26 de junho de 2018

Capítulo 52


Naquela noite, após Gansey ter ido se encontrar com Blue, Ronan pegou uma das pílulas verdes de Kavinsky do seu jeans ainda não lavado e voltou para a cama.
Sentado no canto, ele estendeu a mão para Motosserra, mas ela o ignorou. Ela havia roubado um biscoito de queijo e estava muito ocupada empilhando coisas em cima dele para ter certeza de que Ronan jamais o tomaria de volta. Embora ela não parasse de olhar de relance para aquela mão estendida, ela fingia não vê-la enquanto acrescentava uma tampa de garrafa, um envelope e uma meia à pilha que escondia o biscoito.
— Motosserra — ele disse. Não bruscamente, mas como se quisesse chamá-la mesmo.
Reconhecendo seu tom, ela voou até a cama. Geralmente, ela não gostava de receber carinho, mas virou a cabeça para a esquerda e para a direita enquanto Ronan passava o dedo suavemente nas penas pequeninas de cada lado do bico. Quanta energia fora necessária para a linha ley criar essa ave?, ele se perguntou. Era necessário mais energia para trazer uma pessoa? Um carro?
O telefone de Ronan vibrou. Ele o virou para ler a mensagem que acabara de chegar:
sua mãe me ligou após passarmos o dia juntos
Ronan deixou o telefone cair de volta na colcha. Normalmente, ver o nome de Kavinsky acender o seu telefone lhe causava uma estranha sensação de urgência, mas não naquela noite. Não após passar tantas horas com ele. Não após sonhar o Camaro.
Ele precisava processar tudo isso primeiro.
me pergunte qual foi meu primeiro sonho
Motosserra bicou irritadamente o telefone que vibrava. Ela havia aprendido muito com Ronan. Ele rolou a pílula verde na mão. Ele não tiraria nada dos seus sonhos naquela noite. Sem saber o que eles faziam com a linha ley. Mas isso não significava que ele não pudesse escolher o que sonhar.
minha falsificação favorita é o Prokopenko
Ronan colocou a pílula de volta no bolso. Ele se sentiu aquecido e sonolento e simplesmente... bem. Pelo menos dessa vez, ele se sentia bem. O sono não parecia uma arma enfiada em seu cérebro. Ele sabia que podia escolher sonhar com a Barns agora, se tentasse, mas ele não queria sonhar com algo que existia neste mundo.
vou te comer vivo, cara
Ronan fechou os olhos. Ele pensou: Meu pai. Meu pai. Meu pai.
E, quando abriu os olhos de novo, as velhas árvores vagavam na direção do céu, escuro e cheio de estrelas. Tudo cheirava a fumaça de nogueira e a luxo, sementes de capim e desinfetante de limão.
E havia seu pai, sentado no BMW carvão que ele havia sonhado todos aqueles anos atrás. Ele era uma imagem de Ronan, e também de Declan, e também de Matthew. Um belo diabo com um olho da cor de uma promessa e o outro da cor de um segredo.
Quando viu Ronan, ele baixou a janela.
— Ronan — disse.
Soou como se ele quisesse dizer: Finalmente.
— Pai — disse Ronan.
Ele ia dizer: Eu senti a sua falta. Mas ele sentia a falta de Niall Lynch desde que o conhecera.
Um largo sorriso se abriu no rosto de seu pai. Ele tinha o maior sorriso do mundo, e o havia dado para o seu filho mais novo.
— Você descobriu — ele disse, e levou um dedo aos lábios. — Lembra?
A música derivou para fora da janela aberta do BMW que havia sido de Niall Lynch, mas que era de Ronan agora. Um trecho sublime de uma canção tocada por gaitas irlandesas, dissipando-se nas árvores.
— Eu sei — respondeu Ronan. — Me diz o que você quis dizer no testamento.
T’Libre vero-e ber nivo libre n’acrea.
Este testamento é válido até que outro documento mais recente seja criado.
— É uma brecha — disse seu pai. — Uma brecha para ladrões.
— Isso é mentira? — perguntou Ronan.
Porque Niall Lynch era o maior mentiroso de todos, e havia enfiado tudo isso no filho mais velho. Não havia muita diferença entre uma mentira e um segredo.
— Eu nunca minto para você.
Seu pai ligou o BMW e exibiu seu sorriso lento para Ronan. Que sorriso ele tinha, que olhos ferozes, que criatura ele era. Ele havia sonhado para si toda uma vida e uma morte.
— Eu quero voltar — disse Ronan.
— Então siga em frente — disse seu pai. — Agora você sabe como.
E Ronan sabia. Porque Niall Lynch era um fogo florestal, um mar encrespando, uma cortina fechando, uma sinfonia intensa, um catalisador com planetas dentro de si.
E havia dado tudo isso para o filho do meio.
Niall Lynch estendeu a mão. Ele apertou a mão de Ronan na sua. O motor estava subindo a rotação; mesmo enquanto segurava a mão de Ronan, seu pé já estava no acelerador, a caminho do próximo lugar.
— Ronan — ele disse.
E soou como se ele quisesse dizer:
Acorde.


