26 de junho de 2018

Capítulo 50

Persephone lhe serviu uma torta. Era de noz-pecã, e ela a preparara, e ele aceitá-la não era uma escolha dele.
Maura franziu o cenho para ele.
— Você tem certeza que esse é o jeito certo, P? Bom, você é quem sabe...
— Às vezes — admitiu Persephone. — Venha, Adam. Vamos para a sala de leitura. A Blue pode vir com você. Mas vai ser muito pessoal.
Ele não havia percebido que Blue estava ali. Adam manteve a cabeça baixa. Havia um arranhão na mão dele desde a caminhada pela rodovia, e ele examinou silenciosamente a pele nas bordas.
— O que está acontecendo? — perguntou Blue.
Persephone acenou com a mão, como se fosse muito difícil explicar.
Maura disse:
— Ela está equilibrando o lado de dentro dele com o lado de fora. Fazendo as pazes com Cabeswater, sim?
Persephone anuiu.
— Por aí.
— Vou com você, se você quiser — disse Blue.
Todos os rostos se viraram para ela.
Se ele fosse sozinho, não passaria disso: Adam Parrish.
De certa maneira, sempre fora assim. Às vezes o cenário mudava. Às vezes o tempo estava melhor.
Mas, no fim das contas, tudo que ele tinha era isso: Adam Parrish.
Ele tornou as coisas mais fáceis dizendo para si mesmo: É só a sala de leitura.
Adam sabia que não era verdade. Mas tinha a forma da verdade.
— Eu gostaria de ir sozinho — ele disse em voz baixa. E não olhou para ela.
Persephone se pôs de pé.
— Traga sua torta.
Adam levou a torta.
A sala de leitura era mais escura que o resto da casa, iluminada apenas por velas quadradas, reunidas no centro da mesa de leitura. Adam colocou o prato sobre a mesa.
Persephone fechou a porta atrás de si.
— Prove um pedaço da torta.
Adam provou um pedaço da torta.
O mundo entrou em foco, apenas um pouquinho.
Com a porta fechada, a sala cheirava a rosas após o cair da noite e a fósforo recém-riscado. E, com as luzes apagadas, era estranhamente difícil dizer qual o tamanho da sala. Embora Adam conhecesse bem as dimensões minúsculas dela, parecia enorme agora, como uma caverna subterrânea. As paredes pareciam distantes e irregulares, o espaço engolindo os sons da respiração deles e os movimentos das cartas.
Adam pensou: Eu poderia parar agora.
Mas era só a sala de leitura. Era apenas um aposento que deveria ter sido uma sala de jantar. Nada mudaria ali.
Adam sabia que nada daquilo era verdade, mas era mais fácil fingir que era.
Persephone escolheu uma moldura da parede. Adam só teve tempo de ver que era a fotografia de uma pedra em um campo acidentado, e então ela a colocou com o vidro para cima sobre a mesa na frente dele. No escuro e à luz das velas, a imagem desapareceu. Tudo que se podia ver era o reflexo do vidro; subitamente ele era uma piscina ou um espelho. A luz da vela torcia e girava no vidro, de maneira um tanto diferente da luz da vela na realidade. Ele sentiu o estômago revirar.
— Você deve sentir — disse Persephone do outro lado da mesa. Ela não se sentou. — Como você está desequilibrado.
Era algo óbvio demais para se concordar. Ele apontou para o vidro com seus reflexos defeituosos.
— Para que serve isso?
— Divinação — ela respondeu. — É uma maneira de olhar para outros lugares. Lugares que estão distantes demais para ver, ou lugares que apenas meio que existem, ou lugares que não querem ser vistos.
Adam achou que tinha visto fumaça subir em espiral do vidro. Ele piscou. Sumiu. Então ele sentiu uma pontada na mão.
— Para onde nós estamos olhando?
— Para um lugar muito distante — disse Persephone. Ela sorriu para ele. Era uma coisa minúscula, dissimulada, como um pássaro espiando dos ramos. — Dentro de você.
— É seguro?
— É o oposto de seguro — disse Persephone. — Na realidade, é melhor você comer mais um pedaço de torta.
Adam comeu um pedaço de torta.
— O que vai acontecer se eu não fizer isso?
— O que você está sentindo só vai piorar. Você não pode montar primeiro as peças dos cantos nesse quebra-cabeça.
— Mas, se eu seguir em frente... — Adam começou, então parou, porque a verdade o mordia e o penetrava, alojando-se dentro dele — eu vou mudar para sempre?
Ela inclinou a cabeça, solidária.
— Você já mudou. Quando fez o sacrifício. Essa é apenas a parte final disso.
