9 de junho de 2018

Capítulo 4

COMEÇOU A SEMANA dos formandos, quando cada dia tem um tema. O de hoje é apoio a nossa escola, e estou usando a camiseta do uniforme de lacrosse de Peter e marias-chiquinhas com fitas nas cores da escola, azul-claro e branco. Peter pintou metade do rosto de azul, e a outra metade de branco. Quando ele foi me buscar de manhã, dei um grito ao vê-lo.
O resto da semana vai ser: na terça, dia dos anos 1970, na quarta, dia do pijama, na quinta, dia do personagem (o que mais estou esperando), e na sexta vamos no passeio de formandos. A votação estava entre Nova York e Disney, e Nova York venceu. Vamos em um ônibus fretado e passaremos um fim de semana prolongado lá. É o momento perfeito para uma viagem dessas, os formandos estão loucos para receber as respostas das faculdades, então uma distração é muito bem-vinda. As exceções são aqueles alunos que se candidataram antecipadamente e já sabem para onde vão, como Peter e Lucas Krapf, que vai estudar na Sarah Lawrence. A maioria dos alunos da minha turma vai ficar no estado. É como a nossa orientadora, a sra. Duvall, sempre diz: Qual é o sentido de morar na Virgínia se não for para aproveitar todas as ótimas faculdades daqui? Acho legal tantos de nós ficarem, não vamos nos espalhar pelos quatro cantos do mundo.
No almoço, quando Peter e eu estamos a caminho do refeitório, o grupo a capela está fazendo uma serenata para uma garota do segundo ano, cantando a música “Will You Still Love Me Tomorrow?”, mas com as palavras: “Quer ir ao baile comigo, Gina?” Nós paramos para ouvir antes de entrarmos na fila para pegar comida. O baile é só daqui a alguns meses, mas os convites entre os alunos já estão a todo vapor. Até o momento, o mais impressionante aconteceu semana passada, quando Steve Bledell hackeou o letreiro de avisos da escola e substituiu os eventos do dia por Quer ir ao baile comigo, Liz?. O departamento de TI demorou dois dias para descobrir como fazer as coisas voltarem ao normal. Hoje de manhã, Darrell encheu o armário de Pammy com rosas vermelhas e escreveu BAILE? com pétalas na porta. O zelador gritou com ele por causa disso, mas aquilo resultou em fotos lindas no Instagram de Pammy. Não sei o que Peter está planejando. Ele não é muito de gestos românticos grandiosos.
Quando estamos na fila da comida, Peter estica a mão para um brownie, e eu digo:
— Não. Eu trouxe cookies.
Ele fica todo animado.
— Posso comer um agora? — pede. Eu tiro o pote da bolsa, Peter pega um e diz: — Não vamos dividir com mais ninguém.
— Tarde demais — comento, porque nossos amigos nos viram.
Darrell canta “Her cookies bring all the boys to the yard” enquanto nos aproximamos da mesa. Coloco o pote na mesa e os garotos brigam por ele, pegando cookies e os devorando como trolls.
Pammy consegue pegar um e diz:
— Vocês são uns animais.
Darrell joga a cabeça para trás e solta um som animalesco, fazendo-a rir.
— Estão deliciosos — grunhe Gabe, lambendo chocolate dos dedos.
— Ficaram bons — digo com modéstia. — Bons, mas não incríveis. Não perfeitos. — Eu quebro um pedaço do biscoito de Peter. — Ficam mais gostosos logo que saem do forno.
— Você pode ir à minha casa fazer cookies para eu saber qual é o gosto deles quando saem do forno? — Gabe morde outro e fecha os olhos, em êxtase.
Peter pega um.
— Parem de comer todos os cookies da minha namorada! — Mesmo um ano depois, ainda sinto um arrepio ao ouvi-lo dizer “minha namorada” e saber que sou eu.
— Você vai ficar barrigudo se não parar com essa merda — comenta Darrell.
Peter morde o cookie, levanta a camisa e bate na barriga.
— Tanquinho, amor.
— Você é uma garota de sorte, Laranjinha — diz Gabe.
Darrell balança a cabeça.
— Que nada, quem tem sorte é o Kavinsky.
Peter olha para mim e pisca, e meu coração bate mais rápido.
Tenho a sensação de que, quando eu tiver a idade de Stormy, as minhas grandes lembranças vão ser destes momentos do dia a dia: a cabeça de Peter inclinada, mordendo um cookie com gotas de chocolate; o sol entrando pela janela do refeitório, refletindo em seu cabelo castanho; ele olhando para mim.
Depois da aula, ele tem treino de lacrosse e fico na arquibancada fazendo meu dever de casa. Peter é o único do time que vai para uma faculdade que investe pesado em esportes, e o treinador White chora ao pensar em como eles vão ficar depois que Peter for embora. Não entendo todos os detalhes deste esporte, mas sei quando comemorar e quando vaiar. Só gosto de vê-lo jogar. Ele acha que toda jogada que faz vai terminar em um gol, e é o que costuma acontecer mesmo.

