3 de junho de 2018

Capítulo 5

Medicina natural:
Cure os meus cortes,
Remédios de suculentas

GROVER NOS LEVOU para a primeira das estufas ainda em funcionamento. O cheiro do lugar lembrava o hálito de Perséfone.
Isso não é um elogio. A srta. Primavera ficava sentada ao meu lado nos jantares de família e não tinha nenhum receio de compartilhar sua halitose. Imaginem um cesto de lixo cheio de matéria orgânica molhada e cocô de minhoca: esse era o cheiro. Ai, como eu amo a primavera.
As plantas tinham tomado o interior da estufa — o que foi meio apavorante, já que a maioria era cactos. Um cacto-abacaxi do tamanho de um barril estava logo na entrada, os espinhos amarelos grossos como espetos de churrasquinho.
No canto dos fundos ficava uma árvore de Josué magnífica, os galhos desgrenhados tocando o teto. Uma opúncia enorme estava aberta em flor, encostada na parede oposta, e frutas roxas pendiam dos muitos espinhos duros — pareciam deliciosas, não fosse o fato de que cada uma tinha mais espinhos do que a clava favorita de Ares. Mesas de metal gemiam sob o peso de incontáveis cactos e suculentas: salicórnias, escobarias, chollas e dezenas de outras plantas cujos nomes eu não sabia. Cercado de tantos espinhos e flores, naquele calor tão opressivo, me senti outra vez no camarim de Iggy Pop no Coachella de 2003.
— Voltei! — anunciou Grover. — E trouxe amigos!
Silêncio.
Mesmo no pôr do sol, a temperatura lá dentro era tão alta, e o ar, tão denso, que achei que fosse morrer de insolação em cerca de quatro minutos. E olha que eu era o deus do Sol.
Até que enfim surgiu a primeira dríade. Uma bolha de clorofila se inflou na lateral do figo-da-índia, estourando em névoa verde. As gotículas de névoa se uniram até formar uma garotinha com pele esmeralda, cabelo amarelo espetado e um vestido todo franjado de espinhos de cacto. O olhar dela era quase tão afiado quanto o vestido — e por sorte direcionado a Grover, não a mim.
— Por onde você andou? — perguntou ela.
— Ah. — Grover pigarreou. — Eu fui chamado. Convocação mágica. Depois eu conto tudo. Mas, olha, eu trouxe o Apolo! E essa é Meg, filha de Deméter!
Ele exibiu Meg como se a garota fosse o prêmio fabuloso de algum programa de auditório. A dríade não se animou.
— Humpf. Até que as filhas de Deméter são legais. Eu sou Figo-da-índia. Ou Fig, para facilitar.
— Oi — cumprimentou Meg, sem forças.
A dríade estreitou os olhos para mim. Considerando o vestido cheio de espinhos, torci para ela não ser do tipo que gosta de abraçar.
— Você é o Apolo... o deus Apolo? — perguntou ela. — Não acredito!
— Tem dias que nem eu acredito — admiti.
Grover olhou em volta.
— Onde estão as outras?
Aproveitando a deixa, outra bolha de clorofila explodiu de uma das suculentas, e surgiu uma segunda dríade, uma jovem robusta usando um vestido largo que lembrava uma flor de alcachofra. O cabelo era uma floresta de triângulos verde-escuros; o rosto e os braços brilhavam como se estivessem cobertos de óleo. (Pelo menos eu esperava que fosse óleo, não suor.) Ela deu um grito quando viu nosso estado:
— Ah! Vocês estão feridos?
Fig revirou os olhos.
— Al, para com isso.
— Mas eles parecem feridos! — Al se aproximou e segurou minha mão. Sua pele era fria e oleosa. — Vou pelo menos cuidar desses cortes. Grover, por que não curou esses coitadinhos?
— Eu tentei! — protestou o sátiro. — Mas foram muitos danos!
Aí está o resumo da minha vida, pensei: Foram muitos danos.
Al passou as pontas dos dedos em meus cortes, deixando trilhas de gosma, como as lesmas. Não foi uma sensação agradável, mas amenizou a dor.
— Ah, você é Aloe Vera — compreendi. — Eu sempre usei você para fazer pomadas cicatrizantes!
A dríade abriu um sorriso.
— Ele se lembra! Apolo se lembra de mim!
Uma terceira dríade saiu do tronco da árvore de Josué, nos fundos do salão. Era uma dríade macho, o que era bem raro. A pele era marrom como a casca da árvore, o cabelo castanho comprido e desgrenhado, as roupas de um tecido cáqui surrado. Parecia um explorador voltando da selva.
— Oi, sou Josué. Bem-vindos a Aeithales.
Foi bem naquele momento que Meg McCaffrey decidiu desmaiar.
Eu poderia ter avisado que nunca era legal desmaiar na frente de um cara atraente. Essa estratégia nunca funcionou comigo, nem em milhares de anos.
Ainda assim, como bom amigo que eu era, consegui segurá-la antes que caísse de cara no cascalho.
— Ah, coitadinha! — Aloe Vera olhou feio para Grover. — Ela está exausta e morrendo de calor. Você não deixou a menina descansar?
— Ela dormiu a tarde inteira!
— Mas está desidratada. — Aloe tocou a testa de Meg. — Ela precisa é de água.
Fig fungou.
— E não é do que todos precisamos?
— Levem essa menina para a Cisterna — ordenou Al. — Mellie já deve ter acordado. Daqui a pouquinho eu encontro vocês lá.
Grover se animou.
— Mellie está aqui? Eles conseguiram?
— Chegaram hoje de manhã — respondeu Josué.
— E os grupos de busca? — insistiu Grover. — Alguma notícia?
As dríades trocaram olhares preocupados.
— Não temos boas notícias — disse Josué. — Só um grupo voltou, e…
— Com licença — intervim. — Não tenho ideia do que vocês estão falando, mas Meg é bem pesada. Onde eu deixo a garota?
Grover se endireitou.
— Certo. Desculpe, vou mostrar. — Ele passou o braço de Meg por cima dos ombros, dividindo o peso da menina. Então se virou para as dríades. — Gente, que tal jantarmos na Cisterna? Temos muito o que conversar.
Josué assentiu.
— Vou avisar o pessoal das outras estufas. E, Grover, você prometeu enchiladas. Três dias atrás.
— Eu sei. — O sátiro suspirou. — Vou buscar mais.
Juntos, levamos Meg para fora da estufa. Enquanto a arrastávamos pela encosta, não consegui conter a curiosidade — era uma dúvida muito cruel, e tive que perguntar:
— Dríades comem enchilada?
Ele pareceu ofendido.
— Claro, ué! Achou que elas só comessem fertilizantes?
— Bom… é.
— Esses estereótipos...
Decidi que era uma boa deixa para mudar de assunto.
