20 de junho de 2018

Capítulo 4

Adam Parrish era amigo de Gansey havia dezoito meses, e ele sabia que determinadas coisas vinham com aquela amizade. A saber: acreditar no sobrenatural, tolerar a relação conturbada de Gansey com o dinheiro e conviver com os outros amigos dele. Os dois primeiros pontos eram problemáticos apenas quando eles estavam longe de Aglionby, e o último apenas quando se tratava de Ronan Lynch.
Gansey uma vez havia dito para Adam que temia que a maioria das pessoas não soubesse lidar com Ronan. O que ele queria dizer com isso era que estava preocupado que um dia alguém caísse sobre Ronan e se cortasse.
Às vezes Adam se perguntava se Ronan havia sido Ronan antes de o pai dos irmãos Lynch morrer, mas apenas Gansey o conhecia naquela época. Bem, Gansey e Declan, mas Declan parecia incapaz de lidar com o irmão agora — razão pela qual ele havia tomado a precaução de programar sua visita enquanto Ronan estivesse em aula.
Do lado de fora da Monmouth, 1136, Adam esperava no patamar da escada do segundo andar com Declan e a namorada dele. A namorada, em um vestido de seda branca tremulante, parecia muito com Brianna, ou Kayleigh, ou quem quer que tenha sido a última namorada de Declan. Todas elas tinham o cabelo loiro na altura dos ombros e sobrancelhas que casavam com os sapatos de couro escuros de Declan. Ele, trajando o terno que seu estágio político de último ano exigia, parecia ter trinta anos. Adam se perguntou se transmitiria tamanha autoridade em um terno, ou se sua infância o trairia e o deixaria ridículo.
— Obrigado por nos encontrar — disse Declan.
Adam respondeu:
— Sem problemas.
Na verdade, a razão pela qual ele havia concordado em acompanhar Declan e a Namorada de Aglionby até ali não tinha nada a ver com gentileza, mas com um palpite que o importunava. Ultimamente, Adam sentia como se alguém estivesse... espionando a busca deles pela linha ley. Ele não tinha certeza de como colocar aquele sentimento em termos concretos. Era um olhar pego com o canto do olho, marcas de pegadas na escada que não pareciam pertencer a nenhum dos garotos, uma bibliotecária dizendo para ele que um texto arcano havia sido retirado por outra pessoa logo depois de ele ter devolvido. Mas ele não queria incomodar Gansey com isso até que tivesse certeza. As coisas já pareciam estar sobrecarregando demais o amigo.
Não que Adam estivesse em dúvida se Declan os estava espionando. Ele sabia que estava, mas acreditava que isso tinha a ver com Ronan, e não com a linha ley. Ainda assim, não faria mal nenhum ter cautela.
Nesse instante, a Namorada olhava em volta daquela maneira furtiva que é tanto mais perceptível por sua furtividade. O número 1136 da Monmouth era um prédio de tijolos de aparência faminta, eviscerado e de olhos negros, assomando em meio ao matagal sobre um terreno que ocupava quase uma quadra inteira.
Uma pista para a identidade original do prédio estava pintada do lado leste: INDÚSTRIA MONMOUTH. Mas, apesar de toda pesquisa feita, nem Gansey nem Adam haviam sido capazes de descobrir precisamente o que a Monmouth fabricava. Algo que exigia um teto de oito metros e espaços amplos e abertos; algo que havia deixado manchas de umidade no piso e sulcos nas paredes de tijolos. Algo de que o mundo não precisava mais.
No topo da escada do segundo andar, Declan sussurrou todo esse conhecimento no ouvido da Namorada, e ela deu uma risadinha nervosa, como se fosse um segredo. Adam observou a maneira como o lábio de Declan mal tocou a parte de baixo do lóbulo da orelha da Namorada enquanto ele falava com ela.
Então desviou o olhar assim que Declan olhou em sua direção.
Adam era muito bom em observar sem ser observado. Apenas Gansey parecia capaz de pegá-lo em flagrante.
A Namorada chamou a atenção para a janela quebrada na direção do estacionamento abaixo; Declan seguiu o olhar dela até as curvas escuras e iradas que Gansey e Ronan haviam deixado dando cavalos de pau com o carro. A expressão de Declan endureceu; mesmo se Gansey tivesse feito todas elas, ele presumiria que fora Ronan.