* * *

Papai e a sra. Rothschild são oficialmente um casal desde setembro. Kitty está nas nuvens; ela não perde uma oportunidade de levar crédito pela união dos dois.
“Foi tudo parte do meu plano genial”, gaba-se ela.
Eu tenho que tirar o chapéu. Kitty é uma garota de visão. Afinal, fez com que eu e Peter voltássemos, o que era bastante improvável, e agora estamos apaixonados.
Para quem não tem tanta coisa em comum, a sra. Rothschild e papai formam um casal surpreendentemente bom. (Mais uma vez, não muito diferente de mim e Peter.) A proximidade faz mesmo toda diferença. Dois vizinhos solitários, Netflix, dois cachorros, uma garrafa de vinho branco. Eu acho lindo. A vida de papai parece mais completa agora que a sra. Rothschild faz parte dela. Eles sempre saem juntos, fazem atividades de verdade. Tipo, em uma manhã de sábado, antes de nós acordarmos, eles saem para caminhar e ver o sol nascer. Eu nunca soube que papai era fã de fazer trilha, mas ele passou a gostar disso como um peixe gosta de água. Eles saem para jantar; vão a vinícolas, saem com os amigos da sra. Rothschild. Claro, ele ainda gosta de ficar em casa e ver documentários, mas seu mundo é bem maior com ela, e bem menos solitário, algo que eu nunca achei que ele fosse nesses oito longos anos desde que mamãe morreu. Mas, vendo-o agora tão cheio de energia e ocupado, percebo que ele deve ter sido. A sra. Rothschild come conosco algumas vezes por semana, e chegou a ponto de parecer estranho quando ela não está lá, à mesa da cozinha, com a gargalhada intensa e rouca e a taça de vinho branco ao lado do copo de cerveja de papai.
Depois do jantar naquela noite, quando pego cookies e sorvete para a sobremesa, papai diz:
— Mais cookies?
Ele e a sra. Rothschild trocam um olhar significativo. Enquanto espalha sorvete de baunilha em um cookie com a colher, papai comenta:
— Você anda fazendo muitos doces ultimamente. Deve estar bem estressada esperando as respostas das faculdades.
— Não tem nada a ver com isso. Só estou tentando aperfeiçoar minha receita de cookie com gotas de chocolate. Vocês deviam é me agradecer.
— Sabe — começa papai —, eu li um estudo que dizia que fazer doces é uma atividade terapêutica. Tem a ver com ficar pesando e mensurando ingredientes e usar a criatividade. Os psicólogos chamam de ativação comportamental.
— É, cada um lida da sua maneira — diz a sra. Rothschild, quebrando um pedaço de cookie e o colocando na boca. — Eu vou a minha aula de SoulCycle. É lá que encontro meu equilíbrio. — Se Margot estivesse aqui, ela reviraria os olhos ao ouvir isso. A sra. Rothschild me fez ir com ela uma vez; eu fiquei o tempo todo perdendo o ritmo e não conseguia recuperá-lo. — Lara Jean, você tem que ir comigo outra vez. Tem um professor novo que toca música da Motown. Você vai adorar.
— Quando posso ir com você, Tri? — pergunta Kitty. Foi assim que Kitty passou a chamar a sra. Rothschild. Eu ainda penso nela como sra. Rothschild, e solto isso de vez em quando, mas, quando me lembro, tento chamá-la de Trina.
— Você pode ir comigo quando tiver doze anos — diz ela. — São as regras do SoulCycle.
É difícil acreditar que Kitty já tem onze anos. Ela tem onze, e eu vou fazer dezoito em maio. O tempo passa tão rápido. Eu olho para o outro lado da mesa, para papai, que está olhando para Kitty com um sorriso triste, depois se volta para mim. Sei que ele deve estar pensando a mesma coisa que eu.
Nossos olhares se encontram e papai canta “Lara Jean, don’t you worry ‘bout a thing” com sua melhor voz de Stevie Wonder, e nós todas gememos. Mordendo o sanduíche improvisado de sorvete, papai diz:
— Você se esforçou. Tudo vai ser como deve ser.
— Não tem como a UVA não aceitar você — comenta a sra. Rothschild.
— Bata na madeira — diz Kitty, batendo com os nós dos dedos na mesa da cozinha. Para mim, ela diz: — Você também.
Obedientemente, eu bato na madeira.
— O que bater na madeira quer dizer?
Papai se anima.
— Na verdade, dizem que o hábito veio da mitologia grega. De acordo com os mitos gregos, as dríades moravam nas árvores e as pessoas as invocavam por proteção. Daí, bater na madeira: aquele toque de proteção a mais para não provocar o destino.
Agora, somos eu, a sra. Rothschild e Kitty que trocamos olhares. Papai é tão careta que faz a sra. Rothschild parecer mais jovem, apesar de não ser tão mais velho do que ela. Ainda assim, dá certo.