— Foi coisa da minha cabeça, ou Meg desmaiou porque ouviu o nome deste lugar? Aeithales. É grego antigo para sempre-viva, se bem me lembro.
Achei um nome estranho para um lugar no meio do deserto. Por outro lado, não era mais estranho do que dríades comendo enchilada.
— O nome estava entalhado na antiga soleira da porta — explicou Grover. — Tem muita coisa que não sabemos sobre as ruínas, mas, como falei, este lugar tem muita energia da natureza. Quem morava aqui e criou as estufas sabia bem o que estava fazendo.
Gostaria de poder dizer o mesmo sobre mim.
— As dríades não nasceram naquelas estufas? Então elas não sabem quem as plantou?
— A maioria era jovem demais quando a casa pegou fogo. Algumas das plantas mais velhas talvez até se lembrassem de algo, mas ainda estão dormentes — Grover apontou para as estufas destruídas —, ou não estão mais entre nós.
Fizemos um minuto de silêncio pelas suculentas que já tinham partido.
Grover nos conduziu até o maior cilindro de concreto. A julgar pelo tamanho e posição no centro das ruínas, concluí que provavelmente era a coluna de sustentação central da estrutura incendiada. A circunferência era pontilhada por aberturas irregulares no nível do chão, como janelas de um castelo medieval.
Arrastamos Meg por uma delas, chegando a um lugar bem parecido com o poço onde enfrentamos as estriges.
O topo era aberto, e dava para ver o céu. Uma rampa descia até o fundo, espiralando ao longo da parede. Por sorte, eram apenas seis metros até lá embaixo. No centro do chão de terra cintilava um laguinho azul-escuro. Parecia o buraco de um donut gigante. A água refrescava o ar, e os arredores pareciam até agradáveis e convidativos. Em volta do laguinho havia sacos de dormir, e cactos floridos brotavam de alcovas nas paredes.
A Cisterna não era uma estrutura elegante, nada como o pavilhão de jantar do Acampamento Meio-Sangue ou a Estação Intermediária de Indiana. Mas, lá dentro, me senti melhor e mais seguro. Entendi o que Grover queria dizer: aquele lugar vibrava com uma energia tranquilizadora.
Levamos Meg até o fim da rampa sem cair nem tropeçar, o que considerei uma grande vitória. Nós a deitamos num dos sacos de dormir, e Grover se levantou e olhou em volta.
— Mellie? — chamou ele. — Gleeson? Estão aqui?
O nome Gleeson me soou vagamente familiar, mas, como sempre, não consegui me lembrar bem de onde eu o conhecia.
Nenhuma bolha de clorofila surgiu das plantas. Meg, ainda apagada, se virou de lado e murmurou… alguma coisa sobre Pêssego. Filetes de névoa branca começaram a se erguer da beira do laguinho, juntando-se até se fundirem na forma de uma mulher pequena de vestido prateado. O cabelo escuro flutuava em volta da cabeça, como se ela ainda estivesse embaixo d’água, deixando à mostra as orelhas meio pontudas. Ela carregava um bebê adormecido num sling pendurado no ombro. A criança devia ter uns sete meses, tinha cascos no lugar dos pezinhos, e chifrinhos de bode despontavam da cabeça. A bochecha gorducha estava amassada em um dos ombros da mãe, e a boca era uma verdadeira cornucópia de baba.
A ninfa das nuvens (o que ela com certeza era) sorriu para Grover. Seus olhos castanhos estavam injetados e sonolentos, e ela levou um dedo aos lábios, pedindo silêncio para não acordar o bebê. Eu não podia culpá-la: bebês sátiros são barulhentos e agitados, e destroem com seus dentinhos várias latas por dia.
— Mellie, você conseguiu! — sussurrou Grover.
— Grover, querido. — Ela olhou para Meg, dormindo ali no chão, e inclinou a cabeça para mim. — Você é… Você é ele?
— Apolo? Sou.
Mellie comprimiu os lábios.
— Ouvi boatos, mas não acreditei. Coitadinho. Como está aguentando?
No passado, eu teria debochado de qualquer ninfa que ousasse me chamar de coitadinho. Claro que muitas não teriam sequer demonstrado essa consideração por mim — em geral estavam ocupadas demais fugindo. Mas aquela preocupação toda de Mellie me deixou com um nó na garganta. Fiquei tentado a apoiar a cabeça no outro ombro dela e chorar minhas inúmeras pitangas.
— Eu… Eu estou bem — consegui dizer. — Obrigado.
— E essa sua amiga adormecida?
— Acho que ela só está exausta. — Eu me perguntava se era só isso mesmo. — Aloe Vera disse que daqui a pouco viria cuidar dela.
Mellie pareceu preocupada.
— Tudo bem. Vou ficar de olho para Aloe não exagerar.
— Exagerar?
Grover tossiu.
— Cadê o Gleeson?
Mellie observou em volta, como se só agora percebesse que o tal do Gleeson não estava ali.
— Não sei. Desde que chegamos, passei o dia inteiro dormindo. Ele disse que ia até a cidade buscar equipamentos de camping. Que horas são?
— Já passou do pôr do sol — respondeu Grover.
— Então ele já deveria ter voltado. — O corpo de Mellie tremeluziu de agitação, ficando tão indistinto que tive medo de o bebê atravessá-lo e cair.
— Gleeson é seu marido? — tentei adivinhar. — Um sátiro?
— É, Gleeson Hedge.
Foi quando eu lembrei, mas muito vagamente: o sátiro que velejou com os heróis semideuses no Argo II.
— Você sabe aonde ele foi?
— Passamos por uma loja de equipamento militar no pé da colina vindo para cá. Ele ama essas lojas. — Mellie se virou para Grover. — Talvez ele tenha se distraído e perdido a hora, mas… Será que vocês podem dar uma olhada?
Naquele momento, percebi como Grover Underwood estava exausto. Os olhos estavam ainda mais vermelhos do que os de Mellie, os ombros caídos, a flauta pendurada de qualquer jeito no pescoço. Ao contrário de Meg e de mim, ele não dormia desde a noite anterior, no Labirinto. E Grover tinha usado o grito de Pã, nos levado até um lugar seguro e passado o dia inteiro nos protegendo, esperando as dríades acordarem. Agora, recebia mais uma missão: ir atrás de Gleeson Hedge.
Ainda assim, ele conseguiu abrir um sorriso.
— Claro, Mellie.
A dríade lhe deu um beijo na bochecha.
— Você é o melhor Senhor da Natureza de todos!
Grover ficou vermelho.
— Cuide de Meg McCaffrey até a gente voltar, tudo bem? Venha, Apolo. Vamos fazer compras.

