e ansioso.
Depressa.
O que é que tornava aquelas pedras especiais? Ele não sabia. Não ainda. De certa maneira, eram como as pedras em Stonehenge e Castlerigg. Havia alguma coisa nelas conduzindo a força da linha ley e consumindo sua energia.
— Adam — disse Persephone de novo. Não havia nenhum sinal de carro, mas ela franziu o cenho para a estrada. Seus dedos estavam sujos como os dele; seu manto cinza delicado estava manchado. Ela parecia uma boneca escavada de um lixão. — Depressa.
Aquela pedra era maior do que eles esperavam. Trinta centímetros de largura, talvez, e vai saber a profundidade. Não havia como chegar até ela sem cavoucar a rosa. Com pressa, ele pegou uma pá ao lado dele. Adam escavou a terra, arrancou a rosa deformada e a jogou de lado. Suas palmas suavam.
— Desculpe — sugeriu Persephone.
— O quê?
Ela murmurou:
— Você deve pedir desculpa quando mata algo.
Ele levou um momento para perceber que ela se referia à rosa.
— Ela estava morrendo de qualquer maneira.
— Morrendo e morta são palavras diferentes.
Envergonhado, Adam murmurou um pedido de desculpas antes de enfiar a ponta da pá debaixo da pedra. Ela se soltou. Persephone virou um olhar questionador para ele.
— Vamos pegar essa — ele disse imediatamente. Ela anuiu. A pedra foi para o banco de trás com as outras.
Eles haviam acabado de tomar o caminho de volta quando outro carro entrou no acesso que eles haviam abandonado instantes atrás.
Perto.
Múltiplas pedras estavam empilhadas no carro tricolor agora, mas aquela última pressionava a consciência de Adam mais que as outras. Seria útil, com os raios, ele pensou. Para... algo. Para concentrar a linha ley em Cabeswater. Para... fazer um portão.
Depressa.
— Por que agora? — ele perguntou para ela. — Por que todas essas partes soltas?
Persephone não tirou os olhos de sua tarefa, que era colocar as cartas sobre o painel.
Os desenhos manchados, borrados de tinta, lembravam pensamentos em vez de imagens.
— Não são só partes soltas agora. Isso só ficou mais evidente com a corrente maior passando por ela. Como um cabo. No passado, sacerdotisas teriam cuidado da linha. Mantido ela. Como estamos fazendo agora.
— Como Stonehenge — ele disse.
— Esse é um exemplo muito grande e clichê, sim — ela respondeu ternamente.
Persephone olhou de relance para o céu. As nuvens no horizonte haviam se aproximado um pouco desde que ela olhara da última vez; elas ainda estavam brancas, mas começavam a se empilhar umas sobre as outras.
— Eu me pergunto — ele disse, mais para si que para ela — como seria se todas as linhas ley fossem reparadas.
— Acredito que seria um mundo muito diferente, com prioridades muito diferentes.
— Ruim? — ele perguntou. — Um mundo ruim?
Ela olhou para ele.
— Diferente não é ruim, certo? — ele perguntou.
Persephone voltou para suas cartas. Flap. Ela virou uma segunda carta.
Eu devia ligar para o trabalho, pensou Adam. Era para ele ir trabalhar naquela noite.
Ele nunca havia ligado se dizendo doente. Eu devia ligar para o Gansey.
Mas não havia tempo. Eles tinham tantos lugares para ir antes... antes...
Depressa.
Quando eles entraram na rodovia, a atenção de Adam foi desviada por um Mitsubishi branco que rasgava na direção oposta, do outro lado do canteiro.
Kavinsky.
Mas seria Kavinsky atrás da direção? Adam esticou a cabeça para olhar no espelho, mas o outro carro já era um ponto sumindo no horizonte.
Persephone virou a carta. O Diabo.
De uma hora para a outra, Adam teve certeza do motivo pelo qual eles estavam com pressa. Ele sabia desde a noite anterior que precisava aperfeiçoar a energia da linha para que Cabeswater reaparecesse. Uma tarefa importante, certamente, mas não uma questão de vida ou morte.
Mas agora ele sabia por que estava com pressa. Eles estavam restaurando a linha ley para Cabeswater. Eles a estavam restaurando agora porque Ronan precisaria dela.
Naquela noite.
Depressa.

Um comentário:

  1. Finalmente o Adam fazendo algo pensando em outra pessoa.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!