26 de junho de 2018

Capítulo 51

Blue havia realmente se cortado.
Após Adam ter ido à sala de leitura, ela havia aberto o canivete de mola para experimentar e ele havia condescendentemente a atacado. Era só um arranhão, na verdade. Mal exigia um band-aid, mas ela havia colocado um mesmo assim.
Ela não se sentia como Blue Sargent, super-heroína, ou Blue Sargent, marginal, ou Blue Sargent, durona.
Talvez ela não devesse ter contado a verdade.
Embora tivessem se passado horas desde a briga, seu coração ainda estava irrequieto. Como se não estivesse ligado a nada e, toda vez que batesse, sacudisse ruidosamente a cavidade do peito. Ela continuava repassando as palavras deles.
Ela não devia ter perdido a paciência; ela devia ter contado a ele logo no início; ela devia...
Qualquer coisa menos o que aconteceu.
Por que eu não podia ter me apaixonado por ele?
Adam estava dormindo agora, largado de atravessado no sofá, os lábios abertos em uma exaustão desinibida. Persephone havia informado a Blue que esperava que ele dormisse por dezesseis a dezoito horas após o ritual, e que ele poderia experimentar uma ligeira náusea ou vômito assim que acordasse. Maura, Persephone e Calla se sentaram à mesa da cozinha, juntas, para debater. De vez em quando, Blue ouvia trechos da conversa: “devia ter feito isso mais cedo” e “mas ele precisava aceitar!”.
Ela olhou para ele de novo. Adam era bonito e gostava dela e, se ela não tivesse lhe contado a verdade, poderia ter saído com ele como uma garota normal e até o beijado sem se preocupar se isso o mataria.
Blue parou junto à porta da frente, a cabeça encostada na parede.
Mas ela não queria isso. Queria algo mais.
Talvez não haja nada mais!
Talvez ela saísse para uma caminhada, apenas ela e seu canivete de mola rosa. Eram um bom par. Ambos incapazes de se abrir sem machucar alguém. Ela não sabia para onde ir, no entanto.
Então subiu lentamente até a sala de leitura, sem fazer ruído, para não despertar Adam nem alertar Orla. Pegou o telefone e ouviu para ter certeza que ninguém estava tendo uma experiência mediúnica do outro lado. Sinal de linha.
Ela ligou para Gansey.
— Blue? — ele disse.
Apenas sua voz. O coração dela se firmou. Não completamente, mas o suficiente para parar de palpitar tanto. Ela fechou os olhos.
— Me leva para algum lugar?
Eles pegaram o Pig novo em folha, que realmente parecia idêntico ao último, até o cheiro de gasolina e o arranque tossindo do motor. O banco do passageiro era a mesma caçamba de vinil detonado que fora antes. E os faróis na estrada à frente eram os mesmos feixes idênticos de luz dourada e fraca.
Mas Gansey estava diferente. Embora usasse sua calça cáqui de sempre e seus mocassins idiotas, ele estava usando uma camiseta branca, sem colarinho, e os óculos de aro fino. Aquele era o seu Gansey favorito, o Gansey acadêmico, sem nenhum indício da Aglionby. No entanto, havia algo terrível a respeito do modo como aquele Gansey a fazia se sentir naquele instante.
Quando ela entrou, ele perguntou:
— O que aconteceu, Jane?
— O Adam e eu brigamos — ela disse. — Eu contei para ele. Não quero falar sobre isso.
Ele engatou a marcha do carro.
— Você quer falar sobre algo?
— Só se não for sobre ele.
— Você sabe aonde quer ir?
— Para algum lugar que não seja aqui.
Então eles dirigiram para fora da cidade e ele contou a ela sobre Ronan e Kavinsky.
Quando fez isso, Gansey continuou dirigindo para as montanhas, na direção de estradas cada vez mais estreitas, e lhe contou sobre a festa e o clube do livro e os sanduíches de pepino orgânico.
O motor do Camaro rosnava, ecoando no barranco íngreme ao lado da estrada. Os faróis iluminavam apenas até a próxima curva. Blue levantou as pernas e as envolveu com os braços. Descansando o rosto nos joelhos, ela observou Gansey trocar as marchas e olhar de relance para o espelho retrovisor e então para ela.