Então não fazia sentido não fazer isso.
— Me diz como fazer, então.
Persephone se inclinou para frente, mas ainda assim não se sentou.
— Você precisa parar de revelar as coisas. Você não sacrificou a sua mente. Comece escolhendo manter os seus pensamentos para si. E lembre-se do seu sacrifício, também. Você precisa honrá-lo.
— Eu o honrei — disse Adam, a ira subindo à cabeça, súbita, zunindo e pura. Era um inimigo imortal.
Ela apenas piscou para ele com seus olhos negros puros. A fúria de Adam mirrou.
— Você prometeu ser as mãos e os olhos de Cabeswater, mas você tem ouvido o que ela vem lhe pedindo?
— Ela não disse nada.
A expressão de Persephone era sábia. É claro que ela tinha dito. De uma hora para outra, ele soube que essa era a causa das aparições e visões imperfeitas.
Cabeswater estava tentando chamar sua atenção, da única maneira que sabia fazer. Todo aquele ruído, aquele som, aquele caos dentro dele.
— Eu não conseguia entender.
— Ela está em desequilíbrio também — ela disse. — Mas esse é um ritual diferente para um problema diferente. Agora, olhe dentro de si mesmo, mas saiba que existem coisas ali que são dolorosas. A divinação nunca é segura. Você nunca sabe o que vai encontrar.
— Você me ajuda se algo der errado?
Os olhos negros de Persephone se fixaram nos dele. Ele compreendeu. Ele havia deixado sua única ajuda do lado de fora, na cozinha.
— Cuidado com qualquer pessoa que prometa te ajudar agora — disse Persephone. — Dentro de si mesmo, somente você pode se ajudar.
Eles começaram.
Em um primeiro momento, ele estava consciente apenas das velas. O tremeluzir fino e alto das velas verdadeiras, e o queimar retorcido e espiralado das velas no vidro espelhado. Então, uma gota d’água pareceu mergulhar da escuridão acima dele. Ela deveria ter respingado no vidro, mas, em vez disso, penetrou facilmente a superfície.
Ela pousou em um copo d’água. Um dos copos baratos e de vidro grosso que costumavam encher os armários de sua mãe. O copo estava na mão de Adam. Quando ele estava prestes a dar um gole, percebeu um brilho de movimento. Ele não teve tempo para se preparar antes que a luz... o som...
Seu pai o acertou.
— Espera! — exclamou Adam, explicando, sempre prestes a explicar, quando bateu contra o balcão puído da cozinha.
Aquilo deveria ter passado a essa altura, o soco, mas ele parecia preso dentro daquilo. Ele era o garoto, o golpe, o balcão, a raiva que consumia tudo.
Aquilo vivia nele. Aquele soco, a primeira vez que seu pai havia batido nele, estava sempre sendo lançado em algum lugar na sua cabeça.
Cabeswater, Adam pensou.
Ele foi libertado do soco. Quando o copo bateu no chão, resistente demais para quebrar, a gota d’água escorregou para fora e começou a cair de novo. Dessa vez, ela mergulhou em um pequeno lago parado e espelhado, cercado de árvores. A escuridão se insinuava entre elas, exuberante, negra e viva.
Adam já estivera ali antes.
Cabeswater.
Ele estava realmente ali ou era um sonho? Isso fazia alguma diferença para Cabeswater?
Aquele lugar — ele cheirou a terra úmida debaixo dos ramos caídos, ouviu o som dos insetos trabalhando por baixo das cascas de árvore em decomposição, sentiu a mesma brisa que soprava sobre as folhas acima tocar seu cabelo.
Na água noturna nos pés de Adam, peixes vermelhos circulavam. Eles abocanhavam as pequenas ondulações onde a gota rompera a superfície. O movimento chamou sua atenção para a árvore de sonhos na margem oposta. Ela parecia como da outra vez: um antigo e enorme carvalho com uma gruta decomposta dentro, grande o suficiente para caber uma pessoa. Meses atrás, Adam havia ficado dentro da árvore e tivera uma visão terrível do futuro.
Gansey morrendo por causa dele.
Adam ouviu um gemido. Era a mulher que ele vira em seu apartamento, o primeiríssimo espírito. Ela usava um vestido antiquado e claro.
— Você sabe o que Cabeswater quer? — ele perguntou.
Encostando-se na casca irregular da árvore de sonho, a mulher pressionou o dorso da mão contra a testa nervosamente-
— Auli! Greywaren furis al. Lovi ne...
Não era latim. Adam disse:
— Não compreendo.
