26 de junho de 2018

Capítulo 54

— Por que estamos aqui, cara? — perguntou Ronan. Seus olhos seguiram Motosserra enquanto ela andava a passos largos sobre o balcão. Ele a havia levado a tantos lugares que locais novos geralmente não a perturbavam por muito tempo, mas ela não ficaria feliz de verdade até que desse uma volta pelo ambiente. Ela fez uma pausa para tocar o bico em um pote de biscoitos com figuras de pássaros absolutamente encantador. — Tem mais malditos galos por aqui do que num filme do Hitchcock.
— Você está se referindo a Os pássaros? — perguntou Gansey. — Porque não me lembro de nenhuma galinha nele. Mas faz bastante tempo.
Eles estavam em uma confortável cozinha no porão da Pousada Vale Aprazível. Calla vasculhou os armários e as gavetas; sua versão da conferência do aposento de Motosserra, possivelmente. Ela já descobrira uma máquina de waffles e uma arma, e havia colocado as duas sobre a mesa redonda de café da manhã. Blue ficou no vão da porta mais distante, espiando ao redor para onde sua mãe tinha ido. Ronan presumiu que ela e Gansey deviam ter brigado; ela estava o mais distante possível dele. Ao lado de Ronan, Gansey ergueu o braço para limpar com a ponta dos dedos uma das vigas escuras expostas. Ele estava claramente desconcertado pelo que Maura havia lhe contado sobre Adam no caminho até ali.
Ganseys eram criaturas de hábito, e ele queria Adam ali, e ele queria Noah ali, e ele queria que todos gostassem dele, e ele queria estar no comando.
Ronan não fazia ideia do que queria. Ele conferiu o telefone. Ele se perguntou se Kavinsky realmente tinha três bolas. Ele se perguntou se Kavinsky era gay. Ele se perguntou se devia ir à festa do Quatro de Julho. Ele se perguntou para onde Adam tinha ido.
— Lynch — disse Gansey. — Você está me ouvindo?
Ele ergueu o olhar.
— Não.
Sobre o balcão, Motosserra rasgava tiras de um rolo de toalhas de papel. Ronan estalou os dedos para ela e, com um gorgolejo insolente, ela bateu asas do balcão para a mesa, as garras produzindo um arranhão e um estalo característicos quando pousou.
Ronan se sentiu abruptamente satisfeito com ela como uma criatura de sonhos. Ele nem chegara a pedi-la. Seu subconsciente só havia, desta vez, enviado algo bacana em vez de algo homicida.
Gansey perguntou a Calla:
— Por que nós estamos aqui?
Calla ecoou:
— É, Maura, por que nós estamos aqui?
Maura havia entrado pelo outro aposento; atrás dela Ronan viu de relance uma maleta cinza no canto de uma cama. Houve um ruído metálico de canos e de torneira aberta. Maura limpou o pó da palma das mãos e se juntou a eles na cozinha.
— Porque, quando o sr. Cinzento chegar aqui, eu quero que você o olhe nos olhos e o convença a não te raptar.
Gansey cutucou Ronan com o cotovelo.
Ronan ergueu o olhar bruscamente.
— Quem, eu?
— É, você — disse Maura. — O sr. Cinzento foi enviado aqui para buscar um objeto que permite ao proprietário tirar coisas de sonhos. O Greywaren. Como você sabe, esse é você.
Ele sentiu certa emoção com a palavra Greywaren.
Sim, sou eu.
Calla acrescentou:
— E, inacreditavelmente, caberá ao seu charme convencer o sr. Cinzento a ter piedade de você.
Ele sorriu terrivelmente para ela. Ela sorriu terrivelmente de volta. Ambos os sorrisos diziam: Saquei você.
Não havia nenhuma parte de Ronan que estivesse surpresa com aquela notícia. Parte dele, ele percebeu, estava surpresa que isso levara tanto tempo. Ele sentia que era sua responsabilidade provocá-la: haviam-lhe dito para não voltar ã Barns, e ele voltara. Seu pai lhe havia dito para não contar para ninguém sobre seus sonhos, e ele contara. Uma a uma, ele estava violando todas as regras da sua vida.
É claro que alguém estava olhando. É claro que eles o haviam encontrado.
— Ele não é o único que está procurando — disse Blue subitamente. — É? Por isso todos esses arrombamentos. — De maneira bastante inacreditável, ela tirou um canivete de mola rosa para pontuar sua declaração. Aquela faquinha era o aspecto mais chocante a respeito da conversa até o momento.
— Temo que não — respondeu Maura.
Assaltantes, pensou Ronan imediatamente.
Gansey disse:
— Eles são...
Ronan o interrompeu:
— Foi ele que bateu no meu irmão? Eu devia lhe comprar um cartão se foi ele.
— Isso importa? — perguntou Maura, quase ao mesmo tempo em que Calla perguntou:
— Você acha que o seu irmão contou alguma coisa para alguém?
— Tenho certeza que sim — disse Ronan sombriamente. — Mas não se preocupe. Nada do que ele contou é verdade.