Ele lhe contou sobre os pombos e sobre Helen. Ele lhe contou tudo, exceto sobre Adam. Era como descrever um círculo sem jamais dizer a palavra.
— Tudo bem — ela disse finalmente. — Você pode falar dele agora.
Houve um silêncio no carro — bem, menos ruído. O motor rugia e o ar-condicionado anêmico jogava suspiros espasmódicos sobre ambos.
— Ah, Jane — ele disse subitamente. — Se você estivesse lá quando recebemos a ligação dizendo que ele estava andando a esmo na estrada, você teria... — Ele deixou a frase inacabada antes que ela ficasse sabendo o que teria feito. E então, de repente, ele se recompôs. — Ha! O Adam conversa com árvores, o Noah fica reencenando o próprio assassinato e o Ronan bate e então faz carros novos para mim. Qual é a novidade com você? Algo terrível, imagino?
— Você me conhece — disse Blue. — Sempre sensata.
— Como eu — concordou Gansey pretensiosamente, e ela riu, encantada. — Uma criatura de prazeres simples.
Blue tocou o botão do rádio, mas não o ligou. Ela baixou os dedos.
— Eu me sinto péssima pelo que disse para ele.
Gansey subiu por uma estrada mais estreita ainda. Poderia ser o acesso da casa de uma pessoa. Era difícil distinguir nessas montanhas, especialmente após escurecer. Os insetos nas árvores coladas neles trinavam, mais altos que o motor.
— O Adam se matou pela Aglionby — ele disse subitamente. — E para quê? Pela educação?
Ninguém ia para a Aglionby pela educação.
— Não só isso — ela disse. — Prestígio? Oportunidade?
— Mas talvez ele nunca tenha tido uma chance. Talvez o sucesso esteja nos genes.
Algo mais.
— Essa não é uma conversa que eu gostaria de ter neste momento.
— O quê? Ah... Não foi isso que eu quis dizer. Eu quis dizer que eu sou rico...
— Não está ajudando.
— Eu sou rico de apoio. Você também. Você cresceu amada, não foi?
Ela nem precisou pensar antes de concordar.
— Eu também — disse Gansey. — Nunca duvidei disso. Não cheguei nem a pensar em duvidar. E até o Ronan cresceu assim também, quando isso importava, quando ele estava se tornando a pessoa que ele era. A idade da razão, ou o que quer que seja. Pena que você não o conheceu antes. Mas crescer ouvindo que você pode fazer qualquer coisa... Eu costumava pensar, antes de conhecer você, que a questão era o dinheiro. Tipo, eu achava que a família do Adam era pobre demais para amar.
— Ah, mas já que nós somos pobres, mas felizes — começou Blue, irritada. — Os camponeses alegres...
— Não, por favor, Jane — ele interrompeu. — Você sabe o que eu quero dizer. Estou dizendo que fui um idiota, que eu estava enganado. Achei que o problema estava em fazer tanto esforço para sobreviver que não sobrava tempo para ser um bom pai. Obviamente, o problema não é esse. Porque você e eu, nós dois somos... ricos de amor.
— Imagino que sim — disse Blue. — Mas isso não vai pagar minha faculdade comunitária.
— Faculdade comunitária! — ecoou Gansey. Sua ênfase chocada ao dizer comunitária machucou Blue mais do que ela conseguiria externar. Ela seguiu silenciosa e miseravelmente no banco do passageiro, até que ele a olhou de relance. — Com certeza você pode conseguir uma bolsa.
— Ela não cobre os livros.
— Isso não passa de uns duzentos, trezentos dólares por semestre. Certo?
— Quanto você acha que eu ganho por turno no Nino’s, Gansey?
— Eles não dão um auxílio para cobrir isso?
A frustração cresceu dentro dela. Tudo que havia acontecido aquele dia parecia prestes a explodir.
— Ou eu sou uma idiota ou eu não sou, Gansey. Decida-se! Ou eu sou inteligente o bastante para conseguir uma bolsa, ou eu sou burra demais para considerar as opções e não vou conseguir uma bolsa de qualquer jeito!
— Por favor, não fique brava.
Ela pousou a cabeça na porta.
— Desculpa.
— Meu Deus — disse Gansey. — Eu queria que essa semana terminasse logo.
Por alguns minutos, eles dirigiram em silêncio: subindo, subindo, subindo.
Blue perguntou:
— Você chegou a conhecer os pais dele?