Adam já havia batido à porta, mas bateu mais uma vez — uma batida longa e duas curtas, seu sinal.
— Vai estar bagunçado — ele se desculpou, mais para a garota do que para Declan, que sabia muito bem em que estado estaria o apartamento.
Adam suspeitava de que Declan, de certa forma, achava a bagunça cativante para as pessoas de fora; Declan era, na verdade, calculista. Sua meta era a castidade de Ashley, e cada passo daquela noite teria sido planejado com isso em mente, mesmo a breve parada na Indústria Monmouth.
Ainda sem resposta.
— Será que eu ligo? — perguntou Declan.
Adam tentou o trinco, que estava trancado, então o forçou com o joelho, levantando a porta um pouco nas dobradiças. Ela se escancarou. A Namorada fez um ruído de aprovação, mas o sucesso do arrombamento tinha mais a ver com os problemas da porta do que com a força de Adam.
Eles entraram no apartamento e a Namorada foi inclinando a cabeça cada vez mais para trás. O teto alto pairava acima deles, e vigas de ferro expostas sustentavam o telhado. O apartamento inventado de Gansey era o laboratório de um sonhador. Todo o segundo andar, milhares de metros quadrados, estendia-se diante deles. Duas paredes eram constituídas de janelas antigas — dezenas de pequenas vidraças empenadas, exceto por algumas novas que Gansey havia substituído —, e as outras duas estavam cobertas de mapas: as montanhas da Virgínia, do País de Gales, da Europa. Linhas de caneta marca-texto formavam arcos ao longo de cada um deles. Sobre o chão, um telescópio perscrutava o céu ocidental; perto de seus pés encontravam-se pilhas de dispositivos eletrônicos esquisitos, para medir a atividade magnética.
E para onde quer que se olhasse, havia muitos livros. Não pilhas arrumadas de um intelectual que tenta impressionar, mas pilhas espalhadas de um estudioso obsessivo. Alguns livros não eram em inglês. Alguns eram dicionários para traduzir livros em outro idioma. E outros eram, na realidade, edições da Sports Illustrated com modelos de biquíni.
Adam sentiu a angústia de sempre. Não era inveja, apenas desejo. Um dia ele teria dinheiro suficiente para ter um lugar como aquele. Um lugar que fosse do lado de fora como Adam era do lado de dentro.
Uma voz pequena dentro dele perguntou se ele chegaria algum dia a ser tão incrível por dentro, ou se era algo que tinha de vir com você desde o nascimento. Gansey era do jeito que era por ter vivido com dinheiro desde pequeno, como um músico virtuoso colocado no banco de um piano tão logo conseguisse ficar sentado. Adam, um recém-chegado, um usurpador, ainda tropeçava em seu sotaque desajeitado de Henrietta e guardava suas moedas em uma caixa de cereal embaixo da cama.
Ao lado de Declan, a Namorada tapou os peitos com as mãos, em uma reação instintiva à nudez masculina. Nesse caso, a nudez não era de uma pessoa, mas de uma coisa: a cama de Gansey, apenas dois colchões sobre uma armação de metal, malposicionada no meio do quarto, ainda por fazer. Era de certa maneira íntima em sua completa falta de privacidade.
O próprio Gansey estava sentado a uma mesa antiga, de costas para eles, olhando por uma janela voltada para o leste e tamborilando com uma caneta. Seu volumoso diário estava aberto próximo dele, as páginas esvoaçando com trechos de livros colados e escuras de anotações. Adam ficou impressionado, como acontecia ocasionalmente, com a ausência de idade em Gansey: um velho em um corpo jovem, ou um jovem na vida de um velho.
— Somos nós — disse Adam.
Como Gansey não respondeu, Adam abriu caminho até o amigo desatento. A Namorada emitiu uma série de ruídos que começavam todos com a letra O. Com uma variedade de caixas de cereal, embalagens e tinta de parede, Gansey havia construído no centro do quarto uma réplica da cidade de Henrietta que batia na altura do joelho, e assim os três visitantes foram forçados a passar pela Rua Principal a fim de alcançar a mesa. Adam conhecia a verdade: aqueles prédios eram um sintoma da insônia de Gansey. Uma nova parede a cada noite acordado.