Ao lado dela, subitamente, estava o homem de chapéu-coco, o homem que Adam tinha visto de relance na mansão de Gansey. Ele implorou:
— E me! Greywaren furis al.
— Desculpe — disse Adam.
Outro espírito apareceu, a mão estendida para ele. E outro. E outro. Todos os lampejos que ele vira, uma dúzia de figuras. Incompreensíveis.
Uma voz pequena junto ao seu cotovelo disse:
— Vou traduzir para você.
Ele se virou e viu uma garota pequena em um manto negro. Ela não era diferente de uma Persephone em miniatura: cabelo branco enorme enrolado como um algodão-doce, rosto estreito, olhos negros. Ela pegou a mão dele. A dela era muito fria e um pouco úmida.
Ele estremeceu com cautela.
— Você vai traduzir fielmente?
Os dedos pequeninos dela estavam apertados nos dele. Adam não a vira antes, ele tinha certeza. De todos os lampejos e visões que ele tivera desde que havia feito o sacrifício, ela não fora um deles. Ela era muito parecida com Persephone, mas retorcida.
— Não — ele disse. — Só eu posso ajudar a mim mesmo.
Ela inclinou a cabeça para trás, irada.
— Você já está morto aqui.
Antes que ele pudesse se afastar, ela agarrou o pulso dele com a outra mão. Três linhas claras de sangue apareceram. Ele podia sentir o gosto, como se ela tivesse lhe rasgado a língua.
Era como um pesadelo.
Não. Se isso era como um sonho, se Cabeswater era como um sonho, queria dizer que tudo estava sob o seu controle, se assim ele quisesse. Adam se soltou dela. Ele não entregaria sua mente.
— Cabeswater — ele disse em voz alta. — Me diga do que você precisa.
E estendeu o braço até o pequeno lago. Estava frio e insubstancial, como a sensação de escorregar a mão sobre lençóis. Cuidadosamente, ele pegou com a mão em concha a única gota de água que havia seguido na visão. Ela boiava de um lado para o outro em sua palma, rolando ao longo da linha da vida.
Ele hesitou. Do outro lado desse momento, ele sabia, havia algo que o separaria dos outros para sempre. Quanto, ele não sabia dizer. Mas ele teria ido a um lugar em que eles nunca tinham ido. Ele seria algo que eles não eram.
Mas ele já era.
E então ele estava na gota d’água. Cabeswater não precisava mais procurá-lo através de aparições. Ele não precisava de lampejos desajeitados em sua visão. Nada de apelos desesperados por sua atenção.
Ele era Cabeswater, e era a árvore de sonhos, e era todos os carvalhos com raízes escavando através das pedras, procurando energia e esperança. Ele sentiu a sucção e o pulso da linha ley através de si — que termo grosseiro e mundano para ela, linha ley, agora que ele a sentia. Ele podia se lembrar de toda sorte de nomes para ela agora, e todos pareciam mais adequados. Estrada das fadas. Caminho espiritual. Linha de canções. O velho caminho. Linha de dragões. Caminho dos sonhos.
O caminho dos corpos.
A energia bruxuleou e crepitou através dele, menos como eletricidade e mais como se ele estivesse se lembrando de um segredo. Ela era forte, abrangia tudo, e então foi desaparecendo, esperando. Às vezes, ele não era nada a não ser ela, e às vezes, ela estava quase esquecida.
E, no fundo de tudo, ele sentiu a antiguidade de Cabeswater. A estranheza. Havia algo de verdadeiro e desumano em seu âmago. Ela estivera ali tantos séculos antes dele, e estaria tantos séculos depois. No esquema relativo das coisas, Adam Parrish era irrelevante. Ele era uma coisa tão pequena, apenas uma estria de uma impressão digital na ponta dos dedos de um ser gigantesco...
Eu não concordei em revelar meus pensamentos.
Ele seria as mãos e os olhos de Cabeswater, mas não seria Cabeswater.
Ele seria Adam Parrish.
Ele se recostou.
Adam estava na sala de leitura. Uma gota d’água repousava no alto da fotografia emoldurada. À sua frente, Persephone limpava o sangue em três arranhões que ela tinha no punho; a manga dela havia sido rasgada.
Tudo no quarto parecia diferente para Adam. Ele só não tinha certeza de como. Era como... como se ele tivesse ajustado a tela da televisão, de panorâmica para normal.
Ele não sabia como havia pensado antes que os olhos de Persephone eram negros.
Todas as cores se combinavam para formar o preto.