Em uma voz baixa, estranha, Gansey disse:
— Eu odeio eles. — E em seguida: — Os machucados com que ele ia para a escola. Quem ele teve para lhe dar amor na vida? Algum dia?
Na mente de Blue, Adam pressionava aquele punho contra a parede do seu quarto.
Tão suavemente. Embora cada músculo estivesse enrijecido, querendo destruí-la.
— Olha ali — ela disse.
Gansey seguiu o seu olhar. As árvores de um lado da estrada haviam caído para fora do campo de visão e, de súbito, eles podiam ver que a trilha de cascalho onde estavam se agarrava à própria encosta da montanha, subindo sinuosa como ouropel. Todo o vale subitamente se estendeu abaixo deles. Embora centenas de estrelas já estivessem visíveis, o céu ainda era de um azul profundo, um toque caprichoso de um pintor idealista. As montanhas do outro lado do vale, no entanto, estavam escuras como a noite, tudo que o céu hão era. Escuras, frias e silenciosas. E, entre elas, aos pés das montanhas, estava Henrietta, cravejada de luzes brancas e amarelas.
Gansey deixou o Pig rolar até parar. Ele puxou o freio de mão. Ambos olharam pela janela do motorista.
Era o tipo de beleza feroz e silenciosa, o tipo que não se deixa admirar. O tipo de beleza que apenas doía, sempre.
Gansey suspirou, um suspiro pequeno, baixo e entrecortado, como se não quisesse deixá-lo escapar. Ela deslocou o olhar da janela para a lateral da cabeça dele e o observou contemplar. Ele pressionou o polegar no lábio inferior — aquele era Gansey, aquele gesto — e então engoliu. Era assim, ela pensou, que ela se sentia quando olhava para as estrelas, quando caminhava em Cabeswater.
— O que você está pensando? — perguntou Blue.
Ele não respondeu imediatamente. E, quando respondeu, manteve os olhos fixos na paisagem.
— Eu estive no mundo todo. Mais de um país para cada ano que vivi. Europa e América do Sul e... as montanhas mais altas e os rios mais largos e os vilarejos mais bonitos. Não estou dizendo isso para me exibir. Só estou dizendo porque estou tentando compreender como posso ter ido a tantos lugares e ainda assim este ser o único lugar em que eu me sinto em casa. Este é o único lugar a que eu pertenço. E porque estou tentando compreender como, se eu pertenço a ele, isso...
— ... dói tanto — terminou Blue.
Gansey se virou para ela com um brilho no olhar. Ele apenas anuiu.
Por que, ela pensou, agoniada, não podia ter sido o Adam?
— Se você descobrir, me conta? — disse ela.
Ele vai morrer, Blue, não...
— Não sei se é para a gente descobrir — ele disse.
— Ah, a gente vai descobrir — Blue afirmou com uma ferocidade a mais, tentando abafar o sentimento que crescia dentro dela. — Se você não descobrir, eu descubro sozinha.
— Se você descobrir primeiro, me conta?
— Com certeza.
— Jane, nessa luz — ele começou —, você... Jesus. Jesus. Preciso colocar a cabeça no lugar.
Ele subitamente escancarou a porta e saiu, segurando no teto para se impulsionar para fora mais rápido. Bateu a porta e então deu a volta no carro por trás, passando a mão como uma escova pelo cabelo.
O carro estava absolutamente silencioso. Ela ouviu o zunido dos insetos noturnos, o canto dos sapos e os trinados lentos de pássaros que pareciam não ter nada melhor para fazer. De vez em quando, o motor que esfriava soltava um breve suspiro como uma respiração. Gansey não voltou.
Tateando no escuro, ela empurrou a porta e a abriu. Blue o encontrou encostado na traseira, os braços cruzados sobre o peito.
— Desculpe — disse Gansey, sem olhar para ela enquanto Blue se encostava o seu lado no carro. — Aquilo foi muito grosseiro.
Blue pensou em algumas coisas para responder, mas não conseguiu dizer nenhuma delas em voz alta. Ela sentia como se um dos pássaros noturnos tivesse entrado nela. Ele se movia às cegas toda vez que ela respirava.
Ele vai morrer; isso vai doer...
