26 de junho de 2018

Capítulo 55

Adam dirigiu o carro tricolor até o mais próximo que conseguiu chegar do campo onde Cabeswater costumava estar e, quando não pôde mais avançar, o estacionou no campo e começou a caminhar. Antes, quando ele estivera ali com os outros, eles haviam usado o GPS e o leitor de frequência eletromagnética para encontrar Cabeswater. Adam não precisava disso agora. Ele era o detector. Se ele se concentrasse, podia sentir a linha lá longe, abaixo dele. Ela crepitava e bruxuleava, despojada e irregular. Estendendo as mãos para frente, com as palmas para baixo, Adam caminhava lentamente através da relva alta, seguindo a energia vacilante. Gafanhotos se catapultavam para fora do seu caminho. Ele observava os pés por causa das cobras. Acima, o céu escaldante deu lugar a nuvens de tempestade no horizonte a oeste. Ele não estava preocupado com a chuva, mas com os raios... raios.
Na realidade, os raios poderiam ser úteis. Ele fez uma nota para se lembrar disso, mais tarde.
Então olhou de relance para a linha de árvores à sua direita. Elas ainda não tinham começado a virar as folhas. Ele tinha algumas horas antes da tempestade, de qualquer maneira. Ele correu os dedos pelos caules.
Fazia muito tempo que ele não se sentia assim — como se pudesse dedicar os pensamentos a outra coisa além de quando poderia dormir. Como se sua mente fosse um enorme turbilhão faminto. Como se qualquer coisa fosse possível, se ele apenas se atirasse nela com vontade. Era assim que havia se sentido antes de se decidir a ir para a Aglionby.
Mundo, estou chegando.
Ele lamentou não ter levado um baralho de cartas de tarô da Rua Fox, 300. Algo que Cabeswater pudesse usar para se comunicar mais facilmente com ele. Talvez mais tarde ele pudesse voltar para buscar. Agora... parecia mais urgente retornar para o lugar onde a linha ley era mais forte.
Eu serei suas mãos. Eu serei seus olhos.
Essa era a barganha que ele havia feito. E, em troca, ele podia sentir Cabeswater nele mesmo. Cabeswater não podia lhe oferecer olhos ou mãos. Mas isso era algo mais. Algo que ele quis nomear vida ou alma ou conhecimento.
Era um tipo antigo de poder.
Adam se distanciou mais e mais debaixo das nuvens de tempestade roxas cada vez maiores. Algo nele dizia ahhh e ahhh e ahhh de novo, aliviado repetidas vezes, e então ele era Adam novamente, Adam e algo mais, e estava sozinho e não precisava se preocupar em machucar ou desejar mais ninguém.
Ele caminhou pelo regato minúsculo que costumava levar a Cabeswater e que agora levava a somente mais campo. Ajoelhado, passou as mãos no fio de água.
Não havia ninguém para vê-lo, mas ele sorriu de qualquer maneira, um sorriso cada vez maior.
Porque a primeira vez que eles haviam estado naquele regato, Gansey estava segurando um leitor de frequência eletromagnética sobre a água e observando as luzes vermelhas que piscavam. Ele ficara tão empolgado com aquelas luzes — eles tinham encontrado algo, a máquina lhes havia dito que eles tinham encontrado algo!
E agora Adam o sentiu em suas mãos. Ele o sentiu em sua espinha. Ele podia vê-lo mapeado em seu cérebro. A linha ley viajava abaixo dele, ondas de energia, mas se desviava ali, submersa e conduzida através da água, viajando para cima, para a superfície. Era apenas um pequeno regato, apenas uma pequena rachadura no leito de rocha firme, apenas um pequeno vazamento.
Trovões ribombavam, lembrando a Adam da passagem do tempo. Ele se endireitou e seguiu o regato na direção da nascente, através do campo cada vez mais alto. A linha ley se fortaleceu dentro dele, acelerando o seu coração, mas ele seguiu em frente.
Cabeswater não estava ali agora, mas sua memória de caminhar através dela pela primeira vez era quase tão clara quanto experimentá-la novamente. Fora ali que eles precisaram escalar entre duas rochas para seguir o regato. Ali onde as árvores começavam a crescer em diâmetro, os grandes nós das raízes irrompendo do solo da floresta. Ali onde o musgo forrava os troncos.
E ali havia o pequeno lago e a árvore dos sonhos. O primeiro lugar em que Cabeswater havia se transformado para Gansey, e o primeiro lugar em que a magia havia verdadeiramente se manifestado para todos eles.
Ele hesitou. A visão da árvore dos sonhos gravada na mente. Gansey no chão, morrendo. Ronan, furioso de pesar, cuspindo as palavras em Adam: Está feliz agora, Adam ? Era isso que você queria, não era?
Isso não aconteceria agora. Ele havia mudado o futuro. Ele havia escolhido uma maneira diferente.