11 comentários:

  1. Laíres de Deus câmara campos4 de junho de 2018 12:11

    E a leitura sempre é boa quando se trata dos livros do Tio Rick.😄😍 vou correndo para o próximo capítulo.

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  2. Francamente... Esses estereótipos ofensivos sobre a alimentação das dríades! ��

    O Grover amadureceu muito ou é só impressão minha? Talvez eu não tenha dado muita bola pra ele nos outros livros... Foi mal, Grover.

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  3. Eu voy morrer de amor com esse bebezinho....
    Alguém precisa deixar o pobre Grover dormir!

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  4. Damon Herondale, filho de Zeus5 de junho de 2018 21:39

    Caramba! Quanta pressão o Grover ta recebendo, agora que é um Senhor da Natureza! O antigo ele não aguentaria

    Espero q o Treinador esteja bem

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  5. Grover cresceu e virou um herói incrível... A que saudades do personagem! Coitado, espero que ele consiga descansar....
    E O TREINADOR. Isso vai ser engraçado...

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  6. Um bebê sátiro 😍😍

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  7. Aaah Grover tantos livros sem sua presença... Um dos meus personagens favoritos, ele tá amadurecendo tanto nem parece o antigo rsrs

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  8. a sra.Primavera com halitose? Com certeza a outra primavera Cloris/Flora deusa e mais cheirosa

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Boa leitura, E SEM SPOILER!