— Eles não vão compreender — disse Persephone, colocando suas cartas de tarô sobre a mesa na frente dele. — Não compreenderam quando eu voltei.
— Eu estou diferente? — ele perguntou.
— Você já era diferente antes — respondeu Persephone. — Mas agora eles não serão capazes de evitar perceber isso.
Adam tocou as cartas de tarô. Parecia que tinha se passado muito tempo desde que ele olhara para o baralho sobre a mesa.
— O que eu devo fazer com elas?
— Bata nelas — ela sussurrou. — Três vezes. Elas gostam disso. Depois embaralhe. E então as segure junto do coração.
Ele bateu suavemente com os nós dos dedos sobre o baralho, embaralhou as cartas e então pegou o baralho, maior que o tamanho usual. Quando o segurou junto do peito, as cartas pareciam quentes, como uma criatura viva. Elas não pareciam assim antes.
— Agora faça uma pergunta para elas.
Adam fechou os olhos.
E agora?
— Coloque quatro cartas na mesa — disse Persephone. — Não, três. Três. Passado, presente e futuro. Abertas.
Cuidadosamente, Adam abriu três cartas sobre a mesa. Os desenhos no baralho de Persephone eram escuros, manchados, mal dava para ver naquela luz sombria. As figuras pareciam se mover. Ele leu as palavras na parte de baixo de cada uma.
A Torre. O Enforcado. Nove de espadas.
Persephone apertou os lábios.
Os olhos de Adam foram da primeira carta, onde homens caíam de uma torre em chamas, para a segunda, onde um homem estava pendurado em uma árvore, de cabeça para baixo. E então para a última, onde um homem chorava, cobrindo o rosto com as mãos. Aquela terceira carta, aquele desespero absoluto. Ele não conseguia parar de olhar para ela.
— Parece que ele acordou de um pesadelo — disse Adam.
Parece comigo, se a visão da árvore dos sonhos se tornar realidade, ele pensou.
Quando Adam ergueu os olhos para Persephone, teve certeza de que ela estava vendo as mesmas coisas que ele. Ele podia dizer, pelos lábios apertados dela, pelo remorso que ela tinha nos olhos. A sala se estendia em volta deles, escura e sem limites.
Uma caverna ou uma antiga floresta ou um lago liso, escuro como um espelho.
O futuro continuava sendo algo para o qual Adam era lançado: uma busca, um sacrifício, o rosto morto de um melhor amigo.
— Não — ele disse baixinho.
Persephone ecoou:
— Não?
— Não. — Ele balançou a cabeça. — Talvez isso seja o futuro. Mas não é o fim.
— Tem certeza?
Havia uma nota na voz dela que não estivera ali antes. Adam pensou sobre aquilo. Ele pensou na sensação quente do baralho e em como ele havia feito aquela pergunta e agora, e elas tinham lhe dado aquela resposta terrível. Ele pensou em como ainda podia ouvir o som da voz de Persephone ecoando por toda parte, embora ela devesse ter desaparecido nas paredes fechadas daquela sala de leitura. Ele pensou em como fora Cabeswater e sentira o caminho dos corpos serpenteando através de si.
— Tenho. Vou... vou tirar outra carta.
Ele hesitou, esperando que ela lhe dissesse que não era permitido. Mas ela apenas aguardou. Adam cortou o baralho, colocou a mão sobre cada pilha e tirou a carta que parecia mais quente.
Ele a virou e a colocou ao lado do nove de espadas.
Uma figura de túnica estava parada diante de uma moeda, um cálice, uma espada, um bastão — todos os símbolos de todos os naipes do tarô. Um símbolo do infinito flutuava acima de sua cabeça; um braço estava erguido, numa postura de poder. Sim, pensou Adam. A compreensão provocou um formigamento nele e então o deixou.
Ele leu as palavras na parte de baixo da carta.
O Mago.
Persephone soltou um longo, longo suspiro e começou a rir. Era um riso aliviado que soava como se ela estivesse correndo.
— Adam — ela disse —, termine a sua torta.

2 comentários:

  1. Esperando que der tudo certo no final.

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  2. Morango do Nordeste25 de julho de 2018 11:26

    Esse capítulo é uma viagem (a maioria ) é tão abstrato q vc não sabe se tá conseguindo imaginar da forma certa.chega um momento q vc deixa de tentar imaginar e só aceita oq tá nas linhas

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Boa leitura, E SEM SPOILER!