Gansey assumiu o controle. Em sua voz, Ronan podia ouvir o alívio de que ele sabia o suficiente a respeito da situação para realmente fazê-lo. Ele perguntou se o sr. Cinzento realmente queria raptar Ronan, se o patrão dele sabia que o Greywaren estava definitivamente em Henrietta, se os outros que andavam pela cidade também sabiam.
Finalmente, ele perguntou:
— O que vai acontecer com o sr. Cinzento se ele não voltar com algo?
Maura apertou os lábios.
— Vamos apenas usar morte como uma versão curta das consequências.
Calla acrescentou:
— Mas, para fins de tomada de decisão, presuma que vai ser pior do que isso.
Blue murmurou:
— Ele pode levar Joseph Kavinsky.
— Se eles levarem aquele outro garoto — disse Calla —, vão voltar para buscar a cobra. — E acenou com o queixo na direção de Ronan. Então seus olhos piscaram na direção de Maura.
O Homem Cinzento estava parado no vão da porta atrás de Maura, com a maleta cinzenta em uma mão e a jaqueta cinzenta na outra. Ele largou as duas no chão e se endireitou.
Houve aquele silêncio pesado que às vezes acontece quando um assassino de aluguel entra em um aposento.
Era contra a natureza de Ronan parecer excessivamente interessado em qualquer coisa, mas ele não conseguia parar de encarar o Homem Cinzento. Era o homem da Barns, o homem que havia pegado a caixa quebra-cabeça. Ele jamais usaria as palavras assassino de aluguel para ele. Para Ronan, um assassino de aluguel era algo mais. Um segurança de boate. Um levantador de pesos. Um herói de filmes de ação. Aquele predador desconfiado não era nada disso. Sua constituição não impressionava, pura cinética despretensiosa, mas seus olhos...
Ronan estava subitamente temeroso dele. Ele temia o Homem Cinzento da mesma maneira que ele temia os horrores noturnos. Porque eles o tinham matado antes, e o matariam de novo, e ele se lembrava precisamente da dor de cada morte. Ele sentiu o temor em seu peito, e no rosto, e na nuca. Agudo e pungente, como uma chave de roda.
Motosserra escalou para o ombro de Ronan e se encolheu, com os olhos fixos no Homem Cinzento. Grasnou estridentemente, apenas uma vez.
De sua parte, o Homem Cinzento encarou de volta, com uma expressão cautelosa.
Quanto mais ele olhava para Ronan e Motosserra, mais seu cenho se franzia. E quanto mais ele olhava, mais Gansey se aproximava de Ronan, de maneira quase imperceptível.
Em determinado momento, aconteceu de o Homem Cinzento observar o espaço entre os dois em vez de Ronan.
Finalmente, o Homem Cinzento disse:
— Se eu não voltar com o Greywaren no Quatro de lulho, eles vão contar para o meu irmão onde eu estou, e ele vai me matar. E vai fazer isso muito lentamente.
Ronan acreditou nele de uma maneira que não acreditava na maioria das coisas na vida. Era real como uma memória. Aquele homem estranho seria torturado no banheiro de um dos motéis de Henrietta e então seria jogado em um canto e ninguém jamais procuraria por ele.
O Homem Cinzento não precisou contar para nenhum deles como seria mais fácil simplesmente levar Ronan para o seu patrão. E também não precisou contar para nenhum deles como seria simples fazer isso contra a vontade de Ronan.
Embora Calla estivesse ao lado da arma dele, que ela tirara do armário — agora Ronan entendia por quê —, Ronan não acreditava nela. Se a questão chegasse a eles contra o sr. Cinzento, ele achava que o sr. Cinzento venceria.
Era como ouvir os horrores noturnos vindo em seus sonhos. A inevitabilidade daquilo.
Muito delicadamente, Gansey disse:
— Por favor.
Maura suspirou.
— Irmãos — disse o Homem Cinzento. Ele não se referia a Declan ou a Matthew. No mesmo instante, ele perdeu as forças. — Eu não gosto de pássaros.
Então, após um momento:
— Não sou um sequestrador.
Maura lançou um olhar bastante significativo para Calla, que fingiu não ver.
— Você tem certeza que o seu irmão vai ser capaz de te encontrar? — perguntou Gansey.
— Tenho certeza que não vou poder voltar para casa novamente — disse o Homem Cinzento. — Eu não tenho muitas coisas lá, mas meus livros... Eu teria que viver me mudando por um tempo. Levei anos para despistá-lo antes. E, mesmo se eu for embora, isso não vai impedir os outros. Eles estão rastreando as anormalidades de energia em Henrietta, e, nesse instante, elas apontam diretamente para ele. — O Homem Cinzento olhou para Ronan.
Gansey, que parecera consternado com a ideia de que o Homem Cinzento tivesse de abandonar seus livros, franziu ainda mais o cenho.
— Você poderia sonhar um Greywaren? — Blue perguntou a Ronan.
