26 de junho de 2018

Capítulo 4

O Homem Cinzento nem sempre quis ser um capanga. Na realidade, ele tinha um diploma universitário em algo completamente não relacionado a bater em pessoas. Em determinado momento, havia até escrito um livro de relativo sucesso, chamado A fraternidade em versos anglo-saxões, leitura obrigatória em pelo menos dezessete cursos universitários país afora. O Homem Cinzento havia guardado cuidadosamente o maior número possível dessas listas de leitura dos cursos que conseguiu encontrar, e as colocou em uma pasta com esboços da capa, as provas do livro e duas cartas de agradecimento dirigidas a seu pseudônimo. Sempre que ele precisava de um pouco de carinho para o coração, tirava a pasta da gaveta ao lado da cama e olhava o conteúdo enquanto saboreava uma cerveja ou sete. Ele havia deixado a sua marca.
No entanto, por mais prazer que a poesia anglo-saxônica desse para o Homem Cinzento, ela lhe servia melhor como passatempo do que como carreira. Ele preferia um trabalho que pudesse realizar com pragmatismo, que lhe desse a liberdade de ler e estudar quando tivesse vontade. Então cá estava ele em Henrietta.
Era uma vida bastante aprazível no fim das contas, pensou o Homem Cinzento. Após bater um papo com Declan Lynch, ele se registrou na Pousada Vale Aprazível, logo na saída da cidade. Era bastante tarde, mas Shorty e Patty Wetzel não pareciam se importar.
— Quanto tempo você vai ficar conosco? — perguntou Patty, passando uma xícara para o Homem Cinzento com um galo mal desenhado. Ela olhou para a bagagem dele no hall: uma sacola estilo militar cinza e uma maleta de capa dura cinza.
— Para começar, umas duas semanas — respondeu o Homem Cinzento. — Quinze dias em sua companhia. — O café estava incrivelmente ruim. Ele tirou a jaqueta cinza-clara para revelar uma camiseta cinza-escura com gola V. O casal Wetzel contemplou seus ombros e seu peito subitamente revelados. Ele perguntou: — Vocês não teriam algo mais forte?
Com uma risadinha, Patty amavelmente tirou três Coronas da geladeira.
— Não queremos parecer uns bêbados, mas... limão?
— Limão — concordou o Homem Cinzento. Por um momento, não se ouviu ruído algum, a não ser o de três adultos gozando mutuamente de uma bebida alcoólica após um longo dia. Os três emergiram do outro lado do silêncio definitivamente amigos.
— Duas semanas? — perguntou Shorty.
O Homem Cinzento estava absolutamente fascinado pela maneira como Shorty formava as palavras. A premissa mais básica do sotaque de Henrietta parecia envolver a combinação das cinco vogais da língua inglesa em quatro.
— Por aí. Não tenho certeza de quanto tempo esse contrato vai durar.
Shorty coçou a barriga.
— O que você faz?
— Sou assassino de aluguel.
— Anda difícil encontrar trabalho, não é?
O Homem Cinzento respondeu:
— Acho que teria a mesma dificuldade como contador.
Os Wetzel realmente gostaram dessa. Após alguns minutos de riso caseiro, Patty se aventurou:
— Você tem olhos tão intensos!
— Herdei da minha mãe — ele mentiu. Se havia alguma coisa que ele havia herdado de sua mãe era a incapacidade de conseguir um bronzeado.
— Mulher de sorte! — disse Patty.
Os Wetzel não tinham um hóspede havia várias semanas, e o Homem Cinzento se deixou ser o foco daquela recepção intensa por aproximadamente uma hora até se despedir do casal com outra Corona. Quando a porta se fechou atrás dele, os Wetzel eram apoiadores convictos do Homem Cinzento.
Muitos problemas do mundo, ele pensou, eram resolvidos meramente pela decência humana.
A casa nova do Homem Cinzento era o porão inteiro da mansão. Ele caminhou lentamente pelas vigas expostas, espiando por cada porta aberta. O espaço estava tomado por colchas e berços antigos e retratos obscurecidos de crianças vitorianas já falecidas. Cheirava a duzentos anos de presunto defumado. O Homem Cinzento gostava de sentir o passado. Havia um monte de galos, no entanto.