Adam parou ao lado de Gansey. A área à sua volta tinha um cheiro forte de hortelã, da folha que ele mascava de maneira ausente.
Adam deu um toque no fone que Gansey usava na orelha direita, e o amigo levou um susto e se levantou de um salto.
— Vejam só, olá!
Como sempre, ele parecia o típico herói de guerra americano, o que ficava evidente no cabelo castanho desgrenhado, nos olhos cor de avelã, estreitos como se estivessem sob o sol de verão, no nariz reto que os antigos anglo-saxões lhe haviam legado com tanta gentileza. Tudo nele sugeria coragem, poder e um firme aperto de mão.
A Namorada o olhava fixamente.
Adam se lembrou de achá-lo intimidante quando o conheceu. Havia dois Ganseys: o que vivia dentro dele e o que ele vestia pela manhã, quando enfiava a carteira no bolso de trás da calça de algodão. O primeiro era perturbado e apaixonado, sem um sotaque discernível aos ouvidos de Adam. O segundo emanava um poder latente ao cumprimentar as pessoas, com o sotaque escorregadio e nobre das antigas famílias ricas da Virgínia. Era um mistério para Adam como ele parecia não ver ambas as versões de Gansey ao mesmo tempo.
— Eu não ouvi vocês baterem — disse Gansey desnecessariamente, cumprimentando Adam com um toque de punhos. Vindo de Gansey, o gesto era ao mesmo tempo encantador e tímido, uma frase tomada emprestada de outra língua.
— Ashley, esse é o Gansey — disse Declan, em sua voz agradável e neutra. Era uma voz que relatava os danos causados por tornados e frentes frias. Narrava os efeitos colaterais de pequenas pílulas azuis. Explicava os procedimentos de segurança do 747. Ele acrescentou: — Dick Gansey.
Se Gansey estava pensando que a namorada de Declan era descartável, um recurso renovável, não o demonstrou. Em vez disso, corrigiu com o tom de voz ligeiramente frio:
— Como o Declan sabe, meu pai é que se chama Dick. Eu sou apenas Gansey.
Ashley parecia mais chocada do que divertida.
— Dick?*
— Nome de família — disse Gansey, com o ar cansado de alguém que conta uma piada velha. — Faço o possível para ignorar.
— Você é da Aglionby, certo? Este lugar é bem louco. Por que você não mora no dormitório da escola? — perguntou Ashley.
— Porque eu sou dono deste prédio — disse Gansey. — Melhor morar aqui do que pagar pela moradia no dormitório. Você não pode vender o dormitório depois de terminar a escola. E para onde foi aquele dinheiro? Para lugar nenhum.
Dick Gansey III odiava que dissessem que ele soava como Dick Gansey II, mas, naquele momento precisamente, ele soava. Ambos conseguiam desfilar sua lógica em uma bela coleirinha, trajando uma capa xadrez vistosa, quando queriam.
— Meu Deus — observou Ashley, olhando de relance para Adam. Seus olhos não se demoraram nele, mas, mesmo assim, ele se lembrou do ombro puído de seu blusão.
Esqueça. Ela não está olhando para ele. Ninguém mais nota isso.
Com esforço, Adam endireitou os ombros e tentou habitar o uniforme com a mesma facilidade que Gansey ou Ronan.
— Ash, você não vai acreditar por que o Gansey veio para cá, entre todos os lugares possíveis — disse Declan. — Conte para ela, Gansey.
Gansey não conseguia resistir a falar sobre Glendower. Ele nunca conseguia. Então perguntou:
— O que você sabe sobre os reis galeses?
Ashley apertou os lábios, os dedos beliscando a pele na base da garganta.
— Hummm. Llewellyn? Glendower? Lordes Marcher ingleses?
O sorriso no rosto de Gansey poderia ter iluminado uma mina de carvão. Adam não sabia nada sobre Llewellyn ou Glendower quando conheceu Gansey. O amigo precisara descrever como Owain Glyndŵr — Owen Glendower para não falantes de galês —, um nobre galês medieval, havia lutado contra os ingleses pela liberdade do país e então, quando sua captura parecia inevitável, desaparecera da ilha e da história completamente.