Trovões rolavam e estouravam ao longe. Com uma respiração profunda para criar coragem, Adam abriu caminho através da relva para onde a árvore dos sonhos estivera... estaria... ainda estava? Nenhuma visão lhe ocorreu, mas ele sentiu o pico de energia da linha ley debaixo dos seus pés.
Sim, era ali que ele precisava estar. Agachando-se, ele abriu a relva e pressionou as palmas contra o solo. Estava quente, como um corpo vivo. Ele fechou os olhos.
Adam sentiu o curso da linha ley estendendo-se para cada lado dele. Centenas de quilômetros para um lado, centenas de quilômetros para o outro. Havia explosões estelares distantes onde a linha cruzava com outras linhas, e, por um momento, ele ficou deslumbrado com elas. Com a possibilidade de maravilhas sem fim.
Glendower era milagre suficiente, mas, se havia um milagre em cada linha que ele sentia, eram milagres suficientes para uma vida inteira, se ao menos você tivesse paciência para procurar.
Ah, Gansey, ele pensou subitamente. Porque Gansey tivera paciência para procurar. E porque as coisas queriam que Gansey as encontrasse. Ele devia estar ali agora.
Não. Não funcionaria desse jeito se ele estivesse aqui. Você precisa estar sozinho para isso.
Adam tirou sua atenção de Gansey e daquelas interseções e se concentrou apenas na linha ley abaixo dele. Ele correu ao longo dela, seguindo os picos e os vales de energia.
Ali ela jorrava através de um rio subterrâneo. Escapava através de um leito de rocha firme sacudido por um terremoto. Estourava através de um poço. Explodia através de um transformador.
Não era de espantar que ela estivesse tão extenuada pelos sonhos. Era um cabo desgastado, a energia vazando em uma centena de pontos diferentes.
— Eu a sinto — ele sussurrou.
O vento sibilava através da relva em torno dele. Adam abriu os olhos.
Se ele pudesse reparar aqueles pontos, como a fita de um eletricista sobre um cabo, poderia torná-la forte o suficiente para trazer Cabeswater de volta.
Adam se levantou. Ele se sentia bem por ter identificado o problema. Essa sempre fora a parte mais difícil. Com um motor, com a escola, com a vida. Soluções eram fáceis, desde que você soubesse o que estava atrapalhando.
Cabeswater murmurou urgentemente. As vozes fizeram cócegas dentro dele e crepitaram no canto dos olhos.
Espere, ele pensou. Adam queria as cartas. Algo para concentrar os pensamentos no que Cabeswater estava tentando dizer. Não vou ser capaz de compreender. Espere até que eu possa compreender.
Quando ele olhou para trás, colina abaixo, viu uma mulher se aproximando. Ele protegeu os olhos com a mão. Em um primeiro momento, Adam achou que era uma das manifestações de Cabeswater. Certamente ela parecia fantástica e imaginária daquela distância — um grande cúmulo-nimbo de cabelo, um manto cinza, botas que subiam até o alto das pernas.
Mas então ele viu que ela tinha uma sombra e forma e massa, e que estava ligeiramente sem fôlego.
Persephone escalou até onde ele estava e então parou com as mãos nos quadris. Ela se virou em um círculo lento, recuperando o fôlego.
— Por que você está aqui? — ele lhe perguntou. Ela estava ali para levá-lo de volta? Para dizer que ele estava errado em ter tanta certeza?
Ela abriu um largo sorriso, uma expressão infantil, estranhamente travessa. Ele pensou que escárnio cruel havia sido aquela versão do espelho de Persephone, a terrível criatura-criança de seu ritual anterior. Nada parecida com aquele sussurro etéreo de uma pessoa na frente dele agora. Ela abriu o zíper da bolsa-borboleta e tirou um saco de seda preto de dentro. Era o tipo de tecido que você queria tocar, macio, cintilante e levíssimo.
Parecia a única coisa dentro da bolsa.
— Você partiu, Adam, antes que eu pudesse lhe dar isto — ela disse, oferecendo a sacola de seda menor.
Ele a aceitou, sentindo seu peso. O que quer que estivesse dentro, era algo vagamente quente, como se, assim como a colina, estivesse vivo.
— O que é isso?
Após perguntar, Adam pensou subitamente em como ela tomara o cuidado de dizer seu nome havia pouco. Poderia não querer dizer nada. Mas parecia que ela estava tentando lembrá-lo do que se tratava.
Adam. Adam Parrish.
Ele escorregou o conteúdo da sacola na outra mão. Uma palavra saltou à sua frente.
Mago.
Persephone disse:
— Minhas cartas de tarô.

Um comentário:

  1. O mundo fica estranho quando a Perséfone é a personagem mais normal do capítulo!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!