26 de junho de 2018

Capítulo 57

O Homem Cinzento fez o check out da Pousada Vale Aprazível e colocou a mala junto à porta, do lado de dentro do quarto de Maura. Ele não a desfez. Não faltava muito para o Quatro de Julho. Não fazia sentido.
— Recite um pouco de poesia, e eu lhe preparo um drinque — disse Calla.
— Our hearts must grow resolute, our courage more valiant, our spirits must be great, though our strength grows less.
Então ele a recitou no inglês arcaico original.
Calla lhe preparou um drinque.
Maura fez algo com manteiga, e Calla fez algo com bacon, e Blue cozinhou brócolis no vapor para se proteger. No resto da casa, Jimi se preparou para o turno da noite e Orla atendeu a linha de atendimento mediúnico que não parava de tocar. O Homem Cinzento ficou atrapalhando no meio do caminho, tentando ser útil. Ele compreendeu que aquela era uma noite comum na Rua Fox, 300, todo aquele ruído, comoção e desordem. Era um tipo de dança sem sentido, inventiva e confusa. Blue e Maura tinham a própria órbita; Maura e Calla, outra. Ele observou os pés de Maura circularem sobre o chão da cozinha.
Era o oposto de tudo que ele havia cultivado nos últimos cinco anos.
Como ele gostaria de ficar.
Essa não é uma vida para o que você é, ele disse para si mesmo.
Mas, naquela noite, ele fingiria.
No jantar, Calla disse:
— Então, e agora? — Ela só estava comendo os pratos que tinham bacon. Blue, que só estava comendo brócolis, respondeu: — Acho que precisamos encontrar uma maneira de fazer Joseph Kavinsky parar de sonhar.
— Bem — perguntou Maura. — O que ele quer?
Blue deu de ombros por detrás de sua montanha de brócolis.
— O que um viciado em drogas quer? Nada.
Maura franziu o cenho sobre seu prato de manteiga.
— Às vezes tudo.
— De qualquer maneira — respondeu Blue —, não consigo ver como podemos oferecer isso.
O Homem Cinzento intercedeu educadamente.
— Eu posso conversar com ele hoje à noite por vocês.
Blue enfiou a faca em um pedaço de brócolis.
— Parece uma ótima ideia.
Maura a olhou severamente.
— O que ela quis dizer foi não, obrigada.
— Não — disse Blue, com o cenho franzido. — Eu quis dizer aquilo mesmo, e você poderia fazer ele se sentir um inútil também?
— Blue Sargent! — Maura parecia chocada. — Eu não criei você para ser violenta!
Calla, que havia inalado bacon enquanto ria, se agarrou à mesa até parar de engasgar.
— Não — disse Blue perigosamente. — Mas às vezes coisas ruins acontecem com crianças boas.
O Homem Cinzento achou divertido.
— A oferta é válida até minha partida.
O telefone tocou. No andar de cima, eles ouviram o som de Orla procurando-o desesperadamente. Com um sorriso divertido, Maura pegou a extensão do andar de baixo e ouviu por um momento.
— Que ideia excelente. Vai ser mais difícil rastreá-lo — Maura disse ao telefone. Para a mesa, disse: — O Gansey tem um Mitsubishi que o sr. Cinzento pode pegar em vez do carro alugado. Ah, ele diz que na realidade foi ideia do Ronan.
O gesto animou o Homem Cinzento consideravelmente. A realidade de sua fuga era muito mais difícil do que ele admitira a qualquer uma delas. Havia um carro para se preocupar, dinheiro para a comida, dinheiro para a gasolina. Ele havia deixado uma panela suja na pia em sua casa em Massachusetts, e pensaria nela para sempre.
Ajudaria se ele não precisasse roubar o Desapontamento Champanhe. O Homem Cinzento tinha um dom para o roubo de carros, mas desejava a simplicidade.
Ao telefone, Maura disse:
— Não... não. O Adam não está aqui. Acho que ele está com a Persephone. Tenho certeza que ele está bem. Você quer falar com a Blue? Não...?
Blue baixou a cabeça para o prato e enfiou a faca em outro pedaço de brócolis.
Maura desligou o telefone e olhou estreitamente para ela.
— Vocês dois brigaram de novo?
Blue sussurrou:
— Ãhã. Com certeza.
— Eu posso levar uma conversa com ele também — ofereceu o Homem Cinzento.
— Não precisa — ela respondeu. — Mas obrigada. Minha mãe não me criou para ser violenta.
— Nem a minha — observou o Homem Cinzento.
Ele comeu brócolis, manteiga e bacon, e Maura comeu manteiga, e Calla comeu bacon.
Foi outra dança confusa para limpar tudo depois do jantar e uma briga pelos chuveiros, pela televisão e por quem ficava com qual cadeira. Maura delicadamente pegou a mão do Homem Cinzento e o levou para o jardim dos fundos. Sob os galhos escuros e frondosos da faia, eles se beijaram até os mosquitos se tornarem implacáveis e a chuva começar a cair.
Mais tarde, quando estavam deitados na cama, o telefone dele vibrou uma chamada e caiu no correio de voz. De certo modo, ele sempre soubera que aquilo terminaria daquele jeito.
— Ei, Dean — disse o irmão. Sua voz era lenta, simpática, paciente. Os irmãos Allen eram parecidos nesse aspecto. — Henrietta é um lugarzinho bacana, não é?

2 comentários:

  1. Eu fiquei cabrera com o Homem Cinzento quando descobri que ele matou o pai do Ronan, mas ele é tão legal, não da pra ficar com raiva muito tempo

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!