Mas Gansey nunca se importava de recontar a história. Ele relatava os eventos como se eles tivessem acabado de acontecer, emocionado novamente pelos sinais mágicos que haviam acompanhado o nascimento de Glendower, os rumores sobre seu poder de invisibilidade, as vitórias impossíveis contra exércitos maiores e, finalmente, sua fuga misteriosa. Quando Gansey falava, Adam via a ondulação verde dos contrafortes galeses, a ampla superfície resplandecente do rio Dee, as montanhas impiedosas ao norte, onde Glendower desaparecera. Nas histórias de Gansey, Owain Glyndŵr nunca podia morrer.
Ouvindo-o contar a história agora, ficou claro para Adam que Glendower era mais do que uma figura histórica para Gansey. Ele era tudo que Gansey gostaria de ser: sábio e corajoso, convicto de seu caminho, tocado pelo sobrenatural, respeitado por todos, e havia deixado um legado.
Completamente animado com a história e encantado novamente pelo mistério dela, Gansey perguntou a Ashley:
— Você já ouviu falar das lendas dos reis adormecidos? As lendas de que heróis como Llewellyn, Glendower e Artur não estão realmente mortos, mas dormindo em tumbas, esperando para ser acordados?
Ashley piscou rapidamente, então disse:
— Parece uma metáfora.
Talvez ela não fosse tão burra quanto eles haviam pensado.
— Pode ser — disse Gansey, fazendo um gesto grandioso para os mapas na parede, cobertos com as linhas ley que ele acreditava que Glendower havia percorrido. Tomando com ímpeto o diário atrás dele, estudou página por página de mapas e notas explicativas. — Acho que o corpo de Glendower foi trazido para o Novo Mundo. Especificamente aqui, na Virgínia. E quero encontrar onde ele está enterrado.
Para alívio de Adam, Gansey deixou de fora a parte sobre como ele acreditava nas lendas que diziam que Glendower ainda estava vivo, séculos mais tarde. Sobre como acreditava que o eternamente adormecido Glendower concederia um favor à pessoa que viesse a acordá-lo. Sobre como isso o assombrava, a necessidade de encontrar aquele rei há tanto tempo perdido. Deixou de fora os telefonemas à meia-noite para Adam, quando ele não conseguia dormir, obcecado com sua busca. Os microfilmes e os museus, as reportagens de jornais e os detectores de metal, as milhas de companhias aéreas e os dicionários gastos de línguas estrangeiras. Também deixou de fora todas as partes sobre magia e a linha ley.
— Isso é loucura — disse Ashley, com os olhos fixos no diário. — Por que você acha que ele está aqui?
Havia duas versões possíveis para a resposta. Uma era baseada meramente em história e infinitamente adequada para o consumo geral. A outra acrescentava magia e varinhas de radiestesia à equação. Em alguns dias, alguns malditos dias, Adam acreditava na primeira, e apenas um pouco. Mas ser amigo de Gansey significava que, na maioria das vezes, ele torcia pela segunda. Era aí que Ronan, muito para o descontentamento de Adam, se sobressaía: sua crença na explicação sobrenatural era inabalável. A fé de Adam era imperfeita.
Seja porque Ashley estava só de passagem ou porque foi considerada cética, ela recebeu a versão histórica. Em sua melhor voz de professor, Gansey explicou um pouco sobre nomes de lugares em galês na área, artefatos do século XV encontrados enterrados na Virgínia e o embasamento histórico para um desembarque galês, pré-Colombo, na América.
Em meio à aula, Noah — o recluso terceiro residente da Indústria Monmouth — emergiu do aposento estreito ao lado do escritório que Ronan havia reivindicado como seu quarto. A cama de Noah compartilhava o espaço minúsculo com um equipamento misterioso que Adam acreditava ser uma espécie de impressora.
Ao entrar no quarto, Noah encarou Ashley fixamente. Ele não era muito bom com pessoas novas.
— Esse é o Noah — disse Declan, de uma maneira que confirmou a desconfiança de Adam: a Indústria Monmouth e os garotos que viviam ali eram um ponto turístico para Declan e Ashley, um assunto a ser conversado mais tarde no jantar.