Voltando ao primeiro quarto, ele abriu a sacola que deixara ali. Separou as calças, os produtos de higiene e os artefatos roubados enrolados em cuecas longas, até chegar aos aparelhos menores que estivera usando para detectar o Greywaren. Na janelinha alta ao lado da cama, colocou um detector de frequência eletromagnética, um rádio velho e um geofone, e então desembrulhou um sismógrafo, um receptor de mensuração e um laptop da maleta. Tudo isso havia sido fornecido pelo professor. Quando deixado à vontade, o Homem Cinzento usava ferramentas de localização mais primitivas.
No momento, os indicadores e as leituras estavam variando loucamente. Haviam lhe dito que o Greywaren causava anormalidades de energia, mas isso era simplesmente... ruído. Ele reiniciou os instrumentos que tinham botões para reiniciar e sacudiu os que não tinham. As leituras seguiram sem fazer sentido. Talvez fosse a própria cidade — o lugar inteiro parecia carregado. Era possível, ele pensou sem muito espanto, que os instrumentos se mostrassem inúteis.
Eu tenho tempo, no entanto. A primeira vez que o professor o havia inteirado desse trabalho, ele soara impossível: uma relíquia que permitia que o proprietário tirasse objetos de sonhos? É claro, ele tentara acreditar nisso. Magia e intriga — como nas sagas. E, no tempo decorrido desde aquele primeiro encontro, o professor havia adquirido incontáveis outros artefatos que não deveriam existir. O Homem Cinzento tirou uma pasta da sacola e a abriu sobre a cama. A primeira folha era o programa de um curso: história medieval, parte 1. Leitura obrigatória: A fraternidade em versos anglo-saxões.
Deslizando um par de fones de ouvido, programou um set de canções dos Flaming Lips. Ele se sentiu genuinamente feliz.
Ao lado dele, o telefone tocou. O arroubo de alegria do Homem Cinzento foi encerrado ali mesmo. O número na tela não era de Boston e, portanto, não era o seu irmão mais velho. Então ele atendeu.
— Boa noite — disse.
— É mesmo? Imagino que sim. — Era o dr. Colin Greenmantle, o professor que pagava o seu aluguel. O único homem com olhos mais intensos que os do Homem Cinzento. — Sabe o que facilitaria ligar para você? Se eu soubesse o seu nome, para que pudesse dizê-lo.
O Homem Cinzento não respondeu. Greenmantle passara cinco anos sem o seu nome; poderia passar mais cinco. Eventualmente, pensou o Homem Cinzento, se resistisse a usá-lo por tempo suficiente, ele mesmo talvez esquecesse o próprio nome e virasse outra pessoa.
— Você o encontrou? — perguntou Greenmantle.
— Eu acabei de chegar — lembrou-o o Homem Cinzento.
— Você podia simplesmente ter respondido à pergunta. Podia ter dito não.
— Não é diferente de ainda não.
Agora foi Greenmantle quem ficou em silêncio. Um grilo trinou lá fora, perto da janelinha. Por fim, ele disse:
— Eu quero que você aja rápido dessa vez.
Por um bom tempo, o Homem Cinzento estivera caçando coisas que não podiam ser encontradas, não podiam ser compradas, não podiam ser adquiridas, e seus instintos estavam lhe dizendo que o Greywaren não era algo que ele encontraria rapidamente. Ele lembrou a Greenmantle que já se iam cinco anos desde que ele começara a procurar por ele.
— Irrelevante.
— Por que a pressa agora?
— Existem outras pessoas procurando por ele.
O Homem Cinzento lançou um olhar para os instrumentos. Ele não estava ansioso para deixar Greenmantle arruinar sua exploração tranquila de Henrietta. Ele disse o que Declan Lynch já sabia.
— Sempre existiram outras pessoas procurando por ele.
— Elas nem sempre estiveram em Henrietta.

2 comentários:

  1. O cara tem olhos cinza, cabelo cinza roupa cinza e eu sinceramente não duvido que até cuecas e meias dele sejam cinzas tb, taí uma pessoa que vive pelo apelido

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!