Mas ela tocou o pescoço dele, bem onde seu cabelo batia de maneira uniforme, acima da gola da camiseta. Ele não se mexeu. A pele dele estava quente, e Blue pôde sentir muito, muito de leve o pulso dele sob o polegar. Não era como quando ela estava com Adam. Ela não precisava adivinhar o que fazer com as mãos.
Elas sabiam. Era assim que devia ter sido com Adam. Menos uma atuação e mais uma conclusão inevitável.
Ele fechou os olhos e se inclinou, só um pouco, de maneira que a palma dela ficou aberta sobre o seu pescoço, os dedos espalhados da orelha até o ombro.
Tudo em Blue estava carregado. Diga algo. Diga algo.
Gansey levantou a mão de Blue suavemente de sua pele, segurando-a formalmente como numa dança. Então a encostou em sua boca.
Blue congelou. Absolutamente imóvel. O coração dela não batia. Ela não piscava. Ela não podia dizer “Não me beije”. Ela não podia nem formar o não.
Ele apenas encostou o rosto e o canto da boca no nó dos dedos dela e então devolveu a mão de Blue.
— Eu sei — ele disse. — Eu não faria isso.
A pele de Blue ardia com a memória da boca de Gansey. O pássaro se debatendo em seu coração estremeceu e estremeceu novamente.
— Obrigada por lembrar.
Ele olhou de volta para o vale.
— Ah, Jane.
— Ah, Jane o quê?
— Ele não queria que eu fosse, sabia? Ele me disse para não tentar trazer você até a mesa aquela noite no Nino’s. Eu tive de convencer ele. E então fiz aquele papelão... — Gansey se virou para ela. — O que você está pensando?
Ela apenas olhou para ele. Que eu saí com o garoto errado. Que eu destruí o Adam hoje sem nenhum motivo. Que eu não sou nem um pouco sensata...
— Achei que você era um imbecil.
Galantemente, ele disse:
— Graças a Deus pela conjugação no passado. — Então: — Eu não posso... A gente não pode fazer isso com ele.
— Eu não sou uma coisa. Para se ter. — Estava atravessado na garganta dela.
— Não. Por Deus. É claro que não. Mas você sabe o que eu quero dizer.
Ela sabia. E ele estava certo. Eles não podiam fazer isso com ele. Ela não devia fazer isso consigo mesma, de qualquer maneira. Mas isso estraçalhava seu peito, sua boca, sua cabeça.
— Eu queria que você pudesse ser beijada, Jane — ele disse. — Porque eu imploraria por apenas um beijo seu. Debaixo disso tudo. — Ele acenou na direção das estrelas. — E então jamais diríamos uma palavra sobre isso novamente. Esse poderia ser o fim da história.
Eu quero algo mais.
Ela disse:
— A gente pode fingir. Só uma vez. E então jamais diremos uma palavra sobre isso novamente.
Que pessoa estranha e mutante ele era. O Gansey que se virou para ela agora estava a um mundo de distância do garoto metido que ela conhecera pela primeira vez. Sem hesitar, ela estendeu os braços em torno do pescoço dele.
Quem era essa Blue? Ela se sentiu maior que o seu corpo. Alta como as estrelas. Ele se inclinou na direção dela — o coração de Blue aos saltos de novo — e pressionou a bochecha na dela. Seus lábios não tocaram a pele de Blue, mas ela sentiu a respiração dele, quente e irregular, em seu rosto. Os dedos de Gansey se abriram, largos, de cada lado de suas costas. Os lábios de Blue estavam tão próximos do queixo dele que ela sentiu o indício de uma ponta de barba. Era hortelã e memórias e o passado e o futuro, e ela sentiu como se tivesse feito isso antes e já desejasse fazer novamente.
Ah, socorro, ela pensou. Socorro, socorro, socorro.
Gansey se afastou e disse:
— E agora não vamos dizer uma palavra sobre isso novamente.

4 comentários:

  1. AI MEU DEUS, SOCORRO
    Isso é horrível, eles não podem se beijar e eu passo a maioria dos livros da vida esperando o casal se beijar, af

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  2. Então vai ficar sempre nisso? Poxaaa! #decepcionada

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  3. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
    Não sei lidar com isso, na boa não sei

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Boa leitura, E SEM SPOILER!