Após a casa ter ficado silenciosa, Blue deitou na cama e puxou o cobertor sobre o rosto. O sono não estava em lugar nenhum. Sua mente estava cheia da expressão deprimida de Adam, do Camaro inventado de Ronan e da respiração de Gansey em sua bochecha.
Sua mente pegou a memória da hortelã e a transformou em uma memória relacionada, uma que Gansey não tinha ainda: da primeira vez em que ela o vira. Não no Nino’s, quando ele a convidou para sair em nome de Adam. Mas naquela noite no átrio da igreja, quando os espíritos dos mortos do futuro passaram caminhando. Um ano — esse era o tempo mais longo que qualquer um daqueles espíritos tinha. Eles estariam todos mortos antes da próxima véspera do Dia de São Marcos.
Ela tinha visto seu primeiro espírito: um garoto com um blusão da Aglionby, os ombros escuramente respingados de chuva.
Qual é o seu nome?
Gansey.
Ela não podia tornar isso uma inverdade.
No andar de baixo, a voz de Calla subitamente cresceu, irritada.
— Bem, eu mesma vou quebrar essa maldita coisa se encontrar você usando novamente.
— Tirana! — Maura gritou de volta.
A voz de Persephone murmurou amigavelmente, baixa demais para ser ouvida.
Blue fechou os olhos, apertados. Ela viu o espírito de Gansey. Uma mão fechada na terra. E sentiu sua respiração. As mãos dele pressionadas em suas costas.
O sono não vinha.
Alguns minutos amorfos mais tarde, Maura tamborilou os dedos levemente na porta de Blue.
— Dormindo?
— Sempre — Blue respondeu.
Sua mãe subiu na cama estreita. Ela sacudiu o travesseiro até que Blue liberou alguns centímetros dele. Então ela se deitou atrás de Blue, mãe e filha como colheres em uma gaveta. Blue fechou os olhos novamente, inalando o cheiro suave de cravo de sua mãe e da hortelã enfraquecida de Gansey.
Após um momento, Maura perguntou:
— Você está chorando?
— Só um pouco.
— Por quê?
— Tristeza geral.
— Você está triste? Alguma coisa ruim aconteceu?
— Ainda não.
— Ah, Blue. — Sua mãe a abraçou, aspirou por entre o cabelo, na base do pescoço de Blue. Blue pensou no que Gansey havia dito, sobre ser rico de amor. E pensou em Adam, ainda apagado no sofá no andar de baixo. Se ele não tinha ninguém para abraçá-lo quando estava triste, ele podia ser perdoado por deixar a ira dominá-lo?
— Você está chorando? — perguntou Blue.
— Só um pouco — disse sua mãe, e inspirou ranhosa e inconvenientemente.
— Por quê?
— Tristeza geral.
— Você está triste? Alguma coisa ruim aconteceu?
— Ainda não. Faz muito tempo.
— Uma coisa é o oposto da outra — disse Blue.
Maura fungou novamente.
— Na verdade não.
Blue secou os olhos com a fronha do travesseiro.
— Lágrimas não nos definem.
Sua mãe secou os olhos no ombro da camiseta de Blue.
— Você está certa. O que nos define?
— Ação.
Maura riu ternamente, sem fazer ruído.
Como seria terrível, pensou Blue, sua mente em Adam novamente, não ter uma mãe que te amasse.
— Sim — ela concordou. — Como você é sábia, Blue.