Noah estendeu a mão.
— Ah! A sua mão está fria — exclamou Ashley, estreitando os dedos contra a camisa para aquecê-los.
— Eu estou morto há sete anos — disse Noah. — Isso é o mais quente que elas chegam.
Noah, diferentemente de seu quarto imaculado, parecia sempre um pouco sujo. Havia algo fora de lugar a respeito de suas roupas, de seu cabelo loiro geralmente penteado para trás. Seu uniforme desarrumado sempre fazia Adam sentir que chamava um pouco menos de atenção. Era difícil se sentir parte da turma da Aglionby quando se estava perto de Gansey, cuja camisa de colarinho branco impecável custava mais que a bicicleta de Adam (qualquer um que dissesse que não havia diferença entre uma camisa do shopping e uma camisa feita por um italiano talentoso nunca tinha visto a segunda), ou mesmo de Ronan, que havia gasto novecentos dólares em uma tatuagem só para irritar o irmão.
O risinho condescendente de Ashley foi cortado quando a porta do quarto de Ronan se abriu. Uma nuvem tão escura que fazia parecer que o sol nunca mais sairia cruzou o rosto de Declan.
Ronan e Declan Lynch eram inegavelmente irmãos, com o mesmo cabelo castanho-escuro e o mesmo nariz aquilino, mas Declan era sólido onde Ronan era frágil. O queixo largo e o sorriso de Declan diziam Votem em mim, enquanto a cabeça raspada e a boca fina de Ronan avisavam que aquela espécie era venenosa.
— Ronan — disse Declan. No telefone com Adam anteriormente, ele havia perguntado: “Quando o Ronan não vai estar aí?” — Achei que você tinha aula de tênis.
— Eu tinha — Ronan respondeu.
Houve um momento de silêncio, em que Declan considerou o que ele queria dizer na frente de Ashley, e Ronan desfrutou o efeito que aquele silêncio constrangedor tinha sobre o irmão. Os dois irmãos Lynch mais velhos — eram três em Aglionby — viviam brigados desde que Adam os conhecia. Diferentemente da maioria do mundo, Gansey preferia Ronan ao irmão mais velho, Declan, e assim as linhas haviam sido traçadas. Adam suspeitava que a preferência de Gansey se devia ao fato de que Ronan era sincero, mesmo que para isso precisasse ser detestável. E, para Gansey, honestidade valia ouro.
Declan esperou um segundo longo demais para falar, e Ronan cruzou os braços sobre o peito.
— Esse é realmente o cara, Ashley. Você vai passar uma noite fantástica com ele, e aí alguma outra garota vai ter a chance de passar uma noite fantástica com ele amanhã.
Uma mosca zumbiu contra uma vidraça bem acima da cabeça deles. Atrás de Ronan, a porta de seu quarto, coberta com fotocópias de suas multas por excesso de velocidade, fechou-se sozinha.
A boca de Ashley fez mais um D de lado do que um O. Um segundo depois, Gansey socou o braço de Ronan.
— Ele pede desculpas por isso — disse Gansey.
A boca de Ashley estava lentamente se fechando. Ela piscou para o mapa do País de Gales e de volta para Ronan. Ele havia escolhido bem sua arma: apenas a verdade, sem a têmpera da bondade.
— Meu irmão é... — disse Declan, mas não terminou. Não havia nada que ele pudesse dizer que Ronan ainda não tivesse provado. E continuou: — Nós estamos indo agora. Ronan, acho que você precisa reconsiderar a sua... — Mas, novamente, ele não tinha palavras para terminar a frase. Seu irmão havia tomado todas as de efeito.
Declan puxou a mão de Ashley, sacudindo sua atenção para longe dali e na direção da porta do apartamento.
— Declan — começou Gansey.
— Não tente consertar a situação — avisou Declan.
Enquanto ele arrastava Ashley até a minúscula plataforma da escada, Adam ouviu o começo do controle de danos: “Ele tem problemas, eu te disse, eu tentei garantir que ele não estaria aqui, foi ele que achou o meu pai, isso acabou com ele, vamos comer frutos do mar em vez disso, você não acha que uma lagosta seria uma boa? Acho que sim”.