— Não vou dar isso a mais ninguém — rosnou Ronan. Ele sabia que devia ser mais gentil, afinal eles estavam tentando ajudá-lo. — Isso está matando a linha ley. Vocês querem ver o Noah de novo? Eu vou parar. Mas o Kavinsky não. Seria como ficar parado do lado de um alvo gigante.
— Você pode mentir — sugeriu Calla. — Dê algo a eles e diga que é o Greywaren. Então deixe eles pensarem que não são inteligentes o bastante para descobrir como fazê-lo funcionar.
— Meu chefe — disse o Homem Cinzento — não é um homem compreensivo. Se um dia ele descobrisse ou suspeitasse de uma armadilha, ficaria muito feio para todos nós.
— O que eles fariam comigo? — perguntou Ronan. Com o Kavinsky? — Se você me entregasse?
— Não — disse Gansey, como se estivesse respondendo a uma questão inteiramente diferente.
— Não — concordou o Homem Cinzento.
— Não diga não — insistiu Ronan. — Me conte, cacete. Eu não disse que ia fazer nada. Só quero saber.
O Homem Cinzento levou a maleta até a mesa, depois a abriu e colocou a arma que estava dentro em cima das calças caprichosamente dobradas. Então a fechou.
— Ele não está interessado em pessoas, está interessado em coisas. Ele vai encontrar a coisa que faz você funcionar e vai tirar essa coisa de você. Ele vai colocá-la numa caixa de vidro com um rótulo, e, quando os convidados dele tiverem bebido vinho suficiente, vai levá-los lá embaixo, onde você estiver, e vai mostrar para eles aquela coisa que estava dentro de você. E então eles vão admirar as outras coisas, nas outras caixas ao seu lado.
Ao ver que Ronan não se intimidou — o Homem Cinzento não tinha como saber que Ronan preferiria fazer quase tudo, menos se intimidar —, ele continuou:
— É possível que ele abrisse uma exceção para você. Algo como te colocar inteiro na caixa de vidro. Ele é um curador. Ele faz o que for preciso pela coleção dele.
Ronan ainda assim não se intimidou.
O Homem Cinzento disse:
— Ele me mandou matar o seu pai da maneira mais suja possível e deixar o corpo onde o seu irmão mais velho o encontrasse. Para que ele confessasse onde estava o Greywaren.
Por um momento, Ronan não se mexeu. Ele levou todo esse tempo para perceber que o Homem Cinzento havia matado Niall Lynch. A mente de Ronan estava perfeitamente vazia. Então ele fez o que precisava ser feito: se jogou sobre o Homem Cinzento.
Motosserra foi lançada para cima.
— Ronan! — gritaram aproximadamente três vozes ao mesmo tempo.
O Homem Cinzento soltou um pequeno uf com a ferocidade do impacto. Três ou quatro socos o atingiram. Era difícil dizer se aquilo ocorrera pela habilidade de Ronan ou pela permissividade do Homem Cinzento. Então o Homem Cinzento jogou Ronan suavemente sobre a mesa do café da manhã.
— Sr... Cinzento! — gritou Maura, esquecendo seu nome falso no calor do momento.
Motosserra se lançou com tudo na direção do rosto do Homem Cinzento. Quando ele baixou os olhos para ela, Ronan acertou o estômago do Homem Cinzento. Ele conseguiu de alguma maneira incluir diversos palavrões no golpe. Tentando se equilibrar, o Homem Cinzento bateu a nuca contra o batente da porta atrás de si.
— Você só pode estar brincando! — Era Calla. — Ei, você! O bonito! — Ela esquecera o nome de Gansey no calor do momento. — Pare ele!
— Acho que isso é justificado — respondeu Gansey.
O Homem Cinzento tinha a cabeça de Ronan em uma gravata indiferente.
— Eu compreendo — ele disse a Ronan. — Mas não foi pessoal.
— Foi. Para. Mim.
Ronan enfiou um punho em um dos joelhos do Homem Cinzento e o outro caprichosamente em seus testículos. O Homem Cinzento o largou. O piso subiu e acertou a têmpora de Ronan de maneira bastante abrupta. Houve uma pausa, preenchida apenas com o ruído de duas pessoas ofegantes.
Com a voz abafada pelo azulejo pressionado contra o rosto, Ronan disse:
— Não importa o que você fizer por mim, eu nunca vou te perdoar.
Dobrado ao meio, o Homem Cinzento se apoiou no batente da porta. Ele respirava com dificuldade.
— Eles nunca perdoam.
Ronan se levantou com dificuldade. Blue entregou Motosserra para ele. O Homem Cinzento ficou de pé. Maura lhe passou a jaqueta.
O Homem Cinzento limpou a mão na calça. Ele olhou para Motosserra e então disse:
— No Quatro de Julho, a não ser que eu pense em uma ideia melhor, vou ligar para o meu chefe e dizer a ele que estou com o Greywaren.
Todos olharam para ele.
— E então — disse o Homem Cinzento —, direi que vou ficar com ele para mim e que ele não pode tê-lo.
Houve uma longa, longa pausa.
— E depois? — perguntou Maura.
O Homem Cinzento olhou para ela.
— Eu corro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!