Do outro lado de Henrietta, o Homem Cinzento atendeu o telefone. Era Greenmantle.
Sem nenhum preâmbulo em particular, ele disse:
— Dean Allen.
O Homem Cinzento, telefone em uma mão, livro na outra, não respondeu imediatamente. Ele largou sua edição gasta de enigmas anglo-saxões virada para baixo na mesa de apoio. A televisão tagarelava ao fundo; um espião encontrava outro em uma ponte. Eles estavam trocando reféns. Eles haviam sido orientados a vir sozinhos. Eles não tinham vindo sozinhos.
Estava levando um período inesperadamente logo para o Homem Cinzento registrar o significado das palavras de Greenmantle. Então, uma vez que elas haviam sido assimiladas, ele levou mais tempo ainda para compreender por que Greenmantle as estava dizendo.
— Isso mesmo — disse Greenmantle. — O mistério não existe mais. Não foi tão difícil descobrir quem você é. No fim das contas, a poesia anglo-saxônica é um campo muito restrito. Mesmo em nível universitário. E você sabe como me saio bem com universitários.
O Homem Cinzento não fora Dean Allen por muito tempo. Abandonar uma identidade era mais difícil do que se poderia imaginar, mas o Homem Cinzento era mais paciente e devotado que a maioria das pessoas. Normalmente, a pessoa trocava uma identidade por outra, mas o Homem Cinzento não queria ser ninguém. Em parte alguma.
Ele tocou a lombada gasta do livro de enigmas.

ic eom wrcetlic wiht on gewin sceapen

Greenmantle acrescentou:
— Então, eu o quero.
(Sou algo belo, moldado para a guerra.)
— Eu não o tenho.
— Claro, Dean, claro.
— Não me chame assim.
nelle ic unbunden cenigum hy ran
ny mpe searosceled
— Por que não? É o seu nome, não é?
(Sem amarras, não obedeço a homem algum; apenas quando habilmente atado...) O Homem Cinzento não disse nada.
— Então você não vai mudar a sua história, Dean? — perguntou Greenmantle. — E mesmo assim você vai continuar a atender as minhas ligações. Então isso quer dizer que você sabe onde ele está, mas não o tem ainda.
Por muitos anos, ele havia enterrado aquele nome. Dean Allen não deveria existir.
Havia uma razão para ele ter desistido.
— Vou lhe dizer uma coisa — disse Greenmantle. — Vou lhe dizer uma coisa. Você encontra o Greywaren e me liga no Quatro de Julho com o número da reserva do seu voo para cá. Ou eu conto para o seu irmão onde você está.
Segura firme, Dean.
A lógica abandonou o Homem Cinzento. Em voz baixa, ele disse:
— Eu lhe contei sobre ele confidencialmente.
— Eu paguei você confidencialmente. Parece que ele está ansioso em saber onde você está — disse Greenmantle. — Nós batemos um papo, Dean. Ele disse que perdeu contato com você no meio de uma conversa que ele gostaria de terminar.
O Homem Cinzento desligou a televisão, mas vozes ainda sussurravam ao fundo.
— Dean — disse Greenmantle. — Você está aí?
Não. Não realmente. A cor estava sumindo das paredes.
— Estamos de acordo?
Não, na verdade. Uma arma não faz acordos com a mão que a segura.
— Dois dias são mais do que suficientes, Dean — disse Greenmantle. — Nos vemos do outro lado.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!