Quando a porta do apartamento se fechou, Gansey disse:
— Porra, Ronan.
A expressão de Ronan ainda era incendiária. Seu código de honra não abria espaço para infidelidade, para relacionamentos casuais. Não era que ele não os tolerasse; ele não conseguia compreendê-los.
— E daí que ele é galinha? Não é da sua conta — disse Gansey. Ronan também não era realmente da conta de Gansey, na opinião de Adam, mas eles já haviam tido aquela discussão antes.
Ronan tinha uma das sobrancelhas elevada, afiada como uma lâmina.
Gansey fechou e amarrou seu diário com uma fita.
— Comigo isso não cola. Ela não tem nada a ver com você e o Declan. — Ele disse você e o Declan como se fossem um objeto físico, algo que você pudesse pegar do chão e olhar embaixo. — Você destratou a garota. Pegou mal para a gente.
Ronan parecia arrependido, mas Adam o conhecia. Ele não lamentava o próprio comportamento; lamentava apenas que Gansey estivesse ali para vê-lo. O que acontecia entre os irmãos Lynch era sombrio o suficiente para ocultar os sentimentos de qualquer outra pessoa.
Mas certamente Gansey sabia disso tão bem quanto Adam. Ele passou o polegar de um lado para o outro do lábio inferior, um hábito que passava despercebido para ele e que Adam nunca se dava ao trabalho de apontar.
Surpreendendo o olhar de Adam, ele disse:
— Nossa, agora eu me sinto culpado. Vamos ao Nino’s. Vamos pedir uma pizza, vou ligar para aquela médium e todo o maldito mundo vai entrar nos eixos.
Essa era a razão por que Adam podia perdoar a versão rasa e polida de Gansey que ele encontrara pela primeira vez. Graças ao seu dinheiro, ao seu bom nome de família, ao seu belo sorriso, à sua risada fácil, ao fato de que ele gostava das pessoas e (apesar de seus temores em contrário) elas também gostavam dele, Gansey poderia ter todos os amigos que quisesse. Em vez disso, havia escolhido três deles, três sujeitos que deveriam ser, por três razões diferentes, destituídos de amigos.
— Eu não vou — disse Noah.
— Você precisa dar um tempo sozinho? — perguntou Ronan.
— Ronan — interferiu Gansey —, guarde as armas, ok? Noah, nós não vamos forçar você a comer. Adam?
Adam ergueu o olhar, distraído. Sua mente havia divagado do mau comportamento de Ronan para o interesse de Ashley no diário, e ele estava se perguntando se não era mais do que a curiosidade comum que as pessoas sentiam diante de Gansey e seus acessórios obsessivos. Ele sabia que Gansey o acharia desconfiado demais, desnecessariamente possessivo em relação a uma busca que o próprio Gansey estava mais do que disposto a compartilhar com as pessoas.
Mas Gansey e Adam buscavam Glendower por razões diferentes. Gansey o desejava como Artur desejava o Graal, atraído por uma necessidade desesperada mas nebulosa de ser útil para o mundo, para ter certeza de que sua vida significava algo além de festas com champanhe e colarinhos brancos, por algum desejo complicado de resolver uma discussão que ele travava no íntimo de seu ser.
Adam, em contrapartida, precisava da graça real.
E isso significava que eles precisavam ser as pessoas que acordariam Glendower. Eles precisavam ser os primeiros a encontrá-lo.
— Parrish — repetiu Gansey. — Vamos.
Adam fez uma careta. Ele achava que seria necessário mais do que uma pizza para melhorar o caráter de Ronan.
Mas Gansey já estava pegando as chaves do Pig e dando a volta sobre a sua Henrietta em miniatura. Ainda que Ronan estivesse rosnando, Noah suspirando e Adam hesitando, ele não se virou para ver se estavam vindo. Ele sabia que estavam. De três maneiras diferentes, ele havia conquistado os amigos, dias, semanas ou meses antes, para que, quando chegasse a hora, todos o seguissem aonde quer que ele fosse.
— Excelsior — disse Gansey, fechando a porta atrás deles.



Nota
* Além de nome próprio, é também gíria para “babaca” ou vulgarmente para “pênis”. (N. do T.)

6 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!