* * *

Naquela noite, não consigo dormir, então me deito na cama e fico pensando nas minhas atividades extracurriculares. Meus pontos altos são Belleview e meu estágio na biblioteca no verão passado. Minha nota do exame de admissão é mais alta do que a média da UVA. Margot entrou com apenas quarenta pontos a mais do que eu. Tirei dez em história americana na turma avançada. Sei de pessoas que passaram para a UVA com menos do que isso.
Com sorte, minha redação me ajudou a me destacar. Escrevi sobre minha mãe e minhas irmãs e como ela influenciou nossa formação, quando estava viva e quando não estava mais. A sra. Duvall disse que foi a melhor que ela leu em anos, mas ela sempre gostou das garotas Song, então quem sabe se isso é verdade.
Eu fico rolando por alguns minutos, e finalmente arranco as cobertas e saio da cama. Desço a escada e começo a pegar os ingredientes para fazer cookies com gotas de chocolate.

9 comentários:

  1. Fiquei com vontade de fazer cookies com gotas de chocolate agr 👄
    Vou sequestrar a Kitty pra ela fazer esse vudu em mim tbm

    ResponderExcluir
  2. Li fazendo 18tao e devaneando como uma garotinha de 14.

    ResponderExcluir
  3. To sentindo que ela nao vai passar pra essa faculdade.

    ResponderExcluir
  4. Kitty vem fazer essa mandinga na minha vida tbm, pfvr!!!!

    ResponderExcluir
  5. Estou tão emocionada com o livro, estou lendo com 18 anos e também faço aniversário em maio! Não posso esquecer que também estou organizando a minha formatura que é daqui a 2 meses! ❤

    ResponderExcluir
  6. Estou tão emocionada com o livro, estou lendo com 18 anos e também faço aniversário em maio! Não posso esquecer que também estou organizando a minha formatura que é daqui a 2 meses! ❤

    ResponderExcluir
  7. Já tô querendo fazer esses cookies, porque olha a faculdade tá me estressando num ponto....

    ResponderExcluir
  8. Qnd a Lara descreve os meninos provando os cookies dela, eu me lembro daquele anime (esqueci o nome) q a galera praticamente tem um orgasmo de tão boa